CAPÍTULO XV


(Cap. 32) Sam

Sam estava nas nuvens. Ainda não chegara às vias de fato com Jessica, mas sentia que o momento estava próximo. Dormiram juntos, e, embora não tenha rolado sexo, houve uma gostosa intimidade.

Sua vida amorosa não era seu único motivo de satisfação. Parecia que o universo conspirava a seu favor, como que para compensá-lo de uma vida inteira de medo e privações.

Estava empolgado com o curso. Estava gostando da maioria das matérias. Tinha ido bem nas provas do meio do semestre. Mas, sabia que não bastava ser bom. Ali todos eram bons. Stanford era referência. Para sobressair-se, tinha que ser MUITO bom. Para sobressair-se não tendo dinheiro nem berço, tinha que ser MUITO MUITO bom. E, por incrível que parecesse, ele estava se sobressaindo.

Ser popular não era seu objetivo de vida. Mas, era legal ser parte de algo. Freqüentara escolas antes, é claro, mas sempre evitara criar vínculos. Sabia que logo mudaria de cidade e teria que deixar tudo para trás. Criar amizades só tornava tudo mais difícil.

Esta era a primeira vez que buscava fortalecer amizades. Cada pessoa era um mundo. E isso é tão mais verdade quanto mais inteligente ou talentosa é essa pessoa. Era isso que estava descobrindo. Olhando para trás, parecia que antes vivera somente em trio com o pai e o irmão ou em dupla com o irmão. A família era todo o seu mundo. Não mais.

Tinha buscado informações sobre o pai e o irmão na internet e ficado satisfeito em não encontrar nada. Eles eram bons no que faziam e não deixavam rastros. Era sinal que estavam bem. Teve que resistir à tentação de pesquisar sobre eventos que atrairiam a atenção do pai e que dariam pistas sobre onde poderia estar.

Decidiu que ligaria para Bobby. Há muito não falava com ele, e Bobby não tinha nada a ver com seus problemas com o pai. Não perguntaria, mas talvez Bobby contasse alguma novidade.

Aquele era um dia importante. Ia começar a estagiar na parte da tarde. Mais do que conhecimento, estava pensando no dinheiro extra. Não parava de fazer planos para esse dinheiro.

Sam entra na sala de aula e quase em seguida entra o professor. Sam olha em torno e não encontra Ross. O que estaria acontecendo com o amigo?

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Naquele exato momento, não tão longe dali, Ross era conduzido por um policial à sala de visitação da Central de Polícia de San Jose, onde encontraria Dean. E John chegava ao portão principal da mansão dos Lang e se fazia anunciar.

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Ao meio dia, Sam sai apressado da sala de aula. Tinha pouco tempo para almoçar e seguir para San Jose. A viagem era curta, mas o intervalo entre os ônibus era grande. Se perdesse o próximo, atrasaria no primeiro dia. Era melhor deixar para comer alguma coisa em San Jose.

Mas, por mais atrasado que estivesse, não pode deixar de notar a garota parada na base da escada do prédio de Direito. Reduziu os passos quando se aproximou dela. Uma linda garota índia. Sorriu para ela. Kai retribuiu o sorriso.

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Chegou na hora marcada na SPN, mas, para isso, acabou não almoçando. A primeira hora foi no RH, onde falaram sobre a empresa, os benefícios e os deveres. Assinou o contrato padrão de confidencialidade. Nada que escutasse sobre qualquer campanha podia ser comentado fora da empresa.

A espionagem industrial, embora aqui o termo industrial não fosse adequado, era uma das grandes preocupações das empresas de publicidade. Fora o argumento que Walker usara para convencer a diretoria a aprovar a contratação de um estagiário de Direito. Era preciso formar profissionais de Direito que defendessem as empresas de publicidade tendo conhecimento de causa.

Depois, foi levado para fazer o tour de apresentação por toda a empresa, e, finalmente, deixado no seu posto de trabalho. Teria uma mesa na sala do publicitário chefe, nosso conhecido Kim Walker.

