CAPÍTULO XXIII


(Cap. 59) Jason & Tristan

Jason apanha a mochila, e, sem tirar os olhos do monstro, aperta-a contra o peito. Ao sentir a forma do objeto duro que está dentro, abre-a.

'Uma faca de caça?'

– O QUE SIGNIFICA ISSO, Kim? O que esse rapaz está fazendo aqui, quase nu? Respon ..

Jason teve a atenção atraída pelo tom colérico que Maxwell Lord dirigiu a Kim Walker. Em seguida, o espanto. Maxwell Lord pára a frase no meio e todo seu corpo estremece seguidas vezes com espasmos que fazem Jason acreditar que ele estivesse tendo um enfarte. Então, a expressão do executivo endurece e seu corpo assume uma postura de luta.

- Um bom truque, menino-fantasma. Sim. Posso ver você. E também a senhora-fantasma no canto.

- Fantasma? Tristan, você está aqui?

- Bem ao seu lado, irmão.

A voz vinha da boca do diretor-presidente da SPN Advertising.

- Tristan, tem tanta coisa que eu queria te dizer! Mas, não pode ser agora. Você precisa sair imediatamente desta sala com o Sam e com o Sr. Lord. Eu fico e cuido do monstro.

- Não, irmão! Esta luta é minha, não sua. Foi a mim que ele matou. Matou e devorou. Mas, não vai matar mais ninguém. É isso que eu vim fazer aqui. Eu vim aqui para acabar de vez com esse monstro e é isso que eu vou fazer. Eu acho que é isso que me prende a este plano. Se eu não matá-lo, posso ficar preso aqui para sempre e não é isso que eu quero. Jason, passe-me a faca. VOCÊ tira o rapaz da sala.

Enquanto falavam, os irmãos eram observados com divertida atenção pelo monstro.

- Irmãos? O rebelde sem causa pobretão de uma cidadezinha do fim do mundo é irmão de um herdeiro milionário da costa oeste? Daria uma novela interessante. Mas, eu não tenho tempo para isso. Eu pretendo sair desta sala no corpo de seu amigo Sam Winchester, Sr. Lang. E antes que o diga, SERÁ por cima do seu cadáver. Quanto a você, Tristan, eu só lamento não tê-lo devorado inteiro. Você era muito gostosinho, sabia?

Enquanto falava, o monstro mudava sua aparência. No geral, mantinha o aspecto humano da cintura para baixo, mas os braços ganhavam massa muscular, as mãos alongavam-se e ganhavam garras e a parte inferior do rosto deformava-se, crescendo para a frente. A boca ganhava uma proporção maior e a segunda fileira de dentes aparecia.

A mudança não surpreendeu os irmãos. Tristan já conhecia aquela forma e Jason, graças ao feitiço revelador, meio que já o via assim. Esta vantagem o monstro não teria.

Já Martha encolhia-se contra a parede da sala apavorada e atônita. Fora essa criatura que matara Tristan? Pobre Tristan. Tristan tinha um irmão? Esse outro rapaz também era seu neto? Fora trazida ali para presenciar a morte de outro neto que nem sabia que existia?

Para Martha Ross, uma hora na morte estava sendo mais emocionante que as várias décadas de sua vida em Harveyville.

Tessy, vendo que Martha estava assustada, faz menção de tirá-la da sala, mas ela recusa.

Sem perder o monstro de vista, Jason passa a faca para Max e recua para onde está Sam. Primeiro tenta acordá-lo, segurando-o firme nos ombros e balançando-o vigorosamente. Inútil. Sam continuava dopado. Ele não acordaria. Jason, então, ergue Sam de frente e o joga sobre seu ombro direito. Vai até a porta e se apavora ao descobrir que está trancada.

O monstro ainda não tinha tomado nenhuma atitude verdadeiramente agressiva. Estava brincando com os irmãos, estudando suas atitudes improvisadas. Queria vê-los descobrir que estavam presos com ele naquela sala. Queria que soubessem que não tinham para onde correr. Queria que sentissem medo. Muito medo.

