Capítulo 21 — I can see, how broken and defeated you are. — ("Eu posso ver, o quão quebrado e derrotado você é.")

"Sweet dreams are made of these..."

"Doces sonhos são feitos disso..."

— Você gosta assim, não é? — foi o que Sam sussurrou num tom rouco, fazendo um anel com o indicador e o polegar, deslizando da ponta até a base do membro do irmão. — Gosta, Dee?

O loiro arquejou, e, se o prazer não afetasse diretamente seus pensamentos, teria tempo para notar o quão estranha era a imagem de seu irmão o tocando daquela forma, com aquela expressão maliciosa que denotava segundas intenções. E ainda tinha aquela porcaria de apelido... Droga. Ele gostava. Gostava da forma como a alcunha soava, sendo pronunciada tão pornograficamente pelos lábios do mais novo. Gostava da forma como o moreno o provocava, sussurrando palavras sujas ao pé de seu ouvido enquanto o masturbava de forma lenta e torturante.

— Filho da mãe! — xingou, respirando sonoramente pela boca, sentindo suas partes baixas latejarem ao contato da mão suada, arquejando. — O que você quer?

O moreno o encarou durante longos instantes, e repentinamente parou de mover os dedos, arrancando um resmungo do mais velho, que, apesar de tudo, não se deu ao luxo de reclamar. Os olhos claros fitaram seriamente os orbes esmeraldinos, de uma forma que Dean jamais havia sido encarado antes. E, internamente, ele se perguntou o que diabos aquilo tudo significava. Por que importava, ainda?

— Você.

Repentinamente, Winchester sentiu como se todo o oxigênio existente em seus pulmões houvesse sido retirado. Respirou fundo, tentando recuperar o ar, mas foi um gesto inútil, porque era como se uma grande placa de metal comprimisse seu peito. De alguma forma, doía.

— O... O quê?

— Eu. Quero. Você. — Sam repetiu, sem deixar de encará-lo.

Dean olhou novamente para as algemas, os orbes turmalinos consideravelmente arregalados, tentando se libertar. Porém, o forro escapou, e o metal cortou a pele num atrito doloroso. Quando os primeiros filetes do sangue escarlate começaram a cair, ele arfou. O moreno esticou a mão em direção a seus pulsos, e o mais velho fez um movimento brusco e violento.

Mais dor. Mais sangue.

O mais alto o encarou; desta vez, os olhos estavam completamente negros. O loiro soltou um riso nervoso e ligeiramente estrangulado.

— Sabia que não era Sam. — afirmou com convicção, apesar de a dúvida tê-lo atordoado há poucos instantes. — Sabia que não era meu irmão.

Revirando os olhos com incredulidade, o caçula tomou seu rosto entre as mãos, obrigando Winchester a encará-lo. Próximo. Talvez até demais. Respirando o mesmo ar; poucos centímetros separavam os lábios dos irmãos.

O radar interno de Dean enlouqueceu, sua respiração era sonora e acelerada. Em pânico.

— Você está errado. — Sam sussurrou, os olhos claros queimando nos orbes verdes. — I'm your little and precious Sammy. Eu sou tudo aquilo que deseja, não pode ter, e ainda assim toca. O quão desesperado, o quão carente você está para, ainda assim, negar absolutamente tudo que os aproxima da vulnerabilidade emocional?

Winchester cerrou os dentes para não dar uma resposta malcriada àquela pergunta. Não era seu irmão ali, não podia ser. Lutando contra o desejo de virar o rosto mais uma vez, apenas fechou os olhos com força, mesmo sentindo que ainda era encarado.

— Eu posso ver o que existe dentro de você, Dean. — o moreno prosseguiu. — Eu posso ver o quão quebrado e derrotado você está. Você não pode vencer, e você sabe disso. Você não está com fome, Dean*, porque, por dentro, você continua morto. Mas continua lutando, continua enfrentando as emoções.

O silêncio que se seguiu foi quase tortuoso para o primogênito, que comprimiu os lábios numa linha fina. Muito embora não desse crédito àquelas palavras, por ter certeza de que não era seu irmão de verdade quem as proferia, elas o afetavam, sim, e diretamente. Por quê? Porque era exatamente daquela forma que se sentia. Quebrado. Destruído. Não havia nada mais pelo que lutar, não havia uma razão real para toda aquela loucura.

