CAPÍTULO XVIII


(Cap. 44) Ross

Um sedativo leve fez Kai dormir por toda a manhã. Quando ela voltou a acordar, ainda no hospital, Nascha já estava ao seu lado. Sentia-se ainda muito fraca, mas as lembranças dos acontecimentos da noite anterior começavam a voltar. Sentia também muito frio, embora seu corpo já tivesse há muito voltado à temperatura normal.

Nascha e vó Lang tinham passado a última hora rezando de mãos dadas e ficaram eufóricas quando Kai finalmente abriu os olhos, sorriu para elas e pediu um pouco de água.

Jason entrou e, antes mesmo de perguntar como ela estava se sentindo, fez uma bateria de perguntas sobre o que acontecera. Só parou quando levou um beliscão bem aplicado por vó Lang.

Kai ensaiou responder, mas o médico e a enfermeira entraram e pediram que todos se retirassem que eles iam fazer alguns procedimentos.

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Ainda estavam aguardando os médicos liberarem a entrada no quarto de Kai, quando o celular de Jason toca. Era Michael Holt, o CEO da K-Milk ligando para combinarem detalhes da ida à SPN Advertising, já que a reunião estava marcada para dali a duas horas. Era praticamente o tempo que Jason tinha para voltar à propriedade, tomar um banho, vestir um terno e seguir para San Jose.

Indecisão. Jason estava preocupado com Kai e queria saber o que acontecera com ela. Mais do que isso. Sua intuição gritava que ele ia precisar e muito daquela informação. Mas, ao mesmo tempo, ele sente crescer no peito uma angústia e um sentido de urgência que claramente não tem a haver com Kai. É Sam quem corre perigo imediato.

Jason retorna a ligação para Michael Holt e diz que teriam que adiar a reunião com a SPN. Pede a Michael que se encarregue de informar o pessoal da K-Milk do adiamento, mas que fazia questão de ligar ele próprio para o Sr. Walker, para explicar que teve problemas pessoais e marcar uma nova data. Que não se preocupasse quanto a isso.

Jason não tinha nenhuma intenção de adiar seu encontro com Kim Walker. Apenas temia pela segurança de Holt e dos demais. Lembrou de John Winchester. Gostaria de tê-lo ao seu lado, principalmente porque envolvia Sam. Tinha seu número do celular, mas sabia que àquela hora ele já estaria longe.

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Soubera, através dos empregados, de um misterioso convidado que a avó recebera na véspera e o estado de humor dela ficara péssimo após o encontro. Isso aconteceu mais ou menos na hora em que despertara quase nu na Central de Polícia, cercado por uma dezena de policiais.

Foram quase três horas de interrogatório. Fora muito difícil explicar seu grau de relação com o acusado sem comprometer-se mais ainda e sem envolver Sam na história. Mas, Jason tinha um raciocínio rápido e uma memória assombrosa; e não caíra em contradição nas armadilhas do joguinho de tira bom tira mau da polícia.

Na hora, bombardeado de perguntas, sua vontade era jogar Dean, nu em pelo, numa cela com dez sujeitos barra-pesada e jogar a chave fora. Era o que ele merecia depois do que tinha aprontado com ele e do que tentara fazer com Tristan.

Mas, quando a raiva passou, sentiu-se aliviado por Dean ter se safado e preocupado com sua atual condição de foragido.

A avó ainda lhe devia uma explicação sobre sua relação com os Winchester, mas sabia que teria que esperar o humor dela melhorar. Não queria nem imaginar o que escutaria quando ela soubesse do vexame que passara na Central de Polícia. Ao saber da fuga, a avó ficara tão furiosa que não quisera saber de nenhum detalhe.

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O médico abre a porta e permite que entrem para ver Kai, mas insiste que não a cansassem com perguntas. Teria que ficar para depois. Jason sabe que já está atrasado. Se realmente pretendia enfrentar o Sr. Walker, teria que sair naquele momento.

Despede-se com um tchau e sai, mas, ao dar o segundo passo fora do quarto, respira fundo e retorna. Abraça e beija Nascha com carinho, depois vó Lang, e, finalmente, Kai. Com a mão na maçaneta da porta, olha fixamente para as três mulheres tentando controlar uma emoção desconhecida, que o está sufocando, e diz em voz alta que elas são as pessoas que ele mais ama nesta vida.

