CAPÍTULO IV


(Cap. 7) Walker

O monstro dormiu por todo o fim de semana. Mais de 40 horas seguidas. Precisava deste tempo para consolidar a transformação. E agora era um processo rápido. Há três décadas, precisava de quase uma semana. No início, era quase uma hibernação.

Precisava do sono para reforçar as memórias que desejava manter de outras encarnações. Os conhecimentos úteis. Reforçar a própria personalidade, cada vez mais parecida com uma colcha de retalhos.

Estava aprendendo. Não queria repetir velhos erros. Se podia escolher, porque não escolher o melhor. No mundo atual, beleza, juventude e dinheiro são valorizados. Infelizmente, estes não eram os únicos aspectos a serem considerados. O requisito mais importante era ter compatibilidade genética.

Compatibilidade genética. Só recentemente encontrara o termo que explicava esse aspecto essencial do processo que permita que absorvesse e mantivesse as características físicas e os processos mentais dos indivíduos que devorava.

Se não houvesse compatibilidade, a transformação acontecia, mas não se completava. Logo seria preciso repetir o processo com outro indivíduo. Ou morreria.

A identificação de quem era ou não compatível tinha que ser instintiva, pois era uma questão de vida ou morte quando havia poucas opções. Aqueles da sua espécie que não tinham essa percepção desenvolvida não conseguiram sobreviver.

Determinadas características genéticas eram como ouro, pois se incorporavam definitivamente à matriz genética do transmorfo, trazendo vantagens evolutivas. Não podiam ser desperdiçadas mesmo que o indivíduo fosse velho ou pobre. Para um metamorfo, era como se essas pessoas brilhassem em meio à multidão.

Podia assumir um corpo permanentemente, mas isso era uma sentença de morte anunciada e o principal motivo por serem hoje tão poucos. A vida humana é muito curta. A troca de corpos garantia uma imortalidade potencial.

Também não era possível estender a posse de um corpo por anos e anos, quase toda uma vida humana, e, só então, trocar. Quanto mais tempo, mais doloroso e mais arriscado se tornava. Emergir da antiga casca, partindo a carne, podia ser impossível. Era como morrer ao dar a luz.

O tempo ideal era próximo a um ano. Mais que cinco anos já era muito arriscado.

A absorção completa da identidade e das memórias exigia devorar a vítima. Havia uma grande perda de massa corporal no processo de emergir da antiga casca, que precisava ser reposta de alguma maneira e de forma rápida. O ideal era devorar também os próprios restos.

O que parece repugnante para a maioria dos humanos, é natural para os metamorfos. São capazes comer de uma só vez quantidades inimagináveis para um humano. Os próprios restos mais todo o corpo de um homem adulto.

E isso era cada vez mais importante. Os humanos agora dispõem de técnicas de identificação genética. E mostram-se cada vez mais persistentes em elucidar crimes violentos. No passado, o interesse por um corpo mutilado logo se evaporava. Os metamorfos terão que ser muito mais cuidadosos e adaptativos se quiserem sobreviver como espécie.

O garoto Tristan, por exemplo. Fora interrompido antes de fazer desaparecer o corpo. Por sorte, passara a usar uma serra e não os dentes, para não dar a chance de classificarem as mortes como resultantes de ataque animal em área urbana. Isso atrairia muito mais atenção.

Passara também a devorar em primeiro lugar a própria casca. Aquela massa orgânica parecendo uma veste de carne traria toda a imprensa nacional para o lugar. A repercussão seria gigantesca e traria conseqüências permanentes.

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Kim Walker era seu novo nome. Um nome ironicamente apropriado. Quase skinwalker. Um achado. O homem fora a sua melhor escolha em muitos anos. Agressivo, impiedoso, determinado, astuto, criativo. Uma imensa lista de vantagens na luta pela sobrevivência.

Queria manter essas características no futuro, o que significava ter que permanecer naquele corpo por mais alguns meses. O que não seria nenhum sacrifício. Walker era razoavelmente rico e isso era muito conveniente.

Mas, justamente agora, encontrara o portador de um destes tesouros genéticos. Incrementado com algo que não conseguia identificar, mas que sabia que circulava em seu sangue. Não podia deixá-lo escapar. Não, não podia. Sam Winchester era por demais especial.

Tristan também era especial, por isso se arriscara e o escolhera. E, convenientemente, tinha 2 dos 3 elementos bônus: era belo e jovem. O que fez dele a isca perfeita para Kimberly Walker, o Sr. Sucesso.

Estava numa maré de sorte.