Sam lembrou-se da advertência da secretária quando Kim, depois de recebê-lo sorridente, acompanhou-o até a mesa com a mão pousada em seu ombro.

Kim entregou a Sam um contrato padrão da empresa e pediu que o analisasse do ponto de vista jurídico. Dissesse se havia brechas ou omissões.

Sam mergulhou na tarefa e esqueceu-se do mundo.

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De volta à sua mesa, Walker pensou no quanto aquele lugar era adequado aos seus intentos. E já estava tudo lá. Ele não precisara acrescentar nada.

Como o prédio da SPN era relativamente vulnerável por não ser rodeado por muros ou cercas, as amplas janelas das salas do andar térreo foram equipadas com grades reforçadas. As grades tinham um padrão arrojado que as integrava à decoração, mas eram seguras como as de uma prisão.

A porta da sala era internamente reforçada com aço e tinha ferrolho, trava interna e chave. Nem três homens fortes a poriam no chão.

O filme de proteção solar permitia ampla visão de dentro para fora, mas não ao contrário, principalmente à noite. Muitas das salas do prédio, inclusive aquela, tinham isolamento acústico total, uma precaução contra espionagem. As linhas telefônicas externas, como a sua, tinham bloqueio por senha. O ramal na mesa do estagiário era apenas interno. Bastaria cortar o fio.

Tinha trazido o bisturi e a serra, além de grande quantidade de plástico. Podia agir naquele momento mesmo, se assim o desejasse.

Olhou para Sam, concentrado em fazer marcações no texto do contrato, e sorriu. Ele estava dentro da sua armadilha e nem sequer imaginava.

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Pensou em como tanta ingenuidade afetaria sua futura personalidade.


(Cap. 34) John

John não estava preparado para o choque de rever Kristin. Vinte anos tinham se passado, mas ele nunca pensara que a encontraria tão envelhecida. Não recorrera a nenhum artifício que as mulheres usam para manterem-se jovens. Nem mesmo tintura de cabelo. Uma maquiagem discreta, quase invisível. Uma matriarca. Severa e intocável.

John lembrava-se de outra mulher. Uma Kristin exuberante. Sentiu-se culpado. Ela nunca se recuperara da morte do irmão. Ela adorava aquele irmão.

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Na época, ele ainda era um iniciante. Não dominava técnicas de exorcismo, não conhecia armadilhas para demônios. Ainda não conhecera Bobby Singer. Agira como um rinoceronte numa loja de cristais. E, como um cristal, Kristin quebrara.

Não tivera a chance de explicar-se. Mal acabara de deitar Kristin em sua cama, desacordada, e o irmão juiz chegara, alertado pelos empregados. Se ficasse, seria preso e acabaria na cadeira elétrica ou num manicômio judicial. Ninguém acreditaria nele. Nem ele próprio acreditaria numa história como aquela se a escutasse um ano antes.

Mal tivera tempo de resgatar Dean e Sam, antes da casa que alugara ser cercada pela polícia. A campanha para que perdesse a guarda dos filhos ganhava espaço na imprensa local e agora mesmo é que perdera qualquer chance com a Justiça. Se não levasse os filhos consigo naquele momento, jamais os veria novamente.

E, com isso, o destino de Dean e de Sam como caçadores foi selado. A morte de Tom Lang tirara deles o direito a uma infância normal.

Mas, existia esperança de vida normal num mundo habitado por demônios?

Sam, tão perto dali, em Stanford, agia como se acreditasse que sim. Ele próprio queria muito acreditar, mas não podia. Vinte anos depois, ainda seguia a pista do Demônio de Olhos Amarelos. Ainda temia pelo destino de Sammy.

Sammy escaparia de seu destino se tivesse sido adotado?

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A voz severa de Kristin tirou-o de seu devaneio.

– Entre, John Winchester. Temos muito a conversar.

A Sra. Lang conduziu John até a biblioteca, uma empregada serviu água, deixou a bandeja com chá e sucos e se retirou, fechando a grande porta.

