CAPÍTULO VI


(Cap. 11) Tristan

Pensar era difícil. Lembrar mais ainda. Tristan experimentava uma sensação que misturava estranhamento, desorientação e perplexidade. Uma sensação de irrealidade e de alheamento. Era como se estivesse dopado. Onde estava? Estava envolvido por algo que, na falta da palavra mais adequada, chamaria de névoa. Uma névoa densa. E, muito ao longe, via um ponto de luz.

A sensação física era agradável, não sentia frio nem calor. Uma luz difusa permeava todo o lugar. O tempo parecia correr diferente. Às vezes, lento, outras, acelerado. Pensou em caminhar na direção da luz, mas, em vez disso, concentrou o olhar para a névoa.

E depois, para além da névoa.

Viu fragmentos da realidade que conhecera. Como quem vê um filme. Só a imagem. Nenhum som.

O quarto de motel. Viu sem emoção alguma seu corpo sendo cortado. Lembrava vagamente do homem que manuseava a serra, mas não lembrava do nome. Viu sem surpresa o corpo do homem se abrir nas costas e de dentro dele sair um outro corpo. Um nascimento grotesco. Mas, ele não adjetivou, apenas constatou a semelhança daquele corpo envolto em gosma com seu próprio corpo.

Viu uma versão deformada de si mesmo com a boca não humana, abrindo em um ângulo impossível, devorando rapidamente a carne da qual emergiu e depois as partes cortadas de seu antigo corpo. Não era uma cena agradável e ele preferiu não olhar.

Ficou uns poucos minutos de olhos fechados e, então, os reabriu. Viu aquele que sabia não ser ele, assustar-se e fugir, interrompendo o banquete macabro. Fechou os olhos novamente. Quando reabriu, pessoas circulavam no quarto, coletando evidências. Não se sentiu interessado pelo desfecho. Voltou a fechar os olhos.

Ao abrir os olhos mais uma vez, o cenário mudara. O seu igual estava em um local movimentado, onde estranhos andando apressados arrastavam malas com pequenas rodas. Sorriu. Nunca vira uma mala com rodinhas. Viu um Tristan sem tatuagens e com o cabelo bem comportado embarcando num ônibus de viagem. Podia ler claramente a placa do vidro da frente do ônibus indicando o destino: San Antonio, Texas.

Viu aquele Tristan profundamente adormecido na poltrona do ônibus em movimento. Já não parecia outro, parecia ele mesmo.

Um lento piscar de olhos, e agora via o outro Tristan caminhando na noite de uma cidade grande, com uma mochila nas costas. Já não parecia tão inocente. As roupas denunciavam a intenção de seduzir. Viu quando acendeu um cigarro e tragou. Lembrou que ele, Tristan, não fumava. Era um detalhe pequeno, mas tirou Tristan daquele alheamento.

Então, o ritmo mudou. As cenas não mais transcorriam contínuas, parecia mais uma colagem. Havia cortes bruscos e mudança de cenário. Começou a sentir um clima de vertigem, de caleidoscópio, de desconforto.

Algumas cenas que viu se fixaram em sua memória: o vidro do luxuoso carro do ano baixando e revelando o homem de sorriso convidativo, tão igual àquele outro, em outro carro, em outro tempo; o balde de gelo com as garrafas de champagne num quarto mais amplo, mais claro e mais luxuoso que qualquer um que pudesse lembrar; o homem aterrorizado preso num abraço que deixava seu pescoço ao alcance da boca do outro Tristan; a coisa-Tristan devorando metodicamente o corpo do homem como uma hiena do inferno; aquela boca, com uma segunda fileira de dentes afiados, tão próxima, tão voraz e tão antinatural.

Aquelas cenas o machucavam. O desconforto mental torna-se quase doloroso.

E, então, o grito. Um grito de medo e desespero.

Em meio ao nada, numa dimensão aparentemente deserta, Tristan grita, revivendo o horror da própria morte.

Sem aviso, Tristan sente emoções poderosas invadirem seu espírito. Um ódio intenso, como nunca acreditou ser capaz de sentir.

Em Carson City, os poucos hóspedes do motel que o terrível crime tornou famoso viram as luzes piscarem e depois viram ou ouviram diversas lâmpadas explodirem.

O neon da fachada piscou intensamente por duas vezes e então apagou de vez, com os circuitos queimados.