(Cap. 8) Sam

Sam estava animado com o curso de direito. Embora destoasse de praticamente todos ali.

Sam acreditava que ser advogado era uma forma de fazer o certo, de garantir que a justiça prevaleceria no final. A grande maioria de seus colegas acreditava que era somente a melhor forma de fazer dinheiro.

Via com tristeza que, para muitos dos colegas, tudo rodava em torno de dinheiro e que palavras como 'ética', 'verdade' e 'justiça' existiam apenas para serem usadas em frases de efeito nos tribunais e em coletivas de imprensa.

Sam teimava em acreditar que o sistema de justiça americano funcionava e que a verdade acabaria sempre por se impor. Só não decidira ainda se o mais importante era salvar os inocentes ou condenar os culpados. As dúvidas que atormentavam a maioria eram mais prosaicas. Um escritório próprio ou fazer carreira nas grandes corporações? Especializar-se em heranças e divórcios ou embarcar na rentável indústria das indenizações?

Estava cercado de herdeiros de grandes fortunas, mas não se impressionava com isso. Não passava pela sua cabeça forçar a barra e cavar amizades apenas para criar uma rede de contatos privilegiados a ser usada no futuro para alavancar sua carreira.

Os colegas não sabiam como classificar Sam pelo seu comportamento. Um pobretão que era não um grande esportista. Que não se importava de ser visto com os esquisitos. Que não buscava aproximar-se dos endinheirados nem manter-se ostensivamente afastado deles. Sam agia sempre de forma desconcertantemente natural com todos. Estava sempre animado, interessado, de alto-astral. Era preciso ser muito esnobe ou muito invejoso para não gostar dele. Circulava com facilidade entre grupos muito diferentes. Estava aos poucos conquistando a todos. Sam era um fenômeno de aceitação.

Mesmo assim, continuavam não entendendo com alguém podia chegar a algum lugar agarrando-se a valores tão ultrapassados. Não classificavam Sam como idealista e sim como idiota.

Sam não se sentia nem inferior nem superior a ninguém. Mas, sabia que sua história de vida o fizera diferente de todos eles. Seus valores eram outros. Estivera próximo da morte uma dúzia de vezes. Vira coisas que deixariam a maioria com distúrbios de sono pelo resto da vida. Sobrevivera e agora dava valor à rotina, à normalidade e às coisas que andavam sob a luz do sol.

Também fazia sucesso com as garotas. Galinhou muito nos primeiros meses. Até que conheceu Jessica Moore e virou monge. Em mais de um sentido. Sim, porque parecia que Jessica estava resistindo, ninguém entendia o porquê. O que ela queria? Ser a única virgem do campus?

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Viu Ross vindo em sua direção. Abriu um amplo sorriso. Gostava de Ross. Simpatizara com ele de cara. Já o considerava seu melhor amigo em Stanford, quase um irmão.

Só não percebia que um dos motivos para gostar de Ross era porque no jeito e nos gestos ele lembrava muito Dean. E não só na forma de agir. Alguém que conhecesse os dois diria que Ross lembrava muito Dean também na aparência física.

Mas, Sam não enxergava essa semelhança. Para ele, Dean era único. Ninguém era nem remotamente parecido com ele. Pensou em Dean e balançou a cabeça para afastar a lembrança incômoda.

Ross era outra ave rara da turma de direito. Também não estava ali pelo dinheiro. Bem, talvez porque neste quesito sua família já tivesse bem mais que o suficiente. Parecia ter uma vocação genuína para o exercício da advocacia. Queria ser promotor. Praticava artes marciais, mas fazia a linha zen. E o que era mais contraditório: tinha uma atração mórbida por crimes violentos.

Ross buscava na internet os casos mais escabrosos e tentava animar Sam a visitarem as cenas dos crimes. Claro que nem passava pela cabeça de Sam deixar-se levar pelos devaneios de Ross. Os interesses dele estavam muito próximos das coisas de que Sam fugia.

– Vamos, Sam! Carson City. São poucas horas daqui.

– Você acha mesmo que vou cruzar a fronteira do Estado para me enfiar com você num quarto de motel?

– Não é uma proposta amorosa.

– É bom mesmo que não seja. Você pode ser faixa-preta, mas ainda tenho um bom cruzado de direita.

– Já reafirmou sua opção heterossexual, que, aliás, também é a minha. Pode me escutar agora?

– Fala.