Foi Tristan quem iniciou a batalha. Com um grito de 'MORRA!', ele lança-se em direção ao monstro ao mesmo tempo em que desce com força o braço levantado que empunhava a faca, tentando cortar de alto a baixo o peito do adversário.

O golpe foi bem executado para quem não tinha nenhuma experiência de combate e que não estava acostumado com as limitações do corpo emprestado. Mas, o monstro era experiente e saltou para trás e para o lado, escapando do golpe. A faca cortou apenas o paletó que Kim usava, mas, fazendo isso, a chave da porta, que estava no bolso do paletó, caiu no chão.

A chave pára quase em frente ao ponto onde Tessy e Martha Ross observavam a luta, invisíveis. Então, a Sra. Ross faz algo inesperado. Esquecida de que é um espírito, chuta a chave na direção de Jason. E a chave se move, parando aos pés do rapaz.

Tessy começa a se preocupar. Já estava arrependida de ter quebrado as regras e trazido a Sra. Ross. Era a segunda vez que sua ação modificava o curso dos acontecimentos. Primeiro retirando Tristan do corpo adormecido de Sam e agora dando meios para Jason sair da sala com ele.

Não era para nada disso estar acontecendo. SAM WINCHESTER DEVERIA MORRER ALI, NAQUELA SALA.

Qualquer coisa diferente só seria possível com a intervenção de poderes superiores.

Alguém muito lá de cima.

.

Pela primeira vez em milhões de anos, Tessy não tem certeza do que vai acontecer em seguida.

O LIVRO DO DESTINO ACABARA DE SER REESCRITO.


(Cap. 60) Jason & vó Lang

A investida frustrada de Tristan lançou o corpo que tomara emprestado de Max de encontro à parede. O golpe foi violento e o deixou meio grogue, mas Tristan manteve a posse da faca e conseguiu rolar o corpo, escapando do primeiro ataque para valer do monstro.

Jason, com Sam desacordado sobre seu ombro, finalmente consegue abrir a porta, atraindo a atenção e a fúria do monstro. Jason corre em direção ao portão de entrada, seguido de perto pelo monstro. Jamais conseguiria escapar carregando Sam. Aproveita então que está desequilibrado com o peso extra sobre seu ombro direito, e, propositalmente, tomba para esse lado derrubando Sam, que cai e rola esparramado no hall de entrada da empresa.

Se alguém tivesse tirado uma foto de Sam caído, só de cuecas, em pose tão comprometedora, e divulgado na internet, ele com certeza teria preferido ter morrido ali mesmo. Mas, momentaneamente, estava salvo.

Ao tombar, Jason sai do caminho do monstro no último segundo.

Juan, o boy costa-riquenho, não tem a mesma sorte.

Se o metamorfo fosse uma fera irracional, Juan não se salvaria. Mas, Kim ainda esperava retomar seu plano inicial e não queria deixar provas da sua capacidade de transformação. Ao invés das garras, um safanão lança o boy com força contra a parede.

A pancada na cabeça foi forte e o rapaz sofreu um traumatismo craniano, mas uma tomografia feita horas depois não revelaria seqüelas. Suas alegações de que fora atacado por um tipo de lobisomem foram desconsideradas pela polícia, que as classificou como delírio causado pelo trauma.

Tristan sente a consciência de Max se esforçando para expulsá-lo, o que o retarda. Não conseguiria manter-se naquele corpo por muito tempo.

O monstro, ao dar meia volta, dá de cara com Jason em pleno vôo. Um momento antes, o rapaz se arremeteu num salto, lançando os dois pés contra o tórax do monstro, que cambaleia, mas não chega a cair. Um novo golpe com as pernas e uma rasteira bem dada derrubam o monstro no chão. Um chute, dois chutes, três fortes chutes nas costelas mantêm o monstro no chão, gemendo de dor. Sem saber, Jason repete o golpe que o pai usou tantas vezes de forma covarde nas suas brigas de rua. Mas, aqui, não se tratava de uma vítima indefesa.

O monstro agarra Jason pela perna e o puxa para si, ao mesmo tempo em que escancara a boca, mirando o pescoço do rapaz. É a vez de Tristan, que investe contra o monstro caído e crava a lâmina no braço que está segurando a perna de Jason.

