Capítulo 20 — Dementia — ("Demência")

O moreno tentava inutilmente libertar ao menos um de seus pulsos, quando começou. Dean produziu um som estranho com a boca, de forma com que o mais novo imediatamente voltou sua atenção para o irmão. O loiro se moveu de forma inquieta, ainda resmungando, ainda sem abrir os olhos, e sua cabeça se moveu para o lado, como se algo o incomodasse. Sam arriscou:

— Dean? — perguntou com firmeza, apesar de todo o alívio que tomava seu peito por ver o mais velho dando sinais de vida. — Está consciente?

Não obteve uma resposta coerente, apenas outro barulho engasgado foi emitido, e isso acabou com toda a calma momentânea que o moreno ainda pôde sentir. Perguntou-se o que diabos estava acontecendo com o primogênito, voltando a mover as mãos, mas foi inútil. Não conseguia nem mesmo fazer com que as correntes escorregassem, e aquilo era demasiadamente frustrante. Por que Lorelly os mantinha presos ali? Já não era para algo ter acontecido?

Enquanto observava o loiro tremer em espasmos, Sam teve a certeza de que, seja lá qual fosse o motivo da mulher, esse "algo" já estava acontecendo. Por um breve momento, olhou novamente para as correntes, tentando entender o porquê de elas parecerem tão frágeis, e ele ainda ter tanta dificuldade em soltá-las de uma vez.

Talvez a pancada na cabeça não tivesse sido tão simples quanto parecera, e aquilo estivesse afetando seu raciocínio. Era nisso que o moreno focava seus pensamentos, quando ouviu um resmungo, novamente de incômodo, vindo de seu irmão. Voltou sua atenção para o mais velho, preocupado, mas seus olhos quase saltaram das órbitas ao vê-lo se debatendo com violência.

Quando Sam estava prestes a chamá-lo mais uma vez, Dean moveu a cabeça para trás num átimo, respirando com dificuldade.

E gemeu.

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— Mas que Inferno está...

O dedo indicador do moreno foi depositado em seus lábios antes que Dean tivesse a chance de completar o xingamento, e o loiro o encarou transtornado, sem saber ao certo qual era o lado mais absurdo de toda aquela situação: sua nudez, a cama, ou seu irmão.

Fique quieto. — o caçula pediu manhoso.

Sam. Definitivamente, Sam. O loiro não entendia o que estava havendo ali, não entendia o motivo de o mais alto estar enroscado em seu corpo, e não entendia por que aquilo, ao mesmo tempo em que soava absurdo, não chegava a tanto, principalmente por seu corpo parecer se negar a fazer o que queria. Olhando para cima, para a cabeceira da cama, via apenas suas mãos unidas e presas por algemas.

"Que tipo de cara tem uma fantasia erótica com o próprio irmão?" foi seu pensamento um tanto revoltado, quando tentou, não pela primeira vez, se soltar, mas tudo o que conseguiu como resposta aos movimentos bruscos foi o tilintar metálico e o rangido da madeira.

— Me solta. — grunhiu por entre os dentes trincados, encarando o que supostamente deveria ser uma sósia de seu irmão.

— E por que eu faria isso? — foi o que o moreno perguntou enquanto arqueava as sobrancelhas, e, logo em seguida, outro sorriso malicioso surgiu, antes de ele completar num tom rouco: —A menos que você me dê algo em troca.

— Vai se fo...

No momento em que ia terminar de praguejar, o mais alto inclinou o rosto em direção ao seu. A primeira reação do loiro foi desviar, evitando o beijo que o teria calado, sentindo o coração acelerar de forma considerável no peito. Em parte, estava desesperado, preso a uma cama, desejando fugir de toda aquela loucura que seu irmão provocava. A outra metade de seu cérebro ainda estava tentando digerir as informações, e, definitivamente, ter o moreno sobre si não ajudava em nada.

— Você está muito marrento, Dee. — Sam observou com uma expressão confusa, e segurou o rosto do mais velho entre suas mãos, obrigando-o a encará-lo antes de perguntar num tom genuinamente preocupado. —Foi algo que eu fiz?

"Dee?" os olhos esmeraldinos se arregalaram tanto que pareciam prestes a saltar das órbitas. "Dee?!"

