Capítulo 13 — Disguised as a smile — ("Disfarçando em um sorriso")
Disguised as a smile[Disfarçando em um sorriso]
Well, you would've never known [Bem, você nunca saberia mesmo]
I had it all, but now what I wanted [Eu tinha tudo, mas não o que eu queria]
'Cause hope for me was a place [Porque a esperança para mim era como um lugar]
Uncharted and overgrown [Desconhecido e encoberto]
Sam cravou os olhos na tela do computador e os manteve ali até que o mais velho saísse do quarto, suspirando pesadamente quando a porta bateu num baque surdo. Não queria mentir para Dean, mas não tinha escolha. O loiro não entenderia seus motivos para confiar em Ruby, e de quebra ainda desapareceria por meses. Como fez tantas e tantas vezes durante aqueles dezesseis anos. Como fez quando soube de Jessica.
O moreno conheceu Moore quando começava a faculdade de direito em Palo Alto, e foram amigos durante um longo tempo. Isso até John resolver sumir no mundo e abandonar o primogênito Winchester. Isso até o loiro aparecer, enlouquecido, machucado, paranóico. Metido a superprotetor e mandão, como sempre foi. Cismou que sua quase namorada era um demônio, e simplesmente surtou quando soube que o caçula não dava a mínima para aquela informação.
Sam não era um caçador. Nunca foi. Obviamente, cresceu naquela vida, e provavelmente morreria nela. Mas isso não significava nada. Estava cansado. Cansado de dormir com uma faca debaixo do travesseiro. Cansado dos monstros, cansado dos casos. Mas fugir para Stanford, fora da visão periférica do pai, com certeza não foi uma boa ideia. John era um homem ardiloso, não tinha escrúpulos para alcançar o que queria. Quando desapareceu e deixou Dean para trás, tinha plena consciência de que o loiro acabaria procurando Sam; sabia que ficaria desesperado ao ponto de fazê-lo.
Talvez não acreditasse que ele tentaria matar uma pessoa inocente. Talvez não soubesse que o filho perderia a razão e agiria como um verdadeiro psicopata. Fosse como fosse, às vezes, o moreno ainda sentia medo do irmão.
Lembrava-se nitidamente da primeira vez em que o viu, após sua fuga descarada para a faculdade. O mais velho havia mudado... Muito. O suficiente para se tornar irreconhecível. Não era tão violento, até onde sua mente lhe permitia lembrar.
|| 1999 ||
— Sam? — Jessica o chamou pelo que lhe pareceu a milésima vez naquela noite. — Você não acha que tudo está silencioso demais?
Aquilo estava torturando-a desde que saíram do cinema, mas a loira não dissera nada por não querer estragar o que possivelmente era um primeiro encontro. Porém, sentia que algo estava errado, e essa não era uma sensação da qual conseguia se livrar. Resolveu enfim falar ao Winchester o que estava afligindo-a, uma vez que mudara de assunto em todos os momentos nos quais conseguiu um pingo de coragem para fazer aquela pergunta.
— Na verdade, não, Jess. — o moreno a fitou com olhos curiosos. — Por quê?
— Eu... — Moore mordeu o lábio com força, e sacudiu a cabeça, forçando um sorriso. — Não é nada. Deixa pra lá.
O rapaz abriu a boca, pronto para argumentar, mas a verdade é que não tinha nada para dizer. Não sabia nem do que se tratava, então como poderia discutir sobre o assunto? Contentou-se em simplesmente voltar a contemplá-la, como vinha fazendo muito nos últimos dias. Observar a forma como os lábios rosados se moviam enquanto ela falava, a maneira como o tênue brilho da lua iluminava seus olhos, os cabelos movendo-se delicada e etereamente. Jessica possuía uma beleza delicada, quase frágil demais.
E, se dependesse do garoto, assim sempre seria. Ela permaneceria com aquelas feições quase inocentes demais, para sempre. Amava-a daquela forma, e não queria que mudasse.
— Tá olhando o quê? — ela corou, tão adorável, baixando os olhos para o chão.
