Capítulo 3 — Something wicked ("Alguma coisa maligna")
Gritos. Isso era a única coisa que seu cérebro processava. Coisas batendo e quebrando. O gosto salgado das lágrimas estava presente em sua boa, unindo-se ao metálico do sangue por estar mordendo os lábios com força. Ele tentava entender o que estava acontecendo, mas, mesmo que conseguisse, não havia nada que pudesse fazer. E então o silêncio, assustando mais do que a balbúrdia anterior.
O sentimento de medo alojando-se em seu peito, fazendo os olhos claros perscrutarem o ambiente em busca de algo seguro ao qual pudesse se agarrar.
Não havia nada.
Com isso, a porta bateu estrondosamente, num alarde desnecessário. Ele viu de olhos arregalados o irmão mais velho fitá-lo através da janela repleta de neve, tremendo do outro lado, antes de virar as costas e correr. Quando braços fortes tentaram envolvê-lo num abraço protetor, escapou deles e tentou chegar à porta. Foi um esforço vão, mas tinha plena consciência de que Dean olhou para trás e notou seu movimento. Isso acalentou seu coração durante alguns segundos.
Soluçou, tentando afastar o corpo do mais alto, o olhar cravado na fechadura, sem conseguir enxergar nada além do loiro que lhe era tão próximo e tão querido. Não conseguiu.
— Eu odeio você!
Aquilo era a mais pura verdade. Odiava sentir-se tão deixado de lado. Onde estava o pai que havia conhecido quando mais novo? Onde estava aquele homem que sorria largamente, sem precisar de motivos para tal? Onde estava aquela proteção que ele comumente lhe passava ao abraçá-lo durante a noite? Os ruídos da noite agora penetravam as fendas das paredes naquela casa velha, tomavam-lhe a alma com um tremor incômodo.
— Vai ficar tudo bem, Sammy...
"Não vai!"
Ele desabou, chorando, soluçando. O corpo estremecia em espasmos descontrolados cujos quais o mais velho tentava conter o apertando com força contra si. E o pequeno Sam se permitiu desabar, afundando o rosto no ombro do pai, abraçando-o desesperadamente ao mesmo tempo em que desejava afastá-lo. E não entendia. Não entendia porque não queria. Não entendia porque não conseguia.
Samuel nunca entenderia, na verdade. Haveria um ponto em que acabaria desistindo.
