Capítulo 22 — Mommy, we all will go to Hell! – pt.1 — ("Mamãe, nós vamos todos para o Inferno! – Parte 1")
— Seu irmão está um pouco mais estável, mas o risco ainda é grande.
O moreno afundou o rosto entre as mãos, suspirando pesadamente ao sentir o alívio imenso que tomou conta de seu peito, apesar de a notícia não ser completamente boa. Durante alguns minutos, sentiu que era atentamente observado pela médica que acabara de lhe dizer aquilo, como se ela esperasse que tivesse um ataque ou qualquer coisa do tipo. Lembrava-se nitidamente da mentira cabeluda que precisara inventar para que o deixassem em paz com sua dor, enquanto aguardava notícias sobre Dean.
Uma gangue? Seu irmão, um viciado? Ele não conseguindo abandoná-lo e arriscando uma conversa diplomática que resultou na maior surra de suas vidas? Bem, fora a ideia mais convincente que lhe passara pela cabeça; principalmente depois de Amelia Richardson lhe perguntou que tipo de drogas o loiro tomava. Tudo passava como tortuosos flashes dos quais desejava amargamente se livrar, mas era como se sua mente não conseguisse se focar em outra coisa, e congelasse aquelas imagens apenas para que Sam não surtasse de vez.
Praticamente arrastara Dean para fora daquela sala, que mais tarde descobriu ser apenas um cômodo abandonado da casa de uma veterinária que se mudara havia pouco tempo. Para sua sorte, as contas do mês já estavam pagas, e teve a chance de usar o telefone para chamar uma ambulância. Não sabia onde estavam, mas foi só olhar para fora, pela janela, que conseguiu identificar o local e passar as devidas informações ao hospital.
Sioux Falls, South Dakota.
Sacudindo a cabeça para afastar novamente aqueles pensamentos perturbadores, Sam ergueu os olhos para observar a pouca movimentação no corredor, sentindo-se inquieto. Notava a médica conversando com os policiais a um canto, longe o bastante para que não pudesse ouvir, mas a forma como Amelia movia as mãos e o indicava dava a entender que era o assunto da discussão.
"O que será que eles estão conversando?"
Apesar de saber exatamente do que se tratava, Winchester preferia fingir que nada naquela situação lhe era estranho. Porque, no fim, a esperança era a única coisa que lhe restava. Mas, se seu irmão demorasse a despertar...
Droga. Eles estavam numa grande enrascada.
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— Como assim ele não estava na casa?!
Anna andava de um lado a outro, tentando digerir as informações que Castiel acabara de lhe passar. Seus dedos bagunçavam o cabelo ruivo de tempos em tempos, para conter o desejo que tinha de simplesmente socá-lo; passar tempo demais perseguindo Dean a estava afetando. O anjo, por outro lado, parecia relativamente calmo ao explicar a situação.
— Eu não sei. — meneou a cabeça em negação. — Lembro-me nitidamente de você ter dito que sentia a alma dele lá dentro. Depois, nada aconteceu. Quando dei por mim, a presença dele já surgia num local completamente diferente.
Milton bufou, irritada, e não sabia se era pelo descuido do irmão ou pela preocupação com Dean. Ouviu um longo suspiro, e, voltando os olhos verdes para encarar o moreno, notou que ele depositava uma mão em seu ombro. Instintivamente, relaxou.
— Acalme-se. — Castiel pediu. — Se aconteceu, é porque foi um desejo de nosso Pai.
Ela precisou de todo o autocontrole para não revirar os olhos e soltar algumas palavras malcriadas. Claro. Deus, com certeza, queria que o primogênito Winchester estivesse entre a vida e a morte, largado numa cama de um hospital qualquer num lugar perdido no mundo. Anna odiava a hipótese de ir procurá-lo e encontrar algo particularmente desesperador.
Podia sentir as oscilações estranhas, bem no fundo de seu âmago, e aquela sensação não era boa, como se existisse algum intruso perturbando algo que não deveria. Se ao menos pudesse tocar a alma de Dean, para ter certeza! Mas não. Era arriscado. Era arriscado, porque ele já estava machucado o bastante, tanto física quanto emocionalmente. Era arriscado, porque já havia instigado a alma do loiro, e de uma forma que não deveria.
Sua única opção era confiar nas palavras do homem ao seu lado.
— Claro. — controlou o sarcasmo, e suspirou profundamente enquanto se jogava na cama do quarto de hotel que havia acabado de alugar em Sioux Falls. — Com certeza, Castiel.
O anjo a observou, e aquilo não poderia estar mais claro nos olhos azuis: ele acreditava.
"Queria eu, não ter me tornado tão cética..."
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Havia uma pontada incômoda de dor na região de suas costelas, e algo esquisito preso em seu braço. Um som distante parecia seguir as batidas de seu coração, num "bip" irritante que pareceu se instalar dentro de sua mente, revirando-a de canto a canto. Tentou se mover, mas os membros estavam pesados demais para tal, e, afinal, ele não estava mesmo tão disposto a abrir os olhos.
Porém, no momento em que uma mão pousou sobre a sua, num toque cálido que lhe era estranhamente familiar e ao mesmo tempo absurdamente assustador, foi obrigado a lutar contra a doce inconsciência que ameaçava tomá-lo. Algo consideravelmente difícil, quando seu único desejo era se afogar naquele mar de escuridão e esquecer o restante do mundo ao seu redor.
"Eu não vou ficar aqui para ver suas tentativas suicidas e egoístas para tornar a vida mais fácil!"
Foi como uma descarga elétrica que afetou suas sinapses e o fez entrar num estranho estado que variava entre a tentativa quase cruel de abrir os olhos, e o intuito de deixar-se levar pelos braços frios e conhecidos da solidão. Grunhiu de forma rude qualquer coisa ininteligível, ouvindo uma exclamação de surpresa que pareceu dolorosamente próxima, seguida de perto por uma estranha agitação.
— Ele está despertando! Chamem Amelia!
Quem diabos era aquela? Teria mais tempo e disposição para conversar, se uma sensação esquisita não o tivesse afetado naquele mesmo instante. Era como se houvesse uma garra pressionando seu peito, esmagando lentamente o esterno*, e seu coração disparou. Aquele maldito bip, repetindo-se de novo e de novo e de novo, dando voltas em seu cérebro... Droga.
As pálpebras se abriram durante tempo o suficiente para poder ver a movimentação dentro do quarto branco daquele lugar desconhecido. Várias pessoas de jaleco branco, todas correndo, expressões preocupadas, e uma estranha mulher ao seu lado, com volumosos cachos e feições afiladas que pareciam se distorcer de acordo com a proximidade; afastando e voltando, afastando e voltando...
— O oxigênio no sangue baixou**!
— Pupilas não reativas e respirando com dificuldade!
— Precisamos entubar.
Os olhos de Dean reviraram, e, de repente, tudo ficou escuro.
