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À borda do desespero...

Seus olhos transluziam ansiedade e impressão pela inesperada aparição de sua mãe e irmã. As vozes ao seu redor foram sumindo à medida que a mente divagava no mais profundo de seus pensamentos. O desespero a atacou nesse instante. Não sabia o porquê, mas sentia uma forte vontade de sair correndo para o mais longe possível de tudo aquilo que lhe provocava dor. Entregou-se à lamentável resignação. Já não havia nada a fazer ou dizer, tudo havia se transformado em um verdadeiro problema que agora ela não sabia como resolver.

Um nó se fez em sua garganta ao ver seu pai sair pelas portas do elevador soltando em uma exclamação o nome dela. Seu irmão menor seguia o passo do pai.

– Sakura, o que aconteceu? - perguntou seu pai e ela não soube o que responder. Queria falar, mas as palavras não saíam.

O que fazia ali com eles? Como sabia que estavam ali?

– Tsunade, o que você disse à sua filha? - Jiraya a fulminou com o olhar. Tsunade franziu o cenho indignada. - Para que veio Tsunade? - atacou cheio de ira. Quem imaginaria que encontraria sua esposa no lobby do edifício depois de ter decidido dar uma volta com seu filho para aclarar a mente.

– Kimimaro, o que significa tudo isso? Supunha-se que deveria estar comigo na festa. - interveio Tayuya aproximando-se de seu prometido que só naquele momento deu-se conta da presença dela.

– Tayuya, sabe muito bem porque estou aqui. Já é tempo de esclarecer tudo e terminar com toda essa inimizade. - recordou-lhe ele. Tayuya franziu o cenho e repuxou levemente os lábios.

– Achei que falaríamos juntos com ela e não só você. - murmurou próxima do rosto dele. Ele a ignorou soltando-se de seu abraço para dar um passo adiante e cercar ao desprevenido Uchiha que se dispunha a marchar de todo aquele assunto.

– Quem é ele Kimimaro? - Tayuya questionou-lhe apontado com o olhar. Tsunade e os outros presentes prestaram atenção na grande interrogação fixando seus olhos naquele sujeito estranho, apenas Shikamaru tinha conhecimento de quem era ele.

Sem prestar atenção ao que ocorria em seu redor, Kimimaro se encaminhou em direção à Sakura que permanecia atrás do Uchiha.

– Sakura, temos que conversar. - falou com voz muito séria, estendeu sua mão e pegou a dela. Sakura reagiu naquele momento ao sentir o contato de sua mão e soltou-se de imediato. Com insistência, ele tentou pegar o braço dela para trazê-la até eles. Ela se negou.

– Não. - disse e se afastou para trás ao perceber a mão do jovem tentando pegá-la pelo braço. - Não quero falar com você e a verdade é que não entendo porque vieram todos aqui. - valorizou-se defendendo a si mesma, sua moral e sentimentos. Não queria terminar como uma tonta apaixonada, vítima de todos eles.

– Filha, tranquilize-se. Kimimaro só quer acertar as coisas e melhorar os laços entre você e sua irmã. Isso é tudo. - interveio Tsunade, Sakura a fulminou com o olhar.

– Mamãe, cale a boca! Por favor. - ordenou ela deixando sua mãe assombrada com sua atitude. - Como é possível que acredite em tudo isso! Por acaso não é consciente de tudo o que vivi? - o rosto de Sakura expressava frustração e decepção por sua mãe ter um aspecto tão despreocupado.

– Sakura, sempre é insegura! Por causa de todo o mundo e por sua causa mesmo! Kimimaro é um bom rapaz que só busca formalizar laços entre você e sua irmã. - exclamou Tsunade. Sakura bufou irritada com aquilo.

– Sim mamãe! Sou uma maldita insegura! Mas toda essa insegurança se deve a você! - proferiu furiosa. As pessoas que passavam olhavam de canto, outros paravam para assistir aquela cena. - Tenho uma mãe arrogante e que foi criada com uma educação muito puritana e humilha a todos. Está mais preocupada com sua alta vida social e as convenções do que com seus dois filhos menores que carecem de carinho, conselhos e segurança. Cresci com insegurança por causa do seu abandono. - Tsunade abriu a boca indignada.

– Está vendo Jiraya! É a isto o que me refiro! Você nunca foi um bom exemplo paterno para seus filhos! Eles são malcriados. - ela o acusou furiosa. - Nem sequer me respeita como sua mãe.

– Ela só disse a verdade. - respondeu Jiraya com o semblante sério.

– E lhe apoia com toda essa falácia! Não é verdade? - soltou aquelas palavras com grande indignação.

