Capítulo 15 — Rest In Peace, 'cause It's too much to understand — ("Descanse em paz, porque é demais para entender")

|| 1989 ||

Quando a mão de John pousou em seu ombro com firmeza, Dean estremeceu, baixando os olhos para o piso de linóleo, mordendo o lábio com força enquanto tentava manter a respiração calma. Não parecia haver sincronia entre pai e filho*. Enquanto o mais velho se mantinha sentado na cadeira, observando-o com cautela e desconfiança, a única coisa que o loiro fazia era permanecer submisso.

O que Sam me disse é verdade? — o moreno questionou severamente.

Pânico. O ar faltando em seus pulmões, o gosto de sangue na boca em consequência do corte no lábio. Suas mãos ainda estavam sujas, e aquilo fez com que o homem a sua frente puxasse seu braço para fitá-las. A reação imediata deveria ter sido se afastar, dizer que ele deveria soltá-lo. Mas não o fez. Simplesmente observou, enquanto o mais velho limpava com uma estranha suavidade as manchas vermelhas sobre sua pele clara. Quando John ergueu os olhos para encará-lo novamente, o loiro cedeu.

Henry disse que o senhor ficaria orgulhoso.

O mais velho suspirou pesadamente, e seus olhos vaguearam pelo aposento com cautela. Não podia culpar o filho pela atitude, porém, também não podia deixá-lo pensando que aquilo era correto. Aprender a caçar com H? Não. Primeiro, ele tinha de aprender a cuidar de Sam. Estava deixando o irmão de lado por um mero capricho. Orgulhoso? John estava orgulhoso; seu menino queria seguir os negócios da família, caçar monstros, salvar pessoas. Mas não iria demonstrar, pelo simples fato de não dever fazê-lo. Porque, ao contrário do que Henry pensava, havia notado que Dean estava tendo certa dificuldade em completar tarefas do dia a dia. Esticar-se para pegar o cereal numa prateleira mais alta, abaixar para juntar os cacos de vidro de um prato quebrado, inclinar-se sobre o motor do carro para observar o trabalho do pai. Fazia caretas. Dava um sorriso amarelo. Respirava fundo e mordia o lábio.

John não era nenhum idiota para não reconhecer aquela atitude.

Me escute. — com aquelas duas palavras, ganhou a total atenção do garoto. — Não quero que você fique tendo lições com H, está bem? Sua prioridade é cuidar de seu irmão.

Dean prendeu a respiração por alguns instantes, e um calafrio percorreu seu corpo. Não treinar. Não aprender a usar uma arma. Não ser forte o bastante para dizer "não" àquilo tudo... Henry estava certo. Droga. Ele estava sempre certo. Por que ainda se questionava a respeito? Por que ainda duvidava?

O senhor está irritado, pai? — o tom de voz era fraco. — Está irritado... Comigo?

O mais velho o encarou novamente, e sua expressão era indecifrável. O loiro respirou fundo, e suas mãos tremeram levemente nas do moreno, que não pareceu perceber. O loiro baixou o rosto, lutando contra a vontade de perguntar o motivo. Até onde a mente lhe permitia lembrar, não havia feito nada de errado. Ou, pelo menos, não ainda.

Cuide do Sammy. Cuide do Sammy. Cuide do Sammy.

Sim, senhor.

xxx

Aconchegou-se entre as cobertas, afundando o rosto no travesseiro macio, suspirando ao notar o conforto. Estava tão desacostumado a dormir em lugares agradáveis, como uma cama, que era quase uma surpresa deparar-se numa situação como aquela. Comumente, Henry permitia que dormisse no sofá, ao qual era mais acostumado, porque Dean desconfiava demais de coisas aparentemente boas. Porque era o que John sempre dizia, desde que o filho tinha idade o suficiente para entender que era seu dever proteger Sam. Não confie em estranhos.

