CAPÍTULO VIII


(Cap. 15) Sam

– Sério? Proposta de estágio remunerado?

– E muito bem renumerado, ao que parece. Dezesseis horas semanais. Oferecem salário, auxílio-transporte e auxílio-alimentação.

– Onde?

– Numa agência de publicidade muito conceituada de San Jose.

– E caiu assim do céu no meu colo?

– Eles contataram a reitoria e ofereceram 1 vaga, mas se reservaram o direito de pré-selecionar os candidatos.

– E eu fui pré-selecionado?

– Foi.

– E mais quantos?

– Oito. Destes, dois declinaram. Então são 6 para 1 vaga. Interessa?

– MUITO.

– A entrevista do primeiro grupo de 3 é amanhã. Aqui está o endereço. Não atrase.

– E esse nome? Sr. Walker!

– É quem você deve procurar. É a pessoa que vai entrevistá-lo.

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Acordou cedo, tomou banho, vestiu seu melhor terno (que, por acaso, era também o único que possuía), ajeitou o melhor que pode a gravata (embora o resultado não tenha sido assim tão bom) e seguiu decidido em direção a San Jose. Era uma grana muito boa, não podia perder essa chance.

No ponto de ônibus, olhava de minuto em minuto para o relógio. Já estava arrependido de não ter saído com mais antecedência. Estava ficando exasperado com a demora. Só faltava agora ele se atrasar e perder a entrevista.

Já no ônibus, a sensação de alívio por estar a caminho durou menos de cinco minutos. Foi só o ônibus parar para pegar passageiros na parada seguinte, para a irritação voltar. Em horas como aquela é que percebia o quanto um carro fazia falta.

Se ao menos Ross estivesse ali para lhe dar uma carona. O amigo o tinha acostumado mal. E, justamente agora, quando mais precisava dele .. Que hora para desaparecer! Não pela carona (ou não só pela carona). Sam gostaria de ter conversado com ele a respeito dessa possibilidade de estágio. Pegar dicas. Podia ter conversado com a Jess, mas não queria aborrecê-la com seus problemas. Ao contrário, queria chegar e contar que conseguira a vaga. Para a Jess, queria poder só dar boas notícias.

E agora, ao invés de estar ali dando força, Ross se tornara um motivo a mais de preocupação. Como se ele, Sam, não tivesse problemas suficientes e motivos bastantes para ficar preocupado.

Ross estava sumido há três dias. Não voltara para as aulas da tarde naquele último dia em que se falaram e não aparecera na faculdade desde então. Talvez aparecesse hoje, mas ainda assim seriam três dias. Só esperava que Ross não tivesse feito a besteira de ir a Nevada investigar a morte do tal rapaz. Não, ele era louco, mas não a esse ponto.

Tentou mais uma vez ligar para o celular de Ross, mas, como das anteriores, dava fora de área. Ligara duas vezes para a casa dos Lang, mas diziam apenas que ele não estava e se recusavam a dar maiores explicações.

Quando viu, estava pensando em Dean. Dean não tinha ligado uma única vez. Isso não chegava a ser motivo de preocupação. Sabia o quanto Dean era orgulhoso. E cabeça-dura. Droga. Será que estava bem? Pegou o celular e começou a teclar, mas parou. Suspirou, desanimado. Não, não ia ligar. Tinha que ser forte. Precisava romper o cordão umbilical. Dean ESTAVA bem. TINHA QUE ESTAR BEM. E porque não estaria? Não era ele próprio que vivia se gabando que dava conta sozinho de qualquer problema?

Se ligasse, iam acabar discutindo. E uma discussão com o irmão antes da entrevista não ajudaria suas chances em nada.

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O prédio de três andares da SPN Advertising era estiloso e ocupava toda uma quadra de um bairro nobre de San Jose. Os jardins eram maravilhosos. Sam havia pesquisado na internet e confirmado que era uma empresa de primeira linha. Profissionais endeusados, grandes clientes e várias campanhas a nível nacional. Ainda não conseguira entender o motivo de quererem um primeiranista de direito, mas não seria ele a levantar a lebre.