O monstro grita de dor e larga a perna de Jason, que se levanta num pulo e corre em direção ao portão, arrastando Max pelo braço. Um segundo que Tristan perde a concentração é suficiente para que a consciência de Max o expulse do corpo. Desincorporado, e com as emoções desencontradas, Tristan está momentaneamente fora de ação. A faca fica para trás.

Kim sabe que não pode transpor o portão na forma híbrida. Não pode se arriscar a ser visto naquela forma. Mesmo que perdesse o avião, não importava. Poderia ir atrás de Sam quando quisesse. No dia seguinte ou daqui a 10 anos. Max não o vira na forma transformada. Quem vira fora Tristan. Com um pouco de sorte, o idiota do boy estava morto. Se não estava, era só uma questão de tempo. Quanto aos fantasmas, não havia nada que pudesse fazer. Mas, também nunca soube de um fantasma dando depoimento em delegacia de polícia ou entrevista em rede de televisão.

Restava o Sr. Lang. Ele SABIA. Ele vira o que não devia. Custasse o que custasse, ele não podia sair vivo dali.

O metamorfo muda mais uma vez. Livra-se completamente das roupas e assume a forma de um grande lobo negro. A transformação faz muito mais do que simplesmente cicatrizar o ferimento de faca. Faz desaparecer completamente qualquer sinal de que o ferimento um dia existiu.

.

O carro com Sra. Lang e três seguranças chega ao terreno da SPN bem na hora em que Jason atravessa correndo o portão principal do prédio arrastando Maxwell Lord, que, atordoado, desaba no jardim e ali fica.

Logo em seguida, em seu encalço, surge um imenso lobo negro, com quase o dobro do tamanho de um lobo comum. Seus olhos, ao refletirem a luz dos faróis, parecem brilhar em verde.

A Sra. Lang ordena que os seguranças protejam Jason do lobo, mas o salário que ela paga, por mais razoável que seja, atrai leões de chácara, não heróis. E tamanho, pose e cara de mau não iriam intimidar o monstro, ainda mais em sua forma de fera.

Brian, o mais cheio de pose dos seguranças, ao ver o lobo gigante mostrar os dentes e se voltar na direção do carro, entra em pânico. Ele deixa a arma cair no chão e corre desesperado para longe. Sua única preocupação era com a própria segurança.

Jones, o mais velho dos três, era um veterano do Vietnam. Ele saca a arma e começa a disparar na direção da fera. Tinha excelente pontaria. Então, porque aquele maldito cão do inferno não caia morto? Porque o bicho não fugia? Não era possível que não tivesse acertado ao menos uma bala. Com o pente da arma descarregado, deu um passo atrás. Outro. Olhos nos olhos da fera, Jones imagina ver o lobo sorrir, enquanto assume a postura de que vai dar o bote.

Enquanto corre para a segurança, Jones conforta-se repetindo para si mesmo que não está fugindo e que não é medo o que está sentindo. Aquilo era só uma retirada estratégica.

Jared, o mais novo dos seguranças, permanecia impávido, analisando a situação, ignorando os gritos da Sra. Lang para que fizesse alguma coisa. Sentia forças poderosas em ação e estava desorientado quanto à forma como devia agir. O futuro estava sendo reordenado e ele ainda não sabia qual o seu papel neste novo mundo.

A distração proporcionada pela chegada de vó Lang e dos seguranças permitiu que Jason seguisse em frente e ganhasse uma distância que certamente garantia que escapasse do monstro. Mas, como fugir e deixar a avó sozinha enfrentando o monstro? Ross hesita em continuar em frente. Não podia fazer isso. Dá meia volta e retorna gritando e chamando para si a atenção do monstro.

Vó Lang se desespera quando vê Ross retornar. Empurra o terceiro segurança para frente e grita, em vão, para que ele faça seu trabalho, para que cumpra seu dever. Vendo que é inútil, se abaixa e pega a arma que Brian deixara cair.

'Se quer que algo seja bem feito, faça você mesma', pensou.