Sam sacudiu os ombros, rindo da reação encabulada da moça, entrelaçando seus dedos aos dela com carinho. Recebeu um tapa no ombro como resposta.
— Bobo.
Era bem provável que ele dissesse alguma coisa como "Linda", "Maravilhosa", e outras babaquices melosas do tipo, se aquele momento não houvesse sido tão brutalmente interrompido. Saído sabe-se lá Deus de onde, um homem se atirou entre o casal. Jessica deu um berro tão alto que ecoou pela rua vazia, enquanto, ainda chocado pela atitude repentina, Winchester tentava entender o que diabos estava acontecendo ali.
Apesar de ser menor que o moreno, o outro era mais violento, mais forte. Engalfinharam-se ali mesmo, no asfalto, numa guerra de socos e chutes, braços e pernas. Sam se movia rapidamente, instigado pelos instintos ainda que não compreendesse aquela situação completamente confusa, e acertou um soco certeiro no desconhecido. Algo em seu interior agitava-se de forma inquietante. Tinha a nítida impressão de que conhecia aquele homem de algum lugar, mas sua mente estava ocupada demais para processar aquela informação.
O que, obviamente, não significou muita coisa, se considerado o fato de que no instante seguinte estava estirado no chão, arquejando, dolorido, sentindo o gosto metálico de sangue em seus lábios.
Notava-se de longe seu desconforto, mas, ao ouvir outro grito de Moore, colocou-se de pé novamente. E, ao olhar para o outro pela primeira vez, notou o que o havia perturbado desde o momento em que ele apareceu ali.
Os olhos claros arregalaram-se pelo susto.
— Dean?!
|| Dias atuais, 2005 ||
Foi retirado de seus devaneios com o barulho de alguém batendo na porta, e automaticamente se levantou. Sam estava decidido. Precisava conversar com o irmão; sobre Jess, sobre absolutamente tudo. Eles tinham de colocar um ponto final naquela história. Contaria o que o levou a fugir de casa, responderia às perguntas do mais velho. Mas também queria saber o que houve com o loiro durante todos aqueles anos.
O que fez e o que caçou. Por que estava tão violento, e, principalmente, paranóico. E o moreno sabia que John tinha alguma coisa a ver com aquilo. Talvez não diretamente, porque, apesar de condenar as atitudes do pai, o caçula sabia que o homem não era louco a ponto de ferir o filho, nunca seria capaz de machucá-lo daquela maneira. E seu irmão não era nenhuma criança, também. Não era um menininho assustado, temeroso de que os monstros pudessem alcançá-lo.
Dean nunca teve medo das coisas que caçavam, ao ponto de parecer suicida na procura de casos absurdos para solucionar. Ele não tinha medo dos monstros escondidos na escuridão. Desde o começo, era com humanos que encontrava problemas. Na adolescência, depois dela, até o período em que a memória de Sam simplesmente não funcionava mais.
Convicto como nunca esteve, o moreno abriu a porta, tendo a certeza de que só poderia ser o irmão; provavelmente o primogênito havia esquecido alguma coisa. Essa confiança, porém, ruiu como um castelo de cartas, e Winchester prendeu a respiração enquanto empalidecia consideravelmente. A boca entreabriu-se num cômico "o", enquanto os olhos se arregalavam pelo choque. Por alguns instantes, não havia mais nada no mundo além daquela cena, e seu coração pareceu parar de bater durante dois segundos antes de acelerar de maneira alucinada.
Tinha razão. Era Dean.
Mas, definitivamente, não da forma como esperava.
O mais velho estava caído no chão à sua frente, a cabeça numa posição estranha e antinatural, as mãos espalmadas no tapete de entrada. Havia sangue em seu rosto, num caminho que seguia dos lábios até a cabeça; o que sugeria que há pouco estava pendurado pelos tornozelos. Também existiam marcas arroxeadas eram visíveis em seus pulsos, sob o tecido rasgado de sua tão amada jaqueta de couro.
E sorria.
