CAPÍTULO X


(Cap. 19) Tristan

Desta vez, cruzar a barreira tinha sido fácil como atravessar uma porta. Voltara a ser capaz de pensar com clareza e não apenas reagir às fortes emoções que o dominavam quando estava no plano material.

Desta vez, não houve efeitos especiais na chegada. Talvez porque não estivesse realmente materializado. Não podia ser visto por pessoas. Mas, sentiu que o gato que acabara de cruzar seu caminho podia vê-lo. O gato rosnou ameaçador quando tentou se aproximar. Recuou um pouco. O gato virou-se e correu para longe.

Voltou a caminhar, explorando aquele novo ambiente. Não conhecia o lugar. Mas, sabia que não estava no Kansas. A temperatura era mais amena e o ar mais seco do que o que estava acostumado. Não avistava construções próximas, mas tudo estava bem tratado demais para ser um bosque natural. Não sabia, mas estava numa área de mata preservada dentro de uma propriedade particular. Mais na frente, postes de luz formavam uma trilha. Seguindo a trilha, chegou à Casa Grande. Era bonita, mas num estilo muito diferente das do Kansas.

Pensou no rapaz que vira no posto defendendo seu pai de sua fúria. Lembrou dele olhando diretamente para seus olhos e gritando alguma coisa. Não lembrava exatamente o quê, mas sabia que era algo importante.

Sentiu uma ondulação percorrer seu corpo. Se alguém pudesse vê-lo naquele momento, de pé, em frente à Casa Grande, veria que ficava cada vez mais transparente, até desaparecer por completo.

Uma nova ondulação e viu-se no interior de um quarto amplo, bem em frente à cama imensa onde um rapaz dormia. Curioso, aproximou-se e examinou bem o rosto do rapaz. Não o conhecia. Não, espera. Conhecia, sim. Era o rapaz que o enfrentara no posto. Observou melhor. Lembrou que já o conhecia de antes. O rapaz estivera no posto uma vez, há muito tempo. Lembrou que caminhavam lado a lado e que dera um murro no rapaz. Algo que ele tinha dito. Não sabia onde estava, mas o rapaz era com certeza um desafeto seu. Talvez um inimigo. Mas, como estava dormindo, não era uma ameaça imediata. Tinha tempo.

Decidiu continuar a exploração. A porta do quarto estava fechada, mas não seria um obstáculo. Fechou os olhos e desejou estar do lado de fora. Atravessou a porta. Não literalmente, como fantasmas fazem na TV. Reaparecera do outro lado. A casa estava escura e silenciosa. Havia muitas portas naquele corredor. Caminhou em direção a uma, no final do corredor, que lhe pareceu especial. Também estava fechada. Repetiu o truque. Um quarto ainda maior. Uma velha senhora dormia em uma grande cama. Numa chaise long, uma enfermeira, também adormecida. Tristan aproximou-se da velha senhora. Reconheceu-a imediatamente. Era sua avó Kristin.

Era onde estava? Na propriedade de vó Lang? Como viera parar ali? Viu um porta-retratos na mesa de cabeceira ao lado da cama. E muitos outros sobre uma cômoda próxima. Uma foto grande da mãe, muito jovem, numa parede. Diferente das fotos que conhecia, mas inconfundível. Era sua mãe. Quanto a isso, não tinha dúvidas. Isso só podia significar que estava realmente na propriedade da avó de San Jose.

Examinou os porta-retratos um a um. Nenhuma foto sua. Muitas fotos do rapaz estranho, que, naquele momento, dormia no outro quarto. Olhou demoradamente para uma foto recente da avó abraçada ao rapaz, ambos sorrindo para câmera, felizes. Quem era ele afinal? Porque morava ali?

