CAPÍTULO XXI


(Cap. 51) Kim

Voltou a olhar da soleira da porta. Não dava para ver o corpo desacordado do novo estagiário. Não precisaria fazer uso da serra, afinal. Riu da própria piada.

A próxima fase era despir Sam. Precisaria das roupas para chegar ao aeroporto e seria embaraçoso explicar a presença de manchas de sangue. Uma parte de si próprio que se auto-reconhecia como Andrew Nolan sentiu-se excitada. Deixou que Andrew tivesse sua vez. Ninguém era mais experiente que Andrew na categoria despir rapazes.

Sapatos, meias, gravata, paletó, camisa, cinto, calça. Afastou-se um pouco para admirar melhor o belo adormecido. Não seria a mesma coisa quando assumisse aquela forma. Desejar a si mesmo não era algo muito sadio. Kim Walker afastou Andrew Nolan e reassumiu o comando. Objetividade. Autocontrole. Não tinha tempo para o que Andrew desejava fazer. Deixou a cueca para a fase final.

O interfone toca. Merda. Melhor atender.

– Sim, Pam. O que é?

– O Max está chamando. Quer discutir alguns aspectos da campanha da K-Milk. A reunião está marcada para daqui a 1 hora. Na sala de reunião anexa à sala da diretoria. O Max está convocando os diretores Financeiro e de Planejamento. Quer saber quem você vai chamar da equipe de criação.

– Justin e Michelle. É só isso?

– Não, ele quer reunir-se com você antes. Quer que você adiante a estratégia que vai adotar. Pediu para você subir imediatamente.

'Maldição', pensou o monstro. Conhecendo Maxwell Lord, o diretor presidente da SPN, se recusasse ou atrasasse muito, ele viria buscá-lo pessoalmente.

– Estarei lá em mais alguns minutos.

'– Maldição', repetiu, desta vez em voz alta.

Menos mal que ainda não começara a terceira e penúltima etapa do projeto Sam. Só precisava garantir que ninguém entrasse e encontrasse o estagiário drogado e despido atrás do sofá. Se bem que até aí não ia ser surpresa para ninguém no escritório. O método, talvez. As intenções, nunca. O objeto, menos ainda.

Recolheu as roupas de Sam num cabide e guardou-as no armário, numa divisão planejada exatamente para guardar roupas. Kim mantinha sempre ali duas mudas de roupa: uma formal e outra informal. Guardou novamente o bisturi e a serra. Esses itens eram muito mais comprometedores que o garoto pelado.

Kim abriu a porta e fez menção de sair. Então, com metade do corpo já fora da sala e olhando para a mesa vazia do estagiário, falou como se Sam realmente estivesse em seu posto de trabalho.

– Sam, estou subindo agora para uma reunião, mas ainda tenho umas instruções para lhe passar. Por favor, mesmo que seja preciso ficar um pouco depois do expediente, me aguarde. Amanhã vou estar fora e quero que faça umas tarefas.

Kim falou para ser escutado por Pam e pelo boy costa-riquenho do escritório. Para que seu plano desse certo, precisava deles como testemunhas de que nada de suspeito acontecera com Sam.

– Pam, você vai comigo para a reunião. Por favor, veja se Justin já reuniu o material.

Aproveitou que Pam saiu da sala e fez um sinal para que o boy se retirasse. Sem que ninguém visse, trancou a porta a chave. Ninguém entraria e Sam ainda dormiria por muito tempo.

Olhou o relógio de pulso. Eram 15:10 h. Não via a hora de acabar o expediente.


(Cap. 52) Sra. Lang

Quando a Sra. Lang e Nascha voltaram ao quarto, encontraram Kai lutando contra o sono e a enfermeira montando guarda ao lado da cama.

– A menina estava muito agitada e eu achei melhor aplicar um sedativo. O médico pediu repouso absoluto até que ela esteja 100% recuperada. Eu já tinha mandado uma auxiliar localizá-las. Ela não pára de chamar por vocês duas.

Nascha e vó Lang correram para a cabeceira da cama e cada uma segurou uma mão de Kai.

– O que foi, menina?

Kai faz pressão no braço de vó Lang, para que se aproxime.

– Importante... Jason ... em perigo ... vejam ... o filme.

– Kai disse que Jason está em perigo. Ela quer que vejamos o filme.

Kai fecha os olhos e deixa de lutar contra o sono. Conseguira transmitir a mensagem.

As duas olham para a câmera, mas a enfermeira corta a idéia no nascedouro.

– Não aqui. Ela precisa repousar.

– Eu fico aqui com ela, Sra. Lang. A senhora volta para a Casa Grande e assiste ao filme.

– Cuide bem da menina, Nascha. Vou escutar o que meu neto tem para contar. Estou indo para o carro. Vou chamar o técnico para que leve o equipamento e monte-o novamente no escritório da Casa Grande. Também vou tentar falar com Jason pelo celular. Não gostei nada da forma como ele se despediu e ainda menos agora com esse aviso da Kai.