Na sala de espera, Sam tentava parecer tranqüilo. Não sabia se o desconforto que sentia era só ansiedade ou por causa daquele maldito terno. Não estava acostumado a ser tão mauricinho. Os sapatos apertavam, a pequena etiqueta da camisa arranhava sua nuca, o colarinho fechado o sufocava e a gravata o fazia sentir-se a caminho da forca. Sorriu, tentando parecer natural. Claro que o sorriso saiu forçado.

Quando chegou, Bart já estava lá. Mais alguns minutos, e Meg entrou. Dois de seus concorrentes. Concorrentes muito fortes.

A família de Bart, uma das mais tradicionais do país, era tão rica que ele deveria sentir-se culpado só por disputar um auxílio-transporte com Sam. Não, não era por aí, ponderou Sam, buscando ser justo. Havia um verdadeiro mérito em alguém batalhar por um auxílio-transporte sendo tão rico. Mas Bart não era apenas rico, era também razoavelmente bonito, reconhecidamente inteligente, fluente em várias línguas e um esportista acima da média. Fora duas vezes campeão estadual de esgrima. Filho da mãe. A prova que o mundo não é mesmo um lugar justo.

Sam conhecia a reputação de Meg, de não hesitar em explorar seus pontos fortes para obter o que queria. E um dos seus pontos fortes era a sensualidade. Era, acima de tudo, determinada e implacável. Evitou o termo inescrupulosa, mas, se tivesse usado, não estaria sendo injusto. Teria medo de tê-la contra si num tribunal. Meg Madison não viera somente para concorrer. Viera para ganhar. Estava ao mesmo tempo discreta e deslumbrante.

A primeira a entrar para ser entrevistada foi Meg. Ao ser chamada, levantou e caminhou como se o mundo tivesse prendido a respiração para testemunhar sua vitória.

Sam tentou ganhar para si pelo menos a torcida da secretária. Fez uma cara expressiva e um gesto de desistência.

– Acho que não dá para concorrer.

A secretária sorriu maliciosa.

– Acredite. Lindinho assim, você tem muito mais chances que ela. É Kim quem vai decidir.

Da forma como a secretária falou não dava para saber se Kim era um homem ou uma mulher. Afinal, qual o verdadeiro papel do tal Sr. Walker na seleção?

A resposta estava na sua cara. Numa placa na porta. Kim Walker - Publicitário Sênior.

Pensou ter entendido a mensagem. Engoliu em seco.

– Cuidado com ele. Se você facilitar, ele devora você.

Ela falou brincando, mas não podia estar mais certa. Mais inocente que a Chapeuzinho, Sam não sabia que estava prestes a entrar na toca do Lobo Mau.

Notas finais do capítulo

Kim é um nome tanto masculino quanto feminino.

Não encontrei uma referência quando ao Sam ser ou não bolsista em Stanford, mas, estando rompido com a família e os Winchester não tendo posses, é a única alternativa plausível.


(Cap. 16) John

John e Jason observavam de longe Peter Ross sendo atendido no ambulatório do hospital local. Ele tinha sido golpeado inúmeras vezes por objetos pesados e até mesmo por cacos de vidro que se projetavam contra ele em velocidade. Apresentava o corpo cheio de cortes e escoriações. Mas, o que preocupava era seu estado psicológico. Deixava-se examinar pelo enfermeiro de plantão com uma expressão aturdida e não respondia a nenhuma pergunta.

– É mesmo o seu pai?

Ross fez que sim com a cabeça.

– Cara, você é maluco? Sabe o quanto se arriscou? Como soube que as manifestações eram causadas pelo seu falecido irmão?

– Saber ao certo, eu não sabia. Hoje cedo, senti uma angústia muito grande e a certeza de que tinha que vir aqui, a Harveyville. Quando estava chegando, vi os fenômenos. Foi surpresa pra mim também.

– Você mora com seu pai? Convivia com Tristan?

