Capítulo 12 — Emergency exit: keep your wrists at the end — ("Saída de emergência: guarde os pulsos para o final")
Dean mantinha os olhos fixos na estrada, a expressão indecifrável, os nós dos dedos brancos em consequência da força que utilizava para apertar o volante. Sam o observava, tentando entender o que se passava na cabeça do irmão mais velho. Ainda não sabia qual era o motivo de Ruby ter-lhe feito aquela proposta, mas as palavras da loira ainda martelavam em sua cabeça, indo e vindo de um lado a outro, e pareciam fazer ainda menos sentido agora, enquanto encontrava-se confuso e desconfiado.
"Seu irmão é um mentiroso", foi o que ela lhe disse. "Você pode tentar entendê-lo de todas as formas possíveis, mas ele vai encontrar brechas, pegar o que você disser e jogar na sua cara de maneira distorcida. Vai se arriscar tanto?"
Tinha plena consciência de que o loiro não era tão terrível quanto ela fazia parecer. Era algo em que precisava acreditar. O menor sempre foi um excelente irmão, sempre foi muito protetor. Cuidava do moreno, e, muitas vezes, esquecia-se de si mesmo para fazê-lo. O mais alto lembrava-se vagamente de tê-lo visto diversas noites ao seu lado, como se quisesse protegê-lo das coisas que se escondiam na escuridão. E o moreno gostava daquilo, gostava da segurança que o mais velho transmitia.
Por que permitiu que aquilo se perdesse?
— Ficou quieto de repente. — os orbes verdes se voltaram para encará-lo, demonstrando preocupação. — No que está pensando?
Sam queria responder. Mais que tudo, desejava ter um bom argumento. Os fatos se misturavam em sua mente, formando uma grande confusão que não conseguia controlar. Não conseguia nem mesmo abrir a boca para formular uma frase decente. E o olhar do loiro não ajudava em nada. Sentia como se pudesse se afogar na culpa a qualquer momento; um fato que começava a sufocá-lo.
— Sammy?
O que poderia dizer, afinal de contas? Que sentia muito? Que desejava ardentemente que as coisas voltassem a ser como antes? Dean estava ali, o encarando como se quisesse sacudi-lo e abraçá-lo até que a tensão entre eles desaparecesse. Sam suspirou, cheio de remorso, e logo em seguida fechou os olhos com força, apoiando a cabeça no banco.
— Me deixe em paz.
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A água gelada contra seu rosto foi um verdadeiro choque, pois Dean estava tão distraído que nem se deu conta de que havia entrado no banheiro, até encontrar-se encarando seu próprio reflexo no espelho. E não gostava nem um pouco do que via. Era aquela palidez habitual, aquele olhar vago. Sentia-se vazio, incompleto. E, mais do que tudo, perdido.
Não queria falar a Sam sobre Henry, principalmente depois do que aconteceu no carro. Sabia que não era alguém fácil de lidar, cometia erros, era irritante. Mas o moreno disse que queria tentar, e isso o havia animado um pouco. Significava que era importante para o irmão. Não valia a luta, mas o simples fato de saber que o mais novo tinha esperanças fazia com que seu coração se acalmasse um pouco. Todavia, depois daquela cena no Impala, o medo voltava a percorrer seu corpo como um poderoso veneno.
Então apenas o irmão podia tentar tornar as coisas melhores? Para o loiro, aquilo não tinha o menor sentido, e isso começava a desesperá-lo. Lembrava-se nitidamente da voz doce, porém severa, da garota ruiva que o ajudou quando mais precisava, e isso não era nem um pouco bom. Ele não deveria se lembrar. Não queria. Não podia.
— Você vai precisar escolher, Dean. — o toque de uma mão delicada em seu ombro o reconfortou. — As coisas podem mudar. É só dizer "sim".
Apoiou-se de forma patética na pia, respirando profunda e superficialmente. Lutava contra a enxurrada de sentimentos com toda a força que possuía, mas estava afundando-se cada vez mais naquelas memórias insuportáveis. Um soluço engasgado escapou, e seus joelhos finalmente cederam enquanto, pouco a pouco, o passado ressurgia em sua mente perturbada, para assombrá-lo mais e mais, como se já não bastasse se sentir culpado por tudo o que havia acontecido.
Na boca, o gosto amargo, áspero, de todas as mentiras que disse durante todos aqueles anos. Aquelas que ele contou por necessidade. E aquelas sobre as quais ele não tinha controle, e foi obrigado a falar. Agora queria desaparecer. Queria que aquilo nunca houvesse acontecido. Mas não tinha uma escolha. Não era algo com o que poderia lidar, ou lutar.
— Sabe... Eu posso acabar com isso. — aquela mesma voz doce, a maciez da pele cálida acariciando seu rosto. — Você não precisa se sentir dessa forma, criança. Pode voltar a brincar... Pode viver... Você não quer isso?
Eu quero, era o que desejava poder gritar, com todas as forças, enquanto deslizava lentamente até o chão, encolhendo-se em posição fetal, abraçando o próprio corpo como se fosse um bote salva-vidas. Ele precisava de alguém ali, precisava encontrar uma maneira de escapar daquela dor.
— Você quer proteger Sam, não quer? — aquela foi a gota d'água para seu emocional abalado. — Eu posso te ajudar. Nada de mal pode acontecer ao seu irmão enquanto eu estiver por perto.
Trincando os dentes, Dean apertou a cabeça com as mãos, tentando amenizar aquela sensação inquietante. Não podia simplesmente se dar ao luxo de ficar agonizando naquele banheiro. Independentemente do que estivesse dizendo, e de como estivesse agindo, Sam iria procurá-lo se demorasse demais.
