Capítulo 10 — Give me your heart and your soul — ("Dê-me seu coração e sua alma")
Dean acordou, mas manteve os olhos fechados para apreciar a agradável sensação que lhe tomava o peito. Era quente e aconchegante; diferente de tudo o que já havia sentido, apesar da ligeira dor na região do abdômen. Jamais se sentiu tão... Seguro, ele arriscaria dizer. Jamais foi alvo de tantos cuidados, e duvidava desse fato mesmo notando perfeitamente a sensação que lhe acometeu quando teve dedos curiosos percorrendo seu torso nu no meio da madrugada gélida. As cicatrizes não eram belas, o loiro tinha plena consciência disso, e, tentou entender por que aquela pessoa, seja lá quem ela fosse, permaneceu ao seu lado durante tanto tempo. Tentou entender por que ela ainda não o havia deixado, mas não teve tempo para se questionar a respeito, pois a sonolência voltou, e Winchester permitiu que seu corpo relaxasse.
Normalmente, não gostava de tamanha proximidade com desconhecidos, mas estava se sentindo tão bem que não se importou nem um pouco. Apenas se aconchegou melhor sobre a cama, sentindo a maciez do travesseiro pressionado contra seu rosto, umedecendo os lábios com a ponta da língua, e sussurrou antes de tudo se tornar escuro:
— Obrigado...
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A porta abriu silenciosamente, e ele estava agradecendo aos céus por nada ranger. Entrou no aposento escuro com cautela, e sentia o coração apertado no peito. Os olhos claros vaguearam pelo ambiente, e cravaram-se na figura do rapaz loiro que ressonava suavemente, deitado de bruços, o lençol puxado até os ombros desnudos. Sam observou o irmão durante alguns segundos, antes de se aproximar e sentar-se na cama ao lado do mais velho, suspirando profundamente. De maneira meio inconsciente, aproximou-se do menor, roçando com cuidado os dedos nos fios dourados, temeroso de que ele acordasse.
Mas Dean não acordou, permaneceu perdido naquele mundo de sonhos, sem notar o contato. A respiração do moreno acelerou, e ele precisou se afastar quando o mais velho se moveu inquieto, resmungando algo ininteligível que lhe pareceu um nome, mas não ousou ficar próximo o suficiente para entender aquelas palavras. Apenas voltou a encará-lo, tentando entender o motivo de as coisas terem mudado tanto com o passar dos anos.
O loiro costumava ser alguém tão... Cheio de vida. Ele ainda era, Sam poderia apostar. Via isso em seus olhos. Via pela forma como ele sorria sacana, vez ou outra, e parecia que todos os problemas desapareciam durante esses breves instantes. Mas essa felicidade, aquela motivação... Tudo aquilo pareceu sumir. O caçula lembrava-se vagamente da época em que não passava de um adolescente, quando teimou que algum dia iria viajar pelos EUA, conhecer pessoas e fazer amizades; quando disse que se formaria em Direito e seria um advogado.
Ele ainda podia ver os olhos cansados de Dean o encarando, com algo que ultrapassava a surpresa, mas não chegava a ser choque. E então, ele simplesmente declarou, em tom solene, como se fizesse uma promessa ao mais novo:
— Sim, Sammy. Você vai.
Por que aquilo parecia tão distante? Por que aquela simples lembrança lhe trouxera lágrimas nos olhos? Resignado, o moreno as secou com o dorso da mão, ainda fitando o loiro. Desejava poder voltar àqueles tempos, desejava poder ver aquele sorriso novamente. Sim, meio torto, e exausto, mas seu. Aquele sorriso que Dean sempre fazia questão de lhe mostrar quando queria dizer que tudo ficaria bem.
Sacudindo a cabeça com veemência, Sam se levantou e dirigiu-se ao banheiro, mesmo inconformado com o fato verídico de que certamente, depois do incidente daquela tarde, o mais velho agiria como se nada houvesse acontecido. Se tivesse oportunidade, livrar-se-ia da presença do moreno.
Todavia, isso era algo com o qual o mais alto poderia lidar. Já estava acostumado, e a familiaridade daquilo permitiu que ele relaxasse quando a água quente começou a cair sobre seu corpo. Com um suspiro quase satisfeito, Winchester fechou os olhos.
Ainda tinha tempo para pensar na proposta de Ruby, e isso, de alguma forma, acalentou seu coração.
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Os olhos verdes perscrutaram atentamente o ambiente a partir do momento em que o anjo moreno partiu para longe de seu protegido, segundos antes de o irmão caçula chegar ao hotel. Um sorriso se desenhou nos lábios rosados, e a ruiva se viu incapaz de conter o pequeno ato de sacudir a cabeça em desdém. Não entendia por que diabos, com toda a ironia da expressão, Castiel estava se intrometendo em assuntos mundanos como aquele.
Na verdade, entendia sim, e muito bem, o que deveria estar acontecendo no Paraíso e no Céu naquele instante. Algo em seu âmago se agitava a cada vez que pensava nos demais anjos, como Uriel e Zachariah, mas ela era astuta, e ignorava a sensação de imediato.
Sem querer perder a chance que lhe foi dada pelo anjo, esgueirou-se pela janela entreaberta, ignorando o leve calafrio que percorreu sua espinha ao fazê-lo. Castiel provavelmente estava sendo precavido, tendo consciência de que coisas muito maiores estavam em jogo ali. A moça não tardou em se aproximar da cama do Winchester que ressonava, notando que ele havia virado e depositando as mãos sobre o lado esquerdo, onde deveria estar o coração.
Ela sentia a vida pulsando ali, tão frágil, tão vulnerável. Algo tão simples, que significava tanto. Como, era o que tentava entender, mas não demorou muito se questionando a respeito daquilo. Não precisava de respostas, precisava de ações, e rápido.
Porque Sam poderia sair do banho a qualquer instante e, embora seus instintos mais profundos alegassem que ele enrolaria ao máximo para voltar e ver o irmão, ela não queria ser pega fazendo nada de suspeito. Precisava parecer inteiramente inocente, para que não houvesse desconfiança por parte de ninguém quando retornasse; principalmente do loiro.
— Dare terminum ad eam. Da mihi fortitudine tua. — ela respirou profundamente, sentindo a energia percorrendo sua pele numa descarga de adrenalina, e marcas desenharam-se lentamente em sua pele, antes de todo o poder se alojar em algum lugar de sua mente. — Vita quae ad me pertinet, ego præcipio: Derideas... Hoc est quod faceret spiritum vestrum, Dean Winchester... Sic ridere...*
Ainda com as mãos sobre seu peito, a ruiva sentiu a alma do rapaz responder em sintonia.
