CAPÍTULO XX
(Cap. 48) Tristan
O filme começava a mostrar a terceira tentativa de Tristan de ocupar o corpo de Kai. Claro que o fantasma não podia ser captado pela câmera. A câmera mostrava apenas Kai.
Começava mostrando a garota serena, fazendo o exercício de respiração. Logo, a sensação de serenidade desaparece, substituída por movimentos que sugerem um desconforto cada vez maior e até medo. Uma tentativa brusca de se levantar da banqueta, alguns espasmos e, novamente, serenidade.
Vó Lang e Nascha, angustiadas, desviam o olhar da projeção cada vez que Kai, no filme, dá uma demonstração de sofrimento. Mas, a curiosidade é maior. Deixariam para desmaiar depois.
Os olhos da garota passam a mostrar perplexidade e estranheza. Claramente não eram os olhos de Kai. A expressão mudara de forma sutil. Nascha não mais reconhece sua filha naquele rosto. Vó Lang vê a sobrancelha se arquear, os olhos ganharem o toque suplicante e a boca meio abrir no sorriso triste tão característico de Tristan. Vó Lang, emocionada, chora silenciosamente.
Kai olha então para as próprias mãos, estica os braços, se toca. Então, levanta-se com muito cuidado, sentindo o espaço e estranhando o ângulo de visão. Kai era mignon e tinha uma postura que a fazia parecer ainda menor. Tristan tinha 1,90 m e era espaçoso. Durante vários minutos, a câmera filma Kai-Tristan explorando o escritório, olhando os títulos dos livros nas estantes, os objetos de decoração e finalmente um porta-retratos com outra foto de Jason e vó Lang.
Tristan então se lembra do tanto que tem para dizer e da urgência dos assuntos e volta a aproximar-se da câmera e a sentar-se na banqueta. Hesita antes de falar. O "oi" que emite o assusta por sair na voz suave de Kai. Respira fundo e fala olhando para a câmera.
- Vó Lang. Jason. Kai. Sou eu, Tristan. Obrigado por essa chance, Kai. Eu precisava muito falar. Sinto você aqui, lutando para me expulsar. Eu vou sair, assim que terminar de falar. Está sendo difícil me manter em seu corpo. Tão ou mais difícil que permanecer aqui, neste plano. Mas, esta é a primeira e talvez a única chance que eu tenha de me comunicar e eu tenho muito a dizer.
Nascha, vó Lang e Kai fazem instintivamente menção de se aproximarem da câmera, para melhor escutar o depoimento do homem morto.
- Eu não sei para onde eu vou quando não estou aqui. É um lugar estranho. Lá estou permanentemente envolvido por uma névoa espessa. Lá eu estou sozinho. Nunca vi ninguém, nem ouvi nenhuma voz. Não é um lugar ruim, mas, ao mesmo tempo, é o pior lugar que se possa imaginar. Eu não desejaria isso para o meu pior inimigo.
Agora não era só vó Lang. Nascha e Kai também choravam ao escutar a história de Tristan.
- Uma parte do tempo eu passo aqui, nesta casa. Eu não sabia que eu tinha um irmão. Porque a senhora nunca me disse que eu tinha um irmão, vó? Quando eu descobri, fiquei furioso. Ele parecia tão feliz nas fotos e eu era tão infeliz em Harveyville. Me senti roubado. Culpei esse irmão que eu não conhecia pela minha infelicidade. Sinto muito por aquela noite no quarto, Jason. Desculpe se te assustei, irmão. É difícil controlar as emoções quando se está do outro lado.
- Antes, eu culpava meu pai. Mas, agora eu vejo que a culpa não era dele. Ele era, e é, apenas um homem muito infeliz. Ele não superou a morte da mãe. Nunca se interessou de verdade por nenhuma outra garota. Me arrependo de querer feri-lo, de tê-lo ferido. Digam a ele que já o perdoei e gostaria que ele também me perdoasse.
O choro de vó Lang mistura agora emoção e culpa. Muita culpa.
- Eu não fui morto por um homem. Fui morto por uma coisa. Um tipo de monstro. Vi, de fora do meu corpo, ele me devorar com uma boca monstruosa, cheia de dentes, e, depois, vi a pele dele rasgar-se nas costas como a de uma lagarta, e de dentro dele sair um outro ser, igual a mim. E esse outro, o que se parecia comigo, voltou a fazer o mesmo com outro homem. Eu vi o rosto deste outro homem. O rosto que o monstro agora exibe. Eu sei aonde ele está. O monstro que me matou está próximo daqui, em San Jose.
Nascha se encolhe, tampando os ouvidos. Não queria ouvir nem ver mais nada. O monstro era real. O que os velhos da aldeia contavam era verdade. As histórias que as mães contavam para assustar as crianças eram verdadeiras. O monstro existia. E ele estava perto.
