CAPÍTULO XI
(Cap. 21) Sam
– ROSS!
– Oi, Sammy. Oi, Jordan.
– Quantas vezes eu vou ter que repetir? É SAM. SAM! Podemos ser amigos, mas não te dei intimidade para me que chamasse de SAMMY. Me fiz entender? Fui suficientemente claro? Já é suficientemente embaraçoso que meu irmão me chame assim.
– Oi, SAMUEL. Satisfeito agora?
– Muito. Ah! Que bom que voltou. Cara, eu estava preocupado. Preocupado de verdade. Você não aparece na faculdade há quase uma semana. O celular sempre fora de área. Um pessoal seco atendendo às ligações na sua casa. Tudo bem com você?
– Desculpe, Sam. Minha avó passou mal. Problemas de família, sabe como é. Mas, agora está tudo bem. Foi uma semana bem estranha. E vocês, alguma novidade?
– Eu tenho. Estava contando pro Jordan. Acabei de receber a confirmação. Consegui um superestágio. Ótima grana. Numa agência de publicidade de San Jose. Começo na próxima segunda.
– Legal. Parabéns! Não é muito fácil conseguir estágio no primeiro ano. Só me explica uma coisa. O que é que você vai fazer lá? Para quê uma empresa de publicidade quer um estagiário que faz Direito?
– Ainda não sei ao certo.
– E você não achou estranho? De quem foi essa idéia maluca?
– Que eu saiba, foi do cara que me entrevistou. Sr. Walker. Kim, pros íntimos.
– E você seria um destes .. íntimos .. do KIM ?
– Não, mas acho que isso passou pela cabeça de uma meia dúzia lá na agência. Este foi mais ou menos o número de pessoas com quem eu falei na empresa e todos me olharam de cima a baixo e deram um sorrisinho. Acho que o tal Kim é dado a assediar estagiários.
– E você vai entrar nessa furada?
– Não posso abrir mão desta grana.
– Ah, então é uma questão de negociar o preço? Se eu pagasse, você tinha aceitado ir comigo no motel de Nevada?
Jordan deu uma gargalhada. Não ia perder a chance de pegar no pé de Sam por um tempinho. Tipo, os cinco anos de curso. Talvez mais. Tipo, o resto da vida.
– Você chamou o Sam para irem juntos a um motel? É, até que vocês formam um belo casal. Se quiserem, eu mudo e o Ross passa a dividir o quarto com o Sam. A cama é apertada, mas tenho certeza que vocês vão ser muito felizes nela.
Sam fuzila Jordan com os olhos.
– Babaca! Não é nada disso. Um carinha foi retalhado no tal quarto de motel. O Ross queria chegar lá antes que removessem o sangue das paredes.
– É, existe mesmo tara para tudo. Fazer sexo selvagem numa cama suja de sangue. Aconselho você a cobrar bem caro, Sam.
– Eu pago! Vai valer cada centavo. Breve, eu e o Sam vamos ter mais .. intimidade .. e ele vai deixar que eu o chame de SAMMY, não é SAMMY querido?
Ross agarra Sam e finge querer beijá-lo. Sam se livra dando um empurrão que faz Ross cair sentado no chão, por pouco não arrastando Jordan.
– Ok, já se divertiram? Então, CHEGA! Não bastava a perspectiva de ficar fugindo ou acertar um murro no tal Sr. Kim. Parece que mais gente vai acabar levando um murro.
– Está vendo, Jordan? O garoto do Kansas ainda não lida bem com a própria sexualidade. Qualquer brincadeirinha já tira ele do sério.
– Não me metam nas briguinhas de casal de vocês. Vou seguindo. Marquei com uma garota. Também não quero atrapalhar as negociações sobre quem fica por cima. E Sam, espero que você só faça essas coisas por dinheiro. Não quero ter que dormir de jeans com cinto. E com aqueles fivelões, sabe?
