Capítulo 8 — I'm only here to witness — ("Eu só estou aqui para testemunhar...")
Com os dedos trêmulos, ele fez a lâmina deslizar de um lado a outro do abdômen, arfando quando surgiu o líquido num profundo tom escarlate. Mas o estado de torpor no qual se encontrava impedia que sentisse a dor como deveria. Com lágrimas nos olhos, cravou a gilete na pele branca, e mais sangue surgiu. Por que aquilo não parecia o suficiente? Por que aquela dor não ia embora de uma vez por todas?
Dean trincou os dentes, socando a parede com força, sentindo os nós dos dedos queimarem com o atrito. Odiava se sentir tão fraco, tão submisso. Ele deveria ser o forte da história, e não o contrário. Ele deveria consolar; e não ser consolado. Por quê? Porque era esse o seu trabalho. John nunca precisou dizer nada, pois o loiro sempre soube quais eram seus deveres para com aquela família. Ele deveria ser tudo e um pouco mais.
Winchester fechou os olhos, e as primeiras lágrimas começaram a cair. Dessa vez, porém, o corte da lâmina surtiu algum efeito...
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A respiração era difícil, pesada e lenta. Quando tentou se mover, todos os músculos protestaram, queimando, e ele acabou desistindo. Com o rosto pressionado contra o frio azulejo que compunha o piso claro daquele banheiro de hotel barato, o loiro sentiu medo.
Medo do que havia feito. Medo do que iria acontecer agora.
Sam voltaria para ver se o irmão estava bem? Dean desejava ardentemente que sim. Em sua cabeça, apenas o desejo desesperado de conseguir sobreviver. Os olhos verdes pousaram na gilete sobre a palma de sua mão, e, mesmo amedrontado, ele não pôde conter o instinto de fechar os dedos em torno da lâmina.
Ter plena consciência de que, mesmo conseguindo fazer com que as feridas cicatrizassem, ele não iria parar, não fez com que o rapa se sentisse melhor. Winchester dependia daquilo, dependia daquela dor. Era ela que fazia com que ele se sentisse bem de verdade. A dor física afastava as outras, as piores.
Era nisso que o loiro pensava quando suas pálpebras começaram a pesar, e o pânico se instalou em seu peito, alastrando-se rapidamente por toda sua mente.
"Eu não quero morrer... Por favor, não me deixe morrer!"
Winchester nunca foi muito religioso, pois não acreditava na justiça divina, e questionava a existência de Deus. Mas, naquele momento, ele rezou. Não por piedade, porque não acreditava que a merecia. Apenas pediu para que seu irmãozinho ficasse bem, caso realmente não conseguisse sobreviver. E, se vivesse, não prometeu que iria parar. Até porque não achava que conseguiria.
Os olhos já estavam praticamente fechados, quando ele sentiu braços o envolvendo e o levantando. E gemeu baixinho pela dor que lhe acometeu. A julgar pela força e segurança que aquelas mãos tinham ao segurá-lo, poderia ser Sam.
Mas ele sabia que não era.
— Quem é você? — a voz saiu quase baixa demais para ser ouvida.
No entanto, recebeu sua resposta, contrariando todas as possibilidades.
— Eu sou Castiel. — pausa. — Um anjo do Senhor.
