CAPÍTULO XVII


(Cap. 37) Kim

O monstro acordou nostálgico, já se despedindo daquele quarto e daquele apartamento que, de todos que se apropriara antes, era o que mais se parecia com ele.

Caminhou até a cozinha e pegou um litro de leite na geladeira. Nos últimos dias, tivera que conviver com o incômodo de quase não ter espaço na geladeira. Kyle, o barman, era um homem alto e ocupava quase todo o espaço interno.

Sabia que não estaria mais ali no dia seguinte, mas, por garantia, colocou mais um litro de leite na geladeira. Gostava de leite bem gelado. Abriu duas embalagens de frios e comeu. Adorava carne e sempre pedia mal passada, sangrenta. Nunca vinha tão mal passada como gostaria. Se um dia fora um animal, tinha certeza que não fora um herbívoro.

Viu que Sam, no almoço da véspera, enchera o prato de salada verde. O futuro Sam teria outros hábitos alimentares.

Prestara atenção no que Sam bebera durante o expediente. Ele levantara duas vezes de sua mesa para se servir de água gelada no frigobar da sala. Não aceitara o café que a servente oferecera. Aceitara o suco de laranja do frigobar, mas só depois que insistira para que ele se servisse sempre que quisesse.

Seria na água. Algumas gotinhas de sonífero e não haveria gritos nem resistência.

As duas malas já estavam no guarda-volumes do aeroporto. Seguiria para o aeroporto direto da SPN. As roupas nas malas eram todas novas. Não levaria para sua nova vida nenhuma peça do guarda-roupas da antiga. O novo Sam teria um estilo mais informal, ele diria casual básico. Além disso, estava indo para uma praia tropical, o que pedia um visual mais colorido. Escolhera uns laranjas e uns verdes cítricos. E muitos jeans e bermudas. O outro motivo é que Sam era mais alto e menos encorpado. Ele não poderia aproveitar a maioria das antigas roupas mesmo que quisesse.

O dinheiro da venda do apartamento e do carro - e do resgate de ações e de outros investimentos - já fora transferido para o exterior. Em nome de Samuel Campbell Winchester. Fizera uma operação financeira complicada, mas necessária para não ser rastreado. Usara os conhecimentos de um operador do mercado financeiro especializado em mercados off-shore que vestira há dois anos.

Sentia que sua memória estava turbinada. Era a palavra perfeita para descrever a mudança. Lembrou de Tristan, o rebelde sem causa tatuado. Sabia que herdara dele o ganho de memória. Gostara da tatuagem de dragão. Pena que não viera no pacote. Bem, quando se tornasse Sam, talvez fizesse uma tatuagem idêntica.

Estivera na véspera no barzinho onde Kyle trabalhara. Ficara pouco tempo, mas o suficiente para ver visto pelos funcionários e fazer com que se lembrassem dele quando fossem interrogados pela polícia.

Pelos seus cálculos, as investigações da polícia chegariam a Kim Walker em mais um ou dois dias. Encontrariam o corpo do barman na geladeira e caçariam seu amante assassino, que nunca mais seria visto. Isso afastaria quaisquer suspeitas do jovem estagiário, que breve mandaria um e-mail de afastamento, alegando problemas de família. O garoto andava com um laptop, o que tornava tudo mais fácil.

- É, Kyle, nada pessoal. Mas, sem sua preciosa ajuda, a polícia acabaria chegando a Sam, isto é, a mim mesmo.

Uma última chatice. Não conseguira adiar a reunião da conta da K-Milk Products, da influente família Lang. Era um contrato grande e a diretoria cedera aos caprichos do cliente. E, no contato com o CEO da K-Milk, ficara sabendo que o empenho era do herdeiro do grupo, Jason Lang, que por coincidência era colega de turma do estagiário Sam Winchester.

Seria mesmo coincidência?

Estaria preparado para qualquer gracinha. Não deixaria ninguém ficar em seu caminho agora que estava tão perto da reta final.


(Cap. 40) nuvens de tempestade

A rotina matinal da mansão Lang foi quebrada pela ruidosa chegada de uma ambulância e pela movimentação de médicos e enfermeiros dentro da mansão.

Jason acordou com o barulho da sirene da ambulância e pulou da cama, preocupado, imaginando que algo tinha acontecido com a avó. Mas, o movimento estava concentrado no quarto de Kai, onde se discutia a sua transferência urgente para um hospital.