Jordan se afasta e Ross muda o tom. Na verdade, a menção de Sam ao corpo mutilado de Tristan já tirara toda a graça da piada para Ross.
– Agora sem brincadeira, Sam. Qual é a deste estágio? Como é esse Kim?
– Seja qual for a dele, eu vou saber me defender. Já sou bem grandinho. Ele pode até se insinuar, mas não vai me forçar a fazer nada que eu não queira. Ele, com toda a certeza, não vai querer um escândalo no próprio ambiente de trabalho.
Ross via a lógica impecável de Sam, mas sentia que não seria assim.
A sensação de que Sam estava em perigo persistia e se fortalecia. Ross cada vez mais acreditava na sua recém-desenvolvida intuição.
E, falando com Sam, achava que a fonte desta ameaça começava a se delinear.
– E qual o nome desta agência de publicidade?
– SPN Advertising
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Ross começou a considerar seriamente a idéia de conhecer o Sr. Kim Walker.
(Cap. 22) John
John aproveitara a parada para descanso num motel da autoestrada 70 para atualizar suas anotações sobre o caso do shapeshifter.
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DIÁRIO DE JOHN WINCHESTER
"O advogado tributarista Andrew Nolan, 45 anos, solteiro, homossexual assumido, de Davenport, Iowa, foi dado como desaparecido há 14 meses.
Uma grande quantia de dinheiro fora sacada de contas correntes e outros ativos de Andrew Nolan nos dois dias seguintes ao seu desaparecimento, o que fez a polícia acreditar ser um caso de seqüestro seguido de morte. Como Andrew era sexualmente promíscuo, a polícia trabalhava com a hipótese do advogado ter escolhido o parceiro errado.
As investigações da polícia apontaram um motel de luxo num subúrbio de classe média alta de Davenport como o último lugar onde o advogado teria sido visto com vida. Exames de DNA realizados em minúsculos fragmentos de ossos presos aos dentes de uma serra manual encontrada em uma caçamba de lixo próxima ao motel onde a polícia acredita ter acontecido o assassinato confirmaram, 3 meses depois, a morte do advogado.
Oficialmente morto, Andrew reaparece 11 meses depois como o provável assassino de Tristan Jared Ross, com base no exame de DNA feito numa amostra de saliva recolhida em um cigarro, na cena do crime. Segundo conhecidos, Andrew não era fumante.
Supostamente, Andrew chegara de carro a Harveyville, Kansas, mas não entrara na cidade. Da estrada para o posto dos Ross e de volta para a estrada. Uma estadia de, no máximo, 3 horas, segundo relato de testemunhas. Não pode ser descartada a hipótese de que já tivesse ido ao posto antes, mas não foram encontradas evidências neste sentido.
O retrato-falado feito pela polícia de Carson City não foi reconhecido pelo pai da vítima, Peter Ross, nem pelos moradores da cidade que confirmaram ter visto um Camaro vermelho 2007 no posto. No dia, Peter Ross passara toda a manhã fora do posto. A Sra Ross, mãe de Peter e avó da vítima, também não vira Tristan depois que este saíra de manhã para ir ao posto, como fazia normalmente.
Peter Ross afirma não ter notado nada de diferente no comportamento do filho na semana anterior à fuga do rapaz. Não imaginava que tipo de promessas ou vantagens o advogado havia oferecido para atrair Tristan. Confirmou ter conhecimento dos boatos sofre a sexualidade do filho, mas afirmou não acreditar que Tristan fosse homossexual.
O fato de Tristan não ter deixado bilhete de despedida e ter levado uma única muda de roupas fez a polícia considerar que talvez ele não tivesse a intenção de fugir ou que não fora algo premeditado.
O fato é que Andrew Nolan tinha, de alguma forma, convencido Tristan Ross a seguir com ele até o motel de Carson City, Nevada, onde o assassinou, fez desaparecer partes do corpo do rapaz e desfigurou o seu rosto. Andrew teria fugido de carro e abandonado o carro na estação ferroviária da cidade. Não foi mais visto.
