CAPÍTULO XXV
(Cap. 65) campo de batalha
Nascha chegou à SPN a tempo de ver Jared P. tombar morto. Conhecia lobos e sabia que atacavam usando os dentes, não as garras. A criatura andando sobre duas pernas não era um lobo. Era a criatura que habitava seus pesadelos. A criatura no destino de Jason. Destino esse que parecia prestes a concretizar-se.
Nascha luta contra o medo que ameaça paralisá-la a cada passo que dá. Cada passo que a leva para mais perto do campo de batalha.
Não tinha certeza de nada.
Não sabia se conseguiria salvar Jason.
Não sabia nem mesmo se sairia viva dali.
Quando a morte se apresenta como uma possibilidade real, descobrimos que têm coisas que já adiamos por tempo demais. E que talvez não haja mais tempo para realizá-las.
Tantas coisas que precisavam ser ditas. Ou as dizemos agora ou corremos o risco delas nunca serem pronunciadas.
Nascha se detém e olha para o celular em sua mão. Precisava falar. A idéia de levar aquele segredo para túmulo a estava sufocando.
Nascha liga para Black Crow, que um dia fora simplesmente Ray, seu pequeno corvo. Precisava lhe dizer que Kai era mesmo sua filha. Tinha medo de não ter outra oportunidade. Gostaria de dizer também que ainda o amava. Mas, esse segredo talvez fosse melhor que morresse com ela.
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O cheiro do sangue do segurança mortalmente ferido invade as narinas do homem-lobo e o lança num estado de frenesi. Ansiava por mais sangue. Fora desafiado, seus planos estavam ameaçados e o irritante Sr. Lang insistia em permanecer vivo.
Naquele momento, tudo o que queria era matá-lo.
Queria matar a todos.
O homem-lobo joga longe a Sra. Lang com um forte safanão e avança lentamente na direção de Jason, saboreando o mal disfarçado medo do rapaz. Jason, acuado, vai recuando um passo a cada passo que é dado em sua direção. Ao mesmo tempo em que retira o paletó e o usa para envolver o braço. Seu braço era sua última linha de defesa.
As garras do monstro retalham a frágil armadura de pano e profundos cortes paralelos marcam o braço de Jason. Ele tropeça e cai sentado na grama, o grito de dor preso em sua garganta. O skinwalker ergue o braço e expõe as garras, decidido a dar o golpe fatal.
Vó Lang recua e Nascha corre em sua direção. Nenhuma das duas sabia o que fazer. Queriam ter forças ou meios de enfrentar o monstro e salvar Jason, mas eram duas velhas e estavam apavoradas. Restava-lhes apenas testemunhar a morte de Jason.
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Inesperadamente, o ar começa a crepitar no estreito espaço que separa o homem-lobo de Jason. Centelhas rodeiam o núcleo em torno do qual ar gelado começa a ganhar movimento circular. O homem-lobo, surpreso, dá um passo para trás.
Tristan começa a materializar-se bem próximo do monstro, ao alcance de suas garras, e praticamente em cima de onde Jason está caído. Tristan pretendia que sua forma fantasma fosse realmente uma barreira capaz de proteger o irmão. Não era. O monstro rosna e atravessa o corpo intangível de Tristan com suas garras, desfazendo sua forma.
As manifestações poltergeist perdem força até desaparecer.
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Um carro entra sem reduzir a velocidade nos jardins da SPN e segue na direção dos fenômenos que acompanhavam a materialização de Tristan. As centelhas podiam ser vistas de longe nas sombras daquela noite sem lua. O carro pára a cerca de 20 m do grupo.
Era John Winchester.
John, num rápido reconhecimento de terreno, identifica a Sra. Lang e, junto a ela, uma senhora de meia-idade, que ele não conhecia.
Próximo ao prédio, um senhor de terno se punha de pé. Não parecia estar ferido, apenas desorientado.
Ao longe, um homem, que parecia um segurança, falava com os ocupantes do carro de polícia que acabara de chegar. Ele gesticulava muito e apontava na direção das mulheres.
