Capítulo 18 — With all that we've been through... — ("Mas com tudo que nós temos passado...")
Destravou a arma, se entreolhando com o irmão. Na porta dos fundos da casa dos Martin, a iluminação era mais escassa, e, portanto, ficava mais fácil a tentativa de se esconderem dos olhares curiosos. Aquilo havia sido decidido ainda naquela tarde: invadiriam o lugar durante a noite, quando Lorelly fosse à festa de aniversário de uma amiga. Pelo que Sam pôde ver em suas redes sociais, como Facebook e Twitter, a mulher havia combinado aquilo com a outra há oito meses, muito antes da morte do marido. Apesar de ser realmente estranho, como Dean fizera questão de frisar durante todo o tempo que gastaram planejando aquilo, o moreno não conseguia culpá-la pela atitude. Lorelly era uma mulher bonita; jovem. Por mais que a perda de seu marido fosse dura, iria superar rapidamente toda a dor, e seguir em frente.
Com ou sem algumas doses de álcool, mas aquilo não era importante.
Sacudiu a cabeça, e olhou para o irmão durante longos segundos. Dean parecia relaxado, mexendo na tranca da porta com um grampo. Adoraria saber o que se passava na cabeça do loiro, mas não era nenhum telepata e duvidava muito que o mais velho fosse lhe dizer alguma coisa a respeito.
Comprimiu os lábios com força, e agradeceu aos céus quando finalmente puderam ouvir o pequeno som que indicava a passagem livre para o interior da casa. O loiro lançou-lhe um sorriso presunçoso, o mais alto revirou os olhos e puxou a maçaneta.
A casa continuava com aquele forte cheiro de incenso, mas... Havia algo estranho no ar, algo bizarro na forma como os móveis haviam sido arrumados por Lorelly; como se estivessem formando um semicírculo. Sam percorreu o ambiente com os olhos durante dois segundos antes de rapidamente adentrar no que parecia uma espécie de porão muito bem organizado.
— As coisas não estão meio... Limpas demais, não? — Dean conseguiu externar em palavras o desconforto que o caçula sentia. — Acho que eu esperava cadáveres em putrefação, símbolos satânicos... Alguma coisa assim.
Mesmo achando aquela comparação um pouco tétrica demais, o moreno não pôde deixar de concordar mentalmente com o fato. Mesmo com aquela tensão pairando entre eles, pela primeira vez o desconforto não se devia à existência de uma situação desagradável. Era o lugar. Havia algo diabólico naquele aposento; algo não detectável a olho nu. A teoria se provou correta quando o primogênito dos Winchester retirou o EMF do bolso da jaqueta e as luzes vermelhas começaram a piscar.
— Está na hora de arrumar a sujeira debaixo do tapete. — ele comentou num tom sarcástico.
Afinal de contas, a família Martin não era a pior que os irmãos já haviam encontrado. E, se realmente havia algo de errado ali, eles iriam descobrir.
Por bem... Ou por mal.
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Benny Rosewelt engatilhou a arma, sendo atentamente observado por sua parceira de caçada, Andrea Collins*. Sabia que ela estava curiosa, mas não podia dizer nada a respeito; era uma das promessas que havia feito ao Winchester quando se encontraram pela última vez.
— Então, esse tal de Dean... — notando que o homem realmente não diria nada, a morena tomou a liberdade de iniciar a conversa. — Ele é seu amigo?
O caçador pensou antes de responder. Tecnicamente, sim; ele e o loiro eram amigos. O laço fora criado poucos meses após John desaparecer, quando Benny acidentalmente o atropelara. Como? Até onde se sentira à vontade para contar, Winchester admitiu que fugia de um bando de vampiros, e por acaso Rosewelt estava atrás desse mesmo bando. Caçaram juntos, apesar da estranheza, e Dean salvou seu pescoço naquele caso. Literalmente.
— Acredito que sim. — foram as palavras evasivas, e a mulher não conseguiu conter a curiosidade.
— E ele está com problemas?
O moreno sacudiu os ombros, fechando o zíper da bolsa e colocando sobre os ombros. Andrea continuou a encará-lo, firme, esperando por mais informações.
— Digamos apenas que preciso limpar a sujeita do passado. — ele pigarreou. — Dean não é exatamente o que se pode chamar de cara rancoroso, mas existem algumas coisas que não podemos evitar. Ou eu acabo com toda essa porcaria agora, ou ele vai precisar fazer isso depois.
Henry era um problema antigo. Durante o ano em que caçou ao lado de Winchester, Rosewelt não pôde deixar de notar o quão mergulhado em trevas o rapaz estava. Tão novo e tão perdido; buscando desesperadamente por algo que nem mesmo ele, em todo o caos de sua mente, sabia o que era. Quando citou o ex-professor, o loiro não pareceu fazê-lo por vontade própria; como se fosse obrigado a dizer algo sobre o homem apenas porque sabia que não conseguiria se livrar daquilo sozinho, e tinha plena consciência de que Benny queria ficar a par da situação.
Lembrou-se da conversa que teve com o mais novo, ainda naquela tarde.
|| Algumas horas antes ||
— Então, você acha que realmente é um demônio? — do outro lado da linha, a preocupação na voz de Dean era genuína.