– Não. Estive aqui na cidade uma única vez, quando fiz 18 anos. Fingi que o carro estava com problemas e passei algumas horas no posto observando os dois. Eles não sabiam (e meu pai ainda não sabe) que existo. Fui criado pela minha avó materna, depois que minha mãe morreu no parto. Minha avó armou para que a família de meu pai não soubesse que o bebê sobreviveu.

– Mas, e você? Sempre soube da existência deles?

– Por muito tempo, meu pai era um nome numa certidão de nascimento. Vovó dizia que ele era um vagabundo imprestável e que o melhor era mantermos distância. De tanto ela repetir, eu acreditei. Eu só fiquei sabendo desse irmão mais velho há poucos anos. Na verdade, foi o que me motivou a contratar o detetive. Eu escutei sem querer uma conversa da minha avó com a senhora que foi minha ama de leite e aquilo ficou martelando a minha cabeça. Eu tinha que saber se era verdade. Minha avó não sabe que eu sei deste irmão.

– Sua família parece esconder muitos segredos. Dá para perceber também que você é um rapaz determinado. Pelo jeito, puxou sua avó.

– Acho que todas as famílias guardam seus segredos. É diferente com a sua?

John demorou alguns segundos para responder. E, quando o fez, foi num tom baixo, quase que envergonhado.

– Não.

Seguiu-se um silêncio incômodo e Ross achou melhor mudar o rumo da conversa. Estava verdadeiramente curioso sobre o homem a seu lado.

– Pareceu que o senhor veio preparado para encontrar um fantasma. O que tem neste cartucho que se apressou em recolher? Que pó branco é este?

– Sal. Sal comum de cozinha. Uma linha feita de sal mantém fantasmas afastados. Um tiro de sal faz com que se desmaterializem.

– Para sempre?

– Não. Para se livrar definitivamente de um fantasma é preciso queimar os ossos e qualquer outro vestígio orgânico. Não acredito que isso os mate, afinal já morreram. Mas, corta definitivamente a ligação com esse mundo. Permite que sigam em frente. É o melhor para eles, acredite.

– Sabia que apareceria um fantasma aqui?

– Não. Vim atrás de respostas sobre os últimos dias do seu irmão. Sobre o homem com quem ele deixou a cidade. E você, o que sabe deste homem?

– Só sei o que saiu na internet e na imprensa. Gostaria muito de saber mais. Estava decidido a investigar por conta própria. E agora estou aqui, com um verdadeiro profissional, o Sr ..?

– John. John Winchester.

'Não acredito', pensou Ross.' O misterioso pai de Sam. Então, a profissão que Sam sempre se enrola quando tenta explicar é de .. o quê? Caça-fantasmas?'

– Prazer, John. Pode me chamar de Jason. Jason Ross.

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As manifestações poltergeist não tinham ficado restritas ao posto de gasolina, tendo acontecido em escala menor em muitos outros pontos da cidade. Coincidentemente, lugares freqüentados por Tristan. Isso seria notado e se tornaria objeto de especulação na cidade nos dias seguintes.

Um carro da polícia chegara ao posto de gasolina, antes mesmo de John e Jason terem acomodado o catatônico Peter no banco traseiro do carro alugado de Jason para levá-lo ao hospital distrital.

John atribuiu os estragos no local a um pequeno tornado que se formara repentinamente muito perto do posto. O vento devia ter derrubado algum poste e por isso o posto estava às escuras. Fez considerações de que talvez a eletricidade estática gerada pelo vento fosse responsável pelas centelhas e pelas luzes piscantes que alguns viram da estrada.

Ross não o desmentiu. Mas, sorriu ao pensar que John estaria bastante encrencado caso os policiais decidissem abrir o porta-malas de seu carro.

Ross deu um depoimento rápido. Estava passando pela estrada a caminho de Topeka, precisara parar para abastecer e buscara abrigo no posto quando os ventos e os fenômenos elétricos se tornaram mais fortes.

Estava muito escuro e a polícia não estava realmente disposta a aprofundar-se no caso. Mas, qualquer observação superficial constataria que a destruição no interior da cabine do posto era muito maior que do lado de fora. Afastando-se do posto, praticamente não havia sinais que pudessem ser atribuídos à passagem de um tornado.

