CAPÍTULO V
(Cap. 9) John
John identificou-se como um detetive do Kansas, contratado pela família da vítima, e conversou com os policiais locais sobre o crime. Principalmente, os detalhes em off.
Como era de se esperar, muitos detalhes do caso eram bem diferentes do tinha saído na imprensa. Os jornais locais ainda dedicavam algum espaço ao assunto, mas, fora da região, só em um ou outro tablóide sensacionalista especializado em fatos bizarros. Soube por um policial que até relato de aparição de fantasma tinha aparecido em um destes.
John já tivera experiências com fantasmas, mas não acreditava em um associado a essa morte. Essa era uma história de monstro. Tinha discutido o caso com Bobby, que estava se aprofundando em relatos e lendas sobre skinwalkers ou metamorfos. Algo já bem enraizado no folclore da região.
Achava que bastaria uma bala. Para não arriscar, uma bala de prata.
Vistoriou a cena do crime sem grandes expectativas. A polícia local já tinha feito a perícia e liberado o local. Queria ter vindo antes. Se, por um lado, era bom já poder contar com os resultados da perícia, por outro, era improvável que descobrisse algo de novo na cena do crime. O proprietário do motel já teria se encarregado de eliminar qualquer vestígio que pudesse ter restado. Quando chegou, havia um hóspede no quarto em que tudo aconteceu. Natural. Afinal, o crime tinha completado 3 semanas.
Se tivesse lido sobre o fantasma até teria trazido um detector. Mas, nada do que viu ali indicava nesta direção.
O assassino tinha se assustado com a chegada de duas viaturas da polícia com as sirenes ligadas. O proprietário do motel chamara a polícia para impedir que um flagrante de adultério acabasse em morte. Sequer imaginava que um assassinato acabara acontecer no piso acima daquele.
Na confusão, o assassino fugiu deixando tudo para trás. Nem mesmo fechou direito a porta do quarto. Não demorou para que uma hóspede avistasse o corpo horrivelmente mutilado pela porta entreaberta e desse o alarme.
Menos de 3 horas depois, a imprensa já tinha montado seu circo.
O carro que a vítima e o provável assassino usaram para chegar ao motel também fora usado na fuga, mas ninguém tinha prestado atenção no veículo. Não sabiam nem mesmo a marca ou a cor, quanto mais a placa.
A polícia montou barreiras com base apenas na descrição que tinham do assassino, que ninguém imaginaria ter agora a aparência da vítima. Buscavam um homem de 45 anos, não um jovem de 22.
Quando os testes de DNA ficaram prontos, mais de duas semanas depois, os resultados apontaram para um advogado de Iowa, Andrew Nolan, dado como desaparecido há mais de um ano. Apesar do carro do advogado ter desaparecido junto com ele, não havia registro do fato no sistema de identificação de veículos da polícia.
Era justamente o carro deste advogado que estava abandonado no estacionamento da estação ferroviária local. As datas batiam. O carro foi rebocado e ainda tinha sido liberado pela perícia.
Foram duas semanas até a identidade da vítima ser oficialmente confirmada e tornada pública. A identificação foi facilitada pela tatuagem que o morto exibia nas costas e nos antebraços. As imagens do corpo mutilado nunca chegaram a ser veiculadas. Eram por demais chocantes. O estado do rosto principalmente. Mesmo tablóides sensacionalistas limitaram-se a mostrar partes intactas da bela tatuagem.
As fitas do sistema de segurança da estação ferroviária referentes ao período de 72 horas após crime já tinham sido minuciosamente esquadrinhadas pela polícia. Nada. Claro que a polícia não encontraria o que estava buscando. Estava procurando a pessoa errada. Tampouco John, que sabia a quem procurar, encontrou. Mas, John nunca acreditou que o assassino fosse amador a ponto de deixar o carro na estação ferroviária e pegado um trem.
Com outras credenciais e outra identidade, John alegou estar no rastro de um menor de idade que fugira de casa para ter acesso às gravações do sistema de segurança da estação rodoviária da noite do crime. Lá estava ele, embarcando para San Antonio. Mas, não havia como garantir que o monstro seguira até o destino final.
