Capítulo 17 — I've been gone for far too long... — ("Eu tenho estado longe por muito tempo...")

— Não acha um pouco estranho que a esposa do homem recentemente assassinado, esteja tão bem em tão pouco tempo? — Dean questionou, mexendo no colarinho do terno, incomodado. — Ela deveria estar de luto.

Sam, ainda pensativo em consequência do interrogatório que haviam feito há pouco, apenas sacudiu a cabeça de maneira distraída. Os olhos estavam semicerrados enquanto tentava entender o que havia de errado naquela situação. Além, é claro, de seu irmão mais velho agindo como nos velhos tempos. Além de, pela primeira vez em tantos anos, eles estarem num caso aparentemente comum. Além de não haver nenhuma maldita pista sobre o que raios estavam enfrentando.

— É assim que algumas pessoas lidam com a realidade. — o moreno observou. — Fugindo para uma alternativa, onde não há nada de errado e elas podem viver como se nada tivesse acontecido.

O mais velho o avaliou durante alguns instantes, perigosamente carrancudo. O maior só se deu conta do que havia dito quando o loiro já estava a vários passos de distância, ainda brigando com o colarinho. E sabia que de nada adiantaria tentar dizer que não fora de propósito, porque sabia que ele não acreditaria. Era um cabeça dura desgraçado.

— E o medidor de ondas eletromagnéticas? — Dean apenas comprimiu os lábios quando o mais novo acelerou a caminhada para acompanhá-lo. — Como você explica?

Havia se referido ao EMF, que começara a apitar compulsivamente no momento em que se aproximaram da mulher. Linhas vermelhas na sala, na cozinha e nos quartos. Enquanto o loiro entretinha a viúva com um fervoroso interrogatório, Sam agia furtivamente e avaliava a casa. Há muito que não via tantos sinais de um ser sobrenatural, e também não era a primeira vez que não sabia identificá-los. E o loiro, obviamente, não iria deixar aquilo passar.

Mas isso não faria com que as dúvidas do moreno simplesmente se calassem.

— Como você caçava essas coisas, sozinho, cara? — relanceou os olhos para o irmão, curioso. — Juntar rastros nunca foi seu ponto forte... Além de quê, uma pessoa, só, tem pouco tempo para reagir, e menos ainda para atirar.

O loiro pareceu repentinamente amuado, e aquilo apenas inflamou a curiosidade do mais alto, que resolveu prosseguir com as perguntas. Se ele não o havia parado, era uma brecha para continuar, e assim o fez:

— Você nunca fez o tipo de quem gosta de ser pego desprevenido...

Àquela altura, já estavam perto do Impala, e o mais velho apenas colocou a chave na porta, mas não fez questão de abri-la. Continuou encarando Sam, esperando que ele concluísse aquela linha de raciocínio. Uma atitude surpreendente, para quem já deveria estar incomodado. E, na verdade, ele estava. No entanto, não daria o braço a torcer, não permitiria que o outro soubesse o quanto aquilo o inquietava.

— E tem muitos amigos caçadores. — o mais alto arqueou uma sobrancelha. — Qualquer um deles poderia ser seu parceiro num caso.

Dean escorregou a mão pelos cabelos, sacudindo os ombros num gesto atípico. Continuou o encarando.

— Existe algo que eu deva saber?

Um minuto de silêncio. Os orbes esmeraldinos encarando os olhos claros, sem cor definida. Não era exatamente tensão o que pairava entre os irmãos, e ainda assim não era o clima comum que costumavam partilhar. Sam estava considerando seriamente a possibilidade de não haver absolutamente nada, mas algo em seu âmago o estava perturbando profundamente. O mais velho não podia ser tão idiota ao ponto de agir daquela maneira suicida, poderia? Caçar sozinho. Para muitos, aquilo era o mesmo que tentar se matar. E o mais novo sabia o quão dependente o irmão era do pai. Não pela ajuda, em si, mas pelo fato de existir alguém ali.

Ele era solitário, e, mesmo sob essa perspectiva, precisava de uma pessoa ao seu lado para que não desabasse. Ele sentia a necessidade de aproximação. Talvez toque. Mas não para caçar. Apenas para sentir. Totalmente dependente. Com a cabeça, literalmente, fodida.

Ainda assim, Dean teve a cara de pau de sacudir a cabeça e entrar no carro, com uma última observação, que encerrava o assunto até segunda ordem:

— Não vamos falar sobre isso agora.

xxx

Mais uma vez em frente ao computador, Sam passeava os dedos pelo teclado, sem saber ao certo o que procurar. Tudo era muito vago. Pessoas mortas com sorrisos. Estacas. O possível espírito maligno no site Criminal. Uma coisa não batia com a outra, e por quê? Talvez Dean estivesse certo. Mas, se a mulher do homem morto tinha alguma coisa a ver com o assassinato... Nada explicaria o motivo de estar tão calma, igual o mais velho fez questão de frisar quando saíram da casa da família Martin.

Repentinamente, uma ideia cruzou a mente do caçula, aliada à memória recente do interior dos aposentos, e ele voltou sua atenção para o computador. Lembrava-se nitidamente de ter sentido um forte cheiro de incenso, apesar de não ter dado muita atenção quando notou.

