Capítulo 23 — Mommy, we all will go to Hell! – pt. 2 — ("Mamãe, nós vamos todos para o Inferno! – Parte 2")
Mary Campbell jamais acreditou em anjos. Quando era caçadora, tudo o que encontrava era composto por trevas. Não havia luz, não havia nada. Aquilo tudo era um grande pesadelo, do qual, por mais que tentasse, não conseguia fugir. Os negócios da família. Seus primos caçavam, seus pais, e, assim, ela também. Mesmo que isso a matasse lentamente, obrigando-a acreditar que contos de fadas não existiam de verdade.
E então, conheceu John Winchester, um ex-fuzileiro que voltara da guerra. Ele era como uma chama que ofuscava todo o restante, e a impedia de se perder para todo o sempre num mar de agonia que compunha a vida daqueles que estavam eternamente fadados a acabar com o mal do mundo. Ele fez com que ela voltasse a confiar, fez com que voltasse a ter esperanças de que o mundo poderia ser um lugar melhor.
A crença, então, tornou-se lenda. Quando seus pais, Samuel e Deanna, morreram, Mary tornou-se dura na queda! Constantemente brigavam, porque John não era mais tão doce quanto o que conhecera após o casamento. Mas, mesmo assim, amavam-se incondicionalmente. Quando a loira deu a notícia de que estava grávida, tudo ganhou novas cores, novos carinhos, novos amores. Amavam-se, e amavam a criança; fosse menino, fosse menina, seria a melhor coisa que já lhes acontecera.
Ela não queria que seus filhos crescessem no mesmo ambiente no qual fora criada. Por isso, jurou a si mesma jamais falar a respeito da vida de caçadora. E, por isso, escrevia em diários. Relatava tudo pelo que havia passado durante os longos e tortuosos dezoito anos nos quais foi praticamente obrigada a aprender tudo o que dizia respeito sobre criaturas sobrenaturais. Relatou, também, fatos sobre sua família. Sobre como adorava, quando pequena, o fato de o pai carregá-la nos ombros sempre com um sorriso, dando a impressão de que ela era uma inocente garotinha, e que nada poderia afetá-la. Como sua mãe era a melhor pessoa do mundo, sempre pronta para ajudar ou atirar, se necessário, comentando que poderia ser ela e não Samuel a matar o primeiro cara que a fizesse chorar.
Sobre como John era o cara que lhe daria seu final feliz. Sobre como Dean, seu primeiro filho, era simplesmente a criaturinha mais fofa que já havia visto em toda a vida, mesmo enquanto chorava.
Mary jamais permitiria que algo o machucasse. Jamais permitiria que a sociedade composta por sorrisos falsos e palavras amargas o fizesse se perder. Também não o tornaria um caçador. E, por isso, cantava. Cantava Hey Jude, porque queria que ele ouvisse e entendesse, mesmo que sua mente infantil não associasse as palavras. Cantava, porque tinha esperanças de que isso afastasse suas memórias e a impedisse de surtar, para que seu filho crescesse num mundo onde não havia trevas, onde não havia a necessidade crescente de carregar armas a todo momento, acreditando estar sendo perseguido.
Dean jamais precisaria carregar o peso do mundo em seus ombros, porque Mary estaria lá para ajudá-lo. Ela estaria lá para impedir que ele se perdesse. Estaria lá para aliviar a dor.
— And anytime you feel the pain, Hey Jude, refrain... Don't carry the world upon your shoulders...
Ele era seu pequeno anjinho, seu pequeno soldadinho. Tão adorável e tagarela! No começo, viu o receio do garotinho, quando deu a notícia de que estava grávida pela segunda vez; após passar a tarde assistindo Dean e John jogando baseboll, fizera questão de caprichar no jantar e na sobremesa, tendo a certeza de que o dia traria grandes surpresas para todos da família.
Seu marido a abraçou, beijou, e depois disso era só sorrisos. Seu filho apenas a fitou, calado, durante segundos que lhe pareceram intermináveis, e mesmo John começava a se preocupar com o silêncio, quando o menino perguntou com a voz aguda de um garotinho de três anos e meio:
— Vocês vão me deixar?
Após muito negar a possibilidade de abandoná-lo, naquela noite, Mary fez questão de deitar ao lado de Dean, aninhá-lo em seus braços e lhe contar histórias. Ela falava de anjos, e dragões que rodeavam um castelo cuja princesa eles salvariam juntos. Quando mencionou a garota da realeza, o loirinho fez uma careta e protestou:
— Uma princesa não!
E sua mãe o encarou com um olhar confuso.
— Um príncipe! — Dean sorriu largamente, surpreendendo-a, e esfregou os olhos de forma sonolenta, bocejando. — Porque se eu tiver um irmãozinho, poderemos ser os três mosqueteiros! E, se eu tiver uma irmãzinha, ela pode se casar com ele e se tornar uma rainha como a senhora!
