CAPÍTULO XXII
(Cap. 55) Ross
A longa apresentação das qualificações e das campanhas vitoriosas da SPN, enfatizando o aumento do faturamento dos contratantes nos meses seguintes à veiculação das campanhas, feita por Max Lord, deu o tempo que Ross precisava para recuperar-se do choque e montar sua estratégia.
Em primeiro lugar, precisava reassumir perante todos naquela sala a sua condição de cliente importante e herdeiro de uma grande fortuna. Não podia parecer um garotinho assustado. Principalmente não podia mostrar medo para a criatura. A criatura que - agora tinha certeza - matara Tristan.
Era sua vez de falar. Ross explicou brevemente os motivos de estar representando o CEO da K-Milk. Falou da K-Milk como empresa, dos valores da companhia, dos conceitos a que a empresa queria ver seu nome associado e das expectativas que a empresa tinha dos resultados da campanha. Ao final, viu que conseguira causar uma boa impressão.
Ao passar a palavra para a equipe de criação da SPN, Ross encarou o monstro, olhos nos olhos, como quem diz: NÃO TENHO MEDO DE VOCÊ.
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O monstro estava preocupado com o tempo. Já era quase 17:00 h. Precisava apressar o fim da reunião.
Ross estava preocupado com o tempo. Ainda não eram 17:00 h. Precisava ganhar pelo menos mais 30 min.
John estava preocupado com o tempo. Por mais acelerasse, não chegaria a San Jose em menos de 1 hora. Se o rush estivesse intenso, 1 hora e meia. Podia já ser tarde demais.
John cogitou a hipótese de Kristin ter armado uma armadilha, mas o tom de sua voz era o de quem realmente implorava pela vida de um filho, ou, no caso, um neto. E conhecendo Jason Lang era fácil acreditar que sua busca pelo assassino do irmão o levara a arriscar a vida. A surpresa foi ouvi-la falar de um skinwalker. Tinha certeza que em nenhum momento comentara sobre isso com Jason. Suas suspeitas iniciais tinham sido confirmadas de viva voz pelo morto.
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Apesar da impaciência da Sra. Lang, a equipe de segurança só agora, quase 17:10 h, atravessava os portões da propriedade e ganhava a estrada. Bando de incompetentes. A Sra. Lang já estava considerando seriamente trocar novamente a equipe de segurança.
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No hospital, finalmente o celular de Nascha toca. Era o xamã de sua aldeia, retornando sua ligação e passando a informação que pedira. Mas, Nascha ainda precisava fazer várias outras ligações e ter a sorte de encontrar as pessoas certas. Índios velhos não costumavam levar o celular sempre que saíam. Isso quando tinham celular.
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A reunião na SPN tinha ganhado um caráter mais técnico, com a equipe de criação apresentando as primeiras idéias, tirando dúvidas e discutindo conceitos de campanha. Havia assunto para 1 hora ou mais de reunião, mas as pessoas começavam a mostrar impaciência com o prolongamento da reunião. Kim Walker pediu a palavra, fez uma síntese – brilhante, Jason tinha que admitir – do que havia sido discutido e propôs que marcassem uma segunda reunião para darem prosseguimento àqueles assuntos.
Quando sentiu que não conseguiria mais prender as pessoas na reunião, Jason resolveu mudar de tática. Afinal, o que realmente queria era ter certeza que Sam sairia vivo daquele lugar. Sua intuição dizia que o monstro pretendia atacar ainda naquele dia. Só enfrentaria o assassino de Tristan se não tivesse escolha. Mas, o enfrentaria se isso fosse necessário.
– Sr. Walker, por favor me aguarde. Desço com o senhor em alguns minutos.
– Não esqueci que quer falar com seu amigo, Sr. Lang. Terei prazer em levá-lo até ele.
'E mais prazer ainda em matar vocês dois', pensou. 'Agradeça por eu estar com pressa. Vai ser tão rápido que você nem vai sentir.'