Outro homem, que também parecia um segurança, olhava a cena detrás de uma árvore, curioso, mas querendo passar despercebido.
E, no centro das atenções, o skinwalker e os irmãos Jason e Tristan. Bem, no momento só Jason. O fantasma desaparecera.
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De onde está, John não vê o corpo caído do terceiro segurança.
Não vê - nem poderia - Tessy se afastando com Jared P. rumo ao portal de luz que abria neste momento. E nem a mesma Tessy observando a cena de mãos dadas com a Sra. Ross.
Quando a Sra. Ross questionou Tessy sobre o fato de haverem duas dela, Tessy sorriu e disse que tinha que se desdobrar não em duas, mas em muitos bilhões. Afinal, o universo era grande e era muito trabalho para uma só realizar.
John corre para abrir o porta-malas. Retira de lá um revólver e um rifle.
O revólver permitia seis tiros, mas apenas uma das seis balas era de prata. Ao girar o tambor, não saberia qual tiro seria eficaz, se é que algum seria. Além disso, o revólver tinha curto alcance. Precisaria se aproximar bastante para usá-lo com eficácia.
O rifle estava carregado com cartuchos de sal. Podia machucar a criatura, mas para causar um dano expressivo somente se os fragmentos atingissem pontos muito específicos. Tinha, no entanto, a vantagem de ser uma arma de longo alcance.
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Jason arrastara-se de costas por uns poucos metros, aproveitando-se da intervenção de Tristan, e, acabara de se por de pé, quando se vê novamente cara a cara com o skinwalker. A dor dos cortes no braço é intensa e ele não se sente mais capaz de fugir ou lutar. Encara o monstro com ódio e se prepara para receber o golpe fatal.
As garras do homem-lobo rasgam o abdômen de Jason, comprometendo seriamente diversos órgãos internos. O rapaz tomba para o lado, apertando forte a área ferida com ambas as mãos.
Kim volta a ser totalmente lobo.
E sorri, da forma que é possível aos lobos.
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Notas finais do capítulo
ESCLARECIMENTO: Nesta fic, TESSY é a Morte. Não é apenas mais uma ceifeira, como a Tessa do seriado SPN. É A CEIFEIRA. Única e definitiva. Está ao lado de cada ser consciente da própria individualidade no momento de sua morte. Já existia antes do primeiro ser vivo surgir na Terra e acompanhará o último ser vivo do Universo a seu destino final. Essa fic foi escrita antes do Cavaleiro do Apocalipse Morte aparecer no seriado. É, portanto, o mesmo personagem mostrando uma aparência muito mais agradável.
(Cap. 66) Tristan
Tristan estava bem até trocar o corpo de Sam Winchester pelo de Maxwell Lord. Os poucos minutos que ocupou o corpo do diretor presidente foram extenuantes e o enfraqueceram rapidamente. Max tinha muita força de vontade e resistiu desde o primeiro momento. Mas, a resistência da mente esgotou também o corpo e Max, ao expulsar Tristan, acabou desmaiando.
Tristan escapara, por muito pouco, de ser enviado de volta para a dimensão enevoada. Se isso tivesse acontecido, a reentrada no plano material teria que acontecer a partir da propriedade dos Lang e ele não voltaria a tempo de intervir na batalha.
A energia que conseguia reunir para tentar uma materialização dependia muito da intensidade de suas próprias emoções. A ameaça da coisa alien ao irmão Jason lhe permitiu dar início à materialização, mas ele não estava suficientemente forte e sua autoconfiança estava abalada. Ao ser atravessado pela criatura, foi facilmente dissipado.
Isso mudaria ao ver o irmão cair com o abdômen rasgado pela criatura que o matara. As emoções de Tristan explodem. Fúria. Desejo de matar a criatura odiada. Desta vez, não tentaria uma nova materialização. Seria desperdício de energia. Precisava de uma arma eficaz contra o monstro. Tristan busca direcionar toda sua fúria para acelerar o ar. E vai ganhando controle da massa de ar em movimento. Um pequeno tornado começa a se formar. Todos começam a sentir a força do vento, que aumenta sem parar.