– Kristin..

– Sra. Lang, por favor. Se é que um dia existiu, há muito que não há qualquer grau de intimidade entre nós.

– Certo! Desculpe, ... Sra. Lang.

– Depois de tantos anos, você cruza novamente o caminho da minha família. Aliás, não só você. Seus dois filhos também.

– Meus DOIS filhos? Você, perdão, a senhora falou ao telefone que Dean estava encrencado. Onde Sam entra na história?

– Vê a ironia, John? Seu filho Samuel e meu neto Jason são colegas de faculdade e, pelo que soube, grandes amigos. Soube também que o rapaz veio para cá contra a sua vontade, em busca da vida normal que você lhe negou no passado. Apesar da morte de Tom, eu teria criado Samuel como um neto.

– Não duvido, .. Sra Lang.

– Já seu outro filho mergulhou fundo na sua loucura. Venha, John. Veja os vídeos gravados pelas câmeras de segurança que protegem essa propriedade. São cópias. Perdoe a desconfiança de uma velha. Veja e me diga o que acha.

A Sra. Lang introduziu a primeira fita no aparelho de vídeo cassete. A fita já tinha sido avançada até pouco antes do Impala se aproximar do muro. A semi-escuridão tirava a nitidez, mas dava para identificar o carro e dava para identificar Dean. Dean retirando uma pá e um meio galão cheio de líquido do porta-malas do Impala. Colocando o meio galão na mochila. Subindo no capô do Impala. Subindo no muro. Atirando a pá e a mochila do outro lado do muro. E, finalmente, saltando para dentro da propriedade dos Lang.

Na segunda fita, partes da mesma cena, com a câmera focando o topo do muro. Dean aparecia em close. Seria impossível alegar não ser ele.

Na terceira, a placa do carro em destaque e o ataque de Dean ao segurança que vigiava o Impala.

Na quarta, o clarão distante de fogo e sinais de movimentação na propriedade.

Na sexta, filmada já de dia, com uma câmera portátil, a visão dos danos à propriedade, os túmulos violados, os caixões queimados e os depoimentos dos seguranças. A visão de cada segurança sobre o invasor noturno. Nada que favorecesse Dean.

Os caixões queimados deram a John a pista do que acontecera. Dean pretendia afastar um fantasma. Tristan. Queimar os ossos em Harveyville não fora o suficiente. Ou aqueles não eram os verdadeiros ossos? Só podia ser isso. Fora enganado. Jason.

De qualquer forma, Dean deixou-se pegar de jeito. Se fosse levado a julgamento, não escaparia de uma condenação. Isso colocava ele, John, nas mãos de Kristin Lang. Kristin e o irmão teriam enfim sua vingança.

A Sra. Lang, como sempre, foi direta:

– O destino de seu filho está em suas mãos, John. Basta confessar que matou Thomas John Lang a sangue frio e sem chance de defesa em 1984 e entregar-se à justiça. Eu retiro todas as acusações contra Dean Winchester.


(Cap. 38) John

– E então, John. Qual a sua resposta? A Sra. Lang parecia uma cobra prestes a dar o bote.

– Kristin,... Sra. Lang, gostaria que antes de qualquer coisa, ouvisse a minha versão.

– Eu estava lá, John. Foi premeditado. Você veio armado, com uma faca escondida nas suas costas. Tom não teve chance de reagir, fugir, nem mesmo gritar. Vai negar que cravou uma faca de caça no peito do meu irmão?

– Não, não vou negar. Do seu ponto de vista, foi exatamente sim. Mas, se você viu tudo isso, viu também o que ocorreu logo em seguida. Seu irmão caiu de joelhos, abriu a boca e um jato denso de fumaça negra deixou o corpo dele e saiu pela porta. Diga a verdade, Kristin, você viu a fumaça negra, não viu?

– Eu estava muito abalada, não tenho certeza do que vi em seguida.

– Falou com alguém da fumaça negra?

– Com meu padre confessor da época, que faleceu uns poucos anos depois.

