CAPÍTULO XIV
(Cap. 30) Ross
Ross parou, indeciso, quando ia entrar no prédio da Faculdade. Estava confuso desde que recebera na véspera a ligação de Dean Winchester. Tinha que tomar uma decisão. Não dava para adiar mais.
Não sabia ao certo como se sentia em relação a Dean. O desgraçado tentou acabar com o que restava do seu irmão. Quase lhe tirou sua única chance de reparar os erros do passado. O irmão, quando vivo, nunca soube que ele existia. Na única vez em que se encontraram, desperdiçara o encontro num jogo idiota para tentar descobrir se o irmão era ou não gay. E se fosse? Ainda seria seu irmão. Queria que o irmão soubesse disso. Que ele teria o seu apoio para ser o que o fizesse feliz.
Ross buscaria meios de se comunicar com o fantasma. Não era uma questão de SE conseguiria. Tinha certeza que sim. Era mais uma questão de COMO e QUANDO. E, nisto, Kai poderia ajudá-lo.
Também não sabia se o que Dean dissera era verdade. Que John Winchester não estava por trás da invasão. Se não fosse por John, como Dean saberia do fantasma? O mais provável era que John tivesse descoberto sua farsa em Harveyville e mandado Dean terminar o serviço em San Jose.
Neste caso, quando se encontraram pela primeira vez, Dean já sabia quem ele era. Despedira-se de John num dia e encontrara Dean no dia seguinte. E Dean estava passando-se por seu irmão. Muito estranho. E Sam? Será que Sam também estava nessa?
Sabia que a avó não deixaria barato esta história toda. Estava furiosa. A prova é a rapidez com que ela mexera os pauzinhos e Dean acabara atrás das grades. E ele não ia se safar fácil. As provas eram contundentes. Dean em close pulando o muro com uma pá e um galão de gasolina na mochila. Bastava uma condenação por invasão de propriedade agravada pela agressão ao segurança para tirar Dean de circulação por três anos, fácil. Com os advogados que a avó tinha à disposição, no mínimo o dobro disso. O galão de gasolina permitia pensar qualquer coisa. E levar a uma nova duplicação da pena.
Mas, não lhe agradava a idéia de deixar Dean apodrecendo por anos numa penitenciária. E, se dependesse da avó, era isso que aconteceria. Podia acontecer algo nada agradável com ele na prisão. Por mais durão que tentasse parecer, para eles Dean era pouco mais que um garoto, era carne fresca. Ele próprio, Ross, quatro anos mais jovem, imobilizara Dean facilmente. Bastava juntarem três e a vida sexual de Dean passaria por uma revolução.
Do que entendera da história toda, Dean caçava fantasmas como profissão, em tempo integral. Só que sem receber salário. Como John, arriscava a vida e a liberdade, sem ganhar nada em troca. Esse era o tal "negócio de família" de que Sam tentava fugir. A invasão da noite anterior não era algo pessoal contra ele ou os Lang. Talvez acreditasse estar ajudando.
Deu meia volta e seguiu para a Central de Polícia. Iria sozinho. Não podia chamar nenhum dos advogados das empresas da família.
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Ross foi conduzido a uma sala e deixado a sós com Dean. Dean estava com os pés algemados.
– Oi, Ross. Obrigado por ter vindo. Falaram em 20 anos. Alguém está querendo me ferrar.
– Dean, você invadiu propriedade particular, profanou sepulturas, pôs fogo em caixões e agrediu um segurança. Acha estranho que o dono não tenha gostado?
– Não é o que parece.
– Não? O que é então?
– Você não entenderia.
– Tente. Fale comigo como falaria com seu advogado. Se não conseguir me convencer, não vai convencer ninguém. E aí vai mesmo pegar os 20 anos.
Dizer o quê? Que caçava fantasmas? Ia acabar internado como louco furioso. Dean viu que pelos meios legais não tinha escapatória. Estava FERRADO.
(Cap. 31) Kristin
Kristin Laura Lang conheceu John Winchester logo após este ter ficado viúvo, aos 28 anos. O irmão mais velho de Kristin era o juiz encarregado de decidir se John manteria a guarda dos filhos ou se as crianças ficariam sob a tutela do Estado até serem entregues para adoção.
Kristin fora ao Fórum de Topeka falar com o irmão e deparara-se com o rapaz de olhos tristes que mudaria sua vida para sempre.
As circunstâncias da morte de Mary Winchester suscitaram todo tipo de especulações e a imprensa local acompanhava o caso com estardalhaço.
Para muitos, John havia assassinado a esposa e incendiado a casa para apagar as provas. Mas, muitos outros, principalmente aqueles que tinham contato pessoal com ele e o ouviam falar com emoção, acreditavam na sua inocência e na sinceridade de seu pesar e de seu amor pela esposa recém-falecida.