No começo, grudava no irmão mais novo e observava H como se ele fosse algum tipo de criatura perigosa que pudesse tentar matá-los a qualquer instante. Isso provocava risos no mais velho, que, aos poucos, acabou conquistando sua confiança. Tinha suas regras, obviamente, mas não era nada que Winchester não pudesse cumprir. Antes, Dean não conseguia passar meia hora longe de Sammy. Depois de alguns anos, no entanto, Henry acabou convencendo-o de que nada aconteceria ao moreno; e que, de uma forma ou de outra, o caçula podia ficar observando-os. Foi o que bastou para que o loiro, já propenso a ceder, acabasse aceitando.

Mas e agora? John estava irritado. Ele não precisava dizer nada, o filho podia ver isso em seus olhos. Mais do que isso: estava decepcionado. Como aconteceu quando ele o deixou sozinho, e Dean distraiu-se por tempo o suficiente para que o sthriga entrasse no quarto e colocasse a vida de Sam em risco. Como pôde falhar mais uma vez?

Como pôde falhar com seu irmão? Como pôde falhar com sua mãe?

Trincando os dentes, o loiro sentou-se sobre a cama, ainda incomodado com o conforto do colchão. Os olhos perscrutaram o ambiente, pousando sobre o rosto do caçula. Sam estava sereno, os lábios movendo-se de maneira sugestiva, como se fosse sorrir, e isso de imediato o acalmou. Dean depositou os pés no chão frio, abandonando as cobertas e agachando-se ao lado do irmão, os dedos percorrendo seu rosto com cuidado, pois não queria acordá-lo.

Lembrou-se do sorriso. Aquele cheio de covinhas, repleto de alegria. Sammy já tinha oito anos; quantos mais se passariam, até John finalmente lhe contar sobre os monstros? Uma parte de Dean queria que aquele dia chegasse logo, porque estava cansado de carregar todo aquele peso nos ombros, sozinho. A outra parte, a maior, aquela que comandava suas ações... Esta só queria que o caçula continuasse a ser uma criança.

Inocente, assim como ele não teve a chance de ser.

Tenha bons sonhos, Sammy...

Alguns dias depois...

Pai? Posso te fazer uma pergunta?

John voltou sua atenção para o filho mais novo, notando que este o encarava atentamente, e até com alguma cautela, como se esperasse uma explosão de raiva caso fizesse a questão. Do outro lado da cozinha, Dean secava a louça com cuidado para não deixar nada cair.

Claro.

Sam hesitou durante meio segundo, como se cogitasse a hipótese de não dizer mais nada, e seu irmão mais velho prestava atenção na conversa. Não sabia por que, mas algo em seu âmago lhe dizia que ele não iria gostar do que viria a seguir. Não sabia de onde vinha aquele instinto, porém, confiava plenamente naquela sensação. Tentou simplesmente agir como se não fizesse muita diferença, quando, na verdade, ouvia cautelosamente cada uma das palavras que o caçula pronunciava.

É verdade que você matou um homem?

O prato que Dean segurava estilhaçou-se violentamente no chão, e o silêncio que se seguiu era quase palpável. A tensão se instalou no aposento de imediato.

"Por favor, que não seja o que eu penso que..."

De onde você tirou isso, Sam? — John manteve o tom neutro.

Era o que Dean estava falando ontem, durante a noite...

Choque. Repentinamente, o rapaz sentiu todo o sangue sumir de seu rosto. Medo. Sem dizer nem uma única palavra, abaixou-se e começou a juntar os pedaços de vidro com as mãos trêmulas. Parecia que a qualquer momento seu coração iria sair pela boca. Do que Sammy estava falando? Não havia dito nada. Sequer se lembrava de ter conversado com o seu irmão no dia anterior. Mas então...

"Oh, droga..."

Quantas vezes, Henry não o provocou, dizendo que era um sonâmbulo e tanto?