Naquela mesma noite, quando voltou para seu quarto com lágrimas nos olhos, John perguntou por que estava chorando. Mary apenas sacudiu a cabeça, encostou a cabeça em seu peito, e pediu para que ele a abraçasse. Já perdera tudo, mas, agora, tinha de volta uma família; um esposo carinhoso, um filho adorável, e outra criança a caminho.
Ela queria ter a certeza de que seus filhos cresceriam num ambiente seguro e cheio de amor, para manter as asas da inocência, para que pudessem voar o mais longe, para que pudessem acreditar que seus sonhos se tornariam realidade. Ela queria que acreditassem em contos de fadas, porque, enquanto estivesse viva, jamais permitiria que o mal afetasse a vida de todos ali dentro, jamais permitiria que fizessem com que tudo se perdesse, como aconteceu quando era jovem e John impediu que afundasse na escuridão.
Mary desejava que nada de ruim pudesse acabar com os laços familiares, e prometeu a si mesma que, enquanto seu coração batesse, seus filhos e seu marido permaneceriam unidos.
Mas ela morreu, e aquele afeto todo se perdeu em algum momento entre esperar o sinal abrir, e atravessar a grande avenida que se estendia interminavelmente à frente dos Winchester.
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Dean abriu novamente os olhos tendo a sensação de que alguém socara sua cabeça num muro de concreto. Havia algo estranho em seu rosto, incômodo, e provavelmente teria arrancado naquele exato momento, se não notasse o aposento estranho no qual se encontrava naquele instante. Franzindo o cenho o máximo que a sonolência lhe permitia, apertando os olhos, ele questionou a si mesmo a respeito de ter ou não morrido.
Era tudo branco. Estava numa cama até que um tanto confortável, com vários aparelhos ligados a seu peito, e um tubo com agulhas intravenosas em seu braço. A um canto, havia uma televisão, e, dormindo de forma desconfortável no pequeno sofá das visitas, seu irmão, que acabou com as teorias da possível e provável morte.
Comprimiu os lábios antes de finalmente desviar o olhar, tentando entender que diabos de lugar era aquele. Não como hospital, porque disso ele já sabia, mas com relação à simplicidade que definitivamente não parecia existir em nenhum canto daquele quarto. Até mesmo uma pequena cômoda com begônias amarelas estava ali!
— Graças a Deus... — o sobressalto que teve ao ouvir a voz do caçula, tão próxima, fez com que o moreno lhe dirigisse um sorriso um tanto cansado, mas definitivamente aliviado. — Pensei que não abriria mais os olhos!
O loiro arqueou uma sobrancelha, e, na tentativa de se erguer, recebeu como resposta apenas as mãos do mais novo sobre seu peito, enquanto ele o encarava de olhos arregalados.
— Está louco?! — o tom era repreensivo. — Precisa de repouso, Dean!
— Vá se ferrar, Sam. — sacudiu a cabeça, mas uma pontada de dor na região cervical o obrigou a arquear um pouco o corpo, mordendo o lábio inferior com força.
O moreno imediatamente abandonou a postura indignada e assumiu uma expressão que se contorcia na mais pura preocupação. Ele esperou até que os músculos do mais velho relaxassem, bem lentamente, fitando-o com cuidado em busca de algum outro sinal que denunciasse o que estava sentindo. O loiro suspirou antes de finalmente se dar por vencido e permitir que as mãos do mais alto o conduzissem com lentidão de volta ao conforto dos travesseiros.
— Está sentindo dor? — Sam perguntou num tom cheio de cautela.
— Pare de me tratar como uma garotinha. — o humor ácido do mais baixo era inabalável. — Vou ficar bem. É só você me tirar daqui.
Havia uma pontada de culpa nos olhos claros do caçula, e Dean jamais admitiria que isso o fez se sentir minimamente melhor; pouco antes de ele sacudir a cabeça com veemência, permitiu-se esboçar um meio sorriso que durou poucos segundos.
— Claro que não. — o mais alto murmurou, sem encará-lo. — Amelia ainda precisa fazer alguns exames para ver o que diabos aconteceu com você. Vai checar tudo o que puder, para identificar o problema.
Amelia. Aquele nome despertou uma lembrança vaga que o loiro sequer sabia de onde viera: um crachá retangular, indo e vindo de acordo com a proximidade, a imagem desfocada, e uma foto de uma mulher morena com uma expressão meio risonha e meio séria, como se ela não soubesse exatamente o que fazer no momento em que a foto fosse de fato tirada. Logo, tratou de afastar aquela memória confusa, que só fez com que sua cabeça latejasse pelo incômodo.