Em Carson City não obteria mais nenhuma informação nova sobre a vítima ou o assassino. Eram de fora da cidade. O crime aconteceu pouco depois de se registrarem no motel, sob nomes falsos. O único a ver os dois vivos foi o atendente do motel, que não prestou muita atenção. Ninguém viu o assassino deixando o motel. O bilheteiro da rodoviária não lembrava do rapaz moreno.
A polícia estava tratando o caso como de assassino serial. O assassino tinha trazido instrumentos de corte e também grandes plásticos que usou para forrar o ambiente antes de cortar o corpo. Planejara matar e fazer desaparecer o corpo.
Acreditavam que a vítima fosse um garoto de programa, mas o rapaz fora identificado como Tristan Jared Ross, frentista em uma cidade esquecida do Kansas, da região do Cinturão do Milho. A família já fora notificada. O rapaz deixara a cidade apenas 2 dias antes do crime e, até então, era considerado apenas mais um garoto de família desajustado que fugira de casa.
Os registros da perícia não indicavam, a princípio, nada extraordinário. Nada além que um crime brutal. Na busca pela identidade do assassino, no entanto, os exames de DNA encontraram coincidência acima de 98% com o de outra vítima de um crime semelhante que acontecera um ano antes.
Se fosse de um fio de cabelo seria possível encaixar num cenário. Mas era de uma amostra de saliva obtida de uma guimba de cigarro. O assassino vivo tinha DNA compatível com um homem oficialmente morto há um ano.
Quaisquer outras pistas teriam que ser buscadas no Kansas. Ali não havia mais nada. John partiu ao anoitecer em direção à Harveyville, cidade com menos de 300 habitantes do nordeste do Kansas. Não tão distante assim de Lawrence.
(Cap. 10) Dean
Dean sabia que o pai lhe dera o Chevy Impala como forma de animá-lo pela perda da companhia o irmão. E odiava pensar que o pai tinha acertado na mosca. A empolgação pelo carro não compensava de todo a falta do irmão, mas ajudava um bocado.
Gostava de lavar a carroceria do carro e polir seus cromados, ao som do melhor do rock. Sorriu ao lembrar que houve um tempo em que dava banho no Sammy. Os bons tempos da infância, que na realidade não foram tão bons assim.
Poderia ter dirigido durante o dia e chegado na metade do tempo, mas odiava dividir a estrada com donas de casa e veículos escolares. Foi primeiro a Palo Alto, buscar um local para se hospedar e traçar uma estratégia. Não queria ser flagrado por Sam.
A noite de Palo Alto era animada e não precisou gastar muito do seu charme, para ter onde passar a noite. Já no apartamento da garota, ao puxá-la para junto de si, teve certeza que só esse momento já justificava ter vindo de tão longe.
Pouco antes de fechar os olhos, esgotado, para cair num sono pesado e sem sonhos, pensou que seria muito bom passar uma segunda noite numa cama tão gostosa. Mas, sabia se quisesse realmente DORMIR, teria que achar outro lugar.
Se o irmão não estava se divertindo como devia, não merecia o sobrenome que tinha.
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Achou melhor deixar o Impala longe do campus. Chamava muita atenção e não existiam dois iguais.
A percepção de Dean sobre o carro era muito diferente da do resto da humanidade. Dean realmente acreditava que todos o invejavam por causa do carro. O resto da humanidade achava que devia ser proibido um carro tão velho circulando nas estradas.
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Era um pouco velho para ser ele próprio um calouro. O melhor era apresentar-se como sendo o que de fato era: o irmão mais velho de um calouro. Puxa, como era estranho dizer a verdade!
Mas, precisava descobrir o nome de algum outro calouro, para não haver o risco de alguém alertar Sammy sobre a presença do irmão no campus.
Pensando bem, era melhor ver as fotos dos calouros antes de dizer-se irmão de alguém. Ia ser difícil explicar ser irmão de um afro-americano ou de um vietnamita. Ou explicar que era realmente o irmão e não o namorado de um calouro arco-íris. Ou talvez nem fosse tão difícil. Afinal, era a Califórnia.
Mas, também não foi difícil encontrar um carinha que podia perfeitamente passar por seu irmão mais novo: o estudante de Direito Jason Lang Ross.