Fechou os olhos e, ao abri-los novamente, viu-se ao lado do rapaz. Lembrou novamente do murro. Reviveu as emoções daquele momento. Raiva. Lembrou da foto do rapaz com a avó. Feliz. Aquele rapaz tinha tudo e vivia feliz na casa que a avó nunca o convidara a conhecer. Porque ela favorecia um estranho e condenara o próprio neto a uma existência miserável e sem perspectivas? Não era justo. A felicidade que aquele estranho exibia poderia ter sido sua, mas lhe fora roubada. E fora esse estranho quem a roubara.

A raiva voltou a invadi-lo, nublando seu raciocínio. Mais uma vez, estava dominado pelas próprias emoções. O quarto estava com as luzes apagadas, mas a única lâmpada acesa no corredor começou a piscar. E a temperatura no interior do quarto começou a cair.

Instintivamente, Ross puxa as cobertas contra si ao sentir o frio aumentar. A eletricidade estática se acumula no ambiente, criando pequenas centelhas. Os objetos do quarto começam a trepidar. O ar começa lentamente a fazer um movimento circular.

Ross sente uma presença e acorda sobressaltado. Imediatamente, entende o que está acontecendo e o que viria a seguir. Prende involuntariamente a respiração, enquanto observa a manifestação poltergeist, mais com fascínio do que com medo.

Ross tenta falar com o fantasma, mas a voz sai fraca, hesitante.

– Tristan, me escute.

O vento aumenta e alguns objetos menores são levantados se incorporando ao vórtice. As centelhas aumentam em número e freqüência. O barulho acorda a enfermeira no quarto do fim do corredor.

Ross respira fundo e projeta a voz, como faria num tribunal, para restabelecer a ordem.

– VOCÊ ESTÁ CONFUSO, TRISTAN. SE ACALME. QUERO AJUDÁ-LO. NÃO SOU SEU INIMIGO.

O vento aumenta ainda mais e também objetos grandes são levantados. As vidraças estremecem, ameaçando quebrar. A enfermeira corre em direção ao quarto de Ross. O fantasma, novamente em sua aparência intimidante, começa a se materializar. Centelhas rodeiam a figura que levita a 1 metro do chão. A enfermeira abre a porta, e, ao ver o fantasma e todas as manifestações sobrenaturais que o acompanham, grita apavorada e sai correndo gritando por socorro. A porta é deixada aberta.

O fantasma, levitando, lentamente se dirige para Ross, que ainda encontra-se sentado na cama e com as pernas sob as cobertas. As centelhas que saltam de seus olhos são a perfeita tradução dos sentimentos que o impulsionam. Fúria.

Ross mais uma vez respira fundo. Levanta-se, pondo-se de pé sobre o colchão de forma a que seus olhos ficassem na mesma altura dos olhos do fantasma. Ross abre os braços, como quem espera um abraço, e fala com emoção:

– TRISTAN, ESCUTE. MEU NOME É JASON E EU SOU SEU IRMÃO. EU SÓ QUERO AJUDÁ-LO.

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Minutos depois, quando a enfermeira retorna, acompanhada de dois seguranças, começa a duvidar de seus próprios olhos e da própria sanidade. Ao abrir a porta, vê Jason profundamente adormecido, em meio às cobertas. Aparentemente, estava tudo normal. Tudo em seus devidos lugares.

Confusa, chama os seguranças de volta e fecha a porta com cuidado, para não acordar o patrãozinho.

Ao escutar a porta se fechar, Jason levanta a cabeça, olha em torno e sorri.

– Desta vez foi por pouco, maninho.


(Cap. 20) Walker

Vender para a diretoria da SPN a idéia que a agência devia contratar um primeiranista de direito de Stanford foi a maior prova que o monstro se tornara um verdadeiro profissional de marketing.

Claro, sempre aparece um despeitado invejoso espalhando veneno. Dizia-se nos corredores da empresa que Kim já tinha um eleito para a vaga muito antes da primeira entrevista; e que, se o rapaz, ao invés de fazer direito em Stanford, fizesse filosofia na Universidade do Oregon, eles estariam contratando um estagiário filósofo pescador de salmões.

Era a pura verdade. A vaga nascera com um nome carimbado: Samuel Winchester.