Nascha volta a sentir o medo que sentira quando tinha 4 anos e, em frente a uma fogueira, numa noite fria e escura, ouvira de uma velha da aldeia a história da maldição dos skinwalkers, homens enfeitiçados depois de amaldiçoados por matarem um parente de sangue. Não conseguiria ficar naquele quarto, assistindo aquele filme, nem mais um minuto. Precisava sair dali para conseguir respirar.
Com Nascha tão perturbada, a Sra Lang achou melhor interromperem a projeção até que Nascha estivesse mais calma.
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Não chegaram a escutar a frase seguinte.
- Meu irmão suspeita de quem seja o monstro. Eu estava perto quando ele marcou pelo telefone uma reunião para encontrar a criatura que se passa por homem amanhã às 4:00 da tarde. JASON, NÃO VÁ. Você não sabe o que está enfrentando. SE VOCÊ FOR, VAI MORRER. Ele vai matá-lo.
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Eram 15:00 h e Jason, de banho tomado e vestido como executivo, deixa a propriedade dos Lang e segue para o prédio da SPN.
(Cap. 49) Kim
Tristan não era tão desembaraçado quanto Sam, que levantara e pegara água da geladeira sem pedir licença, nem estava presente quando o monstro insistiu que Sam se servisse a vontade no frigobar. E é muito diferente quando se sabe que se está a sós numa sala com um monstro. Só sendo louco para dar as costas ao inimigo. Estava com muita sede, mas esperaria.
Kim não podia se dar ao luxo de deixar as coisas ao acaso. Levantou-se, foi até o frigobar e encheu um copo com a água de uma segunda garrafa que deixara atrás das embalagens de suco. Bebeu com gosto, como num comercial de refrigerante. Perguntou, como se fosse apenas por educação, se Sam não queria um pouco de água. Sem esperar a resposta, exibiu sorridente um segundo copo de vidro e a garrafa com a água batizada com sonífero.
- Quer?
A água na garrafa brilhava como a maçã envenenada que a madrasta ofereceu para a Branca de Neve.
Tristan era um bicho-do-mato, desconfiado por natureza, mas estava fora de seu elemento e com muita sede. Levantou-se e pegou o copo e a garrafa das mãos do monstro, sem perdê-lo de vista. Bebeu o primeiro copo quase num único gole. Não se sentiu saciado. Encheu novamente o copo e voltou a beber, agora com calma, molhando o interior da boca, todo o segundo copo.
Ao voltar para a sua mesa, já sentia a concentração fugindo. Desde que entrara na sala, estava alerta e focado, pensando sem parar em como e quando agiria. Atento a todos os elementos do ambiente. Vendo os que poderia usar a seu favor e os que poderiam atrapalhá-lo. E agora perdia a linha de raciocínio. O que estava acontecendo?
O que o monstro fizera com ele?
Kim volta à sua mesa e pega a minuta do contrato que dera para Sam examinar e que estava com as marcações e observações que o verdadeiro Sam fizera na véspera. Puxa uma cadeira e senta em frente a Tristan, dizendo que tinha alguns comentários a fazer.
Olho no olho.
Ao chegar, Tristan achou que estaria em vantagem. Afinal, sabia o que aquele homem realmente era e o outro não desconfiava que ele sabia. Mas, essa vantagem se transformava em desvantagem quando as recordações do terror que vivera ameaçavam destruir o autocontrole tão dificilmente conquistado.
A quem queria enganar? O monstro sempre estaria em vantagem. O monstro sabia quem ou o que era, quando e se atacaria. Mesmo armado com a faca de caça que trouxera na mochila, Tristan sabia que não era páreo para o monstro. Afinal, era só um frentista de uma cidadezinha onde nunca nada acontecia. Não fora treinado para matar monstros. Começou a suar frio. A ficar paralisado pelo pânico.
Olho no olho, sua vida em risco e tudo que ele sentia era .. sono?. Não estava conseguindo manter os olhos abertos. O maldito fizera algo com ele.
Mas, não era a SUA vida que estava em risco. Afinal, já estava morto. Era a vida do estagiário Sam, um garoto inocente que ele irresponsavelmente arrastara para aquela arapuca. Era a vida de seu irmão Jason, que, por mais que suspeitasse de alguma coisa, não sabia realmente o tamanho da ameaça que estava enfrentando. As vidas dos dois dependiam dele, Tristan. E ele falhara.
O monstro observava, fascinado, as diferentes emoções que lia no rosto do garoto. Chegara alerta contra ele. Claro, devia ter escutado as histórias do pessoal do escritório. Sua proximidade o deixara intimidado, quase em pânico. Talvez com medo de uma cantada a queima-roupa. Finalmente, a incredulidade e o desespero com o sono repentino que não conseguia vencer.
Tristan se põe de pé e tenta uma fuga. Derruba a cadeira ao levantar, dá dois passos para trás, tropeça nos próprios pés e cai pesadamente. Kim se abaixa junto ao corpo caído, aproxima seu rosto do rosto de Sam e abre um largo sorriso.