Não sabia se ficava furioso pelo apelido bizarro que mais parecia o gaguejo de uma criança que não conseguia pronunciar seu nome, ou pela forma como os longos dedos do moreno brincavam com seu cabelo. Desde sempre, o caçula sabia que Dean odiava que as pessoas mexessem nos fios dourados.

Mas por que estava pensando em besteiras como aquela informação?! Deus, seu irmão o estava tratando como se fosse uma amante ou... Ou... Qualquer outra merda do tipo!

— Me solta. — rosnou, puxando novamente as algemas, e, mesmo que estas fossem forradas para não machucar seus pulsos, já sentia uma leve dor pela força exercida contra o objeto. — Agora.

Longos instantes se passaram, os olhos claros o observavam como se o loiro fosse um alien, ou, no mínimo, uma pessoa desconhecida. Então, bem lentamente, esperando por uma reação explosiva que não veio, Sam levou os lábios até o pescoço alvo do irmão, que, de imediato, se retesou, o encarando sem saber se deveria ficar irritado ou assustado.

— Para. — arregalou os olhos, sentindo o estômago revirar. — S-Sam...

Sammy. — o moreno corrigiu num tom vago, mais ocupado em deslizar a língua pela pele macia, e o encarou durante dois segundos, novamente sorrindo. —Eu adoro quando você me chama de Sammy.

Dean mordeu o lábio inferior até sentir o gosto de sangue, sentindo o corpo entrar em ebulição. Droga. Também não era de ferro, ora essa! Seu corpo reagia à provocação, era como se seus nervos estivessem todos em exposição, e cada centímetro avançado causava um calafrio em sua espinha. Mas não era exatamente... Ruim.

— O que você fez com meu irmão? — tentou grunhir, mas a tensão em sua voz o traiu.

O mais alto levou a boca à orelha do loiro, continuando a trabalhar com as mãos, num sussurro rouco que fez com que todos os pelos do corpo do loiro se arrepiassem:

— Uma novidade para você, Dee... — provocou, arrastando a alcunha, sentindo os espasmos do mais velho. — Eu sou seu irmão. Seu único e precioso Sammy.

Queria ter revidado. Deus, como desejou desesperadamente encontrar argumentos, palavras que pudessem contradizer com muita veemência o absurdo que havia acabado de ouvir! Mas todos os pensamentos coerentes se uniram ao prazer indesejado, formando um verdadeiro caos em sua mente, quando os dedos do mais novo alcançaram os pelos pubianos, e uma corrente elétrica pareceu percorrer seu âmago.

Dean lançou a cabeça para trás violentamente, sentindo o oxigênio faltar.

Gemendo.

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— Se divertindo, Samuel Winchester?

Ao som daquela voz arrastada e sarcástica, o moreno deixou de encarar o irmão, os olhos arregalados se voltando para encarar a mulher que se inclinava sobre os objetos metálicos, do outro lado da sala. Lorelly Martin parecia menor do que se lembrava, os fios loiros um tanto mais claros, quase platinados, as roupas negras ligeiramente largas no corpo pequeno.

— O que você fez com ele? — indagou com raiva, e automaticamente as mãos tentaram se libertar numa tentativa falha, porém furiosa. — O que você fez com meu irmão?

Ela se virou com as mãos na cintura. Sam sentiu o sangue sumir de seu rosto, a boca entreabrir-se em choque, ao notar que encarava uma mulher cujos olhos não estavam onde deveriam. As órbitas vazias lhe trouxeram alguma ânsia, pois, apesar de não ser a primeira vez que o via, anteriormente era apenas em cadáveres.

— O que você fez com ela? — questionou, o corpo estremecendo, enquanto lançava um rápido olhar preocupado para Dean.

Poderia aquela criatura repugnante planejar fazer o mesmo com ambos? O enjoo aumentou apenas de imaginar algo semelhante, e, por alguns segundos, Winchester sentiu a necessidade de fechar os olhos, apenas para tentar retirar aquela imagem nojenta de sua cabeça.

