Capítulo 19 — Devour — ("Devore")

Sam sentiu a cabeça latejar de forma insuportável muito antes de sequer conseguir abrir os olhos. A repentina iluminação, aliada à fumaça densa que se propagava pelo ambiente, rapidamente fez com que os olhos claros lacrimejassem. Piscou espasmodicamente até se acostumar àquilo, e logo tentava entender que raios de lugar era aquele.

Mas, na verdade, o primeiro fato que sua mente processou foi que seus pulsos estavam presos com grossas correntes pregadas à parede, os braços abertos e esticados de maneira desconfortável. Seus pés estavam soltos, mas ele duvidava muito que aquilo pudesse lhe ajudar. Só então, resistindo ao impulso de tentar se livrar daquela prisão, que o moreno realmente prestou atenção na aparência tétrica do local.

Era tudo muito limpo, muito arrumado, e isso só parecia tornar as coisas piores. O espaço era amplo, cheio de símbolos brancos e disformes, desenhados à mão nas paredes de cor creme. A um canto, havia uma mesinha de metal; esticando o pescoço para observar melhor, Winchester sentiu um grande incômodo na boca do estômago ao ver as lâminas reluzindo com a luz do aposento. E, correndo os olhos para o outro lado da sala, sentiu como se alguém tivesse acabado de lhe dar uma descarga elétrica.

— Dean! — a exclamação saiu sufocada.

Seu cérebro entrou em curto.

O mais velho estava lá, inerte, com os pulsos presos acima da cabeça. Havia várias manchas escuras em sua camisa, e o caçula rezava para que não fosse sangue. Mais pálido que o normal, com os lábios já tomando uma coloração arroxeada. Quase pendurado.

Sam obrigou-se a lembrar dos últimos acontecimentos. Deixara o primogênito avaliando o porão, porque acreditava não existir nada importante por lá, apesar de toda a bizarrice do local. E depois? Checou os quartos, onde também não encontrou coisas suspeitas ou sinais de bruxaria. Então, Dean o chamara, mas, quando voltou ao local onde o vira pela última vez, o loiro não estava lá. Foi para a cozinha, procurou o irmão, porém não o encontrou. Houve um blecaute, todas as luzes se apagaram, e, enquanto tentava fazer a maldita lanterna funcionar, algo o acertou com violência na cabeça. Ainda assim, não desmaiou de imediato após o golpe.

Pouco antes de a escuridão tomá-lo por completo, viu algo que não fazia o menor sentido: um homem parecidíssimo com o falecido esposo de Lorelly, segurando um pé-de-cabra...

Sorrindo.

"O que diabos está acontecendo aqui?!"

xxx

Anna moveu-se, inquieta e furiosa, em frente à casa da família Martin. A única coisa que de fato a impedia de entrar lá e acabar com a raça dos malditos que ousaram seqüestrar Dean Winchester, era Castiel mantendo a mão em seu ombro com firmeza. Porque seu desejo, sendo sincera consigo mesma, era fazer rolar algumas cabeças. E, talvez, todo aquele tempo longe do Paraíso, na Terra, tivesse feito com que uma parte de sua graça se perdesse.

Mas, naquele momento, a última coisa que lhe importava era o Céu.

— Deixe-me ir. — a ruiva quase rosnou para o amigo, num tom irritado. — Eu vou acabar com eles!

— Como? — Castiel questionou, fitando-a seriamente. — São dois líderes das legiões mais poderosas de demônios, e sua cabeça está a prêmio. Diga-me, Anna Milton: como você, mas atuais circunstâncias, vai fazer alguma coisa?

Foi aquilo que a obrigou a parar e finalmente pensar sobre o assunto. Não foram precisos muito mais que alguns minutos para que a boca da moça se entreabrisse num cômico "o", enquanto sua linha de raciocínio finalmente encontrava a do moreno.

— Se eles te pegarem, a alma de Dean estará solta entre os planos, para quem quiser pegá-la. — o anjo prosseguiu num tom ligeiramente repreensivo. — Mephistopheles está lá dentro, pronto para acender a faísca que vai incendiar o que resta da relação dos irmãos. Ele só precisa de uma coisa, Anna. Um mínimo deslize, e tudo pelo que você, tudo pelo que nós temos lutado durante todo esse tempo, vai por água abaixo!

