Capítulo 16 — Live free or let me die! — ("Viva livre ou deixe-me morrer!")

Dean encarou o irmão com desconfiança. Malas feitas, banho tomado. Ele tinha plena consciência do que se tratava, mas estava demorando para digerir aquela informação; e a dor de cabeça dos infernos não ajudava em nada. Sam, por outro lado, parecia apenas inquieto. Como se esperasse uma reação não muito boa do loiro. O mais velho bem que queria quebrar coisas, ter uma explosão de raiva, gritar até que sua voz desaparecesse completamente. Mas apenas permaneceu ali, estático, quase inerte. Soltou o ar numa lufada, chamando a atenção do moreno.

— Então você está abandonando o barco. É isso. Está entregando os pontos. Desistindo.

O mais novo suspirou profundamente, bagunçando o cabelo com as mãos. Ele sabia que aquelas simples palavras significavam muito mais do que o irmão deixava transparecer; havia uma espécie de julgamento silencioso naquilo tudo.

— O que você quer que eu faça, cara? Estou cansado disso, tá legal?! Se você quer se matar, tudo bem! Só que eu não vou ficar aqui para ver suas tentativas suicidas e egoístas para tornar a vida mais fácil! Eu não vou ficar aqui pra te ver morrer!

Dean continuou a encará-lo com a expressão indecifrável, mas as mãos estavam cerradas em punhos ao lado do corpo. Como explicar ao irmão que não queria se matar? Como explicar que tudo não passava de uma inútil tentativa de amenizar a dor; amenizar a culpa? Fazia com que se sentisse bem.

— Não desista de mim, Sammy. — pediu, umedecendo os lábios com a ponta da língua.

— Desistir de você?! — o moreno estava em choque. — Eu nunca vou desistir de você, Dean! Nunca! Mas... Mas não posso ficar aqui te vendo acabar com a sua vida, como se minha opinião não valesse nada. Porra, eu me importo contigo, cara! Mesmo! Só que você não liga! Não dá a mínima!

Foi a vez de o loiro se levantar e mexer no cabelo, frustrado. Não sabia o que dizer, porque não tinha argumentos para discutir a respeito. Não era como se não se preocupasse com o que o mais novo pensava. Apenas... Não conseguia parar. E também não queria que o irmão fosse embora daquela forma, mesmo sabendo que era uma atitude muito egoísta de sua parte. Mas já havia perdido a mãe. Depois, o pai o abandonou. Só tinha seu irmãozinho, ora essa! Não era como se ele não significasse nada, não era como se fosse apenas um paninho para secar as lágrimas. Porém, Dean não suportaria outra perda.

Então por que não conseguia deixar o orgulho de lado, e pedir para que o caçula ficasse? A vida inteira precisou lutar por tudo sozinho. Lidar com os problemas, cuidar da família, caçar criaturas sobrenaturais. Gostava disso, gostava de se sentir independente. Mas, em momentos como aquele, seu único desejo era conseguir esquecer o ego. Apenas por alguns segundos.

Apenas por tempo o suficiente para que as palavras finalmente saíssem.

— Se é o que você quer...

Sam o encarou transtornado, mas o mais velho estava virado, impossibilitando-o de ver sua expressão. O moreno não entendia.

— Por que você se esconde tanto, Dean? — perguntou trincando os dentes. — Por que prefere uma máscara? É tão importante assim, esconder quem você realmente é? Por quê? Apenas me diga! Me mostre o que está aí dentro, irmão!

— Eu não posso. — o loiro sacudiu a cabeça, e parecia prestes a desabar, como se o simples esforço de dizer aquelas palavras fosse demais. Seus ombros caíram.

— Não pode... Ou não quer?

Dean não conseguiu responder. Simples assim. Todas as palavras e frases morriam em seus lábios, ameaçando sufocá-lo a qualquer instante. Sentia que estava a um triz de perder de vez o caçula, e isso fez seu coração acelerar consideravelmente no peito.

— Por que você não me conta?

E aquela bucólica pergunta, feita num tom dolorido, desencadeou uma série de memórias que o mais velho gostaria de ter enterrado.

Nenhuma delas era boa.

|| 1994 ||

Aos dezessete anos, ele continuava tão tímido na frente do pai quanto sempre fora. Mas a situação era um tanto mais tensa do que aquela que vivenciara há cinco anos, e infinitamente mais complicada. Tossia, sentindo os vestígios da densa fumaça causando uma intensa irritação em sua garganta. O rosto estava sujo de fuligem, escondendo o rubor que outrora estaria tão evidente. Naquele momento, agradeceu internamente pelo fato de Sammy estar com Bobby em Sioux Falls, a praticamente um dia de distância das florestas existentes ao redor de Caldwell, em Idaho. Se o moreninho estivesse ali, não teria a menor ideia do que fazer.