Durante todo o caminho de volta, a Sra. Lang tentou contato com Jason pelo celular. Das primeiras vezes deu caixa postal, depois ligação fora de área ou aparelho desligado.

Foram longos 40 minutos até chegarem à Casa Grande e outros 15 até a projeção ser retomada. O técnico voltou a fita, sob o comando da Sra. Lang, até pouco antes do ponto que descontrolara Nascha. Mais alguns minutos para ensiná-la a usar o controle remoto. Quando acabou, a Sra. Lang pediu que saísse e que chamasse sua enfermeira.

Quando a enfermeira chegou, a Sra. Lang já havia escutado o aviso de Tristan e se desesperava. Naquele momento, Jason descia do carro no estacionamento da SPN. Eram 15:55 h.

A Sra. Lang se sentiu mal, mas ignorou as palpitações e uma forte dor no peito. Repetiu a opinião de Bobby de que não há nada pior que envelhecer. Aquela não era hora para chiliques. Era hora de agir.

Primeiro ligou para Michael Holt, o CEO da K-Milk. Sabia que Jason se empenhara em marcar uma reunião. Queria saber onde e com quem.

Depois ligou para a Central de Polícia. Sabia que não agiriam com base no depoimento de um morto. Mas era uma questão de dizer da forma certa para a pessoa certa. E a pessoa certa era sempre o chefe do chefe. O comissário de polícia era um velho conhecido da família. Diria que recebera informação de fonte confiável que o assassino de Tristan era Kim Walker, um publicitário que trabalhava na SPN Advertising. Não tinha certeza de nada, é claro. Mas, um processo por calúnia e difamação era a menor das suas preocupações no momento.

Ligou para Nascha. Jason precisava que alguém rezasse por ele.

Convocou a equipe de segurança da mansão. Seguiria com um grupo para a SPN Advertising. Mas a equipe era nova. Não conhecia nem confiava muito em nenhum. Levaria no mínimo 15 min até estarem prontos.

Eram 16:35 h. Pegariam a hora do rush. Não menos de 45 min até o centro de San Jose.

Precisava de profissionais. Só conhecia um. Já se humilhara antes pelos seus. Faria isso novamente. A vida de Jason era mais importante que seu orgulho ferido.

John se surpreendeu quando o celular tocou. Mais ainda com o número que apareceu na pequena tela. Kristin Lang.

– John. Imploro a você que salve a vida do meu neto.


(Cap. 53) Tessy

A velha senhora estava sozinha naquele importante momento. Sempre fora forte, mas ninguém é forte para sempre. Ficara muito abalada da primeira vez que perdera um neto, mas encontrara forças para seguir em frente. Acompanhar o suplício do outro neto, seu neto querido, para quem fora uma mãe, fora um baque mais forte do que ela pode suportar.

Fechou os olhos, cansada. Quando os abriu, ela estava ao seu lado. Como fora boba. Só de olhar para ela teve certeza que não tinha motivos para ter medo. Ela tinha os olhos mais amorosos que já tinha visto. A pele tão branca. Os cabelos tão negros. Um jeito de menina sapeca.

– Oi, querida. Você é muito linda, sabia?

– Obrigada. Está pronta? Podemos ir?

– Eu vou encontrar meu neto?

– Quando ele estiver no Paraíso.

– Ele não está no Paraíso?

– Nem todos seguem direto para lá. Alguns pegam um caminho mais longo.

– Ele está .. naquele outro lugar?

– Não, claro que não.

– Eu queria muito ver meu neto. Muito.

– É contra as regras.

– Mas, você pode dar um jeitinho, não pode? Faz isso por mim? Prometo que não peço mais nada.

Tessy abraçou e beijou a velha senhora no rosto. Agora sabia de quem Tristan herdara o sorriso.

– Mas, é só desta vez.

Por um tempo caminharam lado a lado em silêncio.

– Como é o Paraíso?

– Eu mesma nunca estive lá. Nem teria tempo. É muito trabalho.


(Cap. 54) Ross

Ross estava em frente ao portão automático da SPN Advertising. Antes de cruzar a porta viu no celular as diversas ligações de vó Lang. Sabia que ela ligaria, preocupada. Gostaria muito de tranqüilizar a avó, mas não queria que suas últimas palavras para ela fossem mentirosas.

'Ei, ei, ei, espera aí. Que baixo astral é esse? Não vai me acontecer nada. Vou olhar bem na cara deste Kim Walker e é só. Mesmo que tenha certeza absoluta que ele é o assassino do Tristan, não vou dar bandeira. É a polícia que tem que pegar o sujeito.'

Mas no fundo sabia que não seria assim.

Ligou mais uma vez para o celular de Sam. Desligado.