— Disse que existia estática na casa, não disse? — Rosewelt checava alguns jornais em busca de algum acidente aparentemente anormal. — E também os animais perturbados... Vai por mim, irmão: são presságios demoníacos.
Ouviu um longo suspiro, e quase podia ver Winchester bagunçando o cabelo com as mãos, frustrado pela afirmação tão certeira. Se fosse sincero consigo mesmo, o mais velho admitiria que não estava preocupado com aquilo. Já havia visto o rapaz sair de situações piores; não era um fato muito chocante saber que se encontrava em maus lençóis mais uma vez.
Porém, podia sentir que aquilo não era o que verdadeiramente deixava o mais novo tenso.
— Mas não foi por isso que você me ligou, não é? — Benny arqueou as sobrancelhas, e era a primeira vez durante aquela conversa que ele realmente prestava atenção no que o outro dizia.
Alguns segundos em silêncio, e o moreno ouviu a porta do quarto sendo aberta. Oh, droga. Andrea havia chegado.
— Na verdade, não. — podia ver os orbes verdes perscrutando a rua, denunciando a paranóia, porque Winchester era previsível demais para quem o conhecia. — É que eu acho... Quero dizer, tenho certeza de... Bem...
— Fale logo, Dean. — Rosewelt ficou profundamente incomodado com aquele nervosismo todo; tanto que não se deu conta de que já chamava a atenção da caçadora que acabara de entrar. — Sabe que não gosto de complicações.
Com a falta de reação que se seguiu, o mais velho quase se arrependeu. Pôde ouvir a respiração do Winchester se tornando mais pesada à medida que tomava fôlego. E, logo em seguida, Dean declarou com voz falha:
— Acho que Henry está de volta. E... Ele está atrás de mim, Benny.
|| Tempo real ||
— Por que você precisa fazer isso? Ele não tem um irmão, um parceiro, qualquer coisa? Não pode pedir ajuda para qualquer outra pessoa?
O homem encarou Collins seriamente. Se não conseguisse reconhecer a preocupação por trás da dureza nos olhos castanhos, poderia ficar aborrecido com Andrea. Mas, no fim das contas, ela só queria ter a certeza de que ele ficaria bem.
— Os dois são pessoas complicadas, e o pai sumiu no mundo. — Rosewelt lhe dirigiu um sorriso cansado. — Até onde eu sei, Dean só tem a mim como irmão para pedir um favor desses, porque o biológico está pouco se lixando para o que acontece ou deixa de acontecer. Ou, pelo menos, era assim há tempos atrás... Quando ele impediu que Luther cortasse minha cabeça.
Ao término da frase, Benny conseguiu o efeito desejado. As feições da morena automaticamente abrandaram, os ombros caíram em sinal de derrota.
— Ah... Então é desse Dean que você está falando... — seu tom era compreensivo.
— Você fala como se eu conhecesse muitos. — o mais velho brincou, mas havia um pedido mudo de desculpas por trás daquela frase.
Collins suspirou pesadamente. Não esperava conseguir convencê-lo, mas seu coração apertava no peito a cada vez que imaginava Rosewelt, sozinho, caçando um homem que merecia morrer. Sabia que o moreno não permitiria que se envolvesse naquilo tudo; no entanto, nada a impedia de tentar mantê-lo longe do perigo.
— Tome cuidado, Benjamin.
— Sabe que sempre tomo.
E Benny segurou o rosto delicado entre as mãos, para beijar Andrea pela última vez.
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— Tem certeza de que seu amigo vai conseguir pegá-lo?
Inquieta, Ruby batucava as longas unhas sobre a madeira da mesa barata do bar à beira da estrada, nos arredores de Illinois. A loira estava verdadeiramente preocupada com o que iria acontecer, pois tinha plena consciência de que as coisas não eram nem um pouco simples quando se tratava da família Winchester. Cada um deles era perigoso, à sua forma.
John era praticamente uma máquina de matar; acabava com qualquer coisa sobrenatural que entrava em seu caminho. Mas deveria ter um ponto fraco, apesar de o demônio não saber o quê, exatamente, poderia ser. Sam era simplesmente um gênio, porém, manipulável; se estivesse sozinho, seria quase fácil demais ditar as regras do jogo.
Ainda assim, a maior preocupação de Ruby era com Dean. Não se arriscara a entrar no caminho do rapaz, ainda, mas isso se devia unicamente ao fato de ter ouvido os boatos a respeito do primogênito. Algo sobre dois anjos, e um pacto que burlava algumas leis do Paraíso. Qualquer besteira do tipo, e a loira não estava disposta a ficar na dúvida.
Mas ela não era a única. Tivera muita sorte em conseguir se aliar à Sallos antes de qualquer outro, e, para sua surpresa, a barganha havia sido muito simples: ele a ajudaria a retirar Dean de seu caminho, e Ruby lhe entregaria o colar capaz de encontrar Deus. Quando o primogênito estivesse morto, Sam seria uma massa de molde fácil nas garras da loira, e o demônio Sallos teria o que desejava.
