CAPÍTULO II


(Cap. 2) Sam

Sam estava feliz como nunca estivera antes. Leve como quem acorda de um pesadelo e descobre que era apenas um sonho ruim e que o dia amanhecera lindo. Os monstros ficaram para trás, na escuridão de onde nunca deveriam ter saído. Era calouro em Stanford. Sentia no rosto a brisa suave do verão. E o mais importante: estava apaixonado. Loucamente apaixonado.

Jessica. Mal chegara e já ganhara a garota mais linda do campus. Mais linda, mais inteligente, mais especial, mais tudo de bom. Mal conseguia acreditar quando a ouvia dizer que o amava. A ele, Sam.

Tinha medo que acreditar que era especial, mas ela o fazia acreditar que sim.

Sentia falta do irmão, claro. Muita. Mas ele lembrava uma fase de sua vida que queria esquecer. Se para esquecer essa fase, precisasse esquecer o Dean, assim seria. Teria que ser.

Jessica tornara tudo mais fácil. Fácil demais, até. Ela e os estudos ocupavam todo seu tempo. Mais ainda, se o dia tivesse mais horas.

Ainda não tinha acontecido. Mas ia. Sonhava com isso. Tinha certeza que enlouqueceria se tivesse que esperar mais um ano, um mês, uma semana. Mas, não podia pressionar. Não queria parecer cafajeste. Queria que fosse especial. Especial para eles dois.

Sabia que, com ela, nunca seria apenas sexo. Adorava conversar com ela. Ouvi-la contar o que tinha feito. O que ia fazer. Os planos que tinha para o futuro. Tantos planos: formatura, trabalho, constituir uma família, viajar, continuar estudando, mil coisas com um milhão de detalhes. E ele se via nestes planos. Adotava esses sonhos como seus. Voltara a acreditar que teria um futuro. Um futuro normal.

Muito estudo, claro. Tantas mudanças de cidade e de escola cobravam seu preço. Mas, tinha certeza que conseguiria. O mais difícil fora enfrentar o pai. Agora que estava em Stanford, podia vencer qualquer um, qualquer coisa. E ele gostava de estudar, de aprender coisas novas, de escutar idéias novas. Ia conseguir. Tinha certeza que sim.

Crescera rápido. Já era mais alto que Dean. Era forte, ágil, seu corpo reagia como por instinto numa situação de perigo. Podia facilmente mandar um valentão para o hospital. A única coisa boa de tantos anos de treinamento. Mas, estava disposto a nunca mais resolver os problemas na porrada. Esperava desarmar os adversários com um sorriso. Sua nova arma.

Seu sorriso ajudara muito a conquistar Jess. E ele planejava usar esse sorriso e o olhar de cãozinho abandonado que sabia fazer tão bem para dar o passo seguinte com Jess. Ia usar seus poderes para o mal.

Seu sorriso ajudara a fazer amigos. Mas, apesar de toda sua determinação, precisou usar também os punhos. Valentões existiam em qualquer lugar, até mesmo em Stanford. E ele não conseguia ver alguém abusar da força sem agir. Por isso, apesar de andar com os populares, seu grupo de amigos incluía também alguns dos esquisitões que normalmente são excluídos da efervescente vida social das universidades.

Jess falou que a turma ia num barzinho da moda em San Jose na quinta. E também que o pessoal não estava gostando nada da forma como os dois se afastaram de todos e passaram a se bastar. Como se nada mais existisse. Como se não tivessem muito tempo pela frente. Como se o mundo fosse acabar amanhã.


(Cap. 3) John

John vinha colhendo evidências da ação de um novo tipo de monstro. O padrão era a descoberta de restos mortais de indivíduos que muitos juravam ter vistos vivos e bem, dias ou até meses após a data que a autópsia indicava como a data provável da morte. Como se o monstro depois de matar, duplicasse o corpo da vítima e o usasse por um tempo; depois repetisse o processo.