Ajeitou a gravata, olhou para a própria aparência refletida no vidro, respirou fundo, resgatou a inata autoconfiança, assumiu seu melhor sorriso matador e entrou.

A recepcionista o encaminhou e, minutos depois, estava na espaçosa sala de reuniões da SPN. Uma grande e luxuosa mesa ovalada. Data show. Cavalete para apresentações. Quadro branco. O esperado. O anfitrião era Maxwell Lord, o diretor-presidente, uma lenda viva da publicidade da costa oeste.

Foi sendo apresentado aos demais à medida que entravam na sala. O diretor de planejamento Martin Fox, a dupla de criação Justin e Michelle, o diretor financeiro John Hall e, finalmente, Kim Walker e a secretária Pamela.

Ross ficou branco ao ver o rosto de Kim Walker. Sua primeira reação foi olhar em torno, buscando a reação dos demais. Nada, nenhuma reação. Olhavam para Kim Walker sem alarde e continuavam a agir normalmente. Parecia que ninguém mais via o que ele estava vendo claramente. Que Kim Walker não era humano.

Precisou de muito autocontrole para não gritar. Começou a suar frio. Precisou de mais autocontrole que um dia sonhou ter para estender o braço e apertar a mão do monstro, fingindo naturalidade. Mãos unidas num aperto de mão, Kim se aproxima mais do que o esperado de Ross, olhando diretamente para seus olhos, com um sorriso de predador. Parecia querer beijá-lo.

Ross olhava para aqueles olhos não humanos meio que hipnotizado. Para Ross, sob o feitiço que lhe revelava a verdadeira natureza da ameaça, a boca em meio sorriso de Kim mostrava um número muito maior de dentes do que seria esperado. Recuou a cabeça evitando o contato, mas a distância diminuía. Queria fugir, mas estava paralisado.

Foi salvo por Max Lord, que estava atônito pelo comportamento inadmissível de Kim Walker. Sabia das preferências de Kim. Era problema dele. O meio publicitário atraía muitos homossexuais. Mas daí a quase agarrar um cliente em plena reunião de trabalho era uma grande diferença.

Já Pamela, mais maliciosa, maldou que Kim e Ross talvez já se conhecessem de antes. O garoto ficara branco quando entraram. E ele era bem o tipo que agradava Kim. Aliás, agradava a ela também e imaginava que a qualquer outra mulher. Seu único senão era a idade, um pouco jovem demais para ela, mas em poucos anos estaria no ponto. Ross era másculo e tinha um rosto lindo. Cabelos louros curtos espetados, expressivos olhos verdes, boca bem desenhada e, tinha certeza, um corpo perfeito embaixo daquele terno impecável.

Era visível para todos que Ross ficara apavorado com a ousadia de Kim. Max fuzilava Kim com o olhar enquanto conduzia Ross para o outro lado sala e o deixava em segurança ao lado de John Hall e Martin Fox, que se apressaram em distraí-lo oferecendo água e café.

Max cogitou afastar Kim Walker da reunião antes mesmo que ela começasse. Se o tivesse feito, teria condenado Sam à morte e assegurado a vitória do monstro. Mas, para a sorte de Sam, lembrou-se das cifras em jogo e pensou que talvez ainda desse para desfazer o mal-entendido e salvar a conta.

Agarrou Kim pelo braço e levou-o até sua sala. Fez um rápido sermão e cobrou compostura. Voltaram à sala e Max anunciou o início da reunião. Eram 16:15 h.

Ross agora tinha certeza que Kim Walker, fosse ele humano ou não, matara Tristan. E que mataria Sam assim que tivesse a oportunidade. Se já não matara. Dera bandeira. Kim Walker percebera que ele sabia o que ele era e viria atrás dele.

Enfrentaria Kim Walker, mas não podia arriscar a vida dos demais. Estenderia a reunião o máximo possível, até depois do final do expediente. A maioria dos funcionários já teria saído e o pessoal da reunião se dispersaria rápido. Com o prédio esvaziado, seria mais fácil.

– Soube que um amigo meu começou ontem como seu estagiário, Sr. Walker. Gostaria de vê-lo depois da reunião. Se ele ainda estiver aqui, naturalmente.

Foi Pamela quem se apressou em responder, injetando uma pitada de malícia na frase.

– Vai estar, sim. O Sr. Walker pediu que ele ficasse até um pouco depois do final do expediente, se necessário.

E, em pensamento, com uma boa dose de veneno,

'Então o Sr. Winchester e o Sr. Lang são .. AMIGOS?'

Sem esconder a irritação com o comentário inconveniente, Kim respondeu de forma seca:

– Vai vê-lo com certeza.

E, olhando Ross nos olhos, o monstro pensou:

'E vai morrer antes mesmo do seu amigo. O que vai me dar muito prazer.'


02.05.2013