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Sammy, como Kim já se acostumara a chamar Sam, não era rico, mas logo receberia um belo reforço em sua conta bancária. Tornar-se-ia, na prática, o herdeiro universal do muito em breve desaparecido Kimberly Walker. Em pouco tempo, Sam trancaria a faculdade, se despediria da namoradinha e dos amigos e, literalmente, desapareceria no mundo.

Kim estava trabalhando na conta de uma empresa de aviação que breve inauguraria uma nova rota para Cartagena, na Colômbia. Estava pensando como seria viver num paraíso tropical. Abandonar de vez o frio e a escuridão. Assumir a luz do sol.

Vida nova, corpo novo. Pensou em si mesmo, já como Sam, ostentando um belo bronzeado. Era sempre bom ser belo e jovem; e era ainda melhor ser belo, jovem e rico. Imitou a forma de olhar e o sorriso de Sam. Ficaria irresistível.

O próprio Sam lhe entregaria os documentos que precisava para resolver os aspectos burocráticos da mudança de identidade quando assinasse o contrato de estágio. Sim, porque simplesmente duplicar o corpo de uma pessoa não o transformava nesta pessoa em termos legais. Para provar que você é você mesmo, é sempre preciso mostrar documentos. Aliás, com os documentos certos, ele não precisaria nem mesmo duplicar o corpo.

O apartamento de Walker já estava sendo anunciado para venda. Estava transformando este e todos os outros bens de Walker em dinheiro vivo. Desta vez, nada seria feito de forma improvisada. Ele mesmo estava cuidando dos aspectos legais. Os conhecimentos do advogado de Iowa, Andrew Nolan, a vítima anterior a Tristan, estavam se mostrando muito úteis.

Havia prestado atenção em cada maneirismo de Sam durante a entrevista. A forma como andava, como se sentava, como tentava disfarçar o nervosismo. Mas, não conseguiu manter a objetividade de Kim Walker por muito tempo.

Enquanto explicava o tipo de trabalho que o estagiário faria, despia Sam mentalmente e pensava em como seria bom tê-lo em sua cama. Esta era uma herança do advogado Andrew. O verdadeiro Kim gostava mais de joguinhos de poder do que de sexo. E, ao fazer sexo, fazia seus joguinhos de poder. Andrew, não. Gostava de sexo acima de tudo. E agora influenciava a forma de agir e pensar de Kim Walker.

Era sempre assim. A personalidade do absorvido mais recente tendia a influenciar mais fortemente, mas aspectos muito fortes da personalidade de absorvidos mais antigos persistiam por algum tempo. A influência era tão maior quanto mais tempo mantivesse no corpo duplicado. Por isso tão pouco de Tristan ficara na matriz psíquica. Poucos aspectos marcantes de personalidade e pouco tempo na forma.

Mas, em compensação, Tristan dera uma grande contribuição à matriz genética do transmorfo: o uso de áreas alternativas do cérebro para armazenamento de memórias seletivas. A maior retenção dos conhecimentos obtidos de Andrew já era contribuição de Tristan.

O monstro sempre evoluía. Se não fosse detido, ficaria cada vez mais adaptável e perigoso.

E a contribuição definitiva viria de Sam Winchester. Sua capacidade potencial de ser um receptáculo permanente para seres sobrenaturais vinha de uma característica genética que compartilhava com o irmão, o pai e toda uma linha de ascendentes masculinos. No metamorfo, esta característica genética lhe daria plena compatibilidade com qualquer ser humano.

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– Bem, Samuel. Ainda tenho colegas seus a entrevistar, mas creio que o teremos aqui muito em breve. O escolhido ficará uma semana em cada setor da empresa, conhecendo o tipo de trabalho que é feito lá, num esquema de rodízio. A primeira semana é aqui mesmo, comigo. Se for você, e eu acho que será, vai gostar tanto que vai querer ficar aqui PARA SEMPRE.


25.02.2013