CAPÍTULO XIII
(Cap. 27) Kai
Kai chegou à propriedade dos Lang num momento péssimo. A Sra. Lang acabara de saber que os túmulos haviam sido violados. Jason tentava acalmá-la, mas ela estava histérica.
Claro, não houve gritos. Kristin Laura Lang era aristocrática e intimidava com os olhos, sem precisar alterar a voz. Podia ser pequena e estar debilitada, mas não havia ali quem tivesse coragem de encará-la.
A equipe de segurança, chamada a se explicar pelo fiasco da véspera e temendo – com toda a razão – por seus empregos, entregara Jason.
Pelo menos naquele momento dera certo. A velha esqueceu por um instante de tudo o mais e voltou toda a sua indignação contra o neto. Os seguranças aproveitaram para sair do salão o mais discretamente que puderam. Não havia um que não prendesse a respiração quando se sentia observado pelos grandes olhos azuis da velha.
A Sra. Lang começou com um breve resumo. Alguém havia invadido a propriedade; ludibriado todo o sistema de segurança, que lhe venderam como sendo impenetrável; profanado túmulos; queimado os ossos de um infeliz que nem um nome tinha para que rezassem por sua alma; desmoralizado completamente cada um destes incompetentes que jamais arranjariam novamente um emprego de segurança; e tinha fugido impunemente. E o pior: esse vândalo herege seria um conhecido - mais ainda - seria um AMIGO de Jason. Ele próprio havia confessado.
Jason estava contra a parede. Não tinha escapatória. A avó seria sempre a figura máxima da autoridade para ele. E ela não queria longas explicações. Queria o nome do vândalo e que ele entregasse imediatamente as fitas gravadas pelo sistema de segurança. Depois conversariam.
– Dean WINCHESTER? FILHO de JOHN WINCHESTER? Saia, Jason. Tenho algumas providências a tomar.
– Vó, eu queria ..
– Jason, JÁ FALEI. Não vou falar novamente. Outra hora conversamos. SAIA.
Kai, quieta num canto, pensou que tinha conseguido ficar invisível, mas a Sra. Lang estava consciente de sua presença desde o momento em que pisara na casa.
– Kai, querida. Aproxime-se.
Kai sorriu para Jason, que retribuiu com um sorriso envergonhado. Kai tinha presenciado a puxada de orelha que levara da avó. Se houvesse um buraco por perto, Jason se jogaria nele.
Kai e Jason tinham a mesma idade, a diferença era de dias. Quando Adeline morreu no parto, dentre todos os problemas que a Sra Lang teve que resolver para trazer o neto consigo, havia um que não podia esperar. O bebê precisava alimentar-se. O problema era maior porque oficialmente o bebê tinha morrido. A questão não era só arranjar uma ama-de-leite. A ama-de-leite teria que seguir com a Sra. Lang para San Jose, mesmo que temporariamente. Se fosse casada e radicada na cidade, o problema seria maior. Não seria fácil encontrar alguém que aceitasse mudar toda a sua vida num momento de tanta vulnerabilidade.
A Sra. Lang soube que uma índia de uma reserva próxima acabara de dar à luz. No desespero, fez o nunca pensou que faria, sendo ela tão orgulhosa de sua posição social: implorou a ajuda da mulher.
A mulher também era orgulhosa da sua origem e não gostava de brancos. Mas, não resistiu à visão do recém-nascido. Logo o amaria como um filho.
A Sra. Lang fora criada com todos os preconceitos de classe e de raça. E agora, a necessidade a obrigava a ter uma índia e sua filha sob o mesmo teto que ela. Ela resistiu o quanto pode. Mas, aos poucos, a menininha alegre foi minando o preconceito e logo a senhora já pensava na menina como uma neta, embora ainda mantivesse a pose.
Kai foi criada junto com Jason. Freqüentaram as mesmas escolas de elite e tiveram os mesmos privilégios e oportunidades. Mas, apesar da educação de princesa, ao terminar o high school Kai decidiu reencontrar a mãe e voltou para a aldeia. Queria fazer algo pelas meninas de seu povo.
Mas, não fora em busca de apoio familiar que a Sra. Lang chamara Kai.