Os médicos não entendiam como acontecera o quadro, ainda não totalmente revertido, de hipotermia. Mas, estavam aplicando medicação intravenosa e Kai já respirava normalmente com ajuda de uma máscara de oxigênio.

Jason seguiu na ambulância com Kai. Em seguida, saíram vó Lang e a nova enfermeira, levadas ao hospital pelo motorista no carro da família.

Na mansão, sem uma orientação e sem associarem os fatos, as arrumadeiras recolocaram a banqueta em seu local habitual, desmontaram o tripé e guardaram a câmera.

.

Nasha já estava na sala de embarque do aeroporto de Topeka quando foi informada, pela Sra. Lang, que um mal estar súbito, ainda inexplicado, levara Kai a ser hospitalizada. Nascha lembra-se do sonho da noite anterior e, angustiada, ajoelha-se no chão frio do aeroporto e beija uma medalha com a imagem católica da Mãe. Pede, de uma mãe para outra, que olhasse por Kai.

.

Kai despertou agitada. A hipotermia fora revertida e ela já estava completamente fora de perigo duas horas depois de dar entrada no hospital. Mas, não se lembrava do que acontecera e do que fazia no escritório da Casa Grande na noite anterior.

Para os médicos, o estado de confusão mental de Kai não era normal, mas também não era motivo para maiores preocupações. Tinham certeza que era um estado temporário e que as lembranças viriam naturalmente em mais algumas horas. E, de fato, as lembranças começariam a voltar pouco antes do meio-dia.

.

Jason planejara ir cedo para a faculdade e armar alguma coisa que impedisse que Sam fosse à SPN naquela tarde. Mas, passara toda a manhã preocupado com Kai e esquecera-se de tudo o mais. Agora era tarde. Tentou o celular de Sam, mas deu fora de área. Àquela hora, ele já devia estar a caminho do estágio.

.

Os instintos de John ainda diziam que Sam estava em perigo, mas, objetivamente, quem precisava dele naquele momento era Dean. Era preciso sumir com a ficha criminal de Dean da Central de Polícia de San Jose, antes que sua foto fosse transmitida para delegacias de todo o país.

Bobby retirara Dean de dentro do prédio da Central de Polícia, um fato sem precedentes na história da orgulhosa organização. A fuga desorganizou completamente a rotina do lugar. O delegado interrogou pessoalmente cada policial do plantão exigindo explicações e depois reuniu o grupo todo para uma preleção.

John seguiu da Mansão Lang diretamente para a Central de Polícia. Chegou exatamente quando acontecia a tal preleção. Entrou, resgatou a ficha e saiu sem ser parado por ninguém. Foi preciso muita coragem, muita cara-de-pau e, principalmente, muita sorte

Ao pisar fora do prédio, com a pasta na mão, John sorriu e falou para si mesmo que os anjos deviam estar ajudando.

E estavam. Aquela foi a primeira vez que Castiel ajudou Dean Winchester a se livrar de uma encrenca.

Quando Dean estivesse em segurança, John voltaria a San Jose e tentaria convencer Kristin a retirar as acusações.

John reúne-se com Bobby e Dean em Freemont. Subiriam até Sacramento, por áreas urbanas e estradas secundárias. De lá, seguiriam direto para Sioux Falls, Dakota do Sul.

.

Dean tranqüiliza o pai com as notícias de que Sam estava namorando, fizera amigos e parecia feliz. 'Feliz até demais', pensou Dean. Não precisavam se preocupar: Sam estava bem. E, certamente, bem mais seguro que na antiga rotina de caçador.

.

Kim observa da janela de sua sala a chegada de seu estagiário. Chegara o grande dia e tudo estava correndo como planejara. Em oito horas estaria decolando rumo a uma nova vida.

.

Sam, sorridente como sempre, cumprimenta o chefe e segue para sua mesa. Ao sentar, pensa em como era bom ter finalmente uma vida normal.

Pela primeira vez, Sam estava por sua própria conta e risco. Não tinha nem o pai nem o irmão por perto para salvá-lo.


(Cap. 43) Tessy

Quem a visse não lhe daria mais de 18 anos. Seu jeito moleque, sua forma de vestir, nada denunciava sua verdadeira idade.

Vê-la assim tão meiga e sorridente desarmava o espírito e tornava fácil acreditar que tudo de mal ficaria para trás, que afinal viria a merecida recompensa.