Não importava o que estava sentindo com relação àquilo. Era algo que precisava superar, porque isso nunca foi uma escolha.
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O moreno já começava a se sentir preocupado quando a porta foi aberta e o mais velho saiu. Um longo e aliviado suspiro escapou pelos lábios finos, chamando a atenção do loiro, que o encarou curioso. Sam disfarçou imediatamente, mas sabia que o menor havia notado sua preocupação e não gostava daquele tipo de sentimento.
— O que descobriu sobre o caso? — Dean usou uma pergunta evasiva, sabendo que o caçula não o deixaria em paz se abrisse qualquer tipo de brecha para uma atitude superprotetora.
— Bem... – pelo menos por enquanto o mais alto não diria nada com relação ao assunto, então voltou sua atenção para o notebook sobre a mesa. — O padrão das mortes é bem simples: a pessoa sai de casa durante a madrugada, e é vista pelos vizinhos em consequência da bagunça que faz. Desaparece durante uma semana. Quando volta, há uma mensagem escrita em sangue na porta; nunca é a mesma coisa. Um dia depois, é encontrada morta, presa à parede por estacas, com os pulsos e tornozelos amarrados por cordas. E está sorrindo.
O loiro o encarou, e, de forma deliberadamente lenta, sentou ao lado do irmão para observar o site na tela do computador. Era um blog, aparentemente adolescente, a julgar pelas cores fortes e chamativas. No início, denominado "Criminal".
— Você tirou tudo isso dali. — indicou as notícias, incrédulo. — Não há nem como saber se o que foi dito é verdade!
Sam suspirou e sacudiu os ombros, digitando novamente, com cuidado: Killer Mirror. Outra guia foi aberta, e havia uma imagem de um meio sorriso no Icon. Apesar de parecer sincero, era algo ligeiramente assustador. Como uma expressão costurada por fios invisíveis no rosto de um inocente.
— O dono do blog possui fotos e gravações sobre as mortes, Dean, e, de acordo com ele, todos esses assassinatos já estavam previstos há muito tempo. Também encontrou ligações entre os dias das mortes e antigas lendas celtas.
O caçula recebeu um olhar surpreso.
— E ninguém se importa com essas notícias?! A polícia ou qualquer idiota que acesse? Sem ofensas.
— Não, e quer saber o motivo? — o moreno manteve a expressão neutra antes de continuar: — Ele está morto também. Há mais de um mês.
O mais velho arregalou os olhos, nitidamente perplexo com as palavras do irmão. Logo em seguida, quando entreabriu os lábios para fazer uma pergunta, Sam foi mais rápido, dizendo:
— E... De acordo com o banco de dados, a última postagem feita foi há menos de duas horas. Mas o status permaneceu como off-line durante todo esse tempo.
— Então estamos lidando com um espírito maluco que gosta de se expor publicamente na internet? — Dean arqueou as sobrancelhas de maneira sarcástica, e o moreno sacudiu os ombros.
— Ou um hacker muito inteligente.
O loiro permaneceu em silêncio durante diversos instantes, pensando no assunto com muita cautela. Havia algo que não se encaixava naquela história. E não era o blog, não era o adolescente morto. Definitivamente, a última coisa que o preocupava naquele momento era mais um espírito psicopata.
— Posso saber como você encontrou esse site, Sam?
Como esperava, o mais novo teve um sobressalto na cadeira, fitando-o com os olhos arregalados durante alguns segundos, e, logo em seguida, pigarreou, tentando esconder a surpresa. A verdade é que ele realmente não esperava aquela pergunta vinda de seu irmão.
— Mesmo que seja um espírito... Ele não sairia por aí contando suas experiências sobrenaturais para qualquer um. Você precisaria de permissão para no mínimo acessar essa página.
Dean não era nenhum idiota. Mesmo não gostando muito de qualquer coisa que envolvesse tecnologia, era esperto o suficiente para saber que aquilo não era o tipo de coisa que as pessoas expõem assim, de repente, num blog aberto a qualquer um. Não significava grande coisa, Sam também sabia hackear, poderia muito bem simplesmente ter encontrado aquilo num golpe de sorte. Mas, se fosse qualquer coisa do tipo, ele teria pelo menos sorrido.
E, com certeza, não estaria com aquela expressão culpada no rosto.
— Quem te disse onde encontrar essas informações?
O moreno o encarou, e, numa atitude corajosa, sacudiu a cabeça em negação. A vontade do mais velho era exigir uma resposta, e, para não fazê-lo, precisou morder a língua até sentir o gosto metálico de sangue. Uma boa convivência. Menos brigas. Era disso que precisava. Estressar-se não adiantaria nada. E, independentemente de como o irmão conseguiu aquilo, pouparia seu tempo e evitaria os possíveis problemas futuros.
— Eu encontrei sozinho.
O loiro continuou a fitá-lo, durante tempo o suficiente para que o mais alto se sentisse desconfortável com a situação. Porém, dadas as circunstâncias, simplesmente assentiu.
— Certo.
Ele não era nenhum babaca para acreditar naquela história furada, mas o que podia fazer, afinal de contas? Também não disse nada relacionado aos cortes, não para Sam. Agora não tinha o direito de simplesmente decretar que o mais novo precisava lhe dizer o que diabos estava acontecendo, e quem estava por trás daquilo. A melhor coisa que poderia fazer era se concentrar na caçada, e desejar não ser morto pelo monstro.
E, convenhamos, essa última parte era bem complicada para um Winchester.