Ou, pelo menos, até a moça atravessar seu peito com uma faca amaldiçoada. Em sua cabeça, era um plano muito simples: o receptáculo de Lúcifer, o amuleto, e toda uma legião de demônios submissos em busca de um líder.
Poderia encontrar todas as crianças especiais. Só precisava jogar conforme ditavam seus instintos, e tinha certeza de que conseguiria o que desejava.
Sallos a encarou, os olhos negros queimando nos orbes azulados da moça.
— Valefor não costuma falhar.
Ruby olhou para a multidão agitada ao seu redor, uma sobrancelha arqueada, os braços cruzados na altura do peito, demasiadamente pensativa. Algo lhe dizia que não seria naquela noite que conseguiria se livrar da pedra no sapato, e ela bem sabia o que era.
Bem... Valefor não era seu maior problema. Mephistopheles era uma ameaça muito maior do que aquele médium fajuto no qual Sallos depositava tanta... Fé? Palavra irônica para um demônio, mas, sim, era exatamente isso que o demônio sentia com relação à Valefor.
— Assim espero, Sallos... Assim espero.
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— Sam? — Dean chamou, observando a estreita fissura que se estendia à sua frente, numa escuridão que parecia interminável. — Você precisa ver isso!
Não obtendo nenhuma resposta, o loiro se levantou, já que estava agachado, e olhou ao redor. O mais novo não estava no porão; o que significava que concluíra que não era necessário por ali, e resolvera investigar sozinho o restante da casa. O primogênito seria idiota se negasse que aquela atitude independente por parte do moreno lhe desagradava um pouco, mas preferia não dizer nada a respeito.
— Quer saber? Ele pode me procurar depois... — resmungou consigo mesmo, pegando uma lanterna e acendendo, escorregando para dentro do buraco.
O encontrara por acaso; um golpe de sorte, era isso o que pensava. Resolvera empurrar os móveis que aparentemente estavam em suas posições normais, apenas para ter a certeza de que não deixara nada passar e que não precisava ficar com aquele incômodo peso nos ombros. Foi realmente estranho, ao empurrar o armário de ferramentas, encontrar uma fenda um tanto baixa, mas larga o bastante para que pudesse se espremer e passar por ali, para ver o que se encontrava no final.
Aquilo parecia interminável, e a tênue luz da lanterna não iluminava muito o caminho. Se esticasse a mão à sua frente, os dedos escorregavam pelas pedras ásperas, que arranhavam sua pele. Parecia um lugar inclinado, frio e úmido.
Quando finalmente passava a acreditar que era melhor voltar, porque aquilo não o levaria a lugar nenhum, repentinamente, toda a estranheza passou. Literalmente, o espaço começou a sobrar, porque a fenda se abrira no que parecia uma espécie de caverna muito pouco iluminada, com apenas algumas velas no que parecia ser o centro do lugar.
Curioso, Winchester direcionou o feixe de luz em direção às paredes, apenas para perceber que a fissura da qual havia acabado de sair era apenas uma entre as várias, que pareciam estrategicamente posicionadas por entre figuras feitas à tinta de secagem rápida na pedra escura que ainda não conseguia identificar. Um lugar claustrofóbico, cheirando a cera queimada, cuja densidade do ar fazia seus olhos arderem ao ponto de lacrimejarem.
Aproximou-se lentamente das velas, notando que formavam um círculo ao redor de outro desenho, e este se assemelhava a uma cruz celta unida a um pentagrama incrustado num pentágono. Não reconhecia aquilo de lugar nenhum, tampouco tinha alguma ideia do que significava.
Pelo menos, até seus olhos se cravarem na fotografia no centro do círculo: a família Martin, com o falecido esposo de Lorelly ao lado da mulher. E, sobre o rosto do homem sorridente, um "x" feito com um líquido aparentemente viscoso e vermelho.
— Parece que nossa pequena vítima não era tão inocente assim...
Quando esticou a mão em direção ao objeto, porém, um estalido ecoou pelo local, e automaticamente se virou, pronto para encarar seja lá o que estivesse ali.
Não havia nada.
— Sam? — perguntou cauteloso, sabendo que corria o risco de não estar sozinho no local. — É você?
Como não recebeu nenhuma resposta, apenas o bizarro som de algo gotejando ao longe, pegou a Colt A1 calibre 45 no cós da calça, aproveitando que a arma estava pronta para disparar caso fosse necessário. Seu radar interno parecia estar enlouquecido, como se tivesse levantado rápido demais e acabasse tonto por causa do gesto.
— Não. Não é o pequeno Sammy, Dean Winchester.
Virou-se como um raio, pronto para atirar, mas algo impediu que seu dedo apertasse o gatilho no segundo necessário. Por um breve instante, apenas encarou a humana que surgira das sombras, perguntando-se como diabos ela conseguira aparecer tão rapidamente e sem ser notada. Porém, quando estava prestes a reagir, só teve a chance de processar um fato tétrico antes de algo acertá-lo com violência na cabeça, e a escuridão tomá-lo por completo:
Lorelly Martin tinha as órbitas vazias.
Onde estavam seus olhos?
