CAPÍTULO IX


(Cap. 17) Dean

Dean estava maravilhado com a vida universitária. Claro que, para Dean, vida universitária passava muito longe de estudos e responsabilidades. Significava esbanjar charme de dia com as calouras no campus e fazer sexo a noite inteira com as veteranas na cidade. As festas com bebida farta também faziam parte do pacote.

Acordava muito tarde para ver Sam entrando na Faculdade, mas sempre dava um jeito de estar a postos no horário que Sam seguia para o refeitório. Seguia o irmão à distância e esperava ele sair. Depois o acompanhava de volta ao prédio da Faculdade de Direito. Sam nunca estava sozinho. Algumas vezes com Jess. Outras, com um grupo de amigos. Outras ainda, com Jess e um grupo de amigos.

A mesma coisa na hora da saída. Acompanhava de longe Sam voltando da Faculdade e só se afastava depois que via Sam entrando em segurança no seu alojamento.

Dean nunca deixaria de pensar no irmão como o garotinho que há muito ele deixara de ser.

Um dia que Sam demorou a deixar o prédio, Dean arriscou-se e entrou no prédio da Faculdade. Encontrou Sam na Biblioteca, concentrado, fazendo uma pesquisa. Aproximou-se em silêncio. Parou a menos de um metro, com o coração descompassado. Por um longo momento, pensou seriamente em deixar de lado o orgulho e chamá-lo. Chegou a estender o braço para tocá-lo no ombro. Mas, acabou saindo sem deixar-se ver.

No dia seguinte, aproveitou um horário que sabia que Sam e seu companheiro de quarto, Jordan, estavam fora para entrar no quarto e dar uma geral. Precisava ter certeza que Jordan não levaria seu irmãozinho para o caminho das drogas nem tentaria abusar dele se o encontrasse indefeso sob efeito do álcool.

Aproveitou também para dar uma vasculhada no laptop do irmão e ver o que este andava aprontando. Não teve problemas com a senha: WDEAN. A mesma que usava no computador de casa. Gostou de saber que ainda fazia parte da vida do irmão.

Quase tudo era estudo, nada de pornografia. Divertiu-se muito lendo os e-mails melosos de Jess para Sam e com a veia poética do irmão nos e-mails de resposta.

Um e-mail não enviado chamou sua atenção. Sam escrevera para ele, Dean. Estava ali, com todas as letras, que Sam sentia falta do irmão e que nunca quis magoá-lo. Saiu satisfeito, com a alma leve. Já tinha visto o suficiente. Sam estava bem. Voltaria para casa, tranqüilo.

#

Seguia distraído quando, subitamente, se vê imobilizado por uma gravata no pescoço e com o braço torcido contra as costas.

– E aí, maninho? Tudo bem com você?

Mas, não era Sam. Era Jason Ross.

– Que história é essa, cara? Desde quando eu sou seu maninho? Me larga!

– Até onde eu sei, há pelo menos uma semana. Soube que perguntou por mim na secretaria, dizendo que tinha vindo matar as saudades do maninho. Pois bem, estou aqui. Que tal ESSE abraço apertado, MANINHO?

Ross era forte e, por mais que tentasse, Dean não conseguia livrar-se do golpe. Por fim, desistiu de lutar e resolver explicar-se.

– Cara, não é o que você está pensando, seja lá o que estiver pensando. Eu vim mesmo atrás do meu irmão, para saber se está tudo bem com ele. Meu nome é Dean Winchester. Sou o irmão do Sam. Sei que você o conhece.

Primeiro John, agora Dean. 'É Sam, nossos caminhos estão se cruzando cada vez mais', pensou Ross. Deixou Dean livre.

– Fala, então. Porque essa de se passar por meu irmão? Eu tenho uma reputação a zelar, sabia?

– Você deve saber que o Sam saiu de casa brigado com nosso pai. Não queria continuar o negócio da família. Desde então, não deu mais notícias. Eu estava preocupado. Criei o Sam praticamente sozinho. É natural que eu fique preocupado e queira saber dele. Usei outro nome, no caso o seu, para que ele não soubesse que eu estava aqui.

– E qual seria este "negócio de família"?

Neste instante, o celular de Dean toca. Era John, ligando para tranqüilizá-lo. Ainda estava trabalhando no caso e ficaria fora por mais algumas semanas. Estava deixando o Kansas e seguindo para a Califórnia. Se precisasse, o chamaria.

– Era o meu pai. Está vindo para a Califórnia. Mas, não acredito que ele venha aqui. Meu pai é muito cabeça-dura. Ainda está muito sentido com a ingratidão do Sam.

'Então, John está vindo para cá. É bom saber. Preciso estar preparado', pensou Ross.

– Vamos até a cantina, continuar essa nossa conversa. Sam é um bom amigo e quero o melhor para ele. Sei o quanto a família é importante para ele e como ele sofre com essa separação.

Conversaram por quase uma hora, num clima descontraído de amizade. Neste pouco tempo, Ross já tinha conquistando a confiança de Dean.

#

Tão desprevenido estava Dean em relação ao irmãozinho Ross, que vai ao banheiro deixando o celular sobre a mesa.

Ross aproveita o descuido para anotar o número do celular de John.


