Beta: Waldorf SaN
Capítulo 24 — Mommy, we all will go to Hell! – Final pt. — ("Mamãe, nós vamos todos para o Inferno! – Parte Final")
Sam não estava nem aí para o que dizia a voz do outro lado; até porque, após ouvir aquelas palavras, simplesmente apertou o botão que terminaria a chamada, e atirou o aparelho longe, ignorando quando a bateria se soltou e algumas pecinhas se espalharam pelo chão. Não queria se lembrar. Não podia; simples assim. Era errado. Doentio. O moreno não se permitia recordar, porque, se apenas aquelas poucas memórias ameaçavam afogá-lo, não queria nem imaginar o que aconteceria caso aceitasse de bom grado seja lá o que pudesse desabar sobre seus ombros após esmurrar o muro que tão cuidadosamente construíra para evitar que tudo aquilo viesse à tona.
E Jess... Oh, a doce Jessica Moore... Ela estava morta por sua culpa. Por seu descuido. Por seu desejo latente de seguir uma jornada insana ao lado do irmão. Se ela jamais tivesse presenciado o que presenciou... Se Dean não estivesse tão perturbado na época... Afundou o rosto entre as mãos, sentindo o corpo tenso. Doía, lembrar-se daquelas coisas. Doía, porque era como uma ferida suturada, cujos pontos alguém cutucava de forma incessante com a ponta de uma faca. Doía, porque agora seu mundo se resumia à única pessoa cuja qual ele desejava tão desesperadamente poder esquecer.
Agora, Dean significava muito mais do que Sam um dia ousaria desejar. Não somente por ser seu irmão, mas também por... Bem, estar sempre ali, ao seu lado, pronto para bater e apanhar se necessário. O moreno jamais entenderia aquele masoquismo, aquela superproteção que parecia fazer parte da personalidade do irmão, mas também não estava em condições de reclamar. Por quê? Porque, indiretamente, sempre saía ganhando com toda aquela merda. O loiro se fodia, sempre tentando fazer o que era melhor para o caçula, e, no fim, Sam terminava sempre sem saber o que fazer. Saía ganhando, sim; não significava que, necessariamente, precisava gostar daquela loucura. Não significava que queria ver o irmão machucado por sua causa.
Mas como fazer com que o mais velho entendesse? Como fazer com que aquele cabeça dura idiota aceitasse que não era mais um garotinho, que não precisava de todos aqueles cuidados? Mesmo quando o tratava de forma rude, há poucos dias, Dean jamais fizera menção de simplesmente virar as costas e abandoná-lo, jamais fizera menção de tentar fugir, como o erro que o moreno tantas vezes cometera. Aquilo deveria significar alguma coisa, certo?
"Ele se importa." era o pensamento mais assustador que tomava conta de sua mente, em todos aqueles cinco anos de caçada. "Dean se importa comigo."
E não era só porque eles tinham o mesmo sangue correndo nas veias. Ah, não; definitivamente, uma coisa nada tinha a ver com a outra. Mas então... Por que o loiro lutava tanto? Por que ele se negava a desistir, por que se negava a deixar o moreno em paz? O mais alto se lembrava de forma bem nítida da resposta que recebera, na primeira vez em que brigaram aos berros um com o outro, e o mais velho finalmente perdera a paciência.
— Você se acha muito importante, não é?! — apesar de toda a fúria, naquela época, Sam não pôde notar a decepção na voz do mais baixo. — O mundo não gira ao seu redor, caralho! Nem tudo se resume a escolhas que podemos tomar; nem tudo está sob nosso controle! Você não pode simplesmente decidir que vai pular fora, juntar suas coisas e desaparecer no mundo!
— Não posso?! — o moreno perguntou com ligeiro escárnio. — E quem é que vai me impedir, hein?! O pai?! Somos tão importantes para ele, que John sequer dá sinais de vida! Ele sequer se importa em saber se está tudo bem, se nós estamos bem! Mesmo que tente, eu não vou escutá-lo!
E então, Dean o segurara pelo colarinho, e foi também a primeira vez em que o mais alto notou sua respiração difícil, sonora, como se ele tivesse percorrido um longo e escaldante caminho até ali. Agora, que tinha mais consciência sobre como as coisas funcionavam para seu irmão, Sam sabia que aquilo tinha um mau motivo para acontecer. Ainda assim, as palavras seguintes ecoavam em sua mente, de novo e de novo, de maneira incessante.