– Eu fui obrigado a fugir. Não falei com ninguém que estava naquela casa, naquele dia. Nunca conheci seu padre confessor e creio que ele não contou o que ouviu a ninguém. Como eu saberia disso, se não fosse o que realmente aconteceu? Se não fosse tudo real?

– O que realmente importa, é que meu irmão está morto e que você o matou.

– Seu irmão estava possuído pelo mesmo demônio que matou minha esposa. O Demônio de Olhos Amarelos é um demônio muito poderoso. Eu o estava caçando. O estou caçando até hoje. Ele resolveu brincar comigo, me atormentar. Naqueles poucos minutos em que estávamos na porta, ele disse que estava só me esperando. Que ia matar você e todos naquela casa. Que ele queria que eu o visse fazendo isso. Um pouco antes, por telefone, ele tinha avisado que me esperaria lá. Por isso a faca. Ele teria matado você, seu neto, todos.

– Isso é parte da sua loucura, John. Não existe demônio algum. Você matou sua esposa, matou meu irmão, matou sabe-se lá quantos. E vai continuar matando. Talvez mate até a mim, agora, neste momento.

– Você é católica, Kristin. A Igreja acredita em possessão demoníaca, tem rituais de exorcismo. Seu padre confessor deve ter lhe falado disso. Os rituais de exorcismo que conheço são os da Igreja Católica.

– Você não usou exorcismo, John. Usou uma faca. Segundo você mesmo, o demônio escapou. Meu irmão, não. Meu irmão continuou morto. E você vai pagar por isso.

– É verdade. Hoje, eu talvez eu pudesse expulsar o demônio sem matar seu irmão. Naquela época, não. Mas, se eu não fizesse o que fiz, certamente você não estaria viva hoje para me acusar. Seu neto não estaria vivo.

– E, tantos anos depois, você volta a cruzar os caminhos da minha família. Tenta queimar os ossos de meu outro neto, Tristan.

– Você não estava lá para ver o fantasma. Ele teria matado Peter Ross se eu e seu neto Jason não estivéssemos lá. Eu estava investigando a morte do rapaz, não sabia que era seu neto. Não esperava enfrentar um fantasma vingativo e furioso.

– E o que teria acontecido com Tristan se você tivesse queimado seus ossos? Você sabe com certeza o que iria acontecer com seu espírito? Está certo que não o condenaria a uma eternidade no limbo?

– Então, é verdade? Os ossos não foram queimados. Isso explica a presença de Dean nesta casa. O fantasma reapareceu. Kristin, o fantasma é perigoso. Tristan pode matar alguém. É preciso queimar os ossos e tudo que prenda Tristan a esse plano.

– Você já se meteu demais em assuntos da minha família, John. Quero você e seus filhos longe de Tristan. E, principalmente, longe de Jason.

– Jason é um ótimo rapaz. Você tem todos os motivos para ter muito orgulho dele. Ele lembra muito meu filho Dean. Eu não deixaria nada de mal acontecer com Jason. E você, Kristin? Você conheceu Dean. Quer ver aquele menino que você conheceu apodrecendo numa cela? Ele só queria ajudar. Ele estava tentando PROTEGER sua família.

– Ele só vai ficar preso se você não assumir seus crimes. É VOCÊ, e não eu, o responsável pelo destino dele a partir deste momento.

O celular de John toca uma vez, duas vezes, três vezes. Ele não atende. O celular pára de tocar.

– Sua resposta, John. Vai assumir seus crimes e salvar seu filho?

– Não, Kristin. NÃO VOU. Adeus.

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Os seguranças não foram páreo para John. Decididamente, teriam que buscar novos empregos.

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A Sra. Lang, mesmo espumando de ódio, não pode evitar de pensar o quanto John ainda era atraente.


Aqui temos o capítulo (Cap. 32) e fico devendo os capítulos (Cap. 35) a (Cap. 37). A mudança na ordem de postagem vai facilitar o entendimento da fic.


19.03.2013