(Cap. 18) Ross

Ross escutara Dean falar de Sam e ficara tocado com a profundidade dos sentimentos que o ligavam ao irmão caçula. Se não tivesse conhecido John, talvez não fosse capaz de completar as lacunas. Mas, Ross era bom em estabelecer relações a partir de pequenas pistas e formar um quadro maior.

Quanto mais ouvia, mais se identificava com Dean e mais se sentia em falta com Tristan. Não soubera proteger o irmão e o perdera. Seu único conforto era saber que conseguira impedir que o pouco que restara do irmão fosse queimado. Queria que o espírito do irmão encontrasse a paz, mas era injusto que fosse impedido de clamar por justiça. Quando levasse o assassino à justiça, aí sim, seu irmão estaria verdadeiramente em paz.

Além disso, de uma maneira torta realizara o último desejo do irmão. Ele certamente não gostaria de ser enterrado naquela cidade. Muito mais agora, que a cidade mostrara claramente o quanto o desprezava.

#

No relatório da investigação que mandara fazer sobre a família Ross e sobre a atuação da avó nos acontecimentos que se seguiram a seu nascimento e à morte da mãe, constava o nome do agente funerário que, no passado, ajudara a avó a montar sua farsa.

Suspeitando das intenções de John de queimar os ossos do irmão, Ross não hesitara em passar por cima da ética e das leis para impedir que os restos mortais de Tristan fossem enterrados no jazigo dos Ross.

Nisso, mostrou que era muito parecido com a avó. Tivera menos de 48 horas para os preparativos, e precisara gastar muito dinheiro, mas recebera a urna lacrada com os restos do irmão e um cadáver que poderia passar como sendo o de Tristan.

O cadáver era de um rapaz moreno atropelado na auto-estrada 70, no trecho entre Lawrence e Topeka. A metade direita do corpo estava esmagada. Não tinha sido reclamado em dois meses e seria enterrado como indigente.

Achou melhor fazer ele mesmo a parte suja. Não seria justo, mesmo pagando, passar essa responsabilidade para outra pessoa. Esperava que Deus pudesse perdoá-lo pela profanação do cadáver.

De volta à casa da família em San Jose, encontrou a avó ainda muito abalada, mas suficientemente forte para terem uma conversa franca. Uma conversa que deveriam ter tido anos atrás.

Contou à avó sobre sua ida a Harveyville alguns anos antes, sobre sua premonição e sobre os estranhos acontecimentos que presenciara no posto. Não escondeu nada. Nem sobre John, nem sobre os métodos que usara para trazer a urna com os restos do irmão.

Para sua surpresa, a avó não pareceu chocada. Ela pediu desculpas por tê-lo criado afastado do irmão, disse que ele fizera o que era necessário e que ela estava muito orgulhosa dele. Que juntos resolveriam tudo.

Dois dias depois, enterraram a urna funerária com os restos de Tristan na propriedade dos Lang de San Jose. O padre confessor da Sra. Lang, primo em primeiro grau dela e que, salvo os últimos desdobramentos, já conhecia a história toda, realizou o serviço fúnebre. Com ele não havia risco da história se espalhar. Estava tudo em família.

Ao lado de Tristan, enterraram as partes do corpo do rapaz que não foram enterradas no túmulo de Tristan em Harveyville. O enterro digno na propriedade dos Lang e ritos religiosos eram mais que ele receberia como indigente, mas mesmo assim...

Ross rezou para que o ritual de John impedisse que um segundo fantasma viesse assombrá-lo.

#

Uma semana depois, um homem, que se identificou como representante de uma grande seguradora, entregou a Peter Ross um cheque para cobrir os danos causados ao posto pelo tornado. Peter estranhou. Não acionara o seguro. Aliás, tinha certeza de nunca ter feito seguro algum. Muito menos um daquele valor. O homem esclareceu que o seguro fora feito muitos anos antes pelo antigo proprietário e que ainda tinha validade.

O valor era mais do que suficiente para que Peter reformasse inteiramente o posto de gasolina e ainda sobraria o bastante para que ele se sustentasse e à mãe enquanto o posto estivesse em reforma.

Era o que Ross podia fazer naquele momento pelo pai. Quando levasse o assassino de Tristan à justiça, voltaria a procurá-lo.

#

A Sra. Lang sabia muito bem quem era John Winchester.

Lawrence não era distante de Topeka, e, na época, a morte de Mary Winchester num incêndio misterioso tivera grande repercussão. O destino dos filhos menores também rendera muita discussão. A Sra. Lang sabia bem mais do que isso, mas não revelou ao neto naquele momento.

Ela sabia que tinha que agir. Que, mais uma vez, precisava ser rápida. Sua família estava em perigo. Ligou para Topeka e convocou a afilhada. Seu irmão Clark estava aposentado, mas fora um juiz respeitado e ainda tinha muita influência na região. Ligou para ele também.

Precisava estar preparada para quando reencontrasse John Winchester.

#

Na cantina, ao se despedir de Dean, Ross prometera ficar de olho em Sam e protegê-lo de encrencas. Disse que ele podia partir tranqüilo.

Ao apertar a mão de Dean, Ross sentiu todo o peso desta promessa. Fora mais uma vez invadido por uma estranha certeza. A certeza que a ameaça que levara Tristan, agora rondava Sam.


21.02.2013