— Se o pai não pode correr atrás de você, se ele não pode simplesmente te amarrar e te arrastar conosco... — os orbes turmalinos brilharam. — Então eu vou!
Eu vou proteger você, o moreno praticamente podia ouvir as palavras que o irmão não pronunciara. Podia ver, também, que entre o preto e o branco, Dean era apenas uma tímida nuance do cinza. Ele servia como intermediário, uma mistura entre as duas cores, como se tentasse demonstrar que elas podiam, sim, coexistir. E, naquela vasta gama, Sam era o tom mais claro, e John, o mais escuro; não se misturavam de jeito maneira.
Apenas o loiro conseguia fazer com que não matassem um ao outro, e, mesmo assim, às vezes, tentava tomar algum partido.
— Droga. — o moreno agarrou os fios escuros do próprio cabelo, odiando-se mais que tudo naquele momento. — Droga, droga... Droga!
Se o estranho de voz esquisita estivesse certo, e Sam não estava dizendo que ele tinha razão... As coisas estavam um tanto complicadas para seu lado. Frustrado, Winchester mordeu o lábio inferior, sentindo as mãos trêmulas. Precisava apenas ver seu irmão, mais uma vez. Precisava apenas garantir que ele tomaria os remédios certos, e se manteria longe das facas de cozinha, apenas por precaução.
Mesmo numa situação como aquela, precisou rir do próprio pensamento, tentando esconder de si mesmo toda a tensão que uma simples frase havia provocado.
Se der errado, seu irmão morre antes do tempo.
Mas Dean não iria morrer... Certo?
xxx
Irritado com todos aqueles mimos, o loiro afundou-se entre os travesseiros, ignorando o leve sorriso amigável de Amelia, enquanto ela media cuidadosamente sua pressão. Ele não gostava dela, embora não soubesse exatamente o motivo. Apenas não se dava bem com aquela imagem de "médica simpática" que Richardson mantinha desde o momento em que entrara ali; sempre sorrindo, sempre tentando fazer parecer que todos aqueles malditos exames e as retiradas de sangue nada mais eram que apenas um check up rotineiro.
Eu não entendo, era o que os olhos escuros da médica pareciam lhe dizer, enquanto ela anotava alguma coisa na prancheta que sempre levava até o quarto quando ia lhe dar algum medicamento ou seja lá que droga fosse aquilo. Não entendo o que há de errado com você.
E então, Dean forçava um sorriso sarcástico, e a morena parecia receber aquilo como um bom sinal, sempre perguntando se estava se sentindo bem, se não vinha tendo tonturas, se não sentia fome, se não sentia dores muito fortes na cabeça ou no abdômen, se tomava algum tipo de remédio sob prescrição médica... Óbvio. Apenas perguntas rotineiras, também. Quando ela finalmente virava as costas e saía, Winchester não se dava ao trabalho de manter a expressão irônica, e, quando Sam entrava, encontrava seu irmão apenas mexendo no controle da televisão, mudando rapidamente de canal e sempre reclamando a respeito de alguma coisa.
Porque, não, o mais velho jamais permitiria que o moreno soubesse que seu único desejo era escapulir para fora do McKennan Hospital, e sair daquela cidade para nunca mais voltar. Um bom motivo? As memórias; aquelas que surgiam de repente e faziam com que ele se sentisse um lixo, aquelas que há tempos mantinha, e que, uma vez na superfície, jamais retornavam ao fundo... Queria apenas escapar daquele pesadelo, mas, não importando o quanto pedisse, o quanto ameaçasse e o quanto xingasse a respeito, seu irmãozinho não mudava de ideia. Era irritante, pensar que agora precisava de algum tipo de consentimento do caçula para fazer alguma coisa, e começava a entender os motivos que levaram Sam a fugir do controle de seu pai e do próprio Dean.
Suspirou longamente quando, surgida sabe-se lá Deus de onde, Amelia entrou no quarto pela primeira vez naquele dia. Como já perdera a paciência com toda aquela ladainha a respeito de os pacientes precisarem sempre dizer a verdade para que os médicos pudessem ajudá-los, Winchester logo abria a boca para comentar alguma coisa obviamente mal educada, mas a piadinha morreu imediatamente, no exato momento em que notou a expressão da morena de jaleco branco.
Em todos aqueles dias, acreditava que jamais a havia visto tão preocupada quanto naquele momento. Quase automaticamente, franziu o cenho, sem saber ao certo se o desejo de perguntar o que havia de errado era maior que a vontade de perguntar o que havia de errado.
