CAPÍTULO VII
(Cap. 13) John
John chegou a Harveyville e seguiu direto para a casa dos Ross.
John apresentou-se da forma mais profissional e impessoal possível, mas não conseguiu manter o distanciamento pretendido. A Sra. Ross começou a chorar assim que John citou o nome do neto e ele desistiu de interrogá-la.
Nem era tão velha, mas estava visivelmente quebrada. Primeiro o desaparecimento e depois a notícia da morte do neto, principalmente nas condições em que isto ocorreu. Foi um golpe duro demais para ela.
John precisou colocá-la na cama e esperar que o calmante que administrou fizesse efeito e ela adormecesse. Tinha pensado em procurar primeiro os conhecidos do rapaz e, por último, confrontar o pai. Mas, já estava anoitecendo e ele não queria perder muito tempo naquela cidade. Decidiu então seguir direto para o posto de gasolina. O negócio de família dos Ross.
Antes mesmo de chegar, percebeu que algo muito errado estava acontecendo.
Fenômenos poltergeist de uma intensidade inédita. No interior da cabine do posto, tudo estava em movimento. Peter Ross, encolhido num canto, tentava defender-se dos objetos que voavam em círculos e se arremetiam em velocidade contra ele. Era um homem grande, mas estava visivelmente abalado. Seu rosto mostrava confusão e medo.
John refreou o impulso de entrar imediatamente. Voltou ao carro e abriu o porta-malas, onde guardava seu arsenal. Apanhou uma espingarda e a carregou com cartuchos de sal. Apanhou também uma barra de ferro. Respirou fundo e entrou, colocando-se entre o Sr. Ross e o centro dos fenômenos.
John grita, desafiando o fantasma.
– APAREÇA DE UMA VEZ. DEIXE DE SER UMA CRIANÇA BIRRENTA. MOSTRE SUA CARA.
A atividade paranormal se intensificou. O vidro de uma das janelas se estilhaçou. Em seguida, outra. E mais outra. Os cacos pontiagudos de vidro se juntaram ao vórtice. A ameaça mudara de patamar. Tornara-se potencialmente mortal. O risco de Peter Ross não escapar vivo era real. As luzes piscavam freneticamente dentro e fora do aposento. Um frio intenso vindo do centro dos fenômenos invadiu todo o ambiente.
O que mais surpreendeu John, no entanto, foi a súbita entrada de um garoto alourado na sala. Por um momento, John chegou a achar que se tratava de Dean. O rapaz não demonstrava medo e se posicionou a seu lado. Sua atitude indicava que pretendia enfrentar o fantasma. Só podia estar louco.
John não tinha como saber, mas aquele era Jason Ross.
#
Ross não poupara dinheiro para chegar rapidamente ao Kansas.
Usou o celular e já tinha alugado um jatinho particular que o levasse a Topeka, antes mesmo de chegar no estacionamento da faculdade. Um carro alugado já o esperava a postos na saída da pista do aeroporto da capital do Kansas. Entrou no carro e seguiu direto para o posto de gasolina na entrada de Harveyville.
Quando viu os fenômenos paranormais, não ficou realmente surpreso. Ao contrário, agora tudo parecia fazer sentido. Tristan. Não tinha dúvidas que o que via era Tristan, dando vazão à fúria e à frustração que guardara dentro de si por tanto tempo.
Ao estacionar no pátio do posto, sentiu-se voltando ao dia em que conhecera o irmão. Lembrou de como se sentira ao chegar ali da primeira vez. Tinha tantas expectativas. Parecia que estava vendo o irmão andando por aquele pátio, seus olhos tristes, realizando tarefas mecanicamente. Entediado e sem perspectivas. Sentiu um aperto no coração. Se pudesse voltar no tempo e fazer tudo diferente ...
Lembrou das poucas palavras que trocaram. Do murro que levara. O único contato físico que tiveram. O único que teriam. Como pudera ser tão egoísta e insensível? A fúria e a frustração do irmão já eram visíveis para qualquer um que se preocupasse em ver. A qualquer um que se IMPORTASSE com ele. Como doía aquela sensação. A certeza de que podia ter evitado tudo aquilo e a constatação de que não fizera absolutamente nada.
O barulho de vidro estilhaçando o tirou de seu devaneio.
#
Jason entrou a tempo de ver o início da materialização de um rapaz alto e magro, cabelos escuros longos e esvoaçantes, pele muito clara marcada com uma grande tatuagem de dragão que ocupava todo o espaço das costas e dos antebraços e que era visível nos lados do corpo. Os olhos verde-acastanhados sobressaíam-se no rosto coberto por uma pintura elaborada, em padrão tribal, que ele mesmo reproduzia com maquiagem preta sempre que queria escandalizar a cidade.
Lá podia ser objeto de risos. Aqui, entre objetos que voavam e luzes que piscavam, o resultado era simplesmente apavorante.
Quando o fantasma estava quase que totalmente materializado, John mirou e atirou. Mas, Ross foi mais rápido e o empurrou, desviando tiro.
– Não vou deixar que o mate.
– E quem diabos é você? O que está fazendo aqui?
– É o meu irmão e não vou deixar que o matem novamente.
E, olhando direto nos olhos do fantasma, gritou.
– VOCÊ! PARE O QUE FAZENDO! NÃO VOU DEIXAR QUE MATE NOSSO PAI!
