CAPÍTULO XIX


(Cap. 45) Monstros

KIM

Chegara o dia decisivo e o monstro estava preocupado com os tempos muito apertados.

A maldita reunião atrapalhara tudo.

Eram 13:45 h. A reunião com a K-Milk estava marcada para às 16:00 h.

O expediente de trabalho na SPN terminava às 17:30 h, mas o prédio não estaria vazio antes das 18:00 h.

O vôo para San Jose da Costa Rica estava previsto para 21:15 h.

Não podia deixar que a reunião se estendesse além das 17:00 h.

Não, não estava nada bom.

Tinha que prender Sam no escritório até depois do expediente. Quanto menos pessoas estivessem no escritório quando começasse, melhor. Já adicionara sonífero tanto na água quanto no suco de laranja. Não podia ser uma dose muito alta ou ele próprio poderia ser afetado quando devorasse o corpo. Sam era alto, parecia ter ossos fortes. Eram boas características, mas lhe tomariam mais tempo.

Uma alternativa era não esperar. Fechar a fatura imediatamente. O mais importante já conseguira: estava a sós na sala com Sam Winchester. Era mais arriscado, devido ao risco de ser interrompido a qualquer momento. Mas, já correra riscos maiores antes. E, em qualquer das alternativas, teria no máximo duas horas, para fazer desaparecer o corpo e sua antiga pele.

Facilitaria bastante se Sam bebesse a água. De preferência, já.

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TRISTAN

Tristan também estava preocupado com o horário. Não sabia por quanto tempo podia permanecer no corpo de Sam sem prejudicá-lo. Já fazia quase duas horas que estava no comando. Quando tentara permanecer no corpo de Kai por mais tempo que o recomendável, quase a matara.

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Fora há poucas horas atrás, na noite anterior, mas a permanência na dimensão enevoada distorcia sua sensação de passagem do tempo. Parecia ter acontecido há muito tempo.

Era sua terceira tentativa. Ela estava tentando ajudar, mas mesmo assim não fora fácil assumir o controle do corpo de Kai. Começara a sentir o controle enfraquecer logo após a primeira hora, mas insistira em permanecer. Quando se sentiu sem forças, meia hora depois, não imaginara que fosse necessário tanto esforço para se desconectar do corpo.

Fraco como estava, perdeu o contato com o plano material ainda parcialmente conectado. Tal como acontecia sempre que fazia uma travessia, absorveu energia do ambiente. O ambiente no caso era o corpo físico de Kai e ela sofreu uma hipotermia que poderia tê-la matado.

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Mas, estranhamente, não se sentia enfraquecendo agora que estava vinculado a Sam. Pelo contrário, sentia-se mais forte. Também não sentia a presença da consciência de Sam. Não havia resistência. Era como se a consciência de Sam tivesse recuado e deixando-o no comando absoluto do corpo. Era exatamente como se estivesse vivo novamente. Quanto mais o tempo passava, mais integrado ele se sentia àquele corpo. Enfraquecera rapidamente quando estivera no corpo de Kai, porque a consciência dela lutava o tempo todo para retomar o controle, embora ela própria o tivesse convidado para entrar.

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Mais cedo, pouco depois de retornar ao plano material, buscara repetir o processo que aprendera com Kai com um dos seguranças da mansão dos Lang. Não conseguira. O corpo e a mente do homem bloquearam facilmente sua tentativa de invasão. O consciente, alerta e focado no trabalho de vigilância, mal percebeu. Lembrou que Kai havia dito que não funcionaria com todos.

Tentara em seguida com outro segurança, que, sonado depois de uma noite de farra com uma ficante, ofereceu pouca resistência à entrada. Mas que, uma vez ciente de sua presença, expulsou-o em minutos.

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Na véspera, antes de seu encontro com Kai, quando estivera na SPN como fantasma, a primeira pessoa que vira ao chegar fora um rapaz que lembrava muito, fisicamente, ele próprio, ou dito de outra forma, seu antigo corpo.

Descobrira que o rapaz estava começando na empresa naquele dia, e que, venham só, dividiria a sala com o próprio Kim Walker. Naquele momento, isso era apenas uma interessante coincidência.

O encontro com Kai mudaria tudo. Antes, o máximo que podia fazer era tentar assustar o monstro em sua forma materializada e torcer para causar algum dano físico atirando objetos. Agora era diferente. Se pudesse ocupar o corpo daquele rapaz, poderia chegar perto o suficiente para enterrar uma faca no coração do maldito.