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A aparição do fantasma modificou os planos de John. Decidiu prolongar a estadia por pelo menos mais um dia inteiro. Precisava de mais informações sobre Tristan.

No dia seguinte, o jornal local trouxe a notícia que o corpo de Tristan seria entregue à família dentro de 2 dias para ser enterrado. Trazia uma retrospectiva detalhada do caso e traçava um perfil não muito favorável ao morto.

Depoimentos de "conhecidos que preferiam manter-se no anonimato" ressaltavam suas atitudes para chocar a ordeira comunidade local e lançavam suspeitas de uma vida paralela de encontros homossexuais com clientes do posto. O jornal trazia também uma biografia do rapaz, lembrando até da curta carreira de glórias do pai e da morte trágica da mãe.

O enterro teve uma ampla cobertura da imprensa nacional. Peter, aparentemente recuperado do trauma, e a mãe compareceram e acompanharam toda a cerimônia em silêncio.

Poucas pessoas consternadas em torno do túmulo. Muitas, trocando comentários pouco respeitosos, a uma distância confortável. Esse grupo fazia a alegria da imprensa. Quem não tinha uma história para contar, inventava uma.

Na saída do cemitério, Peter e a mãe viram-se cercados de repórteres, mas recusaram-se a dar quaisquer declarações. Claro que os repórteres não estavam dispostos a partir sem antes ouvir a reação da família às especulações mais maldosas. Bombardearam impiedosamente os Ross com perguntas cruéis. Martha chorava, mas isso não diminuia a insistência dos repórteres.

Peter, aturdido com a agressividade das perguntas, ensaiou sua resposta-padrão e desferiu dois ou três socos antes de ser contido por policiais. Foi, naturalmente, um prato cheio para a imprensa, e fotos da "inexplicável explosão de fúria do pai da vítima" estamparia as manchetes dos jornais da região no dia seguinte.

John precisou conter Ross para que este não interviesse para proteger a família. Ross foi demovido com o argumento que sua presença só daria uma dimensão nova ao escândalo e traria os holofotes para o seu lado da família.

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Algumas horas depois, Ross se despediria de John, deixando a cidade em seguida. John fingiu também deixar a cidade e estacionou alguns quilômetros depois, numa lanchonete de estrada, aguardando a noite. Era necessário impedir a volta do fantasma. Tristan merecia um pouco de paz.

Enquanto cavava o solo, John pensava no quanto Jason lhe lembrava Dean, embora sua personalidade tivesse um elemento de permanente contestação que lembrava Sammy.

John acreditava que fora isso que fizera que se abrisse mais que o habitual sobre seu trabalho. Tinha sido didático, como faria com Dean. Mas, acreditava que Jason seria sensato o suficiente para não sair divulgando por aí os detalhes do caso.

Enquanto observa o pouco que estava no caixão queimar, John faz uma prece silenciosa. Depois, gastou bem mais tempo que o normal para não deixar nenhum sinal de sua atividade noturna. Não queria a imprensa de volta. Só então partiu. Desta vez, definitivamente.

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A uma distância segura, Ross observa John Winchester partir.

– Sinto muito, John. Mas, eu não podia deixar que matasse o meu irmão de novo.


17.02.2013


REVIEWS NÃO LOGADOS:

Dels 2/14/13 . chapter 7

Interessante os dois cenarios se juntando...
Ainda um pouco confuso... Mas espero entender nos proximos capitulos.

Resposta:

É uma história de suspense e o envolvimento dos Winchester é muito maior e mais antigo do que já deu para perceber. Quanto a Tristan e Ross, cada um escutou e viveu um lado da história. Uma história que tem outros lados e outros personagens. Ainda estamos na fase de apresentação dos personagens.

Quanto ao metamorfo, ele age como um serial killer e não como um monstro irracional. Ele tem seus objetivos de longo prazo e um plano sofisticado para atingi-lo. Vou apresentar minha versão do mito dos índios navajos sobre skinwalkers.