— Doutora? — sua voz pareceu despertá-la de um sonho ruim, e Richardson teve um leve sobressalto antes de se virar para encará-lo, parecendo surpresa por, pela primeira vez naquele tempo todo, o loiro de cara emburrada ter se pronunciado a respeito de alguma coisa. — Aconteceu alguma coisa? Você encontrou alguma coisa?
Talvez ela devesse esperar que o irmão responsável para dizer algo a respeito, mas... Certamente, isso não faria com que Dean confiasse mais em si, até porque sinceridade era crucial entre um médico e um paciente. Se tentasse enrolá-lo e dizer que era melhor esperarem por Sam, Winchester provavelmente surtaria e pensaria no pior.
— Acredito que tenhamos encontrado a raiz de um dos problemas. — Amelia esperou por alguma reação, mas o rapaz apenas a encarou de volta. — Até ontem à noite, não havia nada de errado com seus exames. Os de hoje cedo, no entanto, trouxeram uma importante questão à tona.
O loiro franziu o cenho, sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo. Manteve a expressão neutra, apesar de sentir-se inquieto. Pela forma como a doutora o encarava, parecia até... Penalizada? Dean não gostava da maneira como as sobrancelhas da morena se uniam numa linha preocupada, a maneira como mordia o lábio inferior ao fitá-lo. Dava a impressão de que...
"Irônico." foi seu primeiro pensamento, antes de sacudir a cabeça. "Vou morrer de qualquer jeito."
— E...? — estava esperando pela explicação.
Richardson continuou a observá-lo, antes de suspirar.
— Acho melhor esperarmos seu irmão voltar. Talvez ele queira saber sobre a mudança no quadro clínico.
Winchester comprimiu os lábios, contendo-se para não deixar escapar uma reclamação. Não entendia por que diabos Sam precisava estar ali. Era ele, Dean, quem estava definhando, não era? Por que o moreno precisava saber as coisas que nem mesmo ele tivera o desprazer de descobrir? Mas contentou-se apenas em fechar a cara e desviar os olhos para a janela do local arejado, enquanto cruzava os braços.
— Certo.
xxx
Sam não apareceu naquela tarde. Também não apareceu durante a noite. O loiro já estava exausto, mesmo não tendo feito absolutamente nada além de mudar o canal para ver se algo o distraía. E era estranho, porque, mesmo nos últimos dias, quando precisara sair dali para fazer toda aquela penca de exames, não ficara tão cansado. Dean era um cara durão, que caçava monstros, salvava "donzelas", e que seria capaz de arriscar a maldita vida que levava para salvar o pescoço do irmão ingrato que tinha. Não havia sentido em simplesmente se cansar por causa de uma porcaria de um botão para apertar.
Para o mais velho, as coisas estavam muito claras, tanto que chegavam até a lhe dar dor de cabeça. O caçula havia pulado do barco, caído fora, chutado o pau da barraca. Odiava lembrar-se daquelas palavras, de novo e de novo, fazendo seu cérebro entrar em curto a cada segundo em que se permitia saboreá-las e reprovar o gosto amargo que traziam. Estava tão nítido! Odiava se recordar de que, há pouco tempo, o moreno insistia em fingir que tudo estava perfeitamente bem, que eles encontrariam uma forma de tirá-lo daquele hospital; todo ferrado, todo quebrado e provavelmente mal-humorado, mas vivo.
O primogênito Winchester não era assim tão otimista. Desde o momento em que se descobriu no McKennan Hospital, soube que as coisas iriam de mal à pior. Soube que não haveria uma forma de escapar daquilo, e que sua vida se resumiria ao mundo regrado do lugar. Por quê? Porque era quase a mesma coisa que havia acontecido há tanto tempo, quando John o arrastou para o local. E, de certa forma, a lembrança não poderia ser mais dolorosa e desconexa. Pouco se lembrava, sendo sincero consigo mesmo, mas os flashes eram o suficiente para que gelasse.
Havia uma bandeja cheia de pinças das mais diversas formas, e uma delas em específico sempre lhe chamava mais a atenção que todo o restante. Era praticamente reta, mas a ponta se curvava e fazia uma "cabeça de cisne". Havia também uma faca, e algo que não tinha certeza, porém julgava ser um alicate. Dean não entendia o motivo, mas podia senti-las sendo cravadas em sua pele, de novo e de novo, numa queimação incessante que não podia evitar. E se lembrava de ter gritado, mais de uma vez. Lembrava da dor, e das lágrimas. E tinha lá seus 20 e tantos anos, mas nenhum tormento que precisara enfrentar sequer se comparava àquilo.