Quem teve a imagem registrada nas câmeras de segurança da rodoviária, foi Tristan. Mas Tristan, além de comprovadamente morto, como demonstrado pelo exame de DNA, tinha as costas e os antebraços cobertos de tatuagens, e o Tristan que embarcou para San Antonio não tinha tatuagens.
O caso teve repercussão nacional e fotos de Tristan apareceram em TV's de todo o país. Não houve nenhum telefonema com pistas válidas sobre o paradeiro de Andrew Nolan. Tristan, declarado morto, não estava obviamente sendo procurado pela polícia. Na fita da rodoviária, Tristan é flagrado fumando. Tristan também seria um não fumante."
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Agora era buscar retomar o rastro do shapeshifter em San Antonio.
Outra dúvida que torturava John é se ele devia ou não procurar Sam em Stanford e ter com ele uma conversa definitiva. Acabar com o clima de desavença, abençoar a escolha do filho e ..
O celular toca tirando John de suas divagações.
– Oi, John. É Bobby.
– Oi, Bobby. Descobriu alguma coisa nova?
– Algo que você mesmo devia ter descoberto. É sobre a última vítima identificada. Tristan Jared Ross. O rapaz é neto de Kristin Lang.
– DROGA!
– É o seu passado voltando para assombrá-lo.
– Conheci em Harveyville um irmão de Tristan que mora na Califórnia, mas ele se identificou apenas como Jason Ross.
– Não deu seu nome verdadeiro para ele, deu?
– O pior é que dei. O rapaz me impressionou pela coragem e ele lembra muito os garotos: mais Dean, mas também Sam. Isso me fez baixar a guarda.
– Se ele comentar com a avó, teremos grandes problemas. A megera e o irmão juiz quase acabaram com você no passado. E você sabe que ela é o tipo de mulher que não perdoa. Ainda mais que foi o irmão mais novo dela que acabou morrendo. Enquanto respirar, ela vai buscar vingança contra você.
– E agora ela tem novos e fortes motivos. Precisei queimar os ossos do neto. Ele tornou-se um fantasma razoavelmente poderoso. Foi capaz de uma materialização completa em menos de 1 mês.
– Um fantasma?
– E não é só isso. O irmão, Jason, tem um grau elevado de precognição. Aparentemente, é coisa recente, talvez ligada à morte de Tristan. E tem mais: pareceu determinado o suficiente para se meter em encrenca da grossa.
– Não chega a ser surpresa. Parece que essa família atrai o nosso tipo de problema. O melhor é manter-se afastado. Abandonar esse caso.
– Não dá. O shapeshifter vai continuar a matar e eu não me perdoaria se Jason fosse uma das vítimas. Mas, não é só isso. Não consigo afastar a sensação que Sam está em perigo. E eu não vou sossegar até ter a certeza que ele está e vai continuar seguro. Se for necessário, enfrento até a bruxa.
(Cap. 23) Dean
A mala já estava no Chevy Impala. Dean só estava esperando Erica voltar da Faculdade de Enfermagem para um último beijo e, então, pegaria a estrada de volta para casa. Claro que não esperava que ficasse só no beijo. Erica se inflamava rápido e sabia como transmitir esse fogo.
Ouviu baterem na porta. As batidas, em rápida sucessão, indicavam urgência. Abriu a porta. Sorriu. Apesar de alguns anos mais velha que ele, era uma garota bonita. O primeiro pensamento que teve foi cafajeste. Só então percebeu que a garota estava prendendo o choro.
– Ah! Oi, desculpe. Estou procurando a Erica.
– Mais um minuto e ela está chegando. Quer entrar?
– Não, melhor eu voltar depois.
A garota estava agitada, parecia não saber o que fazer. Esfregava uma mão na outra. Não conseguiu evitar as primeiras lágrimas.
– Ei, você está chorando! Eu posso ajudar?