— Eu não me preocuparia com seu irmão agora, se fosse você. — Lorelly elevou as mãos em direção aos próprios fios loiros, brincando com as mechas lisas. — Sabe, há muito tempo... Eu era realmente bonita. Os gregos me chamavam de Nahemah, pela força de atração que eu exercia sobre os homens. Mas é claro que havia os invejosos, e me chamaram de bruxa... Meu corpo apodreceu numa fogueira enquanto eu lamentava, jovem Winchester, e meu marido não moveu um único dedo para me tirar das chamas.

Sam focou-se na região do pescoço da mulher, tentando não erguer os olhos para o rosto da mulher. Viu estranhos símbolos e queimaduras que certamente poderiam confirmar toda aquela loucura, mas, se Nahemah fora queimada, por que os sinais apareciam no corpo da outra jovem? Sua cabeça rodava, quando a loira prosseguiu, como se não percebesse o quão perdido em seus próprios pensamentos o moreno estava:

— A traição machuca uma mulher, sabia? Joshua Martin pagou o preço por traí-la, e Lorelly pagou sua dívida ao me entregar seu bem mais precioso. Diziam que "seus olhos de rio" eram a característica mais bela que jamais viram em outra mulher. E, se eu desejar reconstituir meu corpo, preciso de produtos de primeira qualidade, não é mesmo?

Winchester precisou de todo o autocontrole para soltar a respiração, porque seus pulmões imploravam por oxigênio. No entanto, ainda assim foi difícil puxar o ar, uma vez que lhe parecia que a mulher contava aquilo exatamente com o propósito de cravar as imagens em sua mente, a ferro e a fogo, para formar cicatrizes das quais não conseguiria se esquecer. Cerrando os dentes, perguntou num grunhido:

— Tudo isso se trata de vingança, então?

Nahemah moveu os ombros com indiferença.

— Foram precisos alguns sinais, Sam. — observou. — A chefia foi bem clara quando disse que eu deveria chamar a atenção dos Winchester, e não de qualquer outro caçador idiota o bastante para entrar no caso. Você e seu irmão nem mesmo se importaram em assistir às gravações das mortes, e isso foi um grande erro. Caso o tivessem feito, teriam notado desde o começo que a inocente Lorelly era a culpada. Mas, afinal de contas, foi um golpe de sorte. Eu usava a beleza da jovem viúva para seduzir até mesmo as idiotas que morreram. Então, não checar a vida íntima das vítimas também foi um erro, porque todas as mulheres eram lésbicas.

As informações pareciam se acumular na cabeça do moreno, que franziu o cenho ao mesmo tempo em que se odiava internamente pelo fato de ter acreditado em Ruby quando a loira lhe passara o endereço do website. Por que, mesmo, confiava tanto naquela mulher?

— Sua amiguinha do porão* pegou os dados com a pessoa errada, Winchester. — Nahemah sorriu largamente. — Confiar em Sallos foi um erro da parte dela, afinal. Ele não é tão burro quanto Ruby imagina, meu caro. E foi realmente uma pena perder o jovem Valefor, ele era um medium tão poderoso... Mas estamos numa guerra, e, se Sallos foi idiota o bastante para lançar seu melhor soldado no campo inimigo... Bem, não podemos fazer nada.

Sam fechou as mãos em punhos, odiando a si mesmo por não conseguir se livrar das malditas correntes. Quando estava prestes a retrucar, Dean emitiu outro gemido, e automaticamente todos os argumentos desapareceram da mente do moreno. Ele virou o rosto em direção ao irmão num átimo, apenas para ver que o loiro continuava com a cabeça inclinada para trás, mas, naquele momento, outra coisa lhe chamou a atenção.

Marcas vermelhas estavam presentes na região do pescoço do mais velho, algumas realmente fortes. E até algumas gotas de suor, que umedeciam a camisa já um tanto escura pelo sangue seco, e escorriam pela pele clara. Winchester sentiu como se um balde de água fria acabasse de ser lançado contra seu rosto; foi como se uma descarga elétrica percorresse seu corpo, pois ele reconhecia aquelas marcas. E os olhos se arregalaram pelo choque, quando Dean gemeu mais uma vez.

Definitivamente, o comentário sarcástico de Nahemah não melhorou as coisas:

— Parece que Mephistopheles está se divertindo...