CAPÍTULO III


(Cap. 5) Bobby

A melhor biblioteca à disposição da comunidade de caçadores pertencia a Bobby Singer, ele próprio um caçador experiente. Na comunidade, todos o conheciam e respeitavam. Fora deste círculo restrito, no entanto, era um completo desconhecido. Afinal, quem acreditaria que existia uma inestimável coleção de livros sobre o sobrenatural escondida num ferro-velho em Sioux Fall, South Dakota?

Bobby não era simplesmente um colecionador. Era um estudioso. Um especialista. Lera cada um daqueles livros, separando o joio do trigo. Uma tarefa hercúlea considerando que os poucos textos em inglês eram em inglês arcaico ou mesmo anglo-saxão. Latim, grego e até japonês. Ser especialista em sobrenatural significava ser especialista em idiomas (no plural).

Bobby estava desacelerando. Atuava cada vez menos na linha de frente. Não tinha mais paciência para longas tocaias e nem fôlego para longas perseguições. Repassar informações para outros caçadores fora a forma que encontrara para manter-se na ativa sem sair do conforto do lar.

Desde que recebera o telefonema de John, mergulhara na pesquisa. O que era essa criatura? Como identificá-la na multidão? Como defender-se dela num combate corpo a corpo? E, na hipótese improvável de uma boa e velha bala na cabeça não dar o resultado esperado, como matá-la ou como mantê-la morta?

Sabia que John já estendera sua própria pesquisa até onde fora possível. Havia um número razoável de indícios sobre pessoas declaradas mortas que foram avistadas saudáveis para em seguida desaparecerem de vez. Mas, de nada adiantaria perder tempo com casos muito antigos. As pistas esfriavam rápido e o mais comum era não haver pista alguma a seguir. O que não faltavam eram becos sem saída. E também grandes lacunas.

Um desaparecimento aqui, outro alguns meses depois numa cidade mais adiante, restos humanos encontrados naquela região muitos anos antes, histórias repetidas pelos mais velhos sobre mortes misteriosas num passado distante, uma noticiazinha escondida nas páginas centrais de um jornaleco local. E outras coisas do tipo. Dificilmente outro que não John Winchester conseguiria estabelecer qualquer relação entre fatos tão isolados no tempo e no espaço.

Nisto, John era imbatível. Enxergava padrões onde quase todos viam um amontoado de dados sem nenhuma relação.

Muitos tipos de criaturas podiam mudar de forma, a maior parte de humano para animal ou de animal para humano. Lobisomens eram os mais comuns. Mas, não mantinham a forma lupina por muito tempo. Algumas horas em períodos bem definidos. Tudo muito previsível. E não houve avistamentos registrados de feras. As mutilações não foram atribuídas a ataques de animais.

Vampiros podem se passar por humanos, mas não podem escolher a forma humana em que se apresentam. Mantêm para sempre a aparência que tinham no momento da morte. Podemos descartá-los da lista de suspeitos.

Deuses podiam mudar de forma sem restrições. Zeus seduzira Leda na forma de cisne. E assumira a forma do marido de Alcmena para driblar sua resistência. A motivação de Zeus, e de outros deuses evoluídos, era quase sempre sexo. Não há lendas sobre mudarem de forma para matarem alguém.

É verdade que havia deuses mais sombrios, com motivações desconhecidas. Divindades marinhas como Proteus e Nereu, com proles que herdaram seus poderes de transformação. Mas, destes há muito não se ouve falar.

E, naturalmente, demônios. De muitas mitologias. Podendo assumir o controle de um corpo e depois transferir-se para outro. Mas, matar e depois duplicar o corpo do morto? Demônios até podiam mudar a aparência do corpo que ocuparam, mas não criar um segundo corpo. E, novamente, faltavam registros de manifestações demoníacas e de rituais de invocação. E havia excesso de provas científicas.

Homens podiam ser transformados em feras por feitiços. Como no caso da tripulação de Ulisses pela feiticeira Circe. O folclore europeu conta a história do príncipe transformado em sapo e da princesa transformada em cisne, entre muitos outros. Mas, aqui, também não há controle da transformação. Os enfeitiçados dependem de alguém que lhes restitua a humanidade perdida.

Na linha da transformação por feitiços, havia ainda os skinwalkers navajos, muito mais próximos no tempo e no espaço, que as criaturas gregas.


(Cap. 6) Tristan

Tristan estava entediado. Até aí, nenhuma novidade. Era seu estado permanente. Se tédio matasse, estaria fazendo companhia ao irmão no cemitério local há muito tempo. Não sabia ou se lembrava de nada minimamente empolgante que tenha acontecido naquele fim de mundo desde muito antes dele nascer.

Os dias se sucediam e ele não via qualquer diferença entre um dia e o anterior. Nunca acontecia nada. Era de enlouquecer qualquer um.