(Cap. 56) Martha
Eram 17:25 h. Os funcionários da SPN Advertising começam a desligar os computadores e a arrumar suas coisas. Os mais apressados começam a deixar o prédio.
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Longe dali, em Harveyville, Peter Ross chega em casa e desespera-se ao encontrar a mãe com a cabeça tombada para o lado na velha poltrona. O rosto sereno, parecendo sorrir, lhe traz um pouco de conforto naquele momento de dor.
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Tessy e a Sra. Ross, em frente à entrada principal da SPN Advertising, observam o aumento do movimento de saída de pessoas e carros. O prédio da SPN estava esvaziando rapidamente. Naquela época do ano anoitecia cedo. Estava começando a escurecer.
- É aqui que o meu neto está?
- É. Vai vê-lo em minutos.
- Sei que é ocupada, minha querida. Não queria desviá-la do caminho.
- Não desviou. Eu teria mesmo que passar por aqui.
- Vamos, então?
- Vamos.
Eram exatamente 17:30 h, quando Tessy atravessou o portão da SPN Advertising.
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- Tristan. Tristan. Acorda, menino.
- Vó. Me deixa dormir um pouquinho mais.
- Não, Tristan. Você precisar acordar. Acorda, menino. ACORDA!
Tristan senta-se e espreguiça. A terrível sensação de sono vai se dissipando. Alguém ao seu lado. Tristan olha e não acredita. Levanta-se num salto.
- Vó? A senhora? Como a senhora chegou aqui?
- Ela queria vê-lo, Tristan. Fui eu quem a trouxe. Lembra-se de mim?
- Vó, a senhora .. ?
- É o que parece, meu neto. Mas, não é tão ruim assim. A Tessy disse que vai me levar para o Paraíso. E você vai comigo.
Tristan e a vó se abraçam apertado. Uma lágrima escorre no rosto de Tristan. Uma lágrima imaterial.
- Martha, Tristan não pode ir conosco, pelo menos, não agora.
- Por que não? Ele sempre foi um bom menino, o melhor neto do mundo.
- Martha, não é tão simples assim.
- Eu não mereço o Paraíso? Porque? Já não sofri o bastante? Tive uma droga de vida. A vida inteira eu fui ignorado, desprezado, hostilizado. Fui devorado por uma coisa saída do inferno, um monstro alienígena. Fui jogado num lugar estranho, sozinho, completamente sozinho. Tenho certeza que nunca fiz nada para merecer isso.
Tristan lembra-se, então, do monstro e do que veio fazer ali. Lembra-se que estava usando o corpo de um outro rapaz. 'Espera, onde está o rapaz?'
Tristan olha então para o chão e vê, aos seus pés, o corpo despido de Sam, profundamente adormecido e completamente indefeso. Drogado. Fora a água que bebera. Vê os plásticos. Não sabe onde o monstro está, mas sabe que ele vai voltar. Vai voltar e vai matar o rapaz. Precisava fazer alguma coisa.
A faca. Tristan vê a mochila onde a deixara, aos pés da mesa. A faca está dentro. Precisa dela para matar o monstro, mas não pode voltar a ocupar o corpo do rapaz no estado em que ele está. O sono voltaria a dominá-lo.
- Tristan, o que está acontecendo?
- Vó, a criatura que me matou está aqui. É aqui que ela trabalha. A senhora precisa sair daqui o mais rápido possível.
- Tristan, a criatura não pode ferir sua avó. Despeça-se dela. É hora dela seguir em frente.
- Eu não vou sem o Tristan.
- Martha!
- NÃO VOU. Sem o Tristan, não seria nunca o Paraíso. Tristan, vou ficar aqui com você.
- Mais essa agora. Martha, nós ainda temos um tempinho, mas você precisa ir comigo. Prepare-se que as coisas aqui vão ficar agitadas a qualquer momento.