Sabia que estaria colocando em risco a vida de um rapaz inocente, mas pressentia que aquele rapaz já estava em perigo. O irmão tinha uma reunião marcada com o monstro em poucas horas. Qualquer deslize, e o monstro mataria Jason. Não podia permitir que isso acontecesse. Se precisasse escolher, não hesitaria em sacrificar a vida do rapaz, por mais inocente que fosse. Nada era mais importante que proteger Jason do monstro.

Teria sua vingança e, ao mesmo tempo, faria justiça. Ao final daquele dia, somente a coisa alien estaria morta. Ah. E ele próprio, naturalmente. Mais ninguém.

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Na véspera, quando finalmente avistara Kim Walker e confirmara a suspeita do irmão, já estava tão enfraquecido devido ao longo tempo de permanência no plano material que nem mesmo todo seu ódio foi capaz de fazê-lo materializar-se ou causar qualquer efeito físico no plano material. Frustrado, viu-se transportado de volta para a dimensão enevoada.

Desta vez o mais difícil fora sorrir para o monstro. Mas, acabara de descobrir que ocupando um corpo físico tinha um melhor controle das próprias emoções. Esperaria o momento certo e atacaria.

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Era estranho voltar a ter certas necessidades físicas depois de tanto tempo. Deixara Stanford sem almoçar e sentia fome. Mas, principalmente, sentia sede. Muita sede.

Naquele momento, mais que matar o monstro, queria um copo d'água.


(Cap. 46) Mulheres à beira de um ataque de nervos

Nascha, vó Lang e Kai. Todas notaram, acharam estranho e não gostaram do tom de despedida que Jason usou ao deixar o quarto do hospital, momentos antes.

Nascha principalmente, ainda sob o impacto do sonho da noite anterior, tão cheio de maus augúrios.

Mas, nenhuma comentou o fato. Um pouco para não preocupar as outras, mas, principalmente, para não dar realidade àquela possibilidade, pelo poder da palavra.

A fonte de preocupação de Nascha e vó Lang voltou a ser, então, Kai e a inexplicável hipotermia que a trouxera ao hospital.

- Querida, o que realmente aconteceu com você?

- Vó Lang. Mãe. Eu não me lembro de tudo aconteceu. Sei que o que eu fiz foi imprudente, mas não pensei que fosse ser perigoso.

- Filha, o que você fez? Você usou alguma droga?

- Não, mãe. Claro que não. Nem mesmo as plantas e os ingredientes que usamos em nossos rituais.

- O que houve, então?

- Eu tentei um contato com o fantasma. Com Tristan.

Vó Lang lembrou o rosto de pavor da enfermeira Janet; e de John Winchester falando sobre o quanto o fantasma podia ser perigoso. Estremeceu.

- Ele atacou você, querida?

- Não! Ou melhor, não sei. Eu senti a presença de Tristan no corredor, deixando o quarto de Jason. Pedi que me acompanhasse até o escritório.

- Continua, filha.

- Eu montei a câmera de vídeo num tripé, ajustei para minha altura sentada e pedi que Tristan tentasse fazer contato através de mim.

- Meu Deus! Você não devia ter feito isso, menina. Muito menos sozinha. Vó Lang estava horrorizada.

- Filha, que loucura! Você podia ter morrido. Você quase morreu. Você não pensa na sua mãe? Filha, o que seria de mim sem você? Nunca mais faça algo parecido. Nascha abraça Kai, chorando.

- Nascha, acalme-se. Assim você mata a coitada sufocada. E você, mocinha, ouça sua mãe. Chega de loucuras! Mas, já que fez a besteira, nos conte. O que aconteceu depois?

- Eu tentei um estado de meditação. Tentei esvaziar minha mente. Senti quando ele tentou entrar da primeira vez. Era como se estivesse empurrando minha alma para fora do meu corpo. Foi uma sensação horrível, eu tive muito medo e creio que o empurrei para fora. Precisei de um tempo para me acalmar antes de tentar de novo. Na segunda vez, ...

- Segunda vez? Você enlouqueceu completamente? Menina, você não recebeu treinamento. Você não é uma xamã. Sra. Lang, essa menina vai me levar pro túmulo!

