Capítulo 7 — And I will never be... — ("E eu nunca serei...")

"Mas que porra é essa?!"

Tudo em Dean lhe dizia que nada estava onde deveria, e isso não se devia a todos os estímulos visuais, mas sim ao moreno sentado sobre a cama de solteiro, segurando uma gilete entre o indicador e o polegar, encarando a lâmina como se ela fosse a razão de todos os seus problemas com o irmão mais velho. E, de fato, ela era. Apenas uma pequena parte, mas que muito importava no meio de todos os perigosos estilhaços que formavam aquela armadura de ironia e frieza com a qual estava tão acostumado a lidar.

— Há quanto tempo? — a voz de Sam demonstrava uma calma que ele não sentia.

O loiro não era covarde o suficiente para fugir daquele quarto, não era fraco o bastante para ignorar as perguntas que, ele sabia, o mais alto mantinha na ponta da língua. Os orbes de cor verde esmeralda vaguearam pelo aposento bagunçado, observaram os cobertores revirados, as roupas espalhadas pelo chão, as armas jogadas a esmo pelo cômodo. Seu estômago embrulhou antes de finalmente responder, num fio de voz:

— Muito... Realmente muito.

Aquilo finalmente chamou a atenção do moreno, que ergueu os olhos claros para fitá-lo. E assim longos minutos se passaram, com os irmãos se encarando mutuamente. O mais novo tentava desvendar aquela expressão, entender o que se passava na cabeça do menor, enquanto tudo que o outro desejava era poder esquecer. Esquecer aquela dor, apagar aquele aperto que havia em seu coração.

Inconscientemente, cravou as unhas curtas na palma das mãos, mordendo o lábio inferior com força. Dean era um soldado, e assim sempre seria. Não sinta. Não se apegue. Não ame. A ironia era a arma que usava para afastar as pessoas.

Morto e apodrecido por dentro, era essa a verdade.

E o movimento não passou despercebido por Sam, que se levantou de maneira lenta.

— Que necessidade autodestrutiva é essa? — perguntou, sem deixar de olhar diretamente nos orbes verdes. — Por que se autoflagelar? Você é melhor do que isso, Dean. Merece mais.

— Não mereço. — foi a resposta imediata, e, quando avançou um passo, o mais alto recuou. — Se todos os seus monstros emergissem... O que você faria?

— Eu os combateria.

— E se você não pudesse? — o loiro continuou a avançar cambaleante, sem se intimidar. — Está tão assustado, amordaçado pelos conceitos de tudo em que acredita... E elas, as vozes, estão ali... Sussurrando "Isso ameniza tudo!" e "Vá em frente!"... Os tons de escarlate colorindo as paredes... Sam, você não tem idéia do que isso significa.

— Você é louco! — o moreno afastou o mais velho com um empurrão, fazendo-o se desequilibrar e precisar se apoiar na parede para não cair.

— Talvez eu seja... — Winchester o encarou com olhar alucinado. — A loucura realmente significa alguma coisa? Olhe as coisas que combatemos todos os dias, Sam! Quantas delas não são medos de mentes racionais sendo transportados para nossa realidade?!

Aquilo era algo que o mais novo não conseguia rebater. Os argumentos estavam todos ali, dentro de sua cabeça, mas as palavras morriam sempre que lhe chegavam à boca. Ele mordeu os lábios com força, a visão anuviada pelas lágrimas. E correu. Fugiu para longe de Dean, para longe de toda aquela loucura. Porque não conseguia lidar com aquela realidade; ela era dura demais, rude demais. Era assustadora demais, e Sam não conseguia lidar com o fato de que o irmão se cortava. Pra quê? Isso era algo que o moreno não compreendia, pois o mais velho tinha tudo para se sentir bem.

Mas o que era tudo, afinal de contas? Eles não tinham casa. Não tinham família. Não tinham absolutamente nada além de si mesmos. E o loiro apenas se livrava de todo aquele vazio com a dor física, no fim das contas.

Até quando...?