Dean olhou nos olhos da garota e deu seu melhor sorriso sedutor. O resultado não foi o que esperava. A garota caiu num choro compulsivo.
– Ei, está tudo bem. Está segura aqui.
A garota, soluçando, abraçou Dean como quem abraça o melhor amigo. Como um náufrago agarra uma bóia. Ainda estavam abraçados quando Erica chegou.
– QUE PORRA É ESSA? Que diabos estão fazendo aí agarrados?
– Desculpa, Erica. Vim ver você, mas você não estava ... Eu não sabia o que fazer ...
– Não sabe o que fazer e abraça meu namorado. Bem, ex-namorado, já que está de partida.
– Erica, por favor. É sua amiga. Ela não está legal. Aconteceu alguma coisa séria.
– 'Tá bom, o que aconteceu, Janet?
– Aconteceu que eu não tenho coragem de voltar àquela casa. Tentei me convencer que foi um sonho, mas sei que não foi. Eu vi. Eu sei que vi. Não estou louca.
– Viu o quê?
– Um fantasma. Um fantasma terrível.
– Fantasma?
– Fan..tasma? Bebeu, garota?
– Sabia que ninguém ia acreditar. Eu vi o fantasma, gritei, corri para pedir ajuda aos seguranças, mas, quando voltei, estava tudo normal. Os seguranças não acreditaram em mim. A Sra. Lang disse que foi só um sonho ruim. Mas, eu sei que foi real. Não estou ficando louca.
– E o que mais você viu? Sentiu alguma coisa? Frio?
– Sim, frio. O quarto estava gelado. E parecia que havia um tornado dentro do quarto. Alguns objetos voavam em volta do fantasma. E havia centelhas, muitas centelhas. Principalmente em torno do fantasma.
– E como se parecia esse fantasma?
– Ele estava de costas. Sem camisa. Falando assim, parece ridículo. Um fantasma sem camisa. Tinha algo desenhado no corpo. Um dragão, acho. Uma tatuagem de dragão. E cabelos longos escuros. Foi horrível.
– A velha estava certa. Você sonhou.
– Espera. Fale um pouco mais deste fantasma. Onde ele apareceu?
– Na casa onde eu estou trabalhando, a poucos quilômetros de San Jose. Eu dou assistência a uma senhora já bem idosa. O fantasma apareceu no quarto do neto dela. Eu vi que ele estava acordado e que viu tudo. Mas quando eu voltei com os seguranças, foi como se nada tivesse acontecido.
– Quando você volta lá?
– Eu não vou voltar. Não piso nunca mais naquele lugar.
– Vou reformular a pergunta. Quando você DEVERIA voltar lá?
– Era para voltar hoje e passar a noite lá. Eu estava me vestindo para ir quando comecei a chorar. Bateu uma angústia, um desespero. Só de pensar em entrar naquela casa, eu começo a tremer. Estou morrendo de medo. Vim para cá desabafar.
– Eu acompanho você até lá. Você me apresenta como um irmão, um primo, qualquer coisa.
– Dean, você não estava voltando para casa? Que interesse todo é este?
– Um fantasma! Não acha nem um pouco interessante?
Não. Pela cara que Erica fez, ela não achava nem um pouco interessante. Deu um sorriso falso para a amiga, que fazia cara de envergonhada. 'Envergonhada? Muito da sem-vergonha, isso sim.' Ela que esperasse até estarem a sós. Ia ensinar à vagabunda a não se engraçar com homem seu.
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Dean pára o carro quase encostado ao muro, usa o carro como escada e salta para o lado de dentro. Sabia o que fazer e onde procurar. Janet contara da dupla cerimônia fúnebre, numa área isolada da propriedade. Meia hora de busca e Dean já estava cavando os túmulos. Uma hora depois, as chamas iluminavam a noite. Mais duas horas e Dean estava pegando a estrada para finalmente voltar para casa.
– Dever cumprido. Esse fantasma não assusta mais ninguém.
02.03.2013