E, ainda assim, a ruiva olhou pesarosa para o local onde se encontrava o rapaz cuja alma lhe pertencia. Uma angústia tão grande tomava seu peito que fazia lágrimas brotarem em seus olhos verdes, e talvez tenha sido isso que fez com que a expressão de Castiel abrandasse um pouco, o aperto em seu ombro tornando-se um tanto menor, enquanto ele prosseguia num tom doce:

— Tudo o que podemos fazer, por ora, é esperar. Há uma brecha nessa armadilha para ratos, você sabe. Sam Winchester só precisa puxar a alavanca, e a porta estará aberta para os seres celestiais.

Milton virou-se para encará-lo com um longo e resignado suspiro.

— Isso significa que eu não devo estar aqui, não é? — a voz saiu num sussurro.

O anjo assentiu.

— Garanto a você que irei mantê-la informada sobre o que for necessário. — prometeu.

E então, com um leve farfalhar de asas, Anna já não estava mais ali. O moreno pensou a respeito da confusão que começara a se formar por causa da garota, e se questionou a respeito da atitude de protegê-la de seus irmãos. Definitivamente, era um erro, e seria punido por aquilo, mas o que poderia fazer, se aquilo era o que seus instintos ordenavam?

Quando Milton quebrara as regras e permitira que Dean vivesse durante mais tempo do que o permitido após o pacto... Bem, para iniciar a história, ela não deveria nem mesmo ter usado seu receptáculo para criar um contrato com Winchester. E, acima de tudo, não deveria colocar em risco tudo pelo que os anjos vinham lutando nos últimos milênios; os problemas daquela família não eram da atualidade, eles vinham de seus antecedentes. Somente Sam e Dean poderiam quebrar a maldição que carregavam em suas veias, e a ruiva aparecera apenas para tentar acelerar as coisas, acabando por atrapalhar tudo.

Porém, de nada adiantaria "quebrar a cabeça" imaginando como poderia ter sido se Anna não interferisse.

Castiel voltou sua atenção para a casa.

Ainda não havia nada.

xxx

Dean.

O loiro sentiu os músculos tensos, os pulsos presos acima da cabeça de maneira desconfortável. Não sabia dizer ao certo se estava deitado, ou pendurado; só tinha a certeza de que algo não muito macio estava pressionado à suas costas. E estava amarrado, óbvio. Caso contrário, teria conseguido facilmente se livrar daquele incômodo em suas mãos.

Olhe para mim!

Winchester reconheceu aquela voz, e foi isso que automaticamente fez com que seus olhos se abrissem. Logo em seguida, desejou não tê-lo feito, porque a luz em demasia fez a cabeça latejar ainda mais. Piscou espasmodicamente, desejando de forma ardente que o lampejo que teve não passasse de uma simples ilusão. Mas, ao fitar novamente o irmão, a respiração acelerou consideravelmente, os lábios se entreabriram pelo choque.

— S... — o nome não saiu, no primeiro instante, e precisou tomar fôlego para conseguir pronunciá-lo num tom rouco: — Sammy?

Não. Não podia ser seu irmão. Aqueles olhos claros, encarando-o tão intensamente que fazia seu estômago embrulhar. Definitivamente, não podia. Os lábios do moreno esticaram-se num largo sorriso, expondo os dentes em duas fileiras perfeitinhas, mas havia algo de estranho naquela expressão. Ou, talvez, fossem apenas os olhos.

Queimando. E o toque. Oh, Deus, aquele maldito toque! Os dedos que percorriam os músculos de seu abdômen, sem se importarem com as cicatrizes, parecendo conhecer os pontos que lhe traziam mais prazer melhor até do que o próprio loiro. Aquilo provocou um estranho e não muito incômodo arrepio em seu corpo, e algo em seu âmago fez com que se perguntasse o que raios estava acontecendo ali.

— Sammy? — repetiu incrédulo, os olhos esbugalhados pelo choque.

O moreno continuava com aquele estranho sorriso, de orelha a orelha; a expressão diabolicamente maliciosa, de forma que com toda a certeza não combinava com o pouco de infantilidade que o mais velho sempre atribuíra ao caçula. Sam não sorria daquela forma. Não seu Sammy. Não seu irmão. E eles nunca... Eles não...

Oh, droga! Por que diabos Dean estava amarrado nu em uma cama?

E por que seu irmão o estava tocando daquela forma?

Nobody, nobody wants to feel like this

[Ninguém, ninguém quer se sentir assim]

Nobody, nobody wants to live like this

[Ninguém, ninguém quer viver assim]

Nobody, nobody wants a war like this

[Ninguém, ninguém quer uma guerra como esta]