Mary estava morta. John partira, e provavelmente também estava morto.

E, se continuasse a falhar com o mais novo, Sam também o abandonaria.

— Tudo o que o pai diz é "Cuide do Sammy"; "Proteja o seu irmãozinho, garoto"! Você ainda pode ouvir a voz dele dentro de sua cabeça, não é? Alta e clara. — o sussurro contra sua orelha continha uma pontada de desprezo que fez seu coração encolher no peito; afinal de contas, era a voz de seu irmão. — Porque o pai sabia, desde o começo, o que você é: um bom soldado e nada mais.

E então a dor. Rasgando seu peito de ponta a ponta, queimando. Dean lançou a cabeça para trás com violência, arquejando pela sensação repentina, diferente de tudo o que já havia provado com as lâminas. Era como uma pressão, e, ao mesmo tempo em que podia senti-la, tinha a absoluta e tétrica certeza de que, se abrisse os olhos, não veria nada além do mais alto. Respirando pesadamente, o loiro começou a mover as mãos, mesmo com os pulsos já cortados pelas algemas. O atrito foi mais doloroso, pois a brutalidade de seus movimentos feriu a pele já machucada.

— Sabe... Isso é só uma amostra do que você vai sentir, quando pegarmos aquele maldito anjo. — sentiu os dedos de Sam brincando com seu cabelo, e o peso sobre seu corpo tornou-se menor, sinal de que o moreno se afastara. — Toda essa... Dor... Você ainda vai prová-la quando estiver no Inferno. E vai ser ainda pior, Dean.

Correntes. Não eram algemas. Eram ganchos, presos diretamente em sua carne, rasgando.

Foi mais ou menos aí que ele gritou.

xxx

— Dean!

Sam lutou violentamente contra as correntes, e, talvez por sua total concentração no irmão, não notou o grande sorriso no rosto de Lorelly, que se afastou a passos silenciosos e se desfez, tal como uma miragem, mas bem aos poucos; restando apenas a vaga lembrança de que sua presença maligna estivera ali há pouco. O moreno sentia como se uma bomba-relógio estivesse presa em sua cabeça, tiquetaqueando, e aquilo era insuportável. Tentou novamente, e seus pulsos arderam.

Dean!

Repentinamente, acabou. A pressão contra seus braços, a força exercida pelas amarras que o prendiam. O caçula arregalou os olhos, mas não teve tempo para digerir a informação, porque, no segundo seguinte, após o choque de cair em câmera lenta, praticamente se arrastou até o irmão, obrigando-se a mover o corpo em direção ao loiro, que acertara o chão e ainda não dera nenhum sinal de vida.

O mais alto, porém, tinha a vantagem de não estar com mais nenhuma corrente prendendo seus pulsos, enquanto o primogênito Winchester permanecia com as mãos amarradas.

E, de forma alguma, Sam teria tempo de impedir que o mais velho se machucasse, mas, ainda assim, ao se aproximar e ver o líquido escarlate tingindo o chão e manchando a pele do irmão, o desespero fez seu coração parar de bater por alguns instantes.

— Hey, está tudo bem. — puxou Dean contra seu corpo, as mãos tremendo descontroladamente enquanto puxava as correntes e as afastava do loiro, tentando desfazer a confusão e, ao mesmo tempo, não machucar ainda mais o outro, que não dava nenhum sinal de vida. — Eu... Eu vou dar um jeito, cara... Você vai ficar bem...

Mas a falta de reação fez lágrimas surgirem nos olhos claros, enquanto embalava lentamente o rapaz, envolvendo-o com força entre seus braços.

— Está tudo bem, vai ficar tudo bem... — sussurrava como um mantra. — Dean, eu... Eu...

As palavras morreram em seus lábios, entalando sua garganta com os soluços que conteve a todo custo. Dean estava frio, apesar do sangue ainda quente verter das pequenas feridas em seus braços, e também de algum lugar não identificado pelo moreno.

— Tudo bem, cara... — engoliu em seco pela última vez, num soluço engasgado e sofrido. — Tudo bem, irmão. Eu... Eu vou cuidar de você...

No entanto, as primeiras lágrimas já escorriam livremente por seu rosto, sem que Sam pudesse sequer pensar em controlar o choro. Droga! Por que o loiro não acordava?! Por que não abria os olhos, por que não soltava uma piadinha idiota sobre como ele parecia uma menina, permitindo-se chorar daquela maneira?! Qualquer coisa seria melhor que aquela total falta de reação, aquela inércia.