Você está bem, Dean?

Erguendo os orbes claros para encarar o pai, o loiro sacudiu a cabeça em consentimento, apesar de ainda ter alguma dificuldade em respirar. O mais velho o fitou atentamente, porém, não fez mais perguntas. O estado no qual se encontravam não permitia que se dessem ao luxo de simplesmente ficar ali, ambos esperando por um socorro que não viria.

Então, venha. Precisamos ir.

O mais baixo dirigiu-lhe um sorriso que mais parecia um esgar de dor, a mão pressionada contra a região das costelas. A verdade é que estava machucado, mas não diria nada sobre aquilo até estarem num lugar mais seguro. Então, em silêncio, cambaleou em direção a John, notando que o moreno não parecia estar em condições muito melhores. Aquele incêndio havia acabado com os Winchester.

|| 1996 ||

Vai me dizer o que aconteceu naquela casa? — o mais velho o encarou, a voz neutra. — O que realmente aconteceu, naquela noite?

Um tanto quanto frustrado, Dean bagunçou o cabelo com as mãos, andando inquieto pelo pequeno quarto de hotel, sentindo a tensão cada vez mais crescente tomar o ar. John continuava mudo, sentado na cama de solteiro, apenas observando seu primogênito. Há dias, desde que encontraram o demônio Alastair, o loiro parecia mais agitado, meio perturbado. John não chegou a mencionar que o maldito ser sobrenatural lhe dissera que seu menino escondia muitas coisas, mas o mais novo parecia ter notado alguma mudança em seu comportamento.

Agora, precisava de respostas, e o rapaz parecia ter dificuldade em dizer qualquer coisa a respeito. Por que, exatamente, era o que seu pai tentava entender.

O nome dela era Anna. — Dean finalmente parou de se mover, mas mantinha uma mão na cabeça, como se sentisse dores. — Ela... Disse que poderia acabar com tudo. Disse... Disse que Sammy ficaria seguro, independentemente da situação.

O mais velho apenas o observou, e aquelas palavras o atormentavam.

Acabar com o quê?

Mas o loiro engoliu em seco, os ombros curvados numa posição tensa, o rosto virado de forma com que o outro não podia ver sua expressão.

Por que você não me conta, Dean?

|| 2005* ||

O bar parecia bem mais agitado que o normal, e, apesar de gostar daquele tipo de coisa, o loiro não pôde deixar de se sentir um tanto quanto surpreso. Sentou-se próximo ao balcão, perscrutando o ambiente com os olhos atentos como os de um felino. Pediu uma cerveja, bebericando o líquido da lata de tempos em tempos, tentando avaliar a movimentação.

Mesas espalhadas, alguns caras jogando pôquer num canto, um pequeno palco ao fundo e uma saída aparentemente suspeita para os fundos do lugar. Mas, para ser sincero consigo mesmo, o que lhe chamou a atenção foi uma mulher. Morena, de pele bronzeada e olhos escuros. Inclinada sobre o balcão, num canto distante, tomando uma bebida incolor de aparência estranha. Não era exatamente uma coisa bizarra de se encontrar, porém, seus instintos lhe diziam que não se tratava de uma situação normal.

Por mais atormentado que estivesse, o lado caçador do Winchester falava mais alto, agitando seu âmago, provocando-lhe arrepios desconfortáveis. Naquele instante, no entanto, ele apenas observou; algo que não era de seu feitio. Ela agia naturalmente, movia-se com cautela, mantinha os olhos fixos na bebida. Se não estivesse tão incomodado com aquela sensação, Dean teria prestado mais atenção nas belas curvas da moça, destacadas pelo vestido preto que utilizava.

Quando Winchester estava finalmente acreditando que tudo não passava de uma impressão ruim, voltando-se para a cerveja, a música alta que tocava, Smoke On The Water, silenciou. Ergueu o rosto de supetão, pego de surpresa pela repentina falta de sons no aposento.

Então os orbes esmeraldinos se arregalaram, e o loiro colocou-se de pé no exato momento em que uma gargalhada irônica ecoava pelo aposento.