A vista de Tristan está turva e ele está prestes a perder a consciência. Sua única chance seria abandonar aquele corpo, sair deste plano. Mas, já é tarde até para isso. Sua vista escurece. Sua última lembrança é o sorriso de tubarão do monstro.
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Eram 14:30 h. 'Agora, mãos a obra.'
Kim arrasta um pouco o sofá, afastando-o da parede. Olha do ângulo de visão que quem está na soleira da porta. Não parecia estranho para quem não conhecia a verdadeira posição do móvel. Forra com plástico o nicho atrás do sofá. Fixa o plástico na parede e na parte de trás do tecido do sofá com fita prateada adesiva. Não deixaria nenhuma gota de sangue para trás. Talvez pudesse começar por aí, bebendo o sangue. Era um know how dos vampiros que poderia utilizar. A televisão lhe dera muitas idéias úteis.
Arrasta então o corpo de Sam até o nicho. Problema. O garoto é muito alto. Ainda bem que ele tem uma serra ao alcance das mãos.
(Cap. 50) A caminho
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JOHN
John seguia rumo a San Jose pelo caminho mais direto e mais rápido. Se houvesse barreiras policiais avisadas contra ele, seriam na direção de saída, não na de entrada. Mesmo que fosse diferente, arriscaria. Era a vida de Sam que estava em jogo.
Ligara para Bobby pouco antes de cruzar a fronteira da California. Soube que Dean ainda estava apagado no banco do carona e que já estavam na fronteira de Dakota do Sul. Riu ao imaginar a cena. Bobby fizera bem em não arriscar. Embora Dean não costumasse desafiar uma ordem direta sua, sempre havia uma primeira vez. Qualquer coisa que envolvesse Sammy tirava Dean dos eixos.
Bobby não era ágil nem rápido, mas tinha seus truques e esse era dos bons. Achava que era um golpe japonês. Bobby era cheio de surpresas. Essa de saber ler japonês fora uma delas.
Pensou em Dean com carinho e orgulho. Aceitar perder o Chevy Impala era mais uma das seguidas provas de amor que ele lhe dava.
Sabia que era muito duro com o garoto. Mas, precisava ensinar Dean a ter disciplina. A ser duro, forte. A vida dele dependia disso. Esta era sua prioridade: manter os filhos vivos. Felicidade era um luxo. Numa batalha, não havia lugar para hesitações. Fazia o que era preciso. Não esperava ser compreendido.
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KAI
A Sra. Lang seguiu Nascha quando esta deixou o quarto do hospital. Kai tentou fazer o mesmo, mas a Sra. Lang a fez voltar. Kai precisava de repouso, ainda não estava 100% recuperada. Ela falaria com Nascha e ficaria com ela até que se acalmasse.
Kai voltou para o quarto. A mãe era forte, saberia superar seus medos. Olhou para a câmera. Retomou a projeção. Gelou ao escutar o aviso de Tristan saindo de sua própria boca. Jason já estava a caminho da SPN. Saíra daquele mesmo quarto há mais de 1 hora. Mais do que antes, a declaração de amor que fizera soou como uma despedida.
Precisava avisar Jason. Olhou em volta, buscando pelo celular. Lembrou: seu celular estava em seu quarto, na Casa Grande. Usaria o telefone do hospital. Não, não sabia de cor o número do celular de Jason, nem o de ninguém. Sempre discava usando os registros de memória do celular. A única alternativa era o celular de vó Lang. Não queria preocupá-la, mas não tinha escolha.
Suas roupas não estavam à vista. Estava apenas com o avental de hospital, aberto nas costas. Não podia ir atrás de Jason vestida assim. Envolveu-se em um lençol e saiu à procura de Nascha e de vó Lang.
A enfermeira viu a jovem correndo nos corredores envolta em lençóis e foi atrás pedindo que voltasse para o quarto e chamando a atenção da segurança.
Um segurança parou Kai antes que ela encontrasse vó Lang. Outro chegou em seguida. A enfermeira alcançou o grupo e ordenou aos seguranças que levassem Kai de volta ao quarto. A jovem estava agitada e precisava repousar. Aplicaria um sedativo para acalmá-la.
Kai se desespera e grita chamando a mãe.
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ROSS
A caminho da SPN, Ross lembra-se da promessa que fizera a Dean Winchester. Prometera cuidar de Sam e mantê-lo afastado de encrencas. Enfrentar um psicopata homicida estava, no entanto, muitos níveis acima de "manter um colega afastado de encrencas". Ninguém - nem mesmo Dean - o culparia se, naquele momento, ele desse meia-volta e voltasse para casa.
A angústia chegou como uma onda, tirando seu fôlego e ameaçando sufocá-lo. Naquele momento, tudo que queria era estar na segurança de seu quarto, coberto até a cabeça com o edredon. Protegido de todas as coisas que viviam no escuro.
Mas sabia que era tarde. Que não havia caminho de volta. Sinaliza, e manobra o carro, estacionando numa vaga de visitante da SPN Advertising.
26.04.2013