— Por quanto tempo?
Não era necessário explicar aquela pergunta. Dean queria e tinha o direito de saber, mesmo que provavelmente ficasse exaltado após a notícia. Sam lembrava-se nitidamente dos alertas da médica, a respeito da possibilidade de seu irmão acordar, deveria imediatamente chamar um enfermeiro. E, no entanto, ali estava, confabulando com o irmão, pondo em risco todos os cuidados que outrora puderam mantê-lo vivo. Não sadio, mas bem o suficiente para praguejar ao acordar.
— E como, exatamente você pagou o hospital?
Deveria saber que não podia subestimar a inteligência do primogênito. Ele certamente notara que aquele quarto era certamente privado e ajeitado demais para ser um simples lugar público. O moreno franziu o cenho, e as mãos se ergueram automaticamente para bagunçar o cabelo comprido, afastando a franja dos olhos num gesto um tanto nervoso.
— Vou chamar uma enfermeira, primeiro. — antes que o irmão pudesse protestar, sacudiu a cabeça de forma cansada. — Depois, juro que te conto o que quiser.
O loiro comprimiu os lábios e fez uma careta, como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo. Mas, estranhamente, não discutiu. Simplesmente ergueu os ombros num gesto lento, e virou o rosto em direção ao mundo existente fora da janela, observando o pequeno movimento no estacionamento do local. Ele reconheceu os canteiros, as árvores. Reconheceu o prédio baixo e de aparência pitoresca logo em frente ao hospital. E a imagem quase se formava em sua mente, de forma assustadora: o Impala sendo estacionado às pressas bem na porta do lugar; seu pai o arrastando para fora do carro; o sangue, a dor; os aparelhos presos a seu peito numa sala cheia de luzes esquisitas e o barulho metálico dos apetrechos médicos, sendo seguido de perto pelo som do sangue gotejando e o tiquetaquear de um relógio ao longe.
"Droga."
Estava no McKennan Hospital.
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Os dias que se seguiram foram como uma tortura da qual não conseguia escapar. Sam estava exausto, simplesmente não entendia o que se passava pela cabeça do irmão, e tentar decifrar o que havia por trás de suas atitudes praticamente infantis estava muito além de algo que poderia suportar. Então, era a primeira vez em todo aquele tempo que saía do hospital para ir ao hotel no qual estavam hospedados. As coisas ali eram quase confortáveis, quase familiares, e sentiu um grande alívio ao desabar sobre a cama, afundando o rosto no travesseiro.
Amelia Richardson, a médica que, segundo Dean, tinha "cara de rato", continuava fazendo seus exames, mas era sincera com o moreno: não tinha a menor ideia do que estava causando aquelas alterações bruscas no organismo do mais velho. Mesmo fazendo análises específicas, nada estava sendo encontrado; nada que pudesse ajudá-los a parar, ou ao menos retardar o estado de decadência do loiro.
Mas, se fosse apenas isso que o perturbava, Winchester estaria absolutamente calmo, tentando encontrar meios sobrenaturais para se livrar de seja lá qual fosse o parasita que se instalara em seu irmão. Só que não era. Dean parecia não se importar, parecia nem mesmo dar importância ao fato de estar se afundando cada vez mais naquela escuridão que o moreno tentava tanto combater! Sam estava à procura de um medium, alguém que pudesse bater alguns tambores e trazer de volta a saúde do irmão, mas seus esforços pareciam ser em vão, uma vez que nem mesmo Fletcher sabia de alguém que pudesse ajudá-lo.
E, quando o loiro insistiu que deveria tirá-lo dali, e o mais alto perguntou o motivo, ele apenas o encarou com um sorriso irônico, como se tudo aquilo não passasse de uma grande piada, respondendo como se fosse óbvio:
— Qual é, cara! Eu não vou morrer num hospital onde as enfermeiras nem são gostosas!
Depois disso, o caçula já estava perdendo as esperanças de conseguir fazer com que o irmão o ouvisse. Não porque estava desistindo dele, não porque quisesse. Mas, naqueles últimos dias, eles estiveram mais próximos do que Sam jamais ousou pensar que estariam; antes de começarem a se aprofundar naquele maldito caso.
Remexeu-se na cama, inquieto, tentando entender por que diabos a imagem do loiro gemendo não lhe saía da cabeça, principalmente quando se recordava do que o demônio no corpo de Lorelly dissera. Era, ao mesmo tempo, assustador, cômico, e um tanto... Excitante. Não que sentisse algum tipo de atração pelo próprio irmão, longe disso. A memória apenas se tornara um tanto estranha, algo peculiar em meio a todo o caos do momento; e que, se aquela história terminasse bem, poderia levá-lo a ter crises de riso apenas para provocar o mais velho.
