Capítulo 4 — All in all you're just another brick in the wall — ("Ao todo, você é apenas outro tijolo na parede")
Dezesseis anos depois...
Monticello, Iowa — 2005
— Você pode me dizer o que está acontecendo? — ergueu os olhos do jornal que segurava, controlando o impulso de sorrir cinicamente, mas havia uma sugestão de careta, um brilho cruel em seus olhos que não combinava com a expressão indiferente.
— Não há nada acontecendo. — foi sua resposta sarcástica, antes de os orbes se voltarem para o papel.
— Claro. — Sam revirou os olhos, petulante. — Porque você certamente é a pessoa mais silenciosa que eu conheço.
— Não conhece pessoas o suficiente para comparar, tampouco me conhece. — Dean rebateu, e usou a caneta para marcar algumas coisas importantes que lia. — E não se importa, na verdade. Está tentando fingir preocupação para levar a garçonete pra sua cama.
O moreno o encarou, ultrajado, e abandonou os talheres sobre o prato intocado, levantando-se com violência naquele exato instante e chamando a atenção de algumas pessoas que prestavam atenção nas conversas alheias daquela cafeteria. Estava verdadeiramente ofendido com aquela sugestão revoltante que o mais velho havia proferido segundos antes. E era impulsivo. Era um filho da mãe, um homem revoltado. Um desgraçado.
E não iria deixar aquilo barato.
— Quer saber de uma coisa?! Eu estou cansado dessa sua atitude idiota! Cansado dessa sua pose de "Eu não ligo", quando tudo que vejo em seus olhos é que você quer fugir dessa merda toda! Por que se importa tão pouco com isso?! Por que não cala sua maldita boca durante um segundo e me escuta?!
O menor apenas ergueu os olhos e o encarou, mas não havia nada em sua expressão que pudesse denunciar mágoa ou irritação. Não havia absolutamente nada anunciando que, por dentro, algo desmoronava e se corroia pela dor. Meio inconscientemente, os olhos esmeraldinos se cravaram na faca que há instantes estava nas mãos do mais novo.
A repentina necessidade de segurá-la entre seus dedos e apertá-la até ver tudo escarlate preencheu o peito do soldado sem coração.
Antes de ele finalmente encarar o mais novo.
— Temos um novo caso na cidade de Savanna, em Illinois. Mortes sem explicação, marcas nas paredes, animais perturbados. Um possível espírito vingativo. — foi tudo o que disse, apesar de desejar muito mais, e ainda acrescentou: — Te encontro no carro em dez minutos.
E foi assim, com um sorriso prepotente nos lábios, que Dean se afastou daquele que tanto lhe causava dor emocional, que tanto lhe destruía de novo e de novo, até que os pedaços quebrados se tornassem vestígios irreconhecíveis do homem que ele um dia conseguiu se tornar. Mas, afinal de contas, aquilo valia alguma coisa? Eram apenas palavras. Palavras que cortavam mais do que a lâmina que tão incessantemente pressionava contra a pele, que machucavam mais do que uma surra.
Em dez minutos, Dean conseguia se livrar de toda aquela dor que o estava atordoando, e isso deveria significar algo.
Porque, como diz aquele antigo ditado, "É na dor que você aprende a não desistir".
