CAPÍTULO XII


(Cap. 24) Sra. Lang

Ela já se sentia bem melhor. A expectativa de uma nova batalha a revigorava. Voltava a sentir-se viva. Nos últimos anos, deixara-se envelhecer. Foram anos tranqüilos, cuidando de um neto que nunca trouxe problemas. Ela quase acreditou que dali em diante seria sempre assim. Que acabaria sendo o que nunca pensou que um dia seria: apenas a avó orgulhosa de um neto brilhante.

E, então, a ilusão se quebrara. Seu outro neto, o que fora obrigada a deixar para trás, aparecera em horário nobre, de costa a costa, desonrado, vítima de um crime monstruoso. O baque foi tão forte que ela fraquejou e caiu. Chegou a pensar que não sobreviveria.

Os jornais ressuscitaram a história da pobre Adeline, sua filha querida, que morreu dando à luz. Mas, não foram além disso. Ela tivera sucesso em cortar a trilha que poderia ter trazido o escândalo até a sempre respeitável família Lang.

Jason a surpreendera. Fizera o que ela própria teria feito se fosse mais jovem. O lugar de Tristan não era no Kansas. Nunca fora. Quanto potencial perdido. Ela devia ter agido antes. Devia ter trazido Tristan para San Jose. Ele podia estar agora fazendo faculdade. Mas, a idéia de trazer de novo para seu mundo aquele pai execrável a fizera adiar, adiar e adiar. E agora era tarde demais.

Ainda estava digerindo a história de que Tristan persistia como fantasma. Ia de encontro à sua formação católica. Não duvidava de Jason e, agora, havia também o testemunho de Janet. Ainda assim, era difícil conviver com a idéia de que seu neto era uma alma penada, afastada da luz e da graça de Deus. Era preciso conduzi-lo para a luz.

Mas, conduzi-lo para a luz era uma coisa muito diferente de permitir que um lunático perigoso queimasse os ossos do neto num ritual profano. Fosse ou não verdade que o ritual cortava os laços com nosso mundo, como garantir que a alma estava salva, que seguiria para a luz? A alma poderia ser condenada a vagar eternamente no limbo. Estremeceu com a idéia.

Aquele homem se safara uma vez e sabe Deus como tinha criado os dois filhos. Crianças inocentes convivendo com um psicótico que via demônios em todos os lugares.

Tinha certeza que John Winchester matara a esposa e colocara fogo na própria casa para esconder o crime. Ouvira de sua própria boca que Mary, a esposa, fizera um pacto demoníaco e que nas veias de seu filho de um ano corria sangue de demônio. Era fácil ver a verdadeira história por trás de seus delírios: suspeitava ou tinha certeza do adultério da mulher e suspeitava que o menino não fosse realmente seu filho. O rival se transformara, em sua mente perturbada, num sedutor demônio de olhos amarelos.

Felizmente, John não fizera nada contra a criança na ocasião, mas por quanto tempo seria assim? Se ainda acreditasse que o filho tinha sangue de demônio, era questão de tempo até que a loucura prevalecesse e passasse a ver mais o monstro que o filho.

Se não tivesse coragem ele mesmo de ir até o fim, induziria outro a fazê-lo, sob o pretexto de salvar a alma do filho. Talvez convencesse a própria criança que ela trazia o mal dentro de si. Ou o filho mais velho, que traumatizado com a morte da mãe, pareceu bastante sugestionável e psicologicamente dependente do pai. Pobres crianças.

Seu pobre irmão fora outra vítima de loucura de John Winchester. Sem motivo, John passou a acreditar que ele estava possuído pelo tal demônio de olhos amarelos e ele acabou assassinado com uma facada certeira no coração. Outro crime de John Winchester.

E agora esse mesmo psicótico cruzara o caminho de seus netos. Mas, ela ainda estava viva e protegeria sua família a qualquer custo.

Se fosse necessário, mataria John Winchester com as próprias mãos.


(Cap. 25) Ross

Como seria de se esperar, a propriedade dos Lang possuía um sistema de segurança de última geração. Foi muita ingenuidade de Dean acreditar que sua ação passaria despercebida.

Assim que invadiu a propriedade, a segurança da mansão foi alertada pelo sistema de sensores de perímetro. Dean entrou por um ponto deixado propositalmente vulnerável a uma invasão como forma de facilitar a identificação do invasor e sua interceptação dentro da propriedade.