Respirou fundo. Destravou e empunhou a arma. Naquele momento, sentia-se mais viva do que nunca. Sentiu a amargura que a consumiu por tantos anos se dissipando. Estava preparada para matar e para morrer. Não mais por ódio, mas por amor.


(Cap. 61) Black Crow

BC. É assim que o navajo Raymond Black Crow é tratado pelos mais íntimos. Tal como era chamado na aldeia, pelos de sua geração.

O telefonema de Nascha trouxe lembranças profundamente enterradas em seu peito.

Nascha, a filha do velho Ooljee. Tão linda, inteligente e decidida. Ele gostara dela um dia. De verdade. Mas BC não queria mais responsabilidades. Não queria uma família. Não queria um filho. Já bastavam as responsabilidades que todos repetiam sem parar que eram dele por herança. Queria simplesmente sumir. Ainda não tinha 20 anos na época. Tinha direito a uma vida só sua.

Quando Nascha engravidou, ele surtou. Fugiu. Dela, da aldeia, do seu povo.

E agora, 20 anos depois, Nascha reaparecia, cobrando dívidas antigas. Mas, não para ela nem para a filha que tiveram. Para um estranho. Um garoto branco.

A imagem da jovem Nascha lhe voltou à memória. Sua pequena Coruja. A Coruja e o Corvo. Será que Nascha se cuidara. Permanecia bonita? E Kai, a salgueiro? Como seria? Bonita como a mãe quando jovem?

Nunca antes pensara na filha ou filho que tivera com Nascha. Nem mesmo interessara-se em saber se tinha sobrevivido ou não. E agora, bastara um telefonema e a idéia de ter uma filha infiltrava-se em todos os seus pensamentos. Conhecia a si mesmo o suficiente para saber que essa paternidade já ganhara raízes em sua alma.

Mas, como fazer para ser verdadeiramente aceito como pai por uma filha que crescera sem precisar dele. Que nunca o procurara? O que tinha a lhe oferecer? Nem mesmo dinheiro, já que os Lang eram imensamente ricos. Nascha pedira sua ajuda contra a ameaça de um skinwalker. Era um começo.

Aprendera com o avô o feitiço proibido que transformava um amaldiçoado em um skinwalker. Mas, fazia muito tempo. Já não lembrava de quase nada. Tinha, no entanto, as anotações de como conjurar um skinwalker. Nunca soube que existisse um feitiço capaz de reverter a maldição, mas podia estar enganado. O primeiro passo era ler essas anotações.

Nascha contara que fizera um feitiço de proteção que estava permitindo que o tal filho branco rastreasse a criatura por meio de premonições. Era um feitiço muito elaborado e difícil. Não imaginava que Nascha fosse capaz de tal proeza. Isso fizera com que a visse com outros olhos. Que ganhasse seu respeito.

Acreditava que o feitiço tivesse sido bem sucedido apenas, ou principalmente, porque, pela tradição da tribo, Jason era um amaldiçoado. Matara a mãe ao nascer. A mais forte das maldições. Não importa que a criança não tivesse culpa da morte da mãe. A maldição independia de culpa.

Ser um amaldiçoado tornava Jason suscetível à magia.

O feitiço de proteção talvez pudesse ser revertido ou alterado. Quem sabe, um outro feitiço de proteção? Um que o tornasse invisível aos olhos do monstro. Havia muitas possibilidades.

Felizmente a magia quileute era baseada em encantamentos verbais e não demandava muitos ingredientes. Eram sempre os mesmos em proporções diferentes.

BC era um xamã hi-tech. Os feitiços estavam guardados num computador pessoal. Estavam escritos na língua navajo e criptografados. Além disso, era necessário pronunciar corretamente os fonemas, com atenção na entonação. Era preciso total domínio da língua navajo em sua forma mais arcaica, que caia rapidamente em desuso. Nenhum branco conseguiria entoá-los.

Talvez fosse por aí. Quem sabe Kai não se interessaria em continuar a tradição dos seus antepassados? A tradição que ele traíra por fama, dinheiro e uma ilusão de liberdade. Talvez essa fosse também a sua forma de redenção.


NO PRÓXIMO CAPÍTULO: MORTE NOS JARDINS DA SPN


16.05.2013