Estava tão concentrado procurando por outros tipos de sinais, que acabou esquecendo o mais crucial. Nem sempre a casa era envolvida, mas, na maioria das vezes, possuía as pistas mais importantes. E, quando clicou em "Pesquisar", realmente não esperava que os resultados fossem tão pequenos.

— Dean. — chamou o irmão. — Você precisa ver isso.

O loiro, que até então estava trocando de roupa, saiu do banheiro e encarou o irmão, ainda com a toalha em mãos, secando o excesso de água que estava em seu cabelo. Foi até ele, e olhou para a tela do computador. Não parecia nada demais, apenas outro blog esquisito com um fundo tão colorido que seus olhos arderam.

Mas, assim que se acostumou com a claridade e pôde ler, arqueou uma sobrancelha.

— Rainha das Sombras. — encarou o irmão. — Sério, Sam? Quando você vai começar a encontrar sites que tenham nomes mais comuns?

— Quando eu não precisar ligar o computador e sair do , obviamente. — o moreno retrucou, e o mais velho apenas revirou os olhos.

Dean avaliou o conteúdo do blog com cautela, tentando processar as informações e juntar as peças que o outro estava mostrando. Era, com toda a certeza, apenas outra brincadeira infantil de algum adolescente que não acreditava em forças sobrenaturais, a julgar pelas palavras irônicas que existiam ao fim de cada parágrafo, retirando toda a seriedade da coisa. Algo sobre um ritual celta, para a invocação de alguma criatura que tenha feito parte dos ancestrais da família, num elo que abria as portas entre os mundos. E, entre os ingredientes...

— Incenso de mirra. — sacudiu a cabeça, incrédulo.

Lorelly Martin confeccionava materiais caseiros, e certamente tinha todos aqueles materiais. Quando o loiro entrou em sua casa para começar o interrogatório, estranhou o cheiro forte, mas não perguntou nada porque sua mente estava concentrada em outras coisas. Não lhe ocorreu a possibilidade de aquilo ter alguma coisa a ver com o caso, mas era uma hipótese no mínimo certeira.

— Parece que você estava certo, afinal. — Sam comentou com naturalidade.

O mais velho o encarou, e algo o estava incomodando profundamente, apesar de não saber o motivo. Mordeu o lábio inferior durante alguns instantes, antes de voltar sua atenção para o site.

— Mas por que ela mataria o marido? — questionou, e batucava os dedos sobre a mesa. — E as outras pessoas que morreram? Não eram todos homens, e, definitivamente, não eram casadas com Lorelly. O que elas têm a ver com essa história? Os sorrisos, as estacas...

— Eu não sei. — o caçula ficou pensativo. — As vítimas geralmente têm algo em comum.

Quase parecia estranho, depois de tanto tempo, os irmãos Winchester estarem num caso como aquele. Não havia o antigo companheirismo, tampouco um silêncio verdadeiramente amigável. Mas, o que um não conseguia ligar, o outro completava. Imperfeitos, unindo o quebra-cabeça aos poucos, como uma aranha tecendo sua teia.

Tão estranho quanto natural.

— Precisamos cavar mais fundo. — Dean quebrou o que restava de tensão entre eles com aquela simples frase. — Sabe o que isso significa, não sabe?

Sam o encarou.

— Cadáveres, invasões. — sacudiu os ombros. — O de sempre, não é?

"That's my boy!"

O mais velho assentiu, pegando o telefone sobre a mesa, e deu tapinhas nas costas do mais alto.

— Vou ligar para alguns caçadores, ver se consigo alguma coisa. Tente encontrar alguma coisa nas redes sociais dos familiares, talvez ache algo importante.

Revirando os olhos, o caçula voltou sua atenção para a pesquisa, e o loiro saiu dali a passos lentos. Trazia uma estranha sensação de liberdade, voltar a agir como antes. Não era exatamente bom, mas aliviava um pouco todos os problemas. Era como se livrar de uma das amarras que o prendia à cruel realidade, e enfim poder tomar um pouco de ar. Sentia falta daquilo. Como se, de alguma forma, tivesse perdido seu "eu" interior, e só agora pudesse voltar a se aproximar.

Esteve tão longe, por tanto tempo... De seu irmão, de seu pai. Ele fugiu de si mesmo, e usou uma máscara para fingir que tudo estava onde deveria. O álcool afogava suas mágoas, as mulheres supriam sua necessidade de toque. Mas acabou se perdendo, e só agora conseguia enxergar a tênue luz no fim do túnel.

"Por que será, não é mesmo?"

A brisa noturna era gélida, e isso causou um arrepio em sua espinha, porém não se deu ao trabalho de voltar para pegar a jaqueta de couro. Voltou sua atenção para o telefone em suas mãos, e digitou uma sequência de números que há muito estava gravada em sua mente. Não era como se gostasse da necessidade de pedir ajuda, mas sabia que encontraria respostas mais rápido do que julgaria ser possível se ligasse de uma vez.

Alô?

Durante vários instantes, não disse nada, apenas ouviu a respiração calma do outro lado da linha. E então, suspirando longamente, Winchester bagunçou o cabelo com as mãos antes de sacudir a cabeça e responder num tom baixo:

— Benny? Sou eu, Dean...