– Mamãe. - Tayuya a chamou e a tomou pelo braço direito antes que Tsunade caía aos tapas com Jiraya na presença de todas aquelas pessoas.

– Por isso está assim tão depressiva! É por tua culpa! Olhe para ela! Nem sequer sabe com quem está ou deixa de estar! É uma mentirosa compulsiva! Disse ao Kimimaro que Shikamaru o havia insultado e que estava com ela. Eu mesma comprovei e Tayuya também que era mentira, pois o vimos estacionar na frente do prédio!

– NÃO! Shikamaru não estava comigo no elevador! Não foi ele que insultou ao Kimimaro! Foi meu vizinho! E a verdade é que a grosseria que ele disse não foi precisamente para Kimimaro! - respirou fundo. - Kimimaro foi quem tomou tudo como pessoal e eu me aproveitei disso para que ele me deixasse em paz e não viesse ao meu apartamento!

– Não acredito em você Sakura! Esse tipinho me insultou, inclusive pegou o telefone para continuar me insultando. - interrompeu Kimimaro.

– Pergunte a ele então! - disse Sakura buscando com os olhos ao Uchiha que estava longe daquele circo de loucos. Ela se encaminhou até ele e segurou-o pelo braço.

Era mais que uma simples irritação para ele. Ela o incentivou a caminhar e tencionou-se ao ver que ela pretendia fazê-lo voltar àquela reunião de loucos.

– O que está fazendo mulher? – Sasuke se soltou de seu agarre com brusquidão, mas decidida, ela voltou a tomá-lo pelo braço e dando um grande puxão. – Ficou louca! – ele a acusou cheio de ira soltando-se novamente. Sakura se virou e o encarou diretamente nos olhos.

– Anda! Diga-lhe! – falou ela deixando-o completamente absorto.

– Dizer o que a quem? - perguntou Sasuke de má vontade.

– Diga-lhe que não foi você quem o insultou!

– Ah não?! E então quem foi? – Sasuke falou com ironia e sarcasmo.

– Não se faça de palhaço que bem sabe que não foi você quem o insultou. – falou ela irritada e apontando o dedo para ele.

– O que importa quem foi ou não. Não sou homem de explicações. – virou-se disposto a continuar seu caminho, mas ela novamente o deteve colocando-se frente a ele. – E agora o que quer? – suspirou exasperado.

– Por favor, esclarece tudo isso de uma vez. Não quero que Shikamaru saia mais prejudicado do que está agora. – mordeu o lábio e olhou para trás pela enésima vez comprovando que Shikamaru e Sandy seguiam discutindo.

Olimpicamente foi ignorada por ele que nem se preocupou em dar-lhe uma resposta, continuava seu passo até as escadas que o levariam direto para o estacionamento subterrâneo. Amaldiçoou mentalmente o técnico contratado para arrumar o elevador de acesso ao estacionamento e assim não ter que descer as malas de dois em dois pelas escadas, mas para sua falta de sorte, o condenado do elevador baixava e subia sem problemas a todos os pisos com exceção da área de estacionamento. Que irônico! Não?!

Assegurou-se de ter bem seguras suas maletas de rodinha e começou a descer. Sakura interferiu outra vez segurando-o pelo braço e prejudicando seu equilíbrio. Deixou as malas de lado e encarou aquela mulher crendo que ela fazia tudo aquilo de propósito para enlouquecê-lo.

Se havia alguém que desfrutava tirar a vizinha do seu juízo e fazê-la explodir em um paroxismo desenfreado de ira, esse era Uchiha Sasuke... segundo ela e sua maneira de enxergar as coisas. O irônico da vida é que a forma dela de pensar sobre seu vizinho não era solitária, pois seu vizinho tinha o mesmo pensar. Claro que é! Tudo era ao revés. Ela era a causadora de sua ira, a que desfrutava tirá-lo de seus momentos de tranquilidade e colocar-se ao seu nível. Era mais que irônico saber que duas pessoas tinham o mesmo pensar e se discriminavam da mesma forma.

– O que acontece com você? – atacou irritado fulminando-a com aquela mirada fria e penetrante. – Está louca ou o que? – a mirou com expectativa atento a qualquer movimento dela.

Sakura o encarou com aversão, inalou uma grande quantidade de ar e exalou... Estava irritada. Esse "cavalheiro" havia gritado com ela diante de todos sem nenhum pudor.