Mesmo assim, muitos desconfiavam daquele sorriso. Afinal, ela nunca teve uma boa reputação. Um único encontro. Poucos minutos juntos. Era muito pouco tempo para mudar preconceitos tão arraigados. E ela quase nunca tinha uma segunda chance. Um único encontro era a regra.

Ela já se acostumara com a reação das pessoas. Medo. Muitos moldavam sua vida por conta deste medo. Pura perda de tempo. Mas, ela não podia fazer nada a respeito. Esse era seu trabalho, gostassem ou não.

Alguém tinha que fazê-lo. E esse alguém era ELA.

E não havia nada de falso no seu sorriso. Ela era exatamente como se mostrava, alegre e otimista. Mesmo vendo diariamente tantas cenas tristes, tanta gente presa há anos em camas de hospital, tanta gente ferida em acidentes horríveis, tantas vítimas de maldades indizíveis. Quanto maior o sofrimento, melhor recebida ela era.

Mas, ela conhecia também muita gente que fora abençoada com uma vida longa e tranqüila, gente que era feliz vivendo da forma mais intensa possível, gente que literalmente era capaz de morrer por outro alguém, por um ente querido ou mesmo por um desconhecido.

Ela achava todos eles fascinantes, gostaria de escutar cada história, saber o que eles sentiam, o que eles pensavam. Até mesmo o que eles pensavam DELA.

Ela trataria com carinho mesmo aqueles que a amaldiçoavam. Ela compreendia que estes apenas deixavam seu medo falar por eles.

Ela gostava de surpreender e geralmente surpreendia. Esta sua nova aparência, por exemplo. Estava mais parecida com ela mesma do que antes, quando buscava corresponder às expectativas dos outros.

Continuava a preferir o preto. Combinava com seus cabelos, negros, lisos, longos e sedosos. Combinava com seus olhos, negros, profundos, afetuosos e sedutores. Combinava com sua pele, muito branca, macia e perfumada.

Adotara um visual urbano e contemporâneo. Em nada diferente de milhares de garotas no mundo todo. Uma camiseta regata preta, justa e decotada, saia preta muito curta e botas de cano curto. Maquiagem preta carregada em volta dos olhos e esmalte preto nas unhas. Num colar de prata muito fino, um pingente de ônix em forma de ankh, o símbolo egípcio da vida.

As pessoas estranhavam, principalmente os velhinhos. Mas, ela os seduzia com gentilezas e paciência. Muita paciência.

Os jovens achavam graça. Não esperavam encontrá-la tão cedo. A surpresa os fazia aceitar melhor. Geralmente nem precisavam trocar nenhuma palavra. Ela estendia a mão e eles a seguiam, como que enfeitiçados.

Entrou no hospital, sem perguntar nada a ninguém e seguiu direto para a UTI. Aproveitou que a enfermeira saíra para chamar o médico. O rapaz sofrera um acidente de moto. Ela apertou a mão dele e sorriu. Ele espreguiçou, abriu os olhos e perguntou se não podia ficar um pouco mais. Ela fez que não com um breve movimento da cabeça e foi se aproximando dele de forma sensual. Chegou bem perto e deu um selinho. O rapaz sorriu. Então ela puxou o rapaz pela mão e ele seguiu com ela.

Ela teria que voltar a San Jose em breve. Uma morte violenta. Mas, somente daqui a três horas. Mais exatamente, três horas e doze minutos.

Voltaria a tempo, afinal ninguém morre antes da hora. O que as pessoas não sabem é quando essa hora finalmente chegou.

Ela sabe. Afinal, ela é aquela que com quem marcamos um encontro no exato momento em que nascemos. A ceifadora.

– Até logo mais, querido. Não vou deixar um rapaz tão bonito como você esperando.

Tessy manda um beijo ao vento e desaparece.

.

A Morte é assim: cheia de vida.

.

Notas finais do capítulo

Sim, estou imaginando Tessy (e não Tessa, como no seriado) com a aparência e a personalidade da irmã do Sandman, Death.

Essa fic foi escrita muito antes da estréia, no seriado, do Cavaleiro do Apocalipse Morte. É o mesmo personagem, a Morte como conceito e destino de todos os mortais (e também imortais, embora eles se recusem a acreditar). Mas, com uma aparência muito mais agradável.


30.03.2013