Milharais a perder de vista. O céu onipotente. Nenhuma montanha. Uma paisagem monótona. Gente vazia de idéias e transbordante de preconceitos e de senso comum. Nada que fosse diferente era bem-vindo naquela cidade. Definitivamente, aquele não era o seu lugar.

Continuava achando inacreditável que sua mãe, bonita e esclarecida, tivesse se deixado encantar por um caipira babaca e acabado literalmente ENTERRADA num campo de milho.

- Sim! O caipira babaca é o meu pai.

'Houve uma época em que ninguém chamaria Peter Joseph Ross de babaca. Muito menos em voz alta. Não sem perder alguns dentes. E ganhar vários chutes nas costelas. Capitão do time de football do ginásio local, Pete era idolatrado por idiotas ainda maiores que ele, que pareciam existir apenas para inflar ainda mais o seu ego.

Minha mãe morava em San Jose, na Califórnia, mas veio para Cú-do-Mundo, Kansas, passar as férias com minha avó, que na época tinha uma fazenda próxima daqui. Assistindo uma partida de football, apaixonou-se pelo entusiasmo, mas, principalmente, pelo corpo perfeito do melhor jogador da cidade.

Sim, porque pela inteligência dele não pode ter sido.

Quatro meses depois, grávida, casou com o herói. Eu nasci. Mais treze meses e minha mãe morreria no segundo parto. O bebê também não sobreviveu. Teve mais sorte que eu. Não conviveu com nosso pai.

Essa avó, mãe da minha mãe, vem me ver uma vez a cada dois anos (se tanto), me traz presentes (alguns até caros), mas nunca me convidou pra conhecer sua casa em San Jose. Quando eu era criança, pedia que me levasse lá. Ela sempre se fazia de desentendida. Eu finalmente entendi que ela nunca me convidaria e não toquei mais no assunto.

Fui criado pela minha outra avó, Martha, a mãe de Pete. Minha avó Martha é a única coisa boa deste lugar esquecido por Deus. Um lugar em que nada prospera. O melhor exemplo é meu pai Pete, que nunca tornou-se a sensação do football que alguns um dia acharam que seria.

No que vó Martha acredita piamente ter sido um momento de sensatez, meu pai comprou o posto de gasolina na entrada da cidade e viu o tempo passar. E o tempo passou.

Quando o físico perfeito do meu pai foi arruinado pelo excesso de cerveja, ficou evidente para todos o que eu já sabia desde criancinha. Que ele era um perdedor, um caipira babaca, e que nunca seria algo mais do que isso.

Tinha minhas duas avós, mas não tinha um pai. Nunca consegui fazer com que meu pai gostasse de mim. Ele me olhava de longe e dificilmente me dirigia a palavra. Mas, fugindo do clichê, não me batia. Nem quando bebia. Pelo menos não mais que qualquer pai daquela região batia nos filhos. Às vezes, eu até desejava que ele batesse em mim. Só assim eu saberia que pelo menos naquele minuto eu tinha sua atenção.

Desisti de tentar agradá-lo. Passei a agredi-lo. Não fisicamente. Apesar de tudo, ele era meu pai. Mas, passei a contrariá-lo nas mínimas coisas. A rejeitar tudo o que ele prezava. Tudo que me fizesse parecer com ele. Queria provocar uma reação. Quem sabe numa discussão, ele finalmente revelasse o que eu tinha feito de errado? O porquê dele não gostar de mim.

Já era um atleta medíocre. Comecei a me vestir diferente, só para chocar. Isso não me tornou mais popular nem na escola, nem com as garotas. Quando tentava me aproximar de alguma, sentia o clima de "quem esse cara pensa que engana". Mesmo quem não me chamava de viadinho, pensava isso.

Fui trabalhar no negócio da família e, mesmo trabalhando no dia a dia com meu pai, lado a lado, ele continuava a me ignorar. Não caia nas minhas provocações, não me xingava. Mantinha-se distante e me mantinha distante dos seus amigos. Acho que, como todos na cidade, me achava 'delicado' demais. Mas, gostei de saber que, quando um de seus colegas de bebedeira expressou essa opinião na sua frente, teve o nariz quebrado por um murro.

Me escutaram falando em ser ator e, quem ainda estava em dúvida, passou a ter certeza. Sentia os sorrisinhos por onde passava. Mais do que nunca, eu queria, eu precisava sair daquela cidade. Descobrir até aonde aquela estrada podia me levar.

Não, eu não era gay. Nunca fui. Mas, aceitei a carona do primeiro que se ofereceu a me tirar dali.

Não foi uma boa idéia.

Definitivamente, não foi.


Notas finais do capítulo
Esse capítulo é o primeiro da linha do tempo da história.


24.01.2013