O jovem John lembrava Sam: era impossível conhecê-lo e não gostar dele.
Kristin, 15 anos mais velha que John, interessou-se pelo belo jovem e comoveu-se com a trágica história de amor do jovem pai.
Viúva a 5 anos, ainda muito bonita, com um nome tradicional e uma enorme fortuna, Kristin atraía um grande número de pretendentes. Mas, sabia que agiam movidos pela razão ou pela ambição. Mesmo aqueles que realmente gostavam dela, tinham perfeita consciência que grande parte deste interesse vinha de seu status social e da fortuna familiar.
Kristin era extremamente inteligente, astuta e perspicaz, mas era freqüentemente subestimada por ser bonita e rica. A morte da filha e a batalha pelo neto mostraram a ela própria do que era capaz.
John era diferente de todos os homens que conhecera. Emotivo e passional. Um homem para quem o amor vinha antes do dinheiro. Quanto mais o conhecia, mais o achava especial. Começara a fantasiar sobre o amor imortal de John e Mary. E, sem se dar conta, começou a ver a si própria no lugar de Mary.
Demorou um tempo, mas ela acabou enxergando o que estava óbvio para todos: que estava perdidamente apaixonada por John Winchester.
Sempre fora cortejada e endeusada. Nunca precisara antes esforçar-se para ser vista como mulher. E agora, com John, não conseguia passar da categoria de boa amiga. Mas, estava disposta a esperar que o luto passasse e que ele percebesse que ela era a melhor opção para ele e as crianças.
Garantir que John conservasse a guarda dos filhos era parte importante de sua estratégia. Ganhar o amor dos filhos dele era outra parte importante.
Com o menor não haveria problema. Sam era ainda um bebezinho. Quando ia à sua propriedade em Topeka, brincava com Jason e Kai. Havia muitas fotos dos três bebês juntos. Mas, por mais que se esforçasse, não conseguia ganhar a simpatia do garotinho louro, sempre emburrado. Como era possível que alguém tão pequeno fosse tão cabeça-dura?
Kristin nunca tinha sido confrontada antes com sua verdadeira idade. Ainda se via como a garota atrevida que fora antes do casamento e da maternidade. Não se enxergava como a jovem avó que recentemente se tornara.
O crescente envolvimento de Kristin com um homem 15 anos mais jovem era visto com desconfiança e olhares de reprovação no conservador círculo social a que pertencia. Principalmente, da parte do irmão mais velho, o rígido e moralista juiz Clark Patrick Lang, e de sua esposa, Chloe.
A cunhada, que já era invejosa e maledicente quando jovem, só piorara com a idade. Uma cobra sempre pronta a injetar seu veneno na forma de comentários sarcásticos. A cascavel, como Kristin a chamava pelas costas, sempre criticara o jeito extrovertido de Kristin e seu gosto por festas. Críticas que disfarçavam mal a inveja que a corroia. Odiava Kristin por sua independência, sua alegria, sua beleza e sua força. Primeiro, cobrava atitudes de eterna viúva. Depois, parecia querer vê-la enterrada junto com a filha.
Apenas seu irmão caçula, Tom, dava força a Kristin, para que lutasse por seu amor. Foi Tom quem propôs que Kristin convidasse John para um jantar com toda a família.
No dia do jantar, duas horas antes da hora marcada, Clark telefona. Chloe estava indisposta e não poderiam participar do jantar. Não foi surpresa para Kristin.
A surpresa seria outra. Mais que surpresa, perplexidade. John toca a campainha e Tom se apressa em abrir a porta. Ela vê de longe os dois conversando na porta, com John ainda na soleira e o irmão de costas para ela. Ela levanta sorridente e se dirige para eles. De onde estava, vê claramente quando John puxa uma faca que trazia nas costas e a crava no peito de Tom.
O choque paralisou Kristin e fez com que os fatos seguintes ficassem confusos em sua memória. O que era aquela horrível fumaça negra que saía em jato da boca do irmão moribundo? John empunhava firmemente a faca e olhava com ódio para o corpo caído de Tom.
John, com o smoking sujo do sangue de Tom e ainda empunhando a faca que o matara, veio em sua direção. Falava coisas sem sentido. Dizia que Tom estava possuído por um demônio, o mesmo Demônio de Olhos Amarelos que matara sua esposa. Pedia-lhe que acreditasse nele. Kristin olhava para John e via um homem transtornado. Enlouquecido.
Kristin desmaia.
Quando acorda horas depois, em seu quarto, por um minuto acredita que foi tudo um pesadelo. Até ver as manchas de sangue em seu vestido. O mesmo que vestira para receber John para o jantar em família. Não fora um pesadelo. Era real. Kristin grita e começa a chorar.