Movimentos congelados. A dificuldade em se virar para encarar a pessoa que estava atrás de si. Em algum momento realmente houve a dúvida da existência do sobrenatural naquela mulher, mas, fitando-a e percebendo que parecia haver correntes segurando seus pulsos, seu único desejo era conseguir mover a mão até o cós da calça e atirar na vadia.

Ela estava mentindo, sabe. — a morena o encarou, e sorria. — Demônios mentem, queridinho, o tempo todo. Anjos? Eles não existem. Nunca existiram.

Aquilo sim era uma grande mentira, e Noah não sabia se poderia ser perdoada por tal blasfêmia. Aaliyah ficaria louca assim que soubesse, mas não tinha escolha. Dean era, e provavelmente sempre seria, um homem que dava muita importância para as memórias. Pensava muito a respeito, mas eram essas lembranças que Winchester carregava no peito. Tornou-se um dos únicos capazes de despertar todo o poder existente em Muninn, e ela queria aquilo.

Queria aquela força, porque precisava dela. Se todos se lembrassem da sensação maravilhosa que tomava conta da alma assim que arrancavam um sorriso espontâneo de alguém, se ao menos pensassem nas boas memórias... O mundo seria um lugar melhor, e Noah não seria esquecida.

Se precisava brincar com a mente de um humano para enfim alcançar o tão almejado poder, ela o faria sem arrependimentos ou culpas. Mesmo que esse humano fosse Dean Winchester, provavelmente o único que mantinha Muninn tão fervorosamente viva. Enquanto houvesse uma única chance de fazê-lo dizer "sim", a morena não iria desistir. Mesmo que para isso precisasse quebrar vários protocolos e extrapolar os limites de seus direitos sobrenaturais.

Era uma aposta no mínimo arriscada, mas estava disposta a tudo.

Seu irmãozinho estará muito seguro aqui... — Noah umedeceu os lábios com a língua. — Quero dizer, tanto quanto estaria no Inferno. Logo você vai descobrir a sensação, não é? Um pacto é sempre um pacto, independentemente do que tenha pensado quando aceitou. E agora... Agora você foi contra tudo que acreditava, Dean Winchester. Contra tudo que foi criado para acreditar.

Ele apenas lhe dirigiu um sorriso sarcástico, ainda incapaz de se mover com facilidade, e tremia pelo esforço de tentar alcançar a arma no cós da calça. A morena sabia que estava quase lá; só precisava cutucar um pouco mais as feridas. Quando saísse daquele bar, o loiro iria procurá-la.

E ela estaria esperando, com a proposta na ponta da língua.

O que John pensaria sobre isso? Ele ficaria orgulhoso por sua obstinação... Ou decepcionado?

|| Dias atuais, 2005 ||

— Dean?

O loiro sacudiu a cabeça, tentando afastar as lembranças, e se virou para encarar o irmão. Ao contrário do que Sam esperava, não havia mágoa ou raiva; o mais velho parecia apenas cansado. Meio cabisbaixo, mas com a expressão neutra. Aquilo foi como um tapa na cara. Não porque acreditava que o menor iria chorar e implorar para que ficasse, afinal, isso não era algo típico de um Winchester. Se o outro estivesse agindo como normalmente agiria, estaria quebrando coisas, gritando. Ou, pelo menos, iria lhe acertar um soco no rosto.

Aquela total falta de reação era algo para o qual o moreno não estava pronto.

— Quando você tinha treze anos, e já tinha começado a entender os negócios da família... Um dia, me acordou durante a madrugada e perguntou "Os monstros são reais?". Tentei desconversar. Era balela, era mito. Bobagem para assustar criancinhas medrosas. — Dean forçou um sorriso, rasgando sua expressão em dor. — Você exigiu uma resposta. Você queria a verdade. Eu não tinha escolha, tinha? Uma hora ou outra, você precisaria descobrir...

Sam ouvia atentamente cada palavra pronunciada pelo mais velho. Eram sinceras, sabia disso apenas por ver nos orbes esmeraldinos toda a melancolia. Lembrava-se nitidamente daquele dia, apesar de não ser uma de suas melhores memórias. Mas resolveu não dizer nada a respeito, e apenas escutar o que o loiro tinha a dizer.

— Era Natal, Sammy. — o primogênito suspirou. — Um inútil, irritante e frio dia de Natal. E você... Você chorou a manhã toda. — frustrado, o mais baixo correu os dedos pelo cabelo. — Eu desejei mais que tudo nunca ter dito nada a respeito, porque não era pra você saber. Sam, não era nem mesmo pra você ter ideia de que o incêndio que matou a mamãe não foi natural. E eu estraguei tudo. O pai ia me matar, e você estava sofrendo.