Ao fechar a porta atrás de si, recosta-se contra a porta, respira fundo e tenta conter uma lágrima. Aquela emoção desconhecida lhe diz ele que não voltaria a vê-las. Bobagem. Jason se apruma, espanta o medo e a indecisão, e segue em frente como um verdadeiro herói.

Segue ao encontro do seu destino, como, aliás, fazemos todos nós, o tempo todo.

Ao sair do hospital rumo ao estacionamento, sente a brisa fresca, que toca seu rosto como uma carícia. Uma sensação tão boa quanto um beijo de uma linda garota. É quase como se ele pudesse ver a linda garota de grandes e sedutores olhos negros e esvoaçantes cabelos escuros que mandou o beijo.


(Cap. 41) Tristan

[NA MANHÃ DAQUELE MESMO DIA, ANTES DE SAM SEGUIR PARA A SPN ADVERTISING]

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Um grupo de rapazes atravessa o corredor da Faculdade de Direito fazendo barulho e atraindo sua atenção. Porém, mais que os outros, chamava atenção um rapaz alto, cabelos escuros, esbanjando felicidade. Era muito jovem, bonito e parecia a inocência em pessoa. Alguém que qualquer um gostaria de ser. É, ele gostaria de ser aquele rapaz, de sentir aquela felicidade.

E o melhor é que ele podia ser aquele rapaz. Era só querer.

Não foi difícil para o fantasma descobrir o nome do tal rapaz. Sam. Sam Winchester.

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Quando se olhou no espelho, foi inevitável a sensação de estranheza com a nova imagem. Mas estava gostando do que via. Sentia-se bem. Quase feliz. Já conseguia pensar com mais clareza também. Cada vez acontecia mais rápido. Os primeiros minutos eram de atordoamento, confusão. Depois havia uma harmonização. Uma sobreposição. E, então, tornava-se .. natural.

Caminhou pelo quarto minúsculo do alojamento da faculdade como se fosse seu. Talvez por que tivesse sonhado com isso a vida inteira. A vida que sonhara sendo vivida depois que morrera. Havia algo mais irônico do que isso? Mas, ele merecia estar ali. Merecia ter vivido o bastante para conquistar o lugar a que tinha direito no mundo. Mas, sabia que não tinha muito tempo. Nunca seria até quando quisesse. Seria somente enquanto conseguisse agarrar-se a um mundo do qual não fazia mais parte.

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O que Tristan ainda não sabia, era que Sam Winchester era diferente dos outros. O corpo de Sam era um receptáculo para seres espirituais, onde seu espírito poderia habitar para sempre, se assim o desejasse.

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Mas, naquele momento, ele tinha outra prioridade. O fantasma sabia quem fora, sabia quem era o homem cujo corpo ocupava e sabia o que precisava fazer agora que estava de posse deste corpo.

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Enquanto atravessava os jardins bem cuidados da SPN Advertising ocupando o corpo de Sam, Tristan observava o vulto que o espreitava da janela. Chegara o dia em que finalmente teria sua vingança. Tudo estava correndo como planejara.

Minutos depois, cumprimenta com um sorriso o monstro que o matou e segue para sua mesa. Ao sentar, pensa em como seria bom ter uma vida normal.

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Ou, pelo menos, uma morte normal.


NOTA : No final do capítulo (Cap. 40), temos esse final visto pelos olhos de Kim Walker. Sabemos agora que Sam encontrava-se possuído pelo fantasma de Tristan. Como isso aconteceu é mostrado no capítulo (Cap. 42) a seguir.


(Cap. 42) Tristan

Na mansão, Tristan permanecia sempre que podia próximo do irmão, mesmo que invisível para este. Ansiava por aqueles momentos. Era ao mesmo tempo excitante e frustrante. Gostaria de poderem trocar idéias. Tinha tanta coisa que queria dizer. Mas, principalmente, gostaria de poder dizer ao irmão que ficara feliz de saber que tinha um irmão e, mais ainda, de Jason ser esse irmão. O rancor inicial tinha se transformado em uma profunda admiração pelo irmão caçula, tão mais maduro que ele próprio.

Percebia agora o quanto tinha sido infantil ao culpar o irmão por sua incapacidade de conquistar a própria felicidade. Se seu pai era um fracassado, ele também não tinha se saído melhor.

Pela primeira vez em muitos anos, pensou no pai com carinho. Sentiu-se melhor, como se tirasse um peso muito grande do peito. Naquele momento, estava deixando para trás todos os sentimentos ruins que o prendiam ao seu passado em Harveyville. Tinha dado o primeiro e mais difícil passo.