E o proprietário do motel, buscando o motivo da algazarra que tomou conta dos quartos, viu o garoto moreno alto se materializar no corredor do segundo andar por alguns segundos e depois sumir.

Teve medo, por si e pelo seu negócio. Os olhos do fantasma emanavam ódio.

Fantasmas normalmente ficam presos a lugares marcantes de sua história pessoal. Seja o lugar onde viveram, seja onde morreram. Mas, no caso de Tristan, qual seria este lugar?

O lugar onde viveu? Ficar preso, por toda a eternidade, em qualquer ponto daquela maldita cidade da qual sempre quis fugir seria a suprema ironia. Uma terrível piada de mau gosto.

Onde morreu? Um quarto de motel onde respirou o ar por menos de 10 minutos a centenas de quilômetros de casa. O primeiro motel em que entrou na vida e onde só pretendia dormir uma noite. Haveria absurdo maior?

Fazer a travessia não é fácil. A barreira entre os mundos é muito forte. É preciso uma motivação e uma determinação ainda mais fortes para rompê-la. Em vida, ele não as possuía. Mas ele mudara, a morte o mudara.

É necessário também que exista uma âncora no mundo físico, para que o fantasma possa criar um vínculo entre as duas realidades, já que existirá simultaneamente em ambas. O mais difícil é criar esse vínculo, que o permitirá fazer a primeira travessia. Depois, é quase como atravessar uma porta giratória.

Essa âncora à realidade é sempre feita de algum tipo de material genético do morto, geralmente seus restos mortais, e, mais adiante, seus ossos. Na sua ausência deles, cabelo ou uma mancha de sangue servem.

Mesmo uma pequena gota de sangue, como a que caiu no corredor do segundo piso do motel quando a polícia removeu o que restou do seu corpo, envolto em plástico, e que ficou ali, esquecida, invisível no carpete vermelho.

E a âncora de Tristan neste mundo não seria apenas seu antigo corpo morto e mutilado.

Seria também o corpo vivo que viu nascer, tão igual a si mesmo, tão diferente de tudo que pensava existir. Mas, ainda assim, capaz de formar o vínculo. O fato de ser um corpo vivo tornava na verdade tudo muito mais fácil e o vínculo mais forte.

A dupla vinculação. O vínculo vivo em constante movimento. O corpo mutilado sendo transportado de um lado para outro enquanto era examinado por diferentes peritos em busca de provas. A ausência de vínculos fortes com os lugares mais prováveis. Tudo isso junto. Ou mera coincidência.

Era raro, mas não era um caso inédito. Tristan se tornaria um fantasma andarilho. Não estava preso a lugar algum, podia ir aonde quisesse. O monstro que devorara seu corpo e usurpara sua identidade pagaria por isso.

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Mas, uma mágoa mais antiga também tinha sido amplificada e ele sentia uma necessidade urgente de saciá-la. Antes de qualquer coisa, precisava acertar contas com seu passado em sua cidade natal.


(Cap. 12) Ross

Sam interpretara errado o interesse de Ross pelo caso do rapaz do Kansas.

Desta vez, não era um caso de atração mórbida como os que fizeram Ross famoso na turma. O caso abalara Ross profundamente. Felizmente, o fim de semana permitiu que ele disfarçasse o golpe e voltasse mostrando seu habitual senso de humor.

Sam também estava enganado em outra coisa. Ross não tinha desistido, muito pelo contrário. Tinha motivos fortes para levar a investigação em frente e estava determinado a isso.

Ross não tinha contado a Sam tudo que sabia. O mistério familiar, como Sam chamara, já tinha sido resolvido há anos.

Ross sabia que a mãe perdera a cabeça por um capitão de time de futebol do Kansas, com quem vivera um amor de verão. O nome do pai sempre esteve na sua certidão de nascimento. Peter Joseph Ross. Eles casaram de papel passado. A mãe tinha engravidado, queria o casamento e a avó acabou aceitando para evitar o que seria um grande escândalo em Topeka, onde tinham parentes e a família cultivava uma sólida reputação há gerações.

Quando a mãe morreu no parto do segundo filho, a avó decidiu que levaria o neto recém-nascido embora com ela, custasse o que custasse. Sufocou a dor e agiu rápido. Calou o médico com a ameaça de processá-lo por erro de procedimento, subornou as duas enfermeiras do hospital e o funcionário da casa funerária.