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Sabia que devia permanecer atento, mas a todo o momento passava uma garota que desviava seu olhar. Por duas vezes sentiu que fora correspondido e esboçou um sorriso cafajeste. A terceira chegou a dar uma paradinha e uma discreta olhadinha para trás. Foi neste momento, quando estava distraído, que uma deusa passou apressada por ele, atraindo seu olhar.
Escutou uma voz vinda de trás chamá-la.
– Jess, espera.
Fora um segundo, mas, quando voltou a olhar, a que lhe dera mole já tinha seguido em frente. Idiota. Quando ia aprender que um pássaro na mão é melhor um voando. Sabia que o ditado não era assim, mas preferia desta maneira.
E depois podia ser um sinal do destino. A tal de Jess, com certeza, era daquelas que valiam o esforço. Resolveu seguir a garota e a amiga. Ou melhor, antecipar-se às duas e voltar a encontrá-las mais à frente, como se fosse a primeira vez. Aí era só dar um jeito de chamar a atenção da garota quando passasse por ele. O que tinha a perder?
ERA um sinal do destino. Como explicar de outra forma. Ao seguir na direção que imaginou que Jess tomaria, Dean quase dá de cara com Sammy. E Sammy estava conversando justamente com seu recém-designado novo irmão Jason Lang Ross.
Buscou sair do campo de visão de Sam, mas viu que Ross vinha direto em sua direção, quase correndo, e que Sam o estava acompanhando com o olhar.
Olhou na direção de Sam e viu que Sam também o avistara. Correu dali. Por muito pouco e teria sido pego.
Minutos depois, a segunda surpresa. Sam beijando Jess. Dean se sentiu orgulhoso e feliz pelo irmão. E pensou que talvez ali realmente ele estivesse mais feliz.
À noite, depois de uma transa ainda melhor que a da véspera, pensou se ele também não seria mais feliz indo para uma faculdade.
NOTAS:
O nome da vítima (Tristan Jared) remete a Jared Tristan Padalecki. Em (Cap. 3), John menciona que o rapaz morto lembrava fisicamente Sam. A imagem de Tristan é a de um Jared jovem, amargurado e infeliz.
Ross, o sobrenome que os irmãos herdaram do pai, Peter, remete a Jensen Ross Ackles. Em (Cap. 8) é dito que Jason Lang Ross lembrava muito Dean nos gestos e na aparência física. A família se refere ao rapaz como Jason e os amigos como Ross. A imagem de Ross é a de um Jensen jovem, confiante e de bem com a vida. Ross é 1 ano mais novo que Tristan e tem a mesma idade que Sam.
Quando escrevi a fic, o número de personagens recorrentes de Supernatural era pequeno. Tomei emprestado nomes e sobrenomes presentes em Smallville. Peter Joseph Ross é o amigo de infância afro-descendente de Clark Kent no seriado (o personagem com esse nome nos quadrinhos é louro de olhos azuis). Lang vem de Lana Lang, personagem interpretado por Kristin Kreuk. Jason de Jason Teague, personagem de Jensen Ackles na quarta temporada de Smallville. As avós de Tristan são Kristin (Kristin Kreuk) e Martha (de Martha Kent).
O metamorfo atacou Tristan com a identidade de Andrew Nolan, sua vítima anterior. Como Tristan, matou o publicitário Kimberly Walker. Há um intervalo de duas semanas entre a morte de Tristan e a confirmação oficial de sua morte.
O metamorfo reproduz o DNA de sua última vítima. Mas, obviamente, não pode haver coincidência total. Seria o mesmo que dizer que o metamorfo torna-se humano e isso não é verdade. Acontece que a maior parte do material genético é constituído pelo chamado DNA LIXO, um termo inadequado que reflete apenas o desconhecimento de sua função (ver . /noticias/impresso,estudos-revelam-riqueza-genetic a-no-dna-lixo-,926596,). Essa parte chamada de DNA não codificado não é analisada no teste de DNA. As diferenças genéticas que dão ao metamorfo suas habilidades estão no DNA LIXO e passam despercebidas. No futuro, isso deve mudar.
02.02.2013