Nascha, a mãe de Kai, era uma índia navajo. Conhecia os segredos da magia quileute e os transmitira à filha. A Sra. Lang não aprovava, mas fazia vista grossa. Agora, mais uma vez, ela precisava ser pragmática. Sua fé católica não tinha as respostas de que precisava. O que ela precisava agora era dos segredos de uma bruxa.
"No creyo en las bruchas, pero que las hay...las hay."
(Cap. 28) Tristan
O fantasma já tinha recuperado a maior parte de suas memórias e de sua história.
Permanecia a maior parte do tempo na dimensão enevoada. Aprendera a moldar a névoa, a fazê-la assumir a forma de objetos que pareciam sólidos. Pelo menos tão sólidos quanto ele próprio.
A primeira coisa que moldara fora um chão. Sentia-se mais seguro pisando em algo. Antes, a névoa encobria seus pés e ele não sentia nada material embaixo de si.
Mas não importava o quando andasse nesta dimensão, nunca chegava a lugar nenhum. Era o mesmo nada em todas as direções. O ponto de luz nunca ficava mais próximo. O que tinha feito de tão errado para estar ali?
Não podia mais visualizar o seu outro eu. Sabia que era porque aquele outro corpo não existia mais. Tinha gravado na memória a imagem do homem que seu assassino assumira. Mas, não conseguia materializar-se próximo ao homem somente mentalizando sua imagem. Tinha as mesmas limitações que teria se estivesse vivo. Teria que andar sem rumo até encontrá-lo, sem saber nem mesmo em que cidade procurá-lo. Mesmo que estivesse em San Antonio, o que era provável, a cidade era imensa. E a propriedade dos Lang ficava na Califórnia a centenas de quilômetros do Texas.
A travessia tinha que acontecer aonde havia um vínculo material e só ocorreria enquanto este vínculo existisse. Mesmo que Dean tivesse tido sucesso em queimar os ossos de Tristan, ele ainda poderia retornar. Mas, era uma questão de tempo. Fios de cabelo soltos em Harveyville e gotas de sangue seco no hotel de Carson City não subsistiriam por muito tempo. Eram vínculos que já estavam muito enfraquecidos. As amostras de tecido e de sangue no laboratório da polícia técnica de Carson City seriam conservados enquanto a investigação estivesse aberta. Mas, acabariam sendo descartados ao final do prazo legal. E aí não haveria mais nenhum vínculo.
Já descobrira que não podia permanecer indefinidamente no plano material. O esforço era demasiado. O esgotava. O esgotamento o transportava de volta para a dimensão enevoada.
Era mais fácil quando estava próximo de Jason. Podia permanecer mais tempo no plano material. Devia ser porque eram irmãos e compartilhavam muito do código genético. Não o suficiente para gerar um vínculo, mas o suficiente para reduzir a energia necessária à permanência.
Descobrira também que a materialização completa só acontecia sob forte emoção e que não era fácil provocá-la simplesmente por que era conveniente.
Mesmo materializado, não conseguia se comunicar verbalmente. A energia gasta para manter a materialização e as emoções muito intensas não permitiam que se concentrasse o suficiente para manter um diálogo racional. Neste estado, era fúria irracional.
Tentara mover objetos materiais na forma de fantasma, mas não conseguira. Nenhuma das tentativas de comunicação que tentara dera certo. Era um mero observador da rotina da casa. E a rotina de vó Lang e dos empregados era bastante entediante. Até a rotina do posto de gasolina era mais excitante. Restava-lhe acompanhar Jason. Seu IRMÃO. Já aceitava isso com naturalidade. Sentia também curiosidade. Como seria de verdade esse irmão que mal conhecera?
Acompanhou a movimentação noturna de Dean pela propriedade com curiosidade. Não sabia o que estava acontecendo e a importância que aquilo tinha para ele. Ficou um longo tempo olhando o fogo.
Acompanhou de longe a chegada de uma garota índia e sentiu que, como o gato, ela sentia sua presença, embora não pudesse vê-lo. Tinha quase certeza que a conhecia, embora não lembrasse exatamente de onde. Achou melhor manter-se afastado dela.