O tom imperativo com que a frase foi dita pegou a todos de surpresa. Por um segundo inteiro, tudo pareceu estar congelado, em expectativa. Então, sem aviso, o fantasma desaparece. E, com ele, as manifestações sobrenaturais que o precederam.
Os objetos caem à medida que o vento perde intensidade. As luzes se estabilizam e tudo parece voltar ao normal. Então, ouve-se uma explosão do lado de fora e o posto fica às escuras. O transformador que abastecia de eletricidade o posto, sobrecarregado, queimara.
Ficou somente um grande silêncio.
John estava perplexo. Ainda não processara completamente tudo o que acontecera. Ajudou Jason a erguer o Sr. Ross. Ele estava em choque e com muitos ferimentos no corpo.
#
Longe dali, na casa dos Ross, a luz de cabeceira da cama da avó de Tristan pisca. O vapor da respiração da velha senhora condensa e fica visível à medida que a temperatura do ambiente cai.
A figura que se materializa em seguida é completamente diferente da que, momentos antes, aparecera furiosa na cabine do posto. Os cabelos escuros estão penteados para trás, a pele clara não mostra nenhuma marca, os olhos verde-acastanhados são tristes, mas estão serenos.
Parecia exatamente com o neto que ela tanto desejou que ele se tornasse.
O fantasma beija a testa da avó adormecida, que retribui com um sorriso. Então, desaparece.
(Cap. 14) Walker
O metamorfo estava surpreso com o próprio comportamento. Participava ativamente das atividades do dia a dia da agência de publicidade e de uma forma tão perfeita que ninguém notara que não era o verdadeiro Walker. Mais que isso. A cópia começava a superar o original.
Diziam que mostrava ultimamente uma maior sintonia com o pensamento dos jovens e das mulheres, segmentos importantes do ramo da publicidade, que requeriam mensagens diferenciadas e dirigidas, e uma grande habilidade para fugir de todo tipo de armadilha.
O segredo da publicidade é desagradar o menor número possível de pessoas, já que agradar a todos é impossível. Campanhas segmentadas constituíam um campo minado que já detonara muitas carreiras que pareciam promissoras.
Alguns, maldosamente, atribuíam tanta sintonia com o pensamento feminino ao gosto em comum por homens. E como esses homens eram sempre muitos jovens, estava bastante familiarizado com seu universo.
#
O metamorfo já assumira a forma de mulheres centenas de vezes, inclusive já fora mãe 6 vezes. Nas 5 últimas, tivera o bom-senso de devorar a cria quando assumiu outro corpo. Mas seu primogênito existia por aí, em algum lugar. Já era, há muito tempo, um adulto capaz de transformação.
Sempre que voltava a ser homem, buscava exorcizar da sua personalidade os traços femininos. Eles o enfraqueciam. Quando assumiu pela primeira vez a forma de um homem com desejo por outros homens, quebrou o círculo de revezamento de sexos que manteve por tantos séculos.
Pelo menos pareceram séculos. Ele não tinha certeza. Muita coisa que se lembrava, não tinha certeza de ter sido real. Poderiam ser lembranças de sonhos que tivera no passado. Ou lembranças de qualquer um dos muitos que devorara. Ou lembranças de sonhos destes muitos. Vivera muitas vidas e não tinha mais como distinguir vivências, suas ou de outras, de sonhos; ou mesmo de alucinações.
Lembrava de um tempo em que andava sozinho numa floresta gelada na forma de um lobo. E de sobrevoar vastas extensões de campos na forma de um corvo. Havia até mesmo uma lembrança primordial de vagar pelo fundo de um oceano escuro.
Podia ter sido algum dia um animal? Era um homem que assumia de tempos em tempos a forma de animais ou tinha sido originalmente um animal que assumira definitivamente a forma de um homem? Tinha medo de tentar encontrar a resposta e ficar preso numa forma animal. Medo de não conseguir fazer duas vezes o caminho de volta.
#
Acabara de ser um homem jovem. Aliás, se fizesse a média das idades de todos que assimilara, de ambos os sexos, esta estaria seguramente abaixo dos 25 anos. Mas, no passado, ter 25 anos não significava a mesma coisa que hoje. Nesta idade, a maioria dos homens já estava casada e com filhos, já lutara em guerras e já matara.
Não sabia se seu gosto por matar vinha de sua espécie original, se é que ela existia, ou se a absorvera dos humanos.
Fizera sua forma de Tristan, com a qual entrara no motel, desaparecer completamente. Assim como o cadáver do Walker original. Um serviço limpo, com teriam que ser todos daqui para frente. Sem pistas.
O Tristan original continuava a ser uma fonte de preocupações. O caso repercutira de costa a costa. Fora motivo de coberturas ao vivo por dias seguidos. E agora surgiam especulações que se aproximavam muito do que de fato ocorrera. Mas, é claro que muito poucos levariam a sério. Os homens se acostumaram a caminhar na luz. Perderam o medo da escuridão.
Fora isto, estava feliz. Levara o barman ao seu apartamento e foi tão bom quanto se lembrava, mesmo não tendo sido ele próprio a vivenciar aquelas lembranças. O rapaz não correu risco. Não havia compatibilidade entre eles.
Além disso, não estava com pressa. Gostava de ser quem era. Do seu novo eu.
#
Quanto a Sam Winchester, a armadilha já estava montada. Em poucos dias, ela fecharia com ele dentro.
14.02.2013