- Deixe-me terminar, mãe? Posso? ... Continuando ... Da segunda vez, eu estava mais preparada. Fiquei com medo, mas tentei não resistir quando senti aquela presença invadindo meu corpo e minha mente. Mas, novamente não deu certo. Resumindo, tentamos uma terceira vez e aí algo deve ter acontecido, mas não me lembro de nada.

- Querida, você falou que foi tudo filmado?

- Foi.

- Eu estava muito nervosa, mas acho que vi sim uma câmera montada no escritório. Espera. Vou pedir que um dos seguranças traga a câmera aqui, no hospital. Se passarmos mal, vai ter quem nos socorra.

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Uma hora depois, o técnico da nova equipe responsável pela segurança da propriedade dos Lang traz a câmera e todo o aparato para a projeção e monta tudo no quarto do hospital.

Antes de começarem a projeção, Kai é mais uma vez examinada. O médico assegura que ela está bem e que poderá ter alta após mais um dia de observação.

Depois de garantir que não seriam interrompidas, vó Lang faz um sinal e o técnico liga o projetor. Faz pequenos ajustes no foco e no som e, a pedido de vó Lang, deixa o quarto. Aquele era um assunto de família.

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A primeira hora de gravação mostrava ao vivo e a cores o que Kai já contara. Mas, mesmo assim, era muito mais suspense do que é esperado que uma mãe e uma avó suportem. Mesmo Nascha, com todos os seus anos de magia aplicada, agia como qualquer mãe de subúrbio. Vó Lang parecia que iria cair dura a qualquer momento.

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Mas, aquilo não era nada comparado ao que a fita mostraria depois.


(Cap. 47) Caçadores em Fuga

John só relaxou quando os três cruzaram a fronteira do Oregon com Idaho. Não esperava barreiras policiais alertadas contra eles além dos estados que faziam fronteira com a Califórnia.

Evitaram os motéis de beira de estrada, muito visados pela polícia, e se hospedaram num hotel barato no centro de Caldwell.

- Bobby, pode seguir daqui para Dakota com o Dean? Eu preciso voltar.

- Voltar? Voltar para onde?

- San Jose. Preciso convencer Kristin Lang a retirar as acusações contra o Dean ou ele vai viver fugindo o resto da vida.

- John, aquela mulher não vai ouvir seus argumentos. Ela não vai desistir da vingança.

- Ela não foi sempre essa mulher dura e amarga. De qualquer forma, aquelas fitas precisam ser destruídas.

- Pai, eu pisei na bola. É problema meu. Não quero que o senhor se arrisque.

- Não, Dean. Kristin Lang é um problema meu. Fui eu quem pisou na bola há 20 anos atrás. E não é só por você que eu estou voltando, Dean. Tem também o Sam. Ele está em perigo. Tenho certeza que está. Meus instintos nunca me deixaram na mão e eles estão gritando que Sam corre risco de vida.

- Se o Sam está em perigo, pai, eu vou junto.

- Não vai não. Você vai com o Bobby para o ferro-velho e vai me esperar lá.

- Pai, eu VOU com você.

- Já falei, Dean. Você vai me obedecer e vai seguir com o Bobby. Eu preciso saber que pelo menos você está seguro. E você não está seguro na Califórnia. Existe um mandato de prisão e a fuga é um agravante.

- Pai, ...

- Você FICA, Dean. Bobby, o melhor é vocês pegarem a estrada logo.

- Pai!

- Dean, eu trago o Chevy Impala. Resgato ele do pátio da Central de Polícia.

- Pai, deixa para lá. É só um carro. A gente compra outro.

- É, talvez seja melhor mesmo. Seria abusar da sorte. A gente compra outro. Carro é o que não falta neste país. Juízo, filho.

Dean baixou os olhos, desanimado. Perdera o Impala. Sam estava em perigo. E o pai querendo que ele esperasse sentado, rezando para o telefone tocar. 'Não, pai, desta vez eu não vou poder lhe obedecer.'

Bobby se aproxima e pousa a mão sobre o ombro de Dean.

- Dean, lembra que você me pediu para te ensinar aquele golpe?

No instante seguinte Dean desaba e só não caiu de cara no chão porque Bobby o amparou.

Bobby joga Dean sobre seu ombro e segue com ele desmaiado para o carro.

- Dean, você precisa ficar mais esperto. E ... Droga, precisava pesar tanto? Há uns poucos anos atrás, eu tirava isso de letra. Não existe nada pior que ficar velho.


19.04.2013