Jamais havia sido preciso lidar com uma situação daquelas; era sempre o contrário. Dean era aquele que sempre precisava salvá-lo, e não o contrário. O moreno não entendia. Não queria entender o que os havia levado àquela situação. Não queria entender por que sentia que seu irmão estava morrendo em seus braços. Respirou fundo, trêmulo, apesar de ter a sensação de que seus pulmões haviam sido retirados e nenhum vestígio de oxigênio chegava ao cérebro. Balbuciando, sem nexo, perdido.

"Por favor, Dean, por favor..."

Ao menor movimento do peito tão forte e, ao mesmo tempo, suavemente pressionado ao seu, o caçula soltou uma exclamação de surpresa que mais parecia um arquejo choroso.

— S... Sammy?

Ele nunca poderia ter imaginado que um simples sussurro rouco, tão frágil, teria feito seu coração acelerar tanto, bater de maneira descompassada no peito. Baixando o rosto, ainda inundado pelas lágrimas, para encarar o irmão, o moreno encontrou dois grandes orbes esmeraldinos, um tanto atordoados, nublados pela sonolência. Talvez exaustão, não sabia ao certo.

Não havia luz. Apenas trevas. Não era com aquilo que estava acostumado. Onde estavam as piadas? Onde estava o sorriso sacana? Onde estava seu irmão? Era uma máscara. Durante todos aqueles anos, tendo de lidar com a insensatez, a irresponsabilidade, a impulsividade do mais velho... Droga. Aquilo tudo não significava nada.

Não era real. Toda aquela prepotência, todos aqueles sorrisos.

Nada daquilo era real.

— Você... Dean... Eu juro que... — não conseguiu completar nenhuma frase, porque nada mais fazia sentido naquele momento.

As mãos do loiro agarraram a gola da blusa do mais novo com uma força tirada sabe-se lá Deus de onde, a proximidade entre eles era tamanha que Sam podia sentir o hálito frio do irmão, soprando-lhe a face. E se perdeu nos olhos verdes, como se o coração não estivesse presente no peito. Um espaço vazio. Dor. Seu irmão mais velho, aquele cara que sempre admirou secretamente, sem jamais se permitir demonstrar... Apenas um bom soldadinho.

Com um simples e quebradiço sussurro, Dean conseguiu fazer desmoronar toda a mágoa, toda a raiva que Sam ainda nutria desde o momento em que descobrira o verdadeiro motivo pelo qual o irmão sempre carregava uma lâmina consigo. E foi num tom baixo, sem esperança, que ele fez seu pedido:

— Por favor, não me deixe aqui sozinho...

Não era como se implorasse a presença do mais alto, não era como se o estivesse incitando a prometer que iria ficar ao seu lado para todo o sempre. Dean não pedia para que o moreno cuidasse dele, não pedia nem mesmo para que o compreendesse. Ele só... Pedia para que permanecesse ali, pelo menos por algum tempo. Numa reles frase, pedia para que afastasse aquela dor, para que não o abandonasse.

Ele não tinha esperança. Ele não acreditava que o irmão pudesse, realmente, ficar. Todas as palavras não ditas, toda a mágoa adormecida, todas as memórias perdidas fizeram-se presentes no silêncio que se seguiu após aquela frase.

E, dentre todas as outras coisas, talvez fosse esse o fato que fez o caçula pressioná-lo contra seu peito com ainda mais força, obrigando-se a sentir cada centímetro do corpo do irmão que estava em seus braços. A respiração pesada contra seu pescoço, o coração acelerado, no mesmo ritmo que o seu. A tensão existente a partir do momento em que não obteve resposta.

Sam, sem se permitir gaguejar, afagou brevemente os ombros do mais baixo enquanto dizia num tom terno, que deixava claro todo o carinho que outrora estivera tão implícito:

— Não precisa ter medo, Dean; os monstros não vão poder te pegar enquanto eu estiver aqui.

O loiro não se moveu, a cabeça tombada contra seu ombro, a respiração incerta. Os olhos claros encheram-se, novamente, de lágrimas, enquanto o embalava, finalmente, com um sussurro fraco:

— Prometo.

"Who am I to disagree?"

"Quem sou eu para discordar?"