Estava ao lado de Jason quando ele ligou para CEO da indústria de laticínios da família. Achava engraçado o desembaraço com que o irmão assumia os negócios da família. Como a vida do irmão era diferente da que tivera. O irmão dava ordens. Falava em nome da avó. Mandava e era obedecido. Ia a reuniões de trabalho. Repetira mais de uma vez que queria uma reunião com o publicitário chefe da SPN Advertising ainda naquela semana.
(Cap. 29) Dean
Dean estava relaxado tomando uma cerveja e comendo um bacon cheeseburger com batatas fritas numa lanchonete de beira de estrada da interestadual. Ainda estava na Califórnia, mas já bem próximo de Carson City. Não dormia a mais de 24 horas e estava muito cansado. Dali seguiria direto pro primeiro motel de boa aparência que encontrasse na estrada e dormiria no mínimo 12 horas seguidas.
Sonolento, não notou os policiais até que dois deles se posicionaram ao seu lado e lhe deram voz de prisão, recitando seu direito de permanecer calado. Do lado de fora, um terceiro policial esperava os colegas ao lado do Chevy Impala. Ordenaram que abrisse o porta-malas. Deixara na propriedade dos Lang a pá e o galão de gasolina. Mas, havia uma segunda pá no porta-malas, a corda com ganho que usara, um taco de beisebol, uma barra de ferro, um rifle de caça e muita munição. Havia também sacos de sal, mas os policiais não imaginaram um uso comprometedor para o sal e o deixaram fora das evidências.
Dean foi conduzido algemado até o carro de polícia. Como ainda estava na Califórnia e as acusações vinham da polícia de San Jose, foi levado para a Central de Polícia de lá. Foi fichado, fotografado e ouviu as acusações de invasão de propriedade privada, violação de sepultura, vandalismo e agressão. Informaram que, condenado, sua pena poderia chegar a vinte anos. Ficaria preso até a audiência com o juiz.
Tinha direito a fazer uma ligação telefônica. Gostaria de ligar para o pai, mas não podia. Também não queria envolver Bobby. Seria o mesmo que chamar o pai. Além disso, podia comprometê-los no futuro. Sammy? Não. Agradeceu mentalmente pelo irmão estar fora dessa. Quem então?
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Ross estava chegando à faculdade quando o celular toca.
– Ross? Sei que você vai estranhar meu telefonema, mas aqui é Dean Winchester.
– Dean? Onde você está?
– Escuta, houve um mal entendido e eu fui preso. Estou na Central de Polícia de San Jose.
– Você quer que eu avise o Sam?
– NÃO! Por favor, não fale nada com o Sam. Ele não pode saber. Liguei porque vou precisar de um advogado.
– Eu ainda não sou advogado.
– Eu sei. Achei que podia me orientar ou, sei lá, indicar o nome de um defensor público. Não tenho grana para contratar um advogado.
– Dean, não posso prometer nada, mas verei o que posso fazer. Ligou para o seu pai?
– Não. Também não posso envolver meu pai nessa. Ross, eu liguei para você porque não tinha a quem apelar. Se você não puder me ajudar, estou realmente ferrado.
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John não reconheceu o número no celular. Aquele celular era sua linha direta com Dean. Só ele tinha esse número. Atendeu.
– John Winchester?
A voz era feminina. Voz de velha. John estremeceu.
– O que houve com Dean? Onde está meu filho?
– Seu filho está metido numa grande encrenca.
– Quem fala?
– Kristin Lang. Como vai, John? Faz muito tempo.
– O que FEZ com meu filho?
– Eu, nada. Mas, ele está preso, sem direito à fiança. E posso fazer que fique preso pelos próximos 20 anos. Meus advogados estão preparando as acusações e vou me empenhar pessoalmente para que seu filho seja condenado com todo o rigor da lei. Já marquei para falar com o juiz do caso, um bom e velho amigo.
– Não ligou só para me torturar. O que quer que eu faça?
– Quero conversar com você pessoalmente. Quero que venha à minha propriedade de San Jose. E então, John? Aceita meu convite?
– Amanhã estarei aí. Qual o endereço?
11.03.2013