Tenho certeza de que seu irmão pode nos explicar melhor o que houve.

Ele não conseguiu erguer os olhos para encarar o pai. Era sobre isso que gostaria de ter discutido na noite anterior, mas não teve a chance, porque a única coisa que o mais velho lhe disse foi que não deveria mais aprender a caçar com H.

Cuide do Sammy. Cuide do Sammy. Cuide do Sammy...

— Dean?

Todos os cacos caíram novamente no chão. Na pressa de juntá-los antes que o pânico se instalasse de vez em seu peito, o loiro cortou o dedo. Escarlate. A pontada aguda deixou-o pasmo, fitando a fina linha de sangue que marcava sua pele pálida.

— Dean!

Você deveria estar cuidando de seu irmão, e não enchendo a cabeça dele de bobagens!

— Acorda!

|| Dias atuais, 2005 ||

A primeira coisa que seu cérebro registrou naquela noite, foi o sangue. O gosto de sangue em seus lábios. Logo em seguida, os braços o envolvendo com força e segurança, mantendo seu corpo inclinado em direção ao chão, mas impedindo a possível queda da cama. Estava frio. Muito frio. Quando ergueu o rosto, tossindo e engasgando-se com a saliva misturada ao líquido vermelho, seu único desejo era não ter aberto novamente os olhos.

— Sammy?

— Está tudo bem, Dean, você está bem. — não parecendo notar seu desespero, o moreno manteve-se próximo, como se tentasse protegê-lo de alguma coisa. — Acha que consegue se levantar?

Sacudiu a cabeça, e tudo girou por um instante. Mais sangue, o sabor metálico e enjoativo, um calafrio.

— Droga!

Num movimento rápido e confiante, o mais novo ajudou-o a se colocar de pé e precisou praticamente arrastá-lo em direção ao banheiro. Mas estranho foi o momento em que o loiro inclinou o rosto em direção à privada com a tampa levantada, e vomitou. Tinha a impressão de que suas entranhas estavam todas fora de lugar, e a sensação era demasiadamente desagradável.

— Por que você é tão irresponsável?! — o tom de Sam era furioso. — Quer se matar?!

Existiam muitas respostas para aquela pergunta, mas Dean não conseguiu dizer nada. Concentrou-se, então, na respiração, porque tinha a impressão de que seus pulmões queimavam pela falta de ar. Quando fechou os olhos, pôde perceber a luta interna na qual seu irmãozinho parecia estar; a julgar pelo tremor em suas mãos. Como se não soubesse se deveria lhe passar um sermão pelas atitudes inconsequentes, ou agir como se fosse uma frágil peça de porcelana que poderia quebrar a qualquer instante.

A porcelana venceu.

— Eu... Desculpe, desculpe. — ele se afastou um pouco, mas manteve os braços ao redor do mais velho, que apoiou uma mão no chão para não correr o risco de desabar. — Como está se sentindo?

— Como se tivesse acabado de ser atropelado por um caminhão. — podia ser sincero, pelo menos com relação àquilo.

Sam mordeu o lábio, e fitou o rosto lívido do irmão. Quando foi buscá-lo com Anna, ainda havia um ou outro indício de que ele havia bebido, a julgar pelo rosto ruborizado e o odor de álcool, desconsiderando o bar. Mas ali, parecia mais é que Dean havia acabado de sair de uma briga. Como convencera Milton a ir a uma farmácia comprar um remédio para febre, já que o loiro estava quase queimando, não sabia exatamente o que fazer. A ruiva lhe contara que era médica ali, em Savanna, e que havia tirado a noite de folga para se divertir um pouco.

Ironia do destino, ou sorte? Ainda não sabia, mas precisava da moça ali o mais rápido possível. Ela havia saído há cerca de meia hora, e seu irmão piorou. A febre diminuiu consideravelmente, sabe-se lá Deus como, mas ele começou a fazer sons estranhos, como se estivesse engasgado. Sacudiu-o até que abrisse os olhos, e a primeira coisa que o loiro fez quando sentou-se de supetão foi cuspir uma boa quantidade de sangue.