– Não! – proferiu com uma grande exclamação. – Não estou louca! Estou furiosa! – finalizou quase aos gritos. Ele apenas bufou para o alívio dela. Ele estava irritado e a ponto de silenciá-la com uma grande sacudida para ver se isso a fazia reagir e compreender de uma vez por todas que no mundo não se vive como nos vídeos de jogos ou coisas fantasiosas, mas para seu azar estavam em lugar "público" e ela era "mulher".

A situação piorou e para sua sorte o circo de loucos que ela tinha como família havia seguido seu rastro e fazendo parte do pequeno "bate-papo" que eles estavam tendo como "bons vizinhos". Sakura franziu o cenho de maneira estranha ao ver a face de desagrado estampada no rosto de Sasuke e voltou-se curiosa para ver o que ele havia fulminado com tanta aversão atrás dela. Suspirou cansada ao ver quem os seguia.

Shikamaru fatigado da conversação com Sandy ao qual não havia chegado a lugar nenhum, já que ela tomava a palavra e o interrompia, decidiu deixá-la de lado e buscar a Sakura para que esclarecesse de uma vez todo o ocorrido. Sandy o seguiu e foi seguida por Tayuya com seu apoio incondicional de "grande amiga cafetina". Kimimaro que tinha um único propósito em mente e era o de falar com Sakura, também se encaminhou na direção em que ela foi e uniu-se inconscientemente à caravana de problemas. Tsunade que havia estacionado seu carro no estacionamento do edifício e se viu forçada a recorrer àquele estreito corredor seguiu em frente e foi acompanhada por Jiraya que procurava de todas as formas que ela lhe desse um verdadeiro motivo para o divórcio e não tentar recuperar seu matrimônio com terapia de casais. Konohamaru seguiu o passo de seus pais preocupado com a forte discussão que estes tinham enquanto caminhavam.

Sakura não via o fato de estarem todos ali como uma simples casualidade. Enfureceu-se ainda mais pelo atrevimento de segui-la com o propósito de atormentá-la.

– Sakura. – Shikamaru a chamou e sério deteve-se na frente dela. – Temos que conversar. Tem que me explicar o que é toda essa loucura. – disse quase como uma ordem. Sakura negou com a cabeça, voltou-se e prestou atenção no único homem com quem tinha que acertar contas... Sasuke.

– Não foi minha intenção colocá-lo no meio desse circo de loucos, mas tem que me entender. – tentou abrandá-lo um pouco. Ele bufou diante da ignorância dela em relação à sua pessoa e da esperança de que tais palavras o abrandariam e ele aceitaria sem mais nem menos.

– Claro que a entendo! Assim como entendo que você necessita urgentemente de um psicólogo que lhe ajude com sua depressão! – disse com sarcasmo irritando-a um pouco mais. – Está estragando meu dia e pelo que vejo, não pensa em parar tornando-o pior. Estou atrasado para um voo. – fez uma pausa, levantou a mão direita e subiu um pouco a manga de sua jaqueta para ver a hora que marcava seu Rolex. – Melhor ainda! Perdi um voo! Estive com você quase quarenta e cinco minutos trancafiado no maldito elevador deste edifício e para meu desespero você não me causa só um problema, mas vários, incluindo uma grande enxaqueca. Agora me vem com sua cara de mulher inocente e pede que eu esclareça um assunto que você mesma inventou e me pôs no meio de tudo. – finalizou com voz série e tranquila.

– Está bem! Já entendi!... Céus! Perdão! – proferiu exasperada. Por quê? Por que sua vida se complicava tanto?!

– Então... Se já entendeu não há mais nada para falar. – finalizou ele sério dando a volta para ir, mas ela o deteve novamente fazendo a exceção de chamá-lo pelo nome e ter o atrevimento de segurá-lo pelo braço como tinha feito desde o princípio.

– Sasuke. – sua voz se quebrou. Sentia-se rara e nervosa ao dizer seu nome como se houvesse feito algo inadequado. Não soube dizer como aprendeu seu nome, pois não o conhecia e mal falava dele.

Ele franziu o cenho entre surpreendido e molesto, voltou-se para vê-la esperando sua resposta.

– Admito que tenha sido grosseira com você e ambos não simpatizamos pelo que vejo, mas por favor, eu peço que esclareça esse problema, que só diga que foi você quem disse isso e eu te prometo que do resto eu me encarregarei. Esclarecerei tudo. – pediu-lhe fazendo um esforço para ser amável ao invés de grosseira como queria ser com esse tipinho.

– Sakura... – chamou a voz de sua mãe que estava severamente irritada. – Temos que conversar e é agora mesmo. – tomou-a pelo braço direito e tentou tirá-la dali, mas no mesmo instante Sakura livrou-se de sua mão.