Naquele momento, Kristin começa a mudar por dentro. Começava ali o processo que transformou a alegre e ousada Kristin na mulher precocemente envelhecida que 20 anos depois abre a porta para mais uma vez receber John Winchester em sua casa: a severa e religiosa Sra. Lang.
– Há quanto tempo, John.
– Muito tempo, Kristin.
(Cap. 33) Kai
Kai ainda estava aturdida com as novidades e apreensiva com a tempestade que arrebatara Tristan e que agora se aproximava de Jason e de Sam. Conhecia magia. Fizera na aldeia o rito divinatório. Tristan, Jason e Sam. Não era coincidência.
E a tempestade se aproximava dela também. Pressentia que também tinha um papel importante a desempenhar.
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Kai se tornara amiga de Tristan depois que voltara para o Kansas, embora escondesse dele sua relação com a família Lang. Assim como escondeu de vó Lang que conhecera Tristan. Sabia guardar segredos.
Kai soubera do segundo neto de vó Lang pela mãe. Primeiro procurou Tristan por mera curiosidade. Voltou a procurar porque simpatizou com o rapaz e porque achou injusto que, sendo ele um Lang, vivesse uma vida sem perspectivas.
Passou incluir o posto de gasolina de Harveyville em seus trajetos. Puxava conversa, estendia o contato, foi ficando íntima. Ficou sabendo dos problemas de relacionamento de Tristan com o pai e de sua vontade de deixar a cidade. Acompanhou Tristan na primeira vez em que ele entrou na oficina do tatuador. Deu palpites, mas a escolha do dragão foi mesmo de Tristan. Kai segurou sua mão para ajudá-lo a suportar a dor.
Depois, tudo aconteceu muito rápido. Tristan foi assassinado e agora vagava pelo mundo como um fantasma furioso. E assim permaneceria enquanto não fosse vingado.
Logo após a morte de Tristan, Jason começou a ter premonições. Elas deviam protegê-lo, mas o estavam conduzindo para o perigo. Obcecado em proteger o fantasma do irmão, Jason parecia disposto a correr riscos cada vez maiores.
Não era para ser assim.
Kai sabia que as premonições eram parte de um feitiço de proteção feito por sua mãe, Nascha.
Nascha fora criada nas tradições e superstições de seu povo. Era de uma família de xamãs e curandeiras. Magia era parte de sua vida. Nascha apegara-se muito ao pequeno menino branco órfão e quis saber seu futuro. Leu nas entranhas de um corvo que havia uma sombra neste futuro. O bicho-papão das histórias que as mães navajos contavam para que seus filhos não se aventurassem longe da aldeia era uma ameaça real no futuro de Jason.
Pareceu ainda mais real quando ocorreram, em rápida sucessão, diversas mortes nas vizinhanças, logo atribuídas pelos velhos da aldeia a shapeshifters. Nascha acreditou no vaticínio e temeu pelo garoto. Decidiu então fazer um feitiço de proteção contra shapeshifters e outras bestas-feras. O menino seria capaz de perceber a ameaça da fera não importa a forma como se apresentasse.
Era para que fugisse da ameaça, mas Jason estava usando para rastrear o monstro. E, pelo que vó Lang contara, Nascha não tinha dúvidas que fora um shapeshifter que matara Tristan. Jason estava caminhando direto para o futuro que Nascha lera nas entranhas do corvo. O corvo, uma das possíveis formas do monstro.
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E por último, Sam. Jason lhe falara da premonição que tivera a respeito de Sam Winchester, seu novo melhor amigo da faculdade, e da certeza de que Sam estava em perigo, ameaçado pelo assassino de Tristan.
Mas, ao contrário de Jason, Kai conhecia a história toda. Sabia até mesmo que Sam não era um completo estranho. Que ele não era apenas um amigo recente que Jason fizera depois que entrara na faculdade. Sam era o terceiro bebê da foto que tinha nas mãos, ao lado dela própria e de Jason.
Quis vê-lo agora, já adulto. Postou-se na frente do prédio da faculdade e esperou. Tinha certeza que poderia reconhecê-lo a partir da foto de bebê. Foi até mais fácil que esperava. Ele olhou para ela e sorriu. Ela também sorriu e ele passou.
E Kai fechou o sorriso, assustada. Viu a aura de Sam escurecer.
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Lembrou de quando fez o rito proibido para saber se os medos de vó Lang se justificavam. Os augúrios eram os piores possíveis. Morte.
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Talvez para todos eles.
Os mais observadores vão perceber que o capítulo 32 foi pulado. Mas, não será esquecido.
16.03.2013