Mas eles não pararam.
E, pouco tempo depois, estava sendo arrastado pela rua como um trapo velho. E havia uma cama confortável, com um colchão macio e lençóis cheirando a lavanda. O loiro nunca entenderia o motivo de tudo ficar meio turvo quando tentava se lembrar daquela época, todavia estava até um pouco satisfeito com o fato. Não lembrar. Não lutar. Não sentir. Ele não precisaria se render, ou evitar aquela avalanche de emoções. Não precisaria se perder na própria dor, na própria esperança.
Inquieto, sacudiu a cabeça para afastar aquela memória, e afundou-se ainda mais no travesseiro, observando o teto com tédio.
Eu nunca vou desistir de você!
Sam era um filho da puta mentiroso.
xxx
O moreno não o fizera de propósito, na verdade. Só sabia, de alguma forma, que, se chegasse no horário certo, as coisas sairiam de controle. Então, tentou gastar o tempo que lhe restava pensando. Pensando em sua mãe, em seu pai, em Jessica. Pensando em todos aqueles que lhe eram importantes. Pensando em Dean. De alguma maneira, os traços de seu irmão se mesclavam aos de Moore. Eles tinham a mesma doçura no sorriso, o mesmo brilho no olhar. E, de certa forma, eram essas semelhanças que os diferenciavam. Jessica não se importava em demonstrar abertamente o que sentia. O loiro era um tanto mais atormentado.
Estranhamente, a sensação esquisita no âmago do rapaz, aquela que se fazia presente sempre que pensava na morte da garota... Se aquietou. As peças começaram a se encaixar, uma a uma, bem lentamente. Não doía, mas também não era bom. E, de repente, ele sabia o que deveria fazer.
Não seria agradável, definitivamente. Por pior que fosse, apesar de tudo, Sam também não se sentia culpado, ao levantar da cama e caminhar em direção à porta. Estava cansado. Cansado de fugir daquilo, de fugir do passado. Queria passar a limpo aquela história, queria compreender o que havia feito de errado, qual era o problema. Cerrando as mãos em punhos ao pegar a chave do Impala sobre a mesa, sabendo que sua primeira e talvez última parada fosse ao hospital, permitiu-se imaginar o que teria acontecido, há cinco anos, se Dean não o tivesse procurado.
Ambos estariam perdidos. E, acima de qualquer outra coisa, não existiria uma maneira de suturar as feridas. Eles jamais voltariam a possuir a fraternidade, jamais voltariam a compreenderem-se mutuamente com apenas um olhar. Pensando a respeito, o moreno se dava conta de que sua vida havia virado de cabeça para baixo, em apenas uma noite, mas, que se tivesse escolha, faria exatamente a mesma coisa. Talvez algo mudasse, aqui e ali, porém apenas na forma como tratava o irmão mais velho. Porque não queria perdê-lo, não queria sentir aquela dor excruciante que tomara conta de seu peito ao cogitar a possibilidade de o loiro não ser socorrido a tempo. Mas...
— Dean... Eu estou com medo... — sussurrou, cutucando o loiro, agachado em frente à cabeceira da cama. — Tive um pesadelo... Você pode me abraçar?
Seu irmão jamais o faria novamente. Jamais o pegaria em seus braços, durante uma noite de tempestade, e o ninaria até que adormecesse. Ele jamais cantaria baixinho, com voz rouca, todas aquelas músicas de Metallica, Black Sabbath ou o que fosse, intercalando cada pausa com palavras de conforto que afastariam os medos do mais novo. Há muito tempo que já não o fazia, mas, agora, Dean o olharia com asco, e não um carinho desmedido mascarado por palavras irônicas e piadas fora de hora. Ele não tentaria mais protegê-lo, não se importaria com sua segurança e seu bem-estar.
Ironicamente, não pela primeira vez, Sam estava prestes a acabar com aqueles laços fraternais.
xxx
Estando habituado a caminhar por aqueles corredores, tanto pelo tempo que ali passara quanto pela semelhança que possuía com outros hospitais dos quais fugira, ele não se sentia desconfortável ao perambular em direção ao quarto 696. Apesar de haver uma leve perturbação em seu âmago, não era nada forte o suficiente para fazê-lo mudar de ideia. Estava em total torpor, tocando a maçaneta da porta, sentindo a frieza do metal contra sua pele.