Contrariando toda a aflição presente em sua voz, Dean sacudiu os ombros, e sorriu novamente. Dessa vez, porém, o esticar de lábios era um tanto mais sincero, como se fosse a primeira coisa boa que lhe ocorria em dias.

— E você me pegou de surpresa, mais uma vez. O pequeno Sammy também sabia ser sacana, e acho que eu era o único que ainda não sabia disso. — o loiro prosseguiu num tom quase orgulhoso, mas ainda assim envergonhado: — A noite havia chegado, e você escondeu um embrulho embaixo de meu travesseiro. Nem pra comprar uma porra de uma comida diferente para nós eu tinha dinheiro, mas, Sam, a primeira coisa que me ocorreu quando vi o presente... Eu queria desmentir tudo o que tinha dito naquela manhã, e arrancar aquele seu sorriso cheio de covinhas. Aquele sorriso que você só dá quando está verdadeiramente feliz com alguma coisa.

O moreno não pôde evitar sorrir; foi uma reação espontânea sobre a qual não teve controle. Isso fez com que o mais velho involuntariamente sorrisse também. Essa era uma das poucas ligações que não haviam perdido com o passar do tempo. Uma reação provocava outra, como num efeito dominó.

— Naquela noite, quando te perguntei o motivo de ter me entregado aquele amuleto... Você disse que era para o pai. Disse que teria dado para ele, mas eu merecia mais. Por acaso lembra-se do que me disse, quando teimou em me abraçar para que dormíssemos na mesma cama, Sammy? — sem esperar por uma resposta, o mais baixo abriu os braços, gesticulando para prosseguir: — "Não precisa ter medo, Dean; os monstros não vão poder te pegar enquanto eu estiver aqui. Prometo".

Sam o encarou, e não entendia o motivo de aquilo parecer tão mais grandioso pela forma com que o irmão falava aquelas coisas. Claro que se lembrava daquilo, mas não tinha ideia de que o loiro via daquela maneira. Ele o desapontaria se confessasse que havia falado tudo aquilo no calor do momento, porque estava assustado demais para admitir, e cansado demais para chorar? Não tinha o direito de acabar com uma lembrança tão boa, e não o faria nem se quisesse.

— Porra, eu era o irmão mais velho, cara! Seria suposto que eu confortaria você, que eu iria protegê-lo, e não o contrário. — Dean parecia frustrado, mas não com o moreno. — Quando você disse aquelas coisas, eu... Eu me senti infantil. Idiota. Porque finalmente percebi, Sam, que estava fazendo tudo errado. Caçar? Essa nunca foi sua vida, você não a quer. E, depois, quando fugiu para Stanford... Eu não deveria tê-lo procurado, sob hipótese alguma.

O primogênito abriu novamente os braços, parecendo frustrado demais para notar sua expressão de agonia. O mais alto notou que automaticamente havia baixado os olhos, como se esperasse uma reação explosiva vinda do caçula.

— Você me pediu para mostrar o que havia aqui dentro, Sammy. Mas não existe nada. — ele sacudiu a cabeça, as mãos cerradas em punhos. — Eu sou só a porra de um soldadinho, um espaço vazio. Se a única coisa que consigo fazer é te proteger, e você vai embora... Então realmente não existe mais nada a ser dito.

Aquelas palavras fizeram com que Sam se sentisse culpado, mesmo que grande parte daquele remorso fosse por ter arrancado os pontos da ferida que, só agora podia ver, recentemente fora fechada. Dean era um egoísta, um canalha. Ele não parecia nem mesmo se importar com o que aquilo que fazia causaria ao irmão mais novo, simplesmente continuava agindo daquela forma autodestrutiva e depreciativa. O moreno o odiava por isso, mas, ao mesmo tempo, não conseguia deixar de se perguntar o que diabos levava o mais baixo a fazê-lo.

Não sabia se era o causador daquela ferida tão grande na alma do irmão. A única coisa que podia fazer era suportar tudo, e tentar ajudá-lo.

Mas, a questão principal era: o loiro queria ajuda?

— Eu não vou a lugar nenhum. — talvez meio irritado consigo mesmo, o caçula cerrou os dentes. — Mas você vai me prometer que irá parar com isso. Com tudo isso, cara. Sério.

Dean o encarou, e, por breves instantes, pareceu-lhe que o mais velho iria negar; a julgar pela forma como comprimiu os lábios e fez uma careta. E então, pouco a pouco, ele simplesmente relaxou, e um longo suspiro pôde ser ouvido.