Gostaria de saber o que o havia feito sentir prazer enquanto esteve inconsciente.
"Ou dor.", uma voz irritante dentro de sua cabeça teimou em dizer, e isso tornou o incômodo maior. Lembrava-se nitidamente das palavras de Amelia a respeito das cicatrizes, pois as frases eram apenas mais um dos motivos que o levaram a voltar para o hotel. O que mais o estava tirando do sério? Resumia-se em apenas um nome: Dean. Dean e sua mania de agir como se tudo estivesse perfeitamente bem, mesmo quando o mundo desmoronava ao seu redor. Dean e seu pretexto idiota para sempre sorrir, para sempre fazer piadas de mau gosto. Dean e sua determinação em fazer parecer que não sentia dor, que não precisava de medicamentos. Como se tudo aquilo fosse apenas uma brincadeira, como se não passasse de um sonho do qual poderia acordar a qualquer instante.
Sam odiava se lembrar do descaso do loiro com relação à própria saúde debilitada.
— Você tem que cuidar bem daquele carro, ou eu juro que volto pra te assombrar.
— Isso não é engraçado.
— Qual é... É um pouco engraçado!
Tentava desesperadamente ligar para o pai, sabendo que John poderia ajudá-lo a encontrar uma salvação, mas ele não atendia. Quantas vezes, durante os exames em que não podia ficar ao lado do irmão, o moreno não tentou ao menos trocar algumas palavras com o homem? Mas não adiantava. Não adiantava, porque John era como Dean: não se importava. A diferença é que ele era o pai. Dean estava morrendo, definhando, e Sam não podia fazer nada. Por que ele ao menos não tentava?
"Aqui é John Winchester, deixe seu recado."
Com um longo suspiro, deu-se conta de que o sono não viria, porque, mesmo estando cansado, sua mente estava ativa demais para que sequer pudesse cogitar a possibilidade de fechar os olhos e adormecer num colchão. Levantou-se cambaleante, esfregando os olhos com o nó dos dedos, e sabia que precisaria de uma boa dose de cafeína, ou poderia correr o risco de dormir mais uma vez no hospital, e Dean certamente ficaria puto com isso.
O celular tocou, e o moreno demorou algum tempo para recordar onde, exatamente, havia guardado o aparelho. Bocejou longamente antes de erguê-lo na altura dos olhos para checar o contato que ligava.
Número Privado.
Estranhou, arqueando uma sobrancelha, antes de finalmente atender.
— Alô?
— Samuel? — a voz do outro lado era masculina, mas não se lembrava de conhecer alguém que a possuísse. — Sam Winchester?
Franziu o cenho, sem entender. Alguém que possuía aquele número, automaticamente teria plena consciência de que era ele ali. Isso fez com que uma pontinha de desconfiança surgisse, antes de finalmente responder num tom um tanto vago:
— Sim. — pigarreou. — Quem fala?
— Ouvi dizer que seu irmão está correndo perigo. — foi deliberadamente ignorado, mas o incômodo que o fato provocou morreu de imediato, ao ouvir as palavras seguintes do homem: — Conheço alguém que pode ajudar.
Algo bem no fundo de sua mente lhe dizia que não deveria confiar em estranhos, que não deveria dar ouvidos ao desconhecido que sabe-se lá Deus como havia conseguido seu celular. Mas não conseguiu, porque simplesmente se negava a fingir que não havia escutado nada. Dean. Deus, finalmente aparecera alguém que não o deixaria no escuro!
— Pode falar.
Durante alguns instantes, o silêncio que se seguiu fez com que ficasse apreensivo.
— Não vai ser algo simples, Sam. — havia alguma hesitação na voz, agora. — E, se der errado, seu irmão morre antes do tempo.
Aquela informação o deixou estático, em estado de total letargia. As palavras dançaram em seu cérebro, trouxeram um incômodo na boca do estômago. Sua respiração acelerou consideravelmente, saindo em arquejos, e as mãos começaram a suar. Perder Dean, caso as coisas não ocorressem como o esperado? Bem... Aquilo era um fato a ser considerado.
— Pode falar. — repetiu, mesmo que a voz falhasse. — Eu... Estou ouvindo você.
Era preferível arriscar. Não permitiria que seu irmão morresse, justamente agora que os laços fraternais pareciam finalmente estar se fortalecendo. Não permitiria que aquele medo o fizesse recuar. E, se John simplesmente ficaria parado esperando o primogênito morrer, Sam agiria para evitar aquilo, mesmo que custasse sua vida.
Porque Dean era seu irmão mais velho, e o moreno faria qualquer coisa por ele.
— Você vai precisar voltar, Sam. Voltar às raízes, encontrar o passado. Precisa falar com Jessica... Mesmo que ela esteja morta.