Precisa falar com Jessica. As palavras ecoaram em sua mente, um calafrio percorrendo sua espinha com o alerta de que tudo estava indo por água abaixo. Mesmo que ela esteja morta. Não era nisso que queria pensar. Não era nisso que queria se focar.
"Dean precisa de mim. Ele precisa que eu o ajude. Ele precisa que eu o tire de toda essa escuridão."
Foi com esse objetivo em mente, que Sam cruzou a porta, sentindo como se estivesse no piloto automático. O quarto estava escuro, mas era nítido que não havia ninguém na cama. Os olhos claros percorreram o ambiente durante meio segundo, antes de finalmente notar que a luz do banheiro estava acesa. Alguns minutos se passaram, antes de ele atravessar o cômodo e abrir também aquela porta.
Lembrou-se de sua namorada queimando no teto do apartamento. Lembrou-se da dor. Lembrou-se do único abraço que recebeu. E também se recordou do que encontrara, ao adentrar no banheiro e sentir a luminosidade ferindo-lhe os olhos.
Recordou-se das palavras de Samandriel, ao fixar o olhar no mais velho. E, não pela primeira vez, perguntou-se o que aquilo significava.
Vai haver um momento em que sua escolha não vai afetar só os Winchesters, Sam. Mas, de uma forma ou de outra... Tudo se resume a você. Você e seu irmão. O que vocês têm agora, e o que terão depois.
E havia sangue. O líquido vermelho manchava o chão, manchava as roupas hospitalares que seu irmão vestia. Mas o mais chocante... O que finalmente fez com que o moreno percebesse que aquilo era a única coisa que poderia fazer, ainda que não fosse certo... Foram os olhos de Dean. E eles não eram verdes, não brilhavam como o de costume.
Eram negros. Era como fitar a escuridão da noite, à procura de uma luz que pudesse indicar o caminho. E não havia luz alguma. Não havia nada que indicasse uma única centelha de vida. O coração do loiro continuava batendo, continuava bombeando o sangue que agora escorria pelos cortes feitos em seus braços, em seus pulsos, mas, por dentro, ele realmente estava morto. Quando o mais alto se aproximou a passos lentos, o mais velho o fitou. E não havia nada ali. Não havia carinho. Não havia raiva. Nem mesmo uma reles demonstração de afeto.
Dentre todas as outras coisas, isso foi o que fez o coração do moreno falhar.
— Hey. — um sorriso forçado, a voz fraca. — Sam.
Eu estava esperando por você, foram as palavras que pairaram na tensão presente em meio ao odor metálico e intenso que preenchia o ar. O moreno andou até estar parado em frente ao menor, ainda sentado, ainda recostado à parede branca, talvez sem forças para qualquer outra atitude que não aquela. Agachou-se, esticou a mão, e tocou seu rosto.
A pele estava fria. Suada. E o outro fechou os olhos com o contato.
— O que você mostrou a ele? — o caçula sussurrou, unindo sua testa à dele, tocando a maçã saliente de seu rosto, a linha do maxilar, subindo para os fios dourados. — O que mostrou ao meu irmão?
Mais um sorriso. Dessa vez, um pouco mais cruel.
— Por que não pergunta a ele, Sammy? — a entonação era pungente. — Dean provavelmente te daria uma resposta.
— Você sabe que não. Sabe que ele não diria nada.
— Talvez. Já tentou?
Silêncio.
— Foi o que pensei.
Sam não queria cogitar a possibilidade de sentir-se mais culpado pelo que fazia. E sabia que, independentemente do que pensasse a respeito, independentemente do que Dean fosse dizer, independentemente de todo o restante... Aquilo era a única coisa que o traria de volta. Quando aconteceu, no passado, a situação havia sido semelhante, embora menos perturbadora.
Afinal, havia Jessica para segurar as pontas, e impedir que surtasse. Ela havia sido seu porto seguro, seu consolo. E, de alguma forma, ajudara Dean também. Agora, Sam teria de lidar sozinho com todas as consequências que se seguiriam àquilo. Abominando-se mentalmente pelo próprio ato, uniu seus lábios aos do irmão mais velho.
Foi... Engraçado.
Eram mais saborosos do que se recordava.