A família do pai recebeu a notícia que o bebê não tinha resistido. Como a avó conseguiu que houvesse um corpo de bebê no pequeno caixão, Ross não chegou a descobrir.

A Sra. Lang deixara o outro neto para trás. Mas, voltava ano sim ano não ao Kansas para vê-lo. Os Ross sabiam que a família Lang tinha posses, mas nunca souberam a verdadeira extensão da fortuna da família. A Sra. Lang deixou a própria fazenda falir para cobrir esse rastro.

Quando Ross fez dezoito anos, resolveu tirar a limpo aquela situação. Ver por si próprio e tirar suas próprias conclusões. Planejou ir a Harveyville próximo do aniversário da morte da mãe, sem que a avó soubesse.

Aproveitou que aquele era um ano não. Disse que ia a San Francisco com amigos e fez de carro o longo caminho entre a Califórnia e o Kansas. Um detetive que ele próprio contratara já o tinha preparado para o que encontraria lá.

Fez com que o carro chegasse ao posto de gasolina rebocado para que tivesse tempo de observar o pai e o irmão, sem levantar suspeitas.

O dossiê era extenso, mas podia ser resumido em poucas palavras. O pai era um perdedor e o irmão tinha fama de rebelde e de gay.

Só de olhar para o posto e para a aparência desleixada do pai qualquer um podia tirar essa conclusão, sem medo de errar. Achou que o detetive cobrou muito caro por algo tão óbvio. Já o irmão não era tão óbvio assim. Parecia frustrado e infeliz, e era fácil entender o porquê.

Viu quando ele se preparava para deixar o posto ao final do expediente, já sem o uniforme. Viu a tatuagem nos antebraços. Nada demais para quem vinha da Califórnia. Só mostrava que não se sentia parte daquele lugar e que tinha medo de acabar como o pai.

Sentiu pena do irmão, enterrado vivo naquele fim de mundo.

Queria muito saber se era verdade que o irmão era gay. Da forma como passara a tarde observando o irmão, olhando com interesse tudo que fazia, qualquer um pensaria que Ross é que era chegado. Pensou em usar isso a seu favor.

Antes que Tristan se afastasse, perguntou se poderia acompanhá-lo até a cidade. Tristan olhou desconfiado e deu de ombros. Seguiram calados por um tempo, até que Ross começou a puxar assunto e a se insinuar. Nem chegou a completar a frase. Um murro e estava no chão. O irmão seguiu em frente, sem olhar para trás. Apesar da dor no queixo e do filete de sangue no lábio, sorriu aliviado e até orgulhoso.

No dia seguinte, foi cedo ao cemitério local e passou um bom tempo simplesmente olhando para a lápide do túmulo da mãe. Sabia não haver um corpo enterrado ali. Outra armação da avó. Outra coisa que havia sido negada ao irmão.

Afastou-se ao primeiro indício de movimentação. De longe, viu o pai chegar e depositar flores. Observou sua atitude. Viu quando o pai secou uma lágrima. Sentiu uma emoção forte. Pela primeira vez, acreditou que poderia mesmo ter sido o fruto de um grande amor. Que o pai talvez não fosse o aproveitador barato que a avó o fizera acreditar ser.

Deixou a cidade em seguida. Fugindo. Não se achou pronto para enfrentar o pai e o irmão de cara limpa. Usara de subterfúgios e estratagemas. Descobriu que eles sempre seriam mais do que estava escrito no dossiê. Daria um tempo e voltaria da maneira certa. Pensou que teria muito tempo pela frente.

Ao ler sobre o crime na internet, sobre o destino horrível de um jovem ainda anônimo, sentiu a indignação que o motivava a querer se tornar um promotor. Quando o nome apareceu, descobriu que perdera para sempre a chance de consertar as coisas.

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Enquanto falava com Sam, sentiu crescer em seu peito uma angústia e uma sensação avassaladora de urgência. Sentia, sem saber como ou porque, que se não agisse naquele exato momento, seria tarde demais.

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Algumas horas depois, enquanto assistia ao noticiário da noite na TV, a Sra. Lang passa mal e precisa ser hospitalizada. Até ser sedada, ela chorava descontroladamente, pedindo perdão ao neto. E ninguém conseguia localizar Ross.


08.02.2013