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O isolamento acústico da sala era realmente muito bom. Sem que nenhum som anunciasse, a porta se abre e Kim Walker com um gesto convida Jason Lang a entrar.
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Tessy recosta-se na parede, esperando sua deixa. Estava quase na hora dela fazer a sua parte.
(Cap. 57) Nascha
O médico não aprovou a administração do sedativo pela enfermeira, mas, depois de examinar Kai, confirmou que ela já estava recuperada da hipotermia e que estaria bem ao acordar. Saiu do quarto, chamando a enfermeira para uma conversa.
O celular toca. Eram 16:40 h. Era a Sra. Lang, logo após ter visto o vídeo e pedido ajuda a John Winchester.
A Sra. Lang reproduz para Nascha o aviso de Tristan e informa que estava seguindo para a SPN com três seguranças armados. Pede a Nascha que reze pela segurança de Jason.
Nascha olha para a adormecida Kai, beija a filha na testa e sai silenciosamente no quarto. Kai estava bem. Sua preocupação agora era Jason. Era Jason quem estava agora em perigo mortal. Rezaria depois. O momento agora era de agir.
Suas armas seriam o celular e sua agenda de telefones. Primeiro, o velho xamã de sua aldeia. Sabia que ele não tinha o conhecimento que ela precisava. Muito poucos tinham. Destes, menos ainda compartilhariam esse conhecimento. Alguns por serem sábios e saberem que o melhor a fazer era deixar que aquele conhecimento proibido se perdesse para sempre. Outros por egoísmo e o orgulho de serem os últimos guardiões de segredos tão antigos, agarravam-se a eles como sua única fonte de prestígio num mundo onde os jovens voltaram seus olhares para as novidades tecnológicas dos brancos.
Que ela soubesse, há mais de três gerações que ninguém invocava os poderes antigos para transformar homens em transmorfos capazes de roubar o corpo de homens e assumir formas animais. O conhecimento estava quase perdido. Para fazer o que pretendia, Nascha dependia da boa vontade de um único homem: Raymond Black Crow.
Boa vontade não era o termo certo. O navajo Ray Black Crow fugia ao estereótipo de xamã. Morava numa moderna mansão em Everett, no estado de Washington. Herdara o conhecimento dos anciões de seu pai e de seu avô, respeitados xamãs que viveram na tribo austeramente, respeitando as tradições. Mas, com a morte do pai, ao invés de tornar-se o novo xamã da tribo, transformara os conhecimentos recebidos em mercadoria.
Vendia encantos e maldições, embora, dizia-se na tribo, na maior parte das vezes, mera impostura. Guardava para si, e para quem realmente podia pagar, os feitiços verdadeiros.
Contatar Black Crow não era difícil, já que ele mantinha um conhecido site na web e lá tinha um endereço de e-mail. Mas, Nascha sabia que, por esse meio, seria atendida por aprendizes. Para ter acesso direto a Black Crow precisava de uma senha e, para obtê-la, Nascha ia precisar cobrar antigas dívidas.
Depois de fazer todas as ligações, foi até a administração do hospital. Usaria o prestígio da família Lang para ter acesso a um computador ligado à web. Precisava entrar no site do Black Crow, mas precisava também descobrir o endereço da SPN.
Desde que concluíra os contatos pelo celular ainda não tinham se passado 40 minutos, mas para Nascha parecia que o tempo ao mesmo tempo voava e arrastava-se. Voava para Jason e se arrastava para ela, em sua ansiedade de mãe. Questionava-se se, ao invés de apelar para Black Crow, não seria mais útil no campo de batalha. Para salvar Jason, enfrentaria seus medos, Black Crow e o próprio skinwalker.
O celular finalmente toca. A resposta que precisava: a senha. Agradeceu ao Grande Espírito e à Virgem Maria. Obter a senha em tempo tão curto podia ser considerado um milagre.
Era hora de fazer a ligação decisiva.
- Raymond Crow. É Nascha, filha de Ooljee, quem fala.