– Não mamãe! Não temos que conversar. Não agora. – contestou ela voltando-se em direção ao Uchiha. – Não sou de implorar e a verdade é que hoje estou me surpreendendo por quase pedi-lo de joelhos, mas tem que me entender, eu preciso muito que esclareça todo esse mal entendido antes que a confusão se estenda e termine pior do que já está. – disse quase em desespero enquanto sua mãe lhe falava como louca.

– Sakura! Por acaso não é consciente que toda esta situação afeta sua irmã Tayuya! Pense nela e em seu futuro! – proferiu sua mãe. Jiraya ficou indignado e decidiu intervir na situação.

– Tsunade! – Jiraya a repreendeu. Ela virou-se e o encarou. – Você que não é consciente de que toda esta situação afeta nossa filha. Por deus! Pensa nela por um maldito segundo! – exclamou irritado e quase perplexo diante da atitude da mulher que amava como sua própria vida.

– Jiraya, não estou para sermões. Quem não entende que uma de minhas filhas passa por uma situação grave é você! Logo se casará e em vez de estar feliz anda deprimida por tantos problemas que sua irmã lhe causa. – atacou ela irritada. Virou-se para ver Sakura.

– Sakura. Não é possível que não seja consciente do dano que causa na relação da sua irmã? Por uma vez em sua vida! Faça algo útil e bom e termina já com todo esse assunto! Já basta de tanta inimizade e problemas! – pediu Tsunade. Aquelas palavras só pioraram o estado psicológico de sua filha que agora não carregava apenas uma culpa, mas esta estava agregada à felicidade de sua irmã... E onde ficava a felicidade dela?

Entre tanta discussão, Sakura perdeu o Uchiha de vista que havia seguido adiante e começado a descer os primeiros degraus da enorme escada. Quase aos tropeços conseguiu alcançá-lo e o deteve pelo braço novamente.

Ele não pensou no que fazia, nem se deu conta de seus atos e movimentos. Não soube no que estava pensando ou fazendo e na realidade com tanto problema e tantas vozes falando, não tinha cabeça para pensar antes de atuar cometendo contra ela o indevido, ou melhor dizendo... o pior.

Em uma questão de uma fração de segundos, tudo afundou no mais profundo silêncio, todos encararam o corpo imóvel da Haruno que caía no último degrau da escada. Sasuke se encontrava entre surpreso, irritado e assustado. Piscou várias vezes comprovando que aquilo não era um pesadelo e que na realidade ele havia empurrado ela... assim era como todos deveriam ter assimilado: que ele havia empurrado ela e não foi acidentalmente, depois de tudo, entre eles dois havia antecedentes bastante graves para que qualquer um acreditasse em um mal entendido.

A verdade é que não queria empurrá-la senão colocá-la de lado e assim poder ir embora, mas ele muito tonto, se esqueceu por um momento que lidava com uma mulher, não mediu sua força e a fez perder o equilíbrio e cair pelas escadas.

Fulminou com o olhar a Naruto que surgiu de repente na porta de entrada do estacionamento subterrâneo e encontrou-se de frente, a quatro pés de distância, com o corpo da Haruno estendido no solo.

Naruto havia saído de seu apartamento e descido até o estacionamento para buscar sua carteira. Desceu pelas escadas de emergência ao ver que o elevador não estava disponível e encontrou com a alarmante cena de Sasuke deixando Sakura de lado até que esta perdesse o equilíbrio.

– S-Sakura-chan! – Naruto reagiu imediatamente agachando-se até o corpo dela. Os demais desceram as escadas tão rápido quanto puderam.

O primeiro a se aproximar foi seu pai que imediatamente avaliou sua pequena pedindo aos gritos que chamassem uma ambulância.

Sua mãe pegou o telefone celular e ligou para emergência pedindo desesperadamente uma ambulância. Por não saber a direção entregou o telefone ao Shikamaru que estava mais apto para informá-lo à operadora enquanto ela mesma se agachava para ver sua pequena.

– Ah Sakura! – soltou Tsunade entre lamuriosa e nervosa passando as mãos pelo rosto de sua pequena para ver se esta reagia.

– Papai! Sakura vai morrer! – Konohamaru perguntou alarmado.

– O que é que está dizendo Konohamaru! – sua mãe o fulminou com o olhar irritada com aquele comentário.

Sasuke levantou suas mãos e as passou pelo rosto com exasperação... Deus!... a sorte não está do seu lado e tudo piora ao seu redor. Agora sim ela teria um bom motivo para processá-lo com gosto.

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