Capítulo 14 — Do you ever get homesick? — ("Você já teve saudades de casa?")

Dean batucava os dedos sobre a mesa, fitando o copo com uma bebida barata qualquer à sua frente. Ele comprimiu os lábios, tenso, quando o telefone tocou em seu bolso, desejando ardentemente que não fosse quem pensava que era. E Smoke On The Water, da banda Deep Purple, continuava a tocar, abalando-o em seu âmago. Fechou os olhos, sacudindo levemente a cabeça, no ritmo da música. Cantarolava assim, de boca fechada, esperando que a ligação cessasse antes que sentisse a necessidade de atendê-la.

Mas ela não parou, e o nó em sua garganta pareceu sufocá-lo. Engasgou-se com a risada sarcástica que rompeu seu silêncio, finalmente chamando a atenção de algumas pessoas. Ignorando os olhares surpresos, tomou o que restava da bebida, deixou o dinheiro sobre o balcão e saiu, a chave do Impala parecendo pesar em seu bolso mais do que deveria.

Sorrindo largamente, assim como deveria ser, ele cambaleava enquanto se aproximava do carro e tentava abrir a porta. Não conseguindo, espalmou as mãos no vidro frio e pressionou a testa no metal. A respiração embaçava os locais próximos à sua boca entreaberta, e o frio começou a perturbá-lo. Dentro do bar, a música e as conversas davam uma estranha sensação de conforto, uma familiaridade que ele não estava habituado a sentir. Ali, longe das outras pessoas, notou o quanto o clima estava diferente do que pensava.

Na verdade, não pensava. Simplesmente agia, porque ações doíam menos que palavras.

— Ei, colega, você está bem?

Virando o rosto para encarar a dona da voz feminina que pareceu ecoar em seu cérebro, Winchester sentiu o corpo se retesar automaticamente. Os olhos verdes. A expressão doce. A postura relaxada, mas defensiva, e ainda assim confiante. O cabelo de fogo.

Ter plena consciência de quem ela era não fez com que se sentisse melhor.

Queria perguntar o que ela queria. Mais que tudo, desejava poder dizer algo coerente, algo que possuísse algum sentido. Mas todas as palavras morreram em seus lábios antes que tivesse a chance de concluir a frase em sua cabeça. A única coisa que pôde, de fato, fazer, foi sorrir ainda mais.

E aquele sorriso rasgava sua expressão com uma crueldade que não condizia com a imensa aflição em seus orbes claros.

— O que vai fazer agora? — não era, de fato, uma pergunta, porque o loiro sabia. — Pensei que viesse me buscar mais cedo...

A ruiva se aproximou em passos cautelosos, mas ele não se moveu nem um centímetro. Não porque não quisesse; seu desejo era pegar a arma no cós da calça e descarregar a munição naquele rosto delicado. Mas não o fez. Não o fez por não ter forças, não o fez por seu estado não permitir. Pela primeira vez em toda sua vida, Dean Winchester estava vulnerável.

— Eu não sabia que o Inferno podia esperar.

A moça o encarou, e algo em sua expressão deu ao loiro a impressão de que também iria sorrir. Mas, ao contrário do que imaginava, ela simplesmente sacudiu os ombros, depositando lentamente a mão sobre seu ombro. Foi como uma ordem para que seus joelhos cedessem, e sua visão ficou turva. Mesmo assim, em meio à escuridão que tomava sua mente, a voz soou alta e clara quando respondeu:

— Existem muitas coisas que você não sabe, Dean.

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Sam estava aflito, andando de um lado a outro pelo pequeno quarto, a respiração acelerada e o coração batendo forte. Discava incessantemente o número do irmão, mas tudo o que ouvia era a caixa postal. Não acreditava que o mais velho seria imprudente o bastante para desligar o aparelho, mas, depois de descobrir sobre as lâminas, não duvidava nada.

"Atende, Dean... Por favor, atende*..."

Depois do estranho pesadelo que teve, o moreno estava simplesmente desesperado. Acordou num sobressalto, gritando o nome do irmão, e não sabia ao certo como havia cochilado na frente de um computador, ainda mais em tão pouco tempo. Pegou o celular e telefonou. Mas o loiro não atendia a suas ligações, sequer respondia suas mensagens de voz.

Isso o estava atormentando.