O rosto de Dean foi devidamente registrado por câmeras de 4 ângulos diferentes e o Impala teve as placas anterior e posterior automaticamente fotografadas. O que desorientou a segurança foi que Dean, ao contrário do comportamento esperado de um ladrão, tomou o caminho do bosque e não da Casa Grande.

Seguindo o procedimento padrão, a segurança tomou posição dentro e no entorno da casa e aguardou. E aguardou. E aguardou. Após uma hora de espera, decidiram avisar Ross. Neste momento, Dean já tinha removido quase toda a terra que cobria o caixão do rapaz atropelado.

No anexo da segurança, o técnico volta a fita até o ponto que o Impala encosta no muro. Foi surpresa para Ross. Mas, não tanta assim. Ross não conseguiu esconder a admiração.

– Dean?

E falando para o técnico:

– Por favor, chame todo o pessoal da segurança aqui. Conheço esse sujeito. Ele não pretende entrar na Casa Grande.

Minutos depois, Ross fala para a equipe de segurança reunida.

– Conheço o sujeito. É um amigo da faculdade. Ele apostou comigo que era capaz de invadir a propriedade e passar 3 horas aqui dentro sem ser capturado. Eu já tinha até esquecido desta aposta. Faz mais de 2 semanas. Ele está no bosque. Procurem perto do lago, onde estão os túmulos. Espalhem-se e cerquem-no. Coloquem-no para fora da propriedade. Não é necessário chamar a polícia. Acompanhem-no até que tenha partido no carro. Importante: SEM VIOLÊNCIA. Entenderam?

– Sim, mas .. o senhor não vai nos acompanhar?

– Não, tem que parecer que eu não soube de nada. Não citem meu nome. Agora, apressem-se. Ele está aqui há quase 1 hora e meia.

Neste momento, Dean já tinha retirado a terra de cima de ambos os caixões, mas ainda não os tinha aberto. Sabia que, quando ateasse fogo, o clarão das chamas denunciaria sua presença. Precisava queimar o conteúdo dos dois caixões ao mesmo tempo e fugir o mais rápido possível.

No escuro, os seguranças não conseguem fazer uma aproximação muito discreta. Dean percebe a movimentação ao seu redor. Estava sendo cercado. Tinha pouco mais de 1 minuto antes de ser pego. Apaga a lanterna antes que ela o denunciasse. Desce na cova mais próxima e abre rapidamente a tampa do caixão do rapaz atropelado. Banha o corpo com combustível. Passa para a outra cova. Abre a tampa do segundo caixão. Usa todo o resto de combustível. Ateia fogo em ambos os caixões em rápida seqüência, sem nem mesmo parar para olhar. O fogo ilumina o bosque e denuncia a localização de Dean para os seguranças.

Quatro seguranças avançam na direção de Dean, vindos de direções diferentes. Dean avalia a relação de forças e parte com tudo na direção do que lhe pareceu mais fraco. Menos forte seria mais exato. Mudando freqüentemente de cidade, Dean nunca parara numa escola tempo o bastante para ganhar lugar no time principal, mas era um bom jogador de rúgbi. Tinha potencial para se tornar um capitão de time. No momento, ia precisar de toda a sua técnica.

Dean derruba o oponente como faria num campo de rúgbi e segue na direção oposta a que viera. Precisava chegar ao Impala, mas só teria chance de pular o muro se despistasse os seguranças. Tinha deixado a única corda ao lado do muro no ponto que entrara.

Não havia câmeras próximas ao lago. Mas, acompanhando a ação à distância, Ross viu o clarão do fogo. Entendeu o que tinha acontecido.

– FILHO DA MÃE! Ele conseguiu.

Ross subestimara os Winchester. Mas, os Winchester também subestimaram Ross. Agindo no escuro e com pressa, Dean não percebeu que o caixão de Tristan estava vazio. A urna com seus restos mortais permanecia em segurança, enterrada quase 1 metro abaixo do ponto onde estava o caixão.

Enquanto seis seguranças caçavam Dean por toda a propriedade, um vigiava o Impala. No anexo, Ross e o técnico monitoravam as dezenas de câmeras de seguranças. Não foi suficiente. Bem antes do amanhecer, Dean já estava na interestadual.