— Eu vou tentar.

Aquilo não era uma promessa, mas era tudo o que conseguia afirmar com convicção. Não iria jurar, porque não era o tipo de homem que quebrava juramentos, mas também não era o tipo de homem que volta atrás. Era arriscado, e insano. Dependia daquela atitude, daquela armadura que impedia que agentes exteriores o atingissem. Mas seu irmãozinho havia pedido, e, por ele, arriscaria o pouco que havia conquistado com o passar dos anos.

Meio hesitante, esperando por uma reação negativa do mais velho, Sam se aproximou e rodeou seus ombros com os braços longos. Era um gesto estranho para os irmãos, considerando-se o fato de que não se abraçavam há anos, mas... Ainda assim, era um tanto quanto reconfortante. Não com intensidade o suficiente para ser considerado aquele abraço, no entanto, sem deixar de ser um tabu quebrado na frágil relação familiar.

E, sendo quem era, Dean não podia deixar de quebrar o clima.

— Deixe de ser marica, Sam. Eu não caí aos seus pés e jurei amor eterno, cara, me larga.

O moreno sentiu-se quase sobressaltado ao ser empurrado pelo mais baixo, e, mesmo ligeiramente frustrado, algo no fundo de seu âmago lhe dizia que tudo ficaria bem por algum tempo.

— Jerk.

— Bitch!

xxx

Anna sorriu, satisfeita, quando Castiel deu um longo suspiro e sacudiu a cabeça em concordância, admitindo que sua aposta havia sido completamente insana e perigosa, mas havia dado certo. Perguntou-lhe como ela quebrara as barreiras que tão cuidadosamente criara ao redor de seu protegido, mas a ruiva se negou a confessar.

— Você tem seus segredos, anjo, e eu tenho os meus.

O moreno apenas a encarou, dividido entre a incredulidade e a quase admiração. Milton era uma louca, não havia como negar. Há onze anos, fizera um pacto com um humano, com a promessa de que voltaria para buscá-lo dali a dez anos. Mas não o fez, e isso estava gerando uma reação em cadeia. Pactos não podiam ser quebrados daquela forma, mesmo quando feitos por um anjo. Anna já estava sendo caçada, e não apenas por seres celestiais.

Ali, na Terra, num receptáculo, ela poderia até ser mais fraca, mas escondera sua presença até finalmente conseguir o que queria. Castiel não conseguia deixar de se perguntar como ela despertara no humano todos aqueles sentimentos, não conseguia entender por que a alma dele correspondia às investidas da ruiva.

Parecendo ler seus pensamentos, Milton lhe dirigiu um sorriso cansado. E a verdade é que realmente estava exaurida, em consequência de utilizar seus poderes celestiais sem permissão, para seus próprios intentos, e ainda por cima permanecer no mundo humano por tanto tempo, sem jamais voltar ao Céu.

— Algumas coisas estão predestinadas, Castiel. Elas não podem ser alteradas, nem mesmo por nós, você entende? Todo aquele lance de destino, e almas gêmeas...

O moreno apenas sacudiu a cabeça, não querendo dizer nada a respeito.

Sabia do que se tratava, e entendia. Mas também tinha plena consciência de que nada funcionava em seu ritmo natural quando uma situação era forçada. Anna estava fazendo tudo correr, estava levando Dean à beira do precipício para puxá-lo de uma só vez e abruptamente. Uma hora ou outra, a corda iria arrebentar, e ele só não sabia para que lado seu protegido acabaria indo.

Sua missão era evitar que as coisas desandassem ainda mais, mas, pelo visto, Milton impediu que tudo ruísse como um castelo de cartas, agindo impulsivamente e sem consultar ninguém.

Não sabia se deveria agradecê-la ou puni-la por aquilo. Aceitá-la ou denunciá-la.

— Por enquanto, você vai ter que esperar. — novamente, a ruiva o encarou, e seu olhar era um tanto mais duro. — A vida de Dean pode não estar ligada à minha, mas a alma dele me pertence. Como guardião, você deve evitar danos físicos e espirituais. Se eu for, pode ter a certeza de que vou levá-lo primeiro. E o que é uma guerra sem seu soldado mais importante, sem um líder?

Castiel comprimiu os lábios numa linha fina, mas não respondeu, e eles voltaram a observar os irmãos. Realmente não tinha escolhas, pelo menos com relação àquilo. Os irmãos passaram pela primeira provação, e, depois dela, muitas outras viriam.

Mas, por ora, tudo estava bem.