– Um homem jovem. Chegou com outro, bem mais velho. Registraram-se no motel com nomes falsos. A polícia foi chamada por um outro motivo qualquer e isso assustou o assassino, que fugiu às pressas. O cadáver do rapaz foi encontrado no quarto pouco depois. Estava sem uma perna e sem os dois braços, que não foram encontrados. O desmembramento foi realizado com uma serra manual. A segunda perna estava quase que totalmente seccionada na altura da coxa, mas foi deixada para trás.

– Ross, já passou pela sua cabeça que talvez sua verdadeira vocação seja a medicina legal? Fazer autópsias te daria a chance de fazer coisas bem divertidas, como cavoucar cadáveres. Parece que estou vendo você dando uma mordida num sanduíche e depois pousando ele numa bancada para ter as duas mãos livres para remover o fígado do cadáver retalhado à sua frente.

– É realmente algo a considerar. E nem pense em comer o sanduíche que ficou na bancada. Faça isso e é seu fígado que eu vou acabar retirando. Talvez até faça um sanduíche com ele.

– Argh! Não duvido nada de algo assim vindo de você.

– Sabe o que eu acho mais estranho? O assassino ter fugido levando consigo algumas partes do corpo do Tris .. do rapaz morto. O que ele pretendia com isso? O que será que ele fez com essas partes?

– Você não mencionou o que aconteceu com a parte mais importante. Aquela! O assassino cortou fora ou deixou no lugar?

– Babaca. Estou aqui falando sério e você sacaneando. Foi um crime bárbaro. Algo completamente injustificado. Eu pelo menos fiquei chocado. Só de imaginar o que ele pode ter passado .. Como alguém pode fazer algo assim. Ele era só um ano mais velho que a gente. Se chamava Tristan, o mesmo nome do meu avô.

– Deixe-me adivinhar. O rapaz era michê?

– NÃO ERA!

– Não?

– Ah! Sei lá! Como eu posso saber? Sei que é isso o que parece. Mas, NÃO. Ele tinha uma família. Ele não ia fazer uma besteira dessas. Também, não importa. O que importa é que ele não merecia isso. Ninguém merece uma morte tão horrível.

A expressão de Ross, indignada, mas não só isso, magoada, fez com que Sam se sentisse mal por ter tratado o caso na base da brincadeira.

– Desculpe, Ross. Você está certo. Foi um comentário infeliz. Realmente, não é o que importa. O que mais?

– Ele era do Kansas, como você.

– Não fala mal do Kansas. No fundo, muuuuuuito no fundo, é um lugar legal.

– Acredito. Não espalha, mas .. eu também nasci lá.

– Sério? Jurava que você fosse daqui mesmo, de San Jose.

– Praticamente. Vivi minha vida inteira aqui. Minha família é do Kansas, mas minha mãe se mudou para a Califórnia para cursar a faculdade. Ela estava no segundo ano de Administração na UCLA, quando conheceu meu pai. Tinha ido passar as férias de verão com a mãe na propriedade da família. Na época, minha avó tinha uma fazenda imensa perto de Topeka. Não conheço todos os detalhes porque minha avó não gosta que se toque no assunto. O fato é que minha mãe morreu no parto e minha avó me trouxe para cá. Não sei bem porque ela vendeu a fazenda e acabou ficando por aqui. Ela às vezes vai a Topeka, mas nunca me chamou para ir junto. Nem mesmo cheguei a conhecer meu pai.

– Você, com um mistério e tanto dentro de casa e quer por que quer me levar pro tal motel da fronteira.

Sam viu que a expressão de Ross mudou de repente. Não saberia dizer o quê aquela expressão significava. Ross se virou e começou a se afastar.

– Bem, não posso forçar você a vir se não quiser. Preciso ir.

– Espera, não íamos almoçar juntos?

– Outro dia. Agora eu realmente preciso ir.

Sam viu que Ross se afastava rápido. Ele estava quase correndo. Amaldiçoou a sua total falta de tato. Ross se abrira com ele, tocara num ponto que claramente era um assunto delicado para ele e sua família e o que ele, Sam, fizera? Uma piadinha idiota. Precisava urgentemente se desculpar com o amigo.

Apesar de tudo, Sam achou que conseguira tirar da cabeça do amigo, pelo menos por um tempo, essa idéia estapafúrdia de investigar o crime in loco. Tinha medo que Ross acabasse entrando numa fria.

Acompanhava Ross com o olhar, protetor, quando pensou ter visto Dean ao longe. Correu até lá, mas não encontrou ninguém. Bobagem, só falta agora passar a ver Dean em tudo que é lugar.

Logo em seguida apareceram Jess e Jen, sua melhor amiga.


28.01.2013