O que raios estava acontecendo?

— Pode me ajudar a ir até a pia? — a voz de Dean soou fraca, quase quebradiça, e o moreno odiou-se por não saber o que fazer.

— Sim.

Mesmo tendo a sensação de que seus joelhos cederiam, o mais velho só precisou apoiar-se no mais alto e cambalear lentamente até o local, abrindo a torneira e usando a água para lavar seu rosto com cuidado. Foi como uma descarga elétrica, mas não de maneira muito boa. Estava gelada, e isso fez com que finalmente percebesse que estava tremendo de frio.

Porém, dessa vez, não foi o único.

— Vamos lá. — com ainda mais cuidado, Sam rodeou seus ombros com um braço, tentando guiá-lo em direção à cama. — Você precisa sentar um pouco.

— Eu não sou nenhuma criança, Sam. — o mais velho resmungou por entre os dentes trincados, mas permitiu que o moreno o auxiliasse.

Não se encararam em momento algum, nem mesmo quando o caçula ajeitou o travesseiro para que sentasse e não corresse o risco de engasgar novamente. Nem mesmo de relance os olhos se encontraram, e talvez fosse melhor assim. Sam não estava pronto para, pela primeira vez, ver o irmão sem todas as máscaras. Não estava pronto para ver o homem por trás da armadura de soldado. E Dean não estava pronto para permitir, para se expor daquela forma.

Talvez nunca estivesse.

xxx

— Obrigado, Anna. — suspirou pesadamente. — Sem você eu... Eu acho que não saberia o que fazer.

— Por nada. — Milton lhe dirigiu um breve sorriso, antes de repetir as instruções que já havia passado: — Se ele estiver com febre, dê o remédio e coloque uma compressa de água fria em sua testa. Se sentir dores o Tylenol está em cima da mesa. E, se o refluxo se repetir, leve-o para o banheiro e ligue para uma ambulância o mais rápido que puder.

— Certo.

— E, Sam... — seu tom apreensivo fez o moreno erguer o rosto para encará-la. — Diga ao seu namorado para maneirar um pouco na bebida, está bem? Se ele não se cuidar, pode ter uma overdose ou algo pior.

Ele provavelmente teria dito algo a respeito do assunto se, naquele momento, sua mente não tivesse processado as palavras da ruiva. Winchester corou até a raiz dos cabelos.

— Dean é meu irmão. — gaguejou de forma desajeitada, e viu os olhos da moça se arregalarem.

— Eu pensei que...

— Todo mundo diz isso. — Sam pigarreou, constrangido. — Mas somos apenas irmãos.

Anna sacudiu a cabeça, boquiaberta, porém não teve muito tempo para processar a informação. O táxi que havia chamado chegou, buzinando para chamar a atenção da ruiva. Ela lançou um breve sorriso para Winchester, acenou e correu até o carro amarelo, recebendo como resposta apenas um olhar atento. O moreno observou a médica até que o automóvel desaparecesse na primeira curva, para logo em seguida entrar e fechar a porta.

Dean continuava dormindo, ressonando suavemente, a cabeça inclinada em direção ao travesseiro. Meio deitado e sentado, inegavelmente desconfortável. Sam fitou o irmão, ainda tentando entender o que se passava na cabeça do loiro, tentando decifrar suas atitudes. Por que tão impulsivo? Acabaria morrendo. Ele não se importava o suficiente? Não acreditava que suas atitudes machucavam o mais novo?

Sacudindo a cabeça, o moreno tomou uma decisão.

"Isso tudo já foi longe demais..."

Era a hora de ir embora. Dean poderia fazer o que quisesse com o próprio corpo, poderia tomar o que quisesse, se matar até.

Sam estava entregando os pontos.