Capítulo 9 — I know I'm alive, but I feel like I've died — ("Eu sei que estou vivo, mas sinto como se estivesse morto")

— Por que esse nome? — a mulher loira perguntou, encarando a mais alta de maneira serena.

O céu já estava sendo colorido por um tom de abóbora, as nuvens avançavam lentamente, a brisa soprava gélida nas moças sentadas sobre o tronco no meio da clareira. A mais baixa, de pele alva, mantinha a postura ereta, enquanto a outra se mantinha relaxada, como se não se importasse com os bons modos.

— Noah significa desistente. — a morena encarou as árvores com o olhar cansado. — E memórias... Memórias não são eternas. Enquanto o pensamento... O pensamento evolui, ultrapassa as barreiras de tudo que eu acreditava ser possível.

Aaliyah sacudiu a cabeça, e ergueu os olhos azuis para o céu. Era isso, afinal de contas. A memória era sempre mais fraca. E por quê? Porque as pessoas esqueciam com muita facilidade, era muito simples jamais se lembrar de alguns momentos de sua vida, ou apenas fazê-lo quando já possuía certa idade. Essa era a diferença entre Huginn e Muninn.

Era também a diferença entre os irmãos Winchester, aquilo que poderia uni-los ou afastá-los. Dean era como Noah, como Muninn. Era facilmente esquecido, deixado de lado, mesmo tendo uma força imprescindível, e uma coragem absurda. Mas dava pouco valor a si mesmo, agia como se não valesse nada. Enquanto Sam... Sam era como Aaliyah, como Huginn. Ele não deixava de pensar, não deixava de atuar. No teatro que chamavam de vida, o moreno era um dos vencedores.

Eles brilhavam. Separados, eram como estrelas solitárias. Mas juntos... Juntos eles eram como as constelações mais belas nas noites mais sombrias. Eles poderiam ser a imensidão dos céus, ou a profundidade dos oceanos. O certo, ou o errado. Era uma escolha. A lágrima ou o sorriso. O sofrimento ou a felicidade. Poderiam ser o que quisessem e muito mais.

Mas, para que pudessem percebê-lo, era necessária a separação.

Os irmãos Winchester se perderiam ao longo da caminhada, e poderiam até cometer todos os erros inimagináveis e cruéis. Todavia, caminhos diferentes podem chegar ao mesmo lugar, de uma forma ou de outra. Afinal, o destino poderia não estar escrito numa rocha, mas aquele era o tipo de amor que transcende eras, algo que deveria ser vivido e apreciado.

Aaliyah orava para que o notassem antes de ser tarde demais.

No fim das contas, quem era o médico, e quem era o monstro?

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Ele definitivamente não sabia mais o que fazer, não sabia mais em quem confiar, não tinha nem a menor idéia de por onde começar. O peito subia e descia com a respiração irregular, e os olhos cheios d'água denunciavam seu estado de espírito já demasiadamente perturbado. Sam pegou o celular em seu bolso com as mãos trêmulas, e digitou o número que lhe era familiar, mas, ao mesmo tempo, tão desconhecido.

"Deus, o que foi que eu fiz?!"

Não lhe saía da cabeça que as coisas poderiam ter sido diferentes se houvesse mais coragem em seu coração para encarar aquela situação complicada de frente. Mas o que poderia ter feito, afinal de contas? Dean sempre foi um verdadeiro pé no saco, um carrasco. Era irritante, imprevisível e teimoso, sempre querendo ter o total controle sobre a situação. Agora que se via com a oportunidade de se livrar do loiro, de finalmente seguir seu próprio caminho, o que fazia? Precisava conter o insano desejo de voltar lá e abraçá-lo com toda a força de seu ser. Ora essa, que tipo de homem ele era, afinal?!

Mas Dean também era seu irmão mais velho, aquele rapaz irritante que tantas vezes o abraçou durante a noite e afugentou seus medos. Como podia lutar contra aquilo? Sam não era nenhum idiota. Tinha plena consciência de que era tão dependente do loiro, quanto o outro daquela maldita lâmina. A diferença era que havia sido alertado desde cedo sobre como lidar com aquela dependência, teve conselhos não apenas do pai, mas também das pessoas que o rodeavam. E agora precisava se decidir a respeito do que faria, precisava escolher seu caminho.

Alô? — a voz feminina que atendeu o retirou de seus conflitos internos, e Winchester conseguiu respirar com mais facilidade.

O que diria agora? O que faria? Havia muitas possibilidades no novo horizonte que surgiu após sua descoberta. E aquela moça com quem falava naquele momento foi quem o alertou, e, mesmo que duvidasse seriamente de suas palavras, ele teve a prova de que era real. O que mais ela lhe dissera que poderia ser verdade? Eram tantas coisas... O moreno bagunçou o cabelo com as mãos, e um som engasgado saiu de sua garganta antes de finalmente admitir, trêmulo:

— Você estava certa desde o começo, Ruby.

Sam só não sabia que aquilo era apenas o começo de todos os problemas que surgiriam com o tempo. Mas, no fim, não é a violência que separa os homens... É até onde eles estão preparados para ir. E aquele era seu primeiro limite.