- Não temos qualquer assunto a discutir, mulher. Não volte a me procurar.
- Seu falecido pai tinha um débito com o meu pai, o honrado Ooljee, e eu cobro sua ajuda neste momento de dor conforme a tradição me faculta, filho de Bidziil.
- Fale.
- Um skinwalker ameaça minha família neste exato momento.
- Fale tudo que sabe.
Nascha fala do skinwalker que rondou a tribo no passado, da ameaça revelada nas entranhas do corvo, do feitiço de proteção para o menino Jason, da morte de Tristan, das premonições de Jason, do aviso do fantasma incorporado e até do seu recente sonho com o homem-lobo.
- Fascinante, Nascha. Mas, me confirme uma coisa sobre o menino Jason: a mãe dele morreu de parto? Foi por isso que você se tornou ama-de-leite do menino branco.
- Foi.
- E o que aconteceu com SEU FILHO? Ou filha? É a menina Kai da história, não é?
- !
- É ela, não é, Nascha. A minha filha? A menina Kai é a MINHA filha?
(Cap. 58) Max
Maxwell Lord gabava-se de saber ler as pessoas, mas não estava conseguindo decifrar o clima entre Kim e Jason Lang. Estava claro que o estagiário Winchester era o pivô da história. Jason Lang ficou branco quando Kim entrou. Depois, houve aquela cena lastimável em que os lábios de Kim ficaram a milímetros da boca do Sr. Lang. E, finalmente, essa estranha insistência em ver o amigo após a reunião. Se são amigos podem se encontrar a qualquer momento, longe daqui. Não, tinha algo mais acontecendo.
Max também notou o empenho com que Jason Lang estava estendendo as despedidas. Já eram quase 18:00 h. O Sr. Lang estava claramente ganhando tempo para ficar sozinho com Kim Walker e com o tal estagiário Winchester, que Max ainda não conhecia mas que agora FAZIA QUESTÃO de conhecer.
Não ia permitir cenas de ciúme na SPN. Se os dois quisessem brigar, que fossem brigar do lado de fora.
- Vamos, então, Sr. Lang.
- Obrigado, Sr. Walker.
- Eu acompanho vocês, rapazes.
- Não precisa se incomodar, Max. Já passa da hora.
- Kim, meu querido. A SPN é como se fosse a MINHA casa. E, como anfitrião, faço questão de acompanhar o Sr. Lang enquanto ele permanecer nas nossas instalações. QUESTÃO ABSOLUTA.
- Também acompanho vocês.
- Não, Pamela. Realmente, NÃO HÁ necessidade.
- Se é assim, tchau pessoal. Tchau, Sr. Lang. O senhor é realmente um homem muito bonito. Como também o Sr. Winchester.
Max olhou Pamela de cara feia.
Em frente à sala de Kim Walker, Max toma a dianteira, e, mão na maçaneta, tenta, sem sucesso, abrir a porta.
- Está trancada? Kim, pensei ter dito que o estagiário estava na sala.
- Devo ter trancado sem perceber. Dêem-me licença ... Pronto.
Max, Jason e Kim entram na sala, aparentemente vazia. Kim, disfarçadamente, tranca a sala por dentro e volta a guardar a chave no bolso.
- Parece que o rapaz já saiu.
Jason vasculha com os olhos o ambiente e os detêm na mochila, sob a mesa menor.
- É a mochila do Sam. Ele não ia sair sem ela.
Max estranha a posição avançada do sofá e aproxima-se para ver melhor. Não acredita no que está vendo. Atrás do sofá, adormecido e somente de cuecas, o estagiário.
– O QUE SIGNIFICA ISSO, Kim? O que esse rapaz está fazendo aqui, quase nu? Respon ..
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Horas mais tarde, dando seu depoimento à polícia, Maxwell Lord ainda não entendia o estranho apagão mental que sofreu e como fora parar desacordado no jardim.
12.05.2013
