Capítulo 11 — You really want to know? — ("Você realmente quer saber?")
Sam não pôde conter a expressão de surpresa ao voltar para o hotel naquela manhã com o café, e se deparar com Dean acordado, terminando de se vestir, uma vez que o dia estava quente e ele provavelmente tomara um banho. Os olhos claros arregalaram-se pelo choque momentâneo, e por pouco ele não derrubou as sacolas que segurava. No entanto, o barulho que fez chamou a atenção do mais velho, que se virou para encará-lo enquanto secava superficialmente o cabelo.
Por longos instantes, nenhum dos irmãos se manifestou. Fitavam-se mutuamente, um esperando que o outro dissesse algo, ou até mesmo que as acusações começassem, os gritos, a briga. A tensão era quase palpável entre eles, mas, aos poucos, o loiro relaxou.
E sorriu.
— Espero que tenha trazido torta!
O mais alto demorou a encontrar as palavras. Quando finalmente conseguiu formular uma frase coerente, pareceu-lhe que ela havia se negado a escapar, e tudo o que verdadeiramente saiu foi uma lufada de ar. Apenas para, logo em seguida, responder em tom descrente, ainda pasmo com a situação:
— É. Eu trouxe torta.
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Comeram em completo silêncio, sentados um de frente para o outro, e Sam ainda tentava processar a idéia de que o irmão estava aparentemente bem o suficiente para agir daquela forma, sorrindo, como se tudo não passasse de uma grande piada. O moreno não deixava de observá-lo durante nem um único segundo, e logo o mais velho se mostrava inquieto com a situação, apesar de parecer focado apenas em seu pedaço de torta.
E, com um longo suspiro, Dean acabou por afastar o prato antes de terminar sua refeição, chamando a atenção do mais alto.
— O que você quer Sam? — perguntou, erguendo o rosto para encará-lo, recebendo um olhar surpreso como resposta.
— Mas eu não...
— Quer que eu diga que sinto muito? Desculpe decepcioná-lo, pois não sinto. — o loiro correu os dedos pelos cabelos curtos, indicando o nervosismo que sentia. — Quer que eu admita que não deveria ter dito aquelas coisas? Droga, tudo bem, eu não deveria! Só não me culpe por...
— Dá pra você calar a boca e me escutar?! — o mais alto bateu a mão na mesa, sobressaltando o irmão.
O moreno recebeu um olhar ligeiramente chocado, dividido entre a desconfiança e a curiosidade. Na última vez em que disse algo semelhante, não se falaram pelo restante do dia, e ainda houve a complicação com relação a cortes e lâminas. Por isso, escolheu as próximas palavras com cuidado, sabendo que aquilo poderia afastar o mais velho, mesmo que ele aparentasse estar de bom humor.
— Tudo bem, você cometeu um erro... Acontece com as melhores pessoas.
Dean o encarou de maneira ligeiramente sombria, comprimindo os lábios de forma severa, e Sam notou que não havia uma forma de aquilo soar simpático. Foi sincero, mas até para si aquelas simples frases soaram falsas, talvez até cruéis. Suspirando, afastou os fios que lhe caíam nos olhos.
— Olha, o que estou tentando dizer é que...
— Eu entendi muito bem o que você disse. — o loiro sacudiu a cabeça, condescendente, mas sua expressão continuava dura, e o mais alto trincou os dentes.
— O que você quer, afinal de contas, Dean?! — ele se levantou, e sacudiu as mãos, acrescentando com indignação: — Além de se matar, é claro, algo que você está muito perto de fazer!
Imediatamente arrependeu-se daquelas palavras, ao fitar os orbes esmeraldinos e finalmente discernir a mágoa por trás daquela máscara de indiferença. Mordeu o interior da boca até sentir o gosto, frustrado consigo mesmo por ser tão cabeça quente. Não queria brigar com o irmão, não queria julgá-lo daquela forma. E, para isso, precisava deixar sua opinião um pouco de lado, e tentar ser mais complacente. Porém, essa não era uma tarefa simples. Não se tratava de simplesmente decidir que iria fazê-lo, porque para isso precisava deixar a impulsividade de lado.
— Desculpe. — a voz saiu estrangulada, e ele pigarreou, engolindo em seco. — Só estou tentando te entender... Pelo menos... Pelo menos o suficiente para não brigarmos tanto.