— Droga! — jogou o aparelho sobre a cama, pegando o casaco sobre a cadeira mais próxima e se dirigindo à porta.

Por que Dean era tão irresponsável? Parecia que tinha uma espécie de prazer sádico em fazer com que o irmão se preocupasse daquela forma, para logo em seguida sorrir e agir como se tudo estivesse perfeitamente bem, quando Sam sabia que não estava. Não era a primeira vez que o moreno tinha o desejo de pegar o outro e sacudi-lo até que ele entendesse que acabaria enlouquecendo por causa daquela atitude idiota. Mas tampouco era a primeira vez que o loiro o ignorava daquela forma. Porém, ele nunca o fez durante um caso; apenas quando estavam procurando novas caçadas. O mais novo estava simplesmente cansado de se preocupar, para depois descobrir que a única coisa que o irmão havia feito era passar a noite com uma garota qualquer, num bar qualquer.

Ele sentia falta das épocas passadas, quando Dean o abraçava e o ninava até que os pesadelos fossem embora. Lembrava-se das noites em claro que o outro passou, apenas sussurrando palavras carinhosas, aconchegando-o contra seu peito, mexendo em seu cabelo, sorrindo largamente a cada vez que Sam dizia que os monstros iriam pegá-lo. Em momentos como aqueles, o mais velho depositava um beijo em sua testa e falava que nada poderia tirá-lo de seus braços. Ficava murmurando coisas bobas, infantis, mas que acabavam por fazer com que o mais novo sorrisse também.

O que mesmo o loiro cismava em dizer?

Eu estou aqui, Sammy, e não vou deixar você ir. Ninguém vai te tocar, e você não precisa se preocupar, porque eu não vou permitir que nada te machuque... Eu sempre vou estar aqui, tudo bem? Eu não vou te abandonar, irmãozinho...

Isso sempre foi o suficiente para que o moreno se sentisse seguro sob aqueles braços protetores, independentemente de onde estivessem. Fosse num hotel à beira da estrada, fosse numa casa alugada, fosse num banco de uma praça qualquer. Dean o mimava demais, até quando era adolescente, podia falar mal até os Infernos, mas acabava sempre fazendo o que queria.

Mas, em momentos como aquele, nos quais a única coisa que Sam conseguia de fato fazer era pegar o celular e telefonar para o mais velho, odiava o irmão por isso. Por aquela dependência, pela falta do carinho ao qual estava tão habituado. E por quê?

Porque foi covarde. Porque fugiu. Agora, por sua causa, Dean era um louco. Louco e inconseqüente. Como poderia lutar ao lado de alguém que estava completamente fora de seu alcance? O moreno não conseguia. Estava cansado de tentar entender o que se passava na cabeça do primogênito. Foi assim com o pai, e o que aconteceu? Ah, sim, John arrastou-o para aquela maldita vida. Preferia ter permanecido na inocência, acreditando que os pesadelos eram apenas isso: sonhos ruins.

Maldito sthriga. Maldito mundo sobrenatural. Maldito gatilho travado.

Colocava a chave na fechadura da porta, quando o telefone tocou, e, repentinamente, tudo pareceu congelar. Sam colocou a mão no bolso, sentindo a superfície lisa do aparelho. Resistiu ao impulso de ignorar e voltar à sua busca pelo irmão mais velho, e isso não foi muito difícil. Algo o impeliu a atender o celular sem olhar para o visor, respirando pesadamente.

Sam? Samuel Winchester?

Não reconhecia aquela voz feminina. Na verdade, tivera pouco contato com garotas depois da morte de Jessica. Quem poderia ser?

— Sim. — ele voltou sua atenção para o molho de chaves, os dedos trêmulos tentando reencontrar a correta. — Quem fala?

Eu... Encontrei seu namorado caído na porta de um bar. — uma longa pausa, para logo em seguida a moça completar, constrangida pela falta de uma resposta: — Ou irmão, não tenho certeza. Ele só... Bem, disse seu nome antes de apagar.

— Onde vocês estão? — Sam amaldiçoou silenciosamente a tara que o mais velho tinha por bebidas, mas ainda estava preocupado, e precisou perguntar: — Quem é você?

Whiskey River Saloon, 521 Main Street. — ele conseguiu ouvir um resmungo fraco vindo do outro lado. — E meu nome é Anna. Anna Milton.