Parecia ter surgido nos últimos anos um novo padrão na escolha das vítimas: uma alternância de homens jovens oportunistas e homens de meia idade de sucesso, ou seja: michês profissionais ou de ocasião e homossexuais no armário. Antes, a alternância era de jovens trabalhadores, geralmente longe de suas cidades de origem e sem grandes vínculos com o lugar, e jovens mulheres de vida duvidosa, divorciadas ou prostitutas.

Muitos dos corpos tinham sido semidevorados e jamais poderiam ter sido reconhecidos sem a ajuda de técnicas avançadas, como a análise de DNA e técnicas para reconstituição do crânio. As mãos nunca eram encontradas e o rosto, quando a cabeça era encontrada, estava sempre horrivelmente desfigurado. Ou seja, a criatura propositalmente buscava impedir o reconhecimento dos corpos. Não era um animal furioso, era dotado de inteligência.

DNA, que presumivelmente seria do predador, encontrado no corpo da nova vítima batia com o DNA da vítima imediatamente anterior. Não era mito ou lenda urbana. Estava tudo muito bem documentado e cientificamente provado. Algumas vezes era o DNA do predador que permitia identificar quem fora a vítima anterior.

Alguns casos mais antigos estavam sendo reabertos e a identificação seria possível com técnicas não disponíveis na época que aconteceram.

Vistas em conjunto, as ocorrências das últimas duas décadas indicavam que a criatura estava em movimento. Atravessando o país do centro para oeste. A última vítima, um aspirante a ator de nome Tristan Ross, fora encontrada próximo à fronteira da Califórnia. Era jovem e lembrava muito Sam.

Intensificara as pesquisas quanto constatou essa tendência. Sam estava na Califórnia. Claro, milhões moravam na Califórnia. Não havia nada que indicasse qualquer motivo para temer que especificamente Sam estivesse em perigo. Mas aprendera a confiar em seus instintos. E eles lhe gritavam que Sam corria perigo. Perigo real e imediato.


(Cap. 4) Dean

Há dias que Dean não recebia notícias do pai. Não fazia idéia em que caso o pai estava trabalhando. Mas, tinha tanta confiança na capacidade do seu eterno herói de infância John Winchester que não ficava realmente preocupado durante suas longas ausências. Era como se o pai fosse realmente um simples caixeiro-viajante que vendesse aspiradores de porta em porta.

Há meses que não falava com Sam. Não desde que este saíra de casa após discutir com o pai. Sabia que Sam era teimoso e determinado, mas pensou que faria contato. Daria notícias. Buscaria notícias. Mas, nada. Isso estava acabando com ele.

Ele também não tomara a iniciativa de ligar. Já segurara o fone milhares de vezes, mas sempre se contivera a tempo. Não daria o braço a torcer. Não daria esse gostinho a Sam. Não ligaria.

– Bastardo!

Gritou com raiva, mas a raiva não durou nem um minuto. A preocupação voltou, ainda mais forte. Aquela preocupação que todo pai sente enquanto não vê o filho chegar são e salvo em casa. Aquela sensação de injustiça que toda mãe sente quanto vê que o filho que criou com tanto carinho pensa em trocá-la pela primeira vagabunda desclassificada que conheceu.

No caso, a vagabunda era centenária e atendia pelo nome de Universidade de Stanford. Dean criara o irmão praticamente sozinho, ensinara tudo que sabia. Como evitar esses sentimentos tão típicos de pai e de mãe?

Era um caçador, mas se sentia enjaulado, vulnerável sem o pai e sem o irmão.

Não podia continuar assim. Tinha que fazer alguma coisa. O pai o chamaria se precisasse dele. Ia se certificar que Sam estava bem. Esconderia bem os rastros. Ele nem ficaria sabendo.

Chegaria em Palo Alto em três dias, no máximo. Era uma cidade pequena, pouco mais de 55.000 habitantes. Descobriria onde Sam estava morando. Provavelmente no campus da universidade. Descobriria com quem estava saindo e se estava metido em alguma fria. Sam devia estar aproveitando o tempo livre para traçar tudo que é garota que aparecesse na frente. Afinal de contas, era seu irmão, era um Winchester.

Esquecia convenientemente que ele próprio não levara garota alguma para cama desde que Sam se fora.


21.01.2013