O mais velho sacudiu os ombros, levantando-se e pegando a jaqueta de couro, dando sinais de que ia sair. Quando passou por Sam, no entanto, este segurou seu ombro com força, impedindo-o de passar. Dean parou e o encarou. Sua fisionomia não deixava absolutamente nada transparecer, pois estava completamente neutra. Ele obviamente passara por aquela situação muitas e muitas vezes.
— Aonde você vai?
— Pensar um pouco.
Talvez seus olhos demonstrassem demais a preocupação que sentia, pois o loiro se retesou e afastou-se alguns centímetros, como se quisesse ficar longe de qualquer tipo de mimo que pudesse receber do caçula. E era aquela atitude tão independente, aquela máscara tão arrogante, que escondia o soldado ferido pelos anos de batalha. Ter plena consciência disso apenas fez com que o moreno sentisse um leve aperto no peito.
— Não, eu não vou tentar me matar, se é o que está pensando. — o menor rolou os olhos, mas a forma que utilizou para dizer aquelas palavras fez parecer que era uma promessa. — Pare de agir como uma mulher, Sammy!
Aquilo quase lhe provocou riso. Por pouco, mesmo. O caçula observou enquanto Dean vestia a jaqueta e saía carregando consigo a chave do Impala. Provavelmente iria flertar com alguma garota ou qualquer outra coisa do tipo. Ou, talvez, fosse a algum posto para abastecer o carro, porque, afinal de contas, mesmo que nenhuma palavra houvesse sido trocada, eles iriam à Savanna ainda naquele dia para checar as ocorrências.
Porque algumas coisas não haviam mudado, mesmo após todos aqueles anos, após todos aqueles incidentes desagradáveis e situações constrangedoras.
Contra a vontade de Sam, um pequeno sorriso surgiu.
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Dean encostou a testa sobre o volante do carro, sentindo a balbúrdia de emoções em seu interior. Queria voltar lá e dizer algumas coisas ao irmão, queria esconder-se em algum lugar onde ninguém pudesse encontrá-lo, queria encontrar algo pontiagudo e de preferência com corte para poder... Antes de o pensamento ser concluído, sentiu o ar começar a faltar, e as mãos automaticamente se ergueram para apertar a cabeça.
Respirando com dificuldade, o loiro fechou a mão em punho e socou o volante, pouco se importando com o Impala naquele momento. Começava a hiperventilar, cravando as unhas nas palmas das mãos, e sentiu nos lábios o gosto metálico de sangue. Gemeu baixinho quando um lento calor se iniciou nas pontas dos dedos, parecendo percorrer seu corpo rapidamente enquanto seu âmago se revirava e a náusea lhe acometia. Quando os olhos se fecharam, flashes desagradáveis invadiram sua mente.
Havia uma floresta, ele tinha certeza. E alguém gritando... As luzes piscavam incessantemente, e um zunido desagradável tomava o ar. Havia água, e mesmo assim o fogo se alastrou pela casa. As janelas explodiram, e lembrava-se perfeitamente de ter olhado para o teto...
— Não! — Dean não sabia dizer se o grito havia sido apenas em seu pensamento, ou se ele de fato escapou por entre seus lábios entreabertos, mas não importava de fato.
Os orbes verdes ergueram-se para encarar o local onde estava. Era o mais afastado da cidade, onde poderia ficar em paz sem ser perturbado. Mas, naquele momento, pareceu-lhe errado permanecer ali. Seu coração pareceu ser apertado por uma mão invisível, e ainda havia um silvo desagradável em sua cabeça. Bagunçou o cabelo, suspirando, tentando entender o que diabos estava acontecendo consigo.
Trincou os dentes quando o celular começou a tocar, e atendeu sem olhar no visor, acreditando que era Sam prestes a perturbá-lo pela demora.
— O que é? — quase rosnou, irritado.
No primeiro instante, a única resposta que obteve foi o silêncio. Logo em seguida uma risada rouca e debochada pôde ser ouvida do outro lado da linha. Risada essa que fez um calafrio percorrer seu corpo, por reconhecê-la de imediato, antes mesmo que seu cérebro processasse aquela informação.
— Tão mal educado em tão pouco tempo, Dean? Pensei que John tivesse lhe ensinado algo sobre respeitar os mais velhos! — e mais uma gargalhada sarcástica.
Winchester prendeu a respiração por meio segundo, e sua boca ficou imediatamente seca. A expressão de choque que tomou seu rosto não era nada se comparada ao tremor de suas mãos, e ele precisou perguntar para ter aquela atroz certeza:
—... Henry?!