(Cap. 26) Kyle

Era a quinta vez que Kyle, o barman, vinha ao apartamento de Kim. Achava que isso devia significar alguma coisa. Ele, pelo menos, começava a fantasiar a respeito. Era atraído pelo poder, mais do que pelo dinheiro ou o amor. E Kim exalava poder, sempre no comando, fazendo acontecer. Poderia se apaixonar por aquele homem. Ou algo que acreditaria ser paixão. Como de todas as outras vezes que acreditou estar apaixonado.

Sabia que fazer o gênero romântico não funcionaria com Kim. Era melhor se mostrar disponível, nunca trazer problemas ou fazer cobranças. Mantê-lo satisfeito e interessado. Essa era sempre a melhor estratégia com homens poderosos e auto-suficientes.

O sexo entre eles sempre fora bom. Mas, a forma de fazerem sexo mudara. Mais violento agora que no início. Quase parecia outra pessoa. Mas não estava reclamando, muito pelo contrário. Gostava de ser dominado.

Acreditava que poderia seduzi-lo a ponto de ser convidado a ficar. Morar ali seria o máximo. Tudo ali lhe agradava. Parecia que tinha sido ele a escolher cada objeto. Sem comparação com o quartinho miserável que alugava.

É, porque não saía barato misturar-se aos ricos e parecer pertencer àquele ambiente. Gastava o que tinha e o que não tinha em roupas e naqueles pequenos detalhes que fazem a diferença e que quem é realmente rico sabe reconhecer.

Quem o visse agora, tão descolado, não imaginaria o fim de mundo de onde ele veio. Nem a Harveyville de Tristan era tão fim de mundo. Mas, desde garoto, ele decidira que não envelheceria naquele lugar. Preferia morrer. Com quatorze anos, juntou um dinheirinho que mal dava para a passagem de ida e fugiu de casa. Comeu o pão que o diabo amassou, mas não se arrependeu um segundo que fosse.

Fez programas, mas nunca pensou nisso como uma opção de vida. Fazia quando precisava, entre um trabalho e o outro. Ou fazia por dinheiro aquilo que faria até de graça. Homens interessantes não tinham faltado até aquele momento. Mas, começava a ficar preocupado. Completara 25 anos. Já não era assim tão jovem. Precisava agarrar as oportunidades enquanto era tempo.

Kyle não sabia, mas estava se iludindo se achava que poderia impressionar o monstro com sua performance na cama. Ninguém poderia.

O metamorfo era um amante inesquecível. Além que somar a experiência de muitas pessoas diferentes (e eram realmente muitas), podia fazer mudanças sutis em partes de sua anatomia que aumentavam o prazer nele e no parceiro ou parceira.

Quando se permitia, a excitação que sentia era muito mais intensa do que a sentida por humanos e, portanto, sempre havia o risco de perder o controle da transformação num momento de prazer mais intenso. Podia voltar à forma que não tinha certeza ser a sua verdadeira, mas que, com certeza, não tinha nada de humana.

Mas, o monstro sabia se controlar quando queria. Ainda mais agora, quando havia muito mais que sexo em jogo. Já estava de posse de seu novo passaporte. Era só abrir na segunda página e Samuel Winchester, na foto, sorriria para ele. O apartamento já fora vendido. Teria que deixar o imóvel em no máximo duas semanas, mas não precisava desse tempo todo. A passagem para a Costa Rica estava marcada para dali há 3 dias.

Na cama, o metamorfo foi menos Andrew e mais Tyler, um romântico incorrigível, que conservava como parte de si há mais de duas décadas. Foi tudo suave e perfeito. Ao final, perguntou a Kyle se ele se estava feliz. O rapaz sorriu e disse que estava. Muito feliz. E, ao dizer isso, Kyle estava sendo absolutamente sincero.

Kim abraçou Kyle por trás e beijou suavemente a nuca do amante. Kyle sorriu e se entregou completamente à sensação de segurança que o outro lhe passava. Naquele momento, o garoto ingênuo que ele foi um dia, e que ele nem sabia que ainda existia dentro dele, acreditou verdadeiramente que dali para frente tudo daria certo na sua vida. O monstro, então, o virou de frente e, com um movimento rápido das mãos, partiu seu pescoço.

Olhando para o corpo caído, o monstro pensou que deve ser bom quando a pessoa morre feliz.


05.03.2013