Quando escutou Jason ao telefone combinando com o CEO da K-Milk a contratação da SPN Advertising e pedindo uma reunião com um tal de Mr. Walker, não percebeu as verdadeiras intenções do irmão. Achou aquilo divertido, porém normal.

Tristan não sabia que Jason nunca tinha intervindo antes nos assuntos de qualquer das muitas empresas da família. O irmão não tinha o hábito de falar sozinho e Tristan não podia ler pensamentos. O que sabia do irmão era um mero observador dos acontecimentos.

Naquela noite, Tristan acompanhou, com interesse, as diversas pesquisas que Jason fez na internet, lendo os textos na tela por cima do ombro do irmão. O fantasma chegou a rir do inusitado da situação. Ele, que nunca tivera um computador em casa, navegando na internet depois de morto.

Primeiro, foram pesquisas sobre Kim Walker, o muitas vezes premiado publicitário da SPN. Tristan não achou estranho. Imaginou que o irmão queria ter certeza de estar contratando alguém qualificado. Ou talvez apenas quisesse ter assunto para puxar conversa na reunião do dia seguinte.

Havia notícias de premiações, clipes de campanhas famosas, entrevistas de celebridades contratadas para as campanhas, entrevistas com o próprio Kim Walker, mas poucas fotos do publicitário, todas tiradas à distância. Uma única de perto, porém com o rosto meio coberto pelo braço levantado que erguia o prêmio.

Em seguida, o irmão buscou notícias sobre as investigações de sua morte - isso sempre soava estranho - e sobre o paradeiro do assassino. Pouquíssimas notícias novas, quase tudo da época que o corpo foi localizado.

Depois, mais pesquisas sobre Kim Walker e, o que chamou a atenção de Tristan, algumas tentativas de relacionar as duas buscas. Será que Jason suspeitava que esse ... Kim Walker ... pudesse ser o seu assassino?

Uma batida na porta, quebra a linha de pensamentos de Tristan. Kai.

Preferia manter-se afastado de Kai. Sentia que ela podia perceber sua presença num raio de vinte metros mais ou menos, mas descobrira que essa percepção era bloqueada quando havia um obstáculo entre eles. Se ele se mantivesse fora do, por assim dizer, campo visual dela, ela não podia pressenti-lo, mesmo que ele estivesse próximo.

Mesmo assim, deixou-se levar para a dimensão enevoada antes que ela entrasse.

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Tristan tentou se convencer que era paranóia da parte dele. Mas, aquilo ficou martelando seus pensamentos. Kim Walker seria mesmo aquela coisa alien cheia de dentes? Precisava saber. A sensação de urgência, que parecia perdida, voltava agora com força.

San Jose era perto e longe. Como chegar lá? Nunca fora a San Jose. Não conhecia as ruas. Levaria dias andando. Não poderia parar alguém na rua e pedir uma orientação. Se ao menos pudesse dirigir, pegar um ônibus ... Bem, certamente não podia dirigir, mas talvez pudesse pegar um ônibus.

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Retornou ao plano material na manhã seguinte, e, como sempre, próximo ao túmulo. Porém, desta vez, passou direto pela Casa Grande e seguiu para o portão de acesso à propriedade. Atravessou. Seguiu pela calçada até encontrar uma parada de ônibus. Uma única pessoa aguardava no ponto. Não sabia nem mesmo a direção que levava ao centro da cidade. Não importava. Descobriria. Se não hoje, amanhã. Descobriria. Era um fantasma andarilho. Caminharia até o fim do mundo se fosse preciso.

Acabou não sendo tão difícil assim. Da propriedade para o centro de San Jose e, de lá, para o bairro onde sabia que ficava a SPN. Chegara em menos de três horas. E assim, pouco depois do meio dia, já estava em frente ao prédio da SPN. Bem a tempo de ver um rapaz moreno e alto chegar apressado, aparentemente desconfortável em seu terno e gravata.

Seguiu o rapaz. Ansioso, mas com cautela.

Ao contrário do estagiário Sam, em seu primeiro dia de trabalho, Tristan sabia o tipo de ameaça que o prédio podia esconder.


Notas finais do capítulo

1. Na linha do tempo da fic, esse capítulo se passa em seguida ao capítulo 32, mas a ordem de leitura está correta.

2. Na linha do tempo da fic, esse capítulo se passa antes do capítulo 41, mas a ordem de leitura está correta.


14.04.2013