E, então, a cavalaria. De várias direções, ouvem-se sirenes. Carros de polícia, em grande número, convergem para o lugar. Kim percebe que não conseguiria fugir nem como homem nem com lobo. Mas, ele tem outras alternativas. E o lobo começa a mudar. O lobo dá lugar a um grande corvo. Um corvo maior que qualquer águia ou abutre.
Um corvo grande como um lobo.
Corvos são conhecidos por devorarem os olhos de cadáveres e a criatura-corvo investe furiosa contra o corpo caído de Jason bicando repetidamente os pontos mais vulneráveis. A nuca, o rosto e até o abdômen ferido. Novas e profundas feridas.
O rosto de Jason fica completamente desfigurado. A perda de sangue faz com que ele sinta muito frio. A dor é intensa e vem de diferentes pontos. Jason sente que vai desfalecer a qualquer momento. Luta para manter os olhos abertos. Sabe que se fechar os olhos, não voltará a abri-los.
Um tiro. Dois. Três tiros com o rifle. O monstro sente o impacto dos cartuchos de sal, mas não foge. John Winchester ataca então com a coronha do rifle, tentando a todo custo afastar o corvo de Jason. O corvo insiste e investe contra John, batendo as grandes asas e atacando com o bico e com as garras.
John saca o revólver e atira. O primeiro tiro acerta o corvo no pescoço e o segundo, a bala de prata, na articulação da asa. O corvo finalmente recua e alça vôo. Fugiria para lutar um outro dia.
Um grande número de policiais se aproxima, atirando para o alto, na direção do pássaro inacreditavelmente grande, que dá diversos rasantes na tentativa de dispersar os policiais. John também tenta alguns disparos, mas a criatura já estava fora de alcance.
É a vez de Tristan.
Kim se vê lançado em diferentes direções por fortes rajadas de ar que o empurram na direção do oceano.
Diversas vezes o corvo se viu completamente envolvido pelo pequeno tornado e em todas conseguiu escapar do movimento circular. Mas, sua resistência estava no limite. Decide, então, seguir na única direção que era ainda possível. Avançar oceano a dentro. Tentaria alcançar uma ilha ou um navio. Quando se recuperasse, voltaria e acabaria com todos. Tinha todo o tempo do mundo para isso.
Tristan se detém. Está no limite de suas forças. A exaustão embota suas emoções. Sua fúria perde intensidade e seu vento começava a enfraquecer.
Mas, vencera.
O maldito estava ferido e esgotado. Não escaparia. A certeza disso traz a Tristan uma sensação de paz.
(Cap. 69) John & Sam
John amaldiçoa a criatura que se afasta voando. Dois tiros a queima-roupa não foram suficientes para derrubá-la. Uma rápida verificação no tambor da arma confirma que a bala de prata fora disparada.
John volta-se então para Jason Lang, que agoniza nos braços da avó. Aproxima-se e observa os ferimentos com cuidado. O abdômen do rapaz fora dilacerado. Havia inúmeros ferimentos de bicadas no rosto e no pescoço de Jason. Ele estava perdendo muito sangue e não havia como estancar o sangramento. Sua experiência lhe dizia que mesmo que o rapaz fosse operado imediatamente, dificilmente se salvaria.
John corre até o carro e pega um cobertor. A perda de sangue levaria rapidamente a uma hipotermia, piorando o quadro geral. Além disso, começava a esfriar.
Quando John se abaixa para cobrir o corpo de Jason com o cobertor, o rapaz segura sua mão e se dirige a ele num fiapo de voz.
– John?
– Não fale. Você precisa guardar suas energias.
– Sam .. no prédio ... skin .. walker .. ia ... tor .. nar-se .. o Sam.
– Sam? Meu filho? Ele está no prédio? Vivo?
Jason faz que sim com pouco mais que o movimento dos olhos.
John só consegue pensar que seus instintos estavam certos o tempo todo. Desde que assumira a investigação tinha aquela sensação sufocante de que Sam estava em perigo.
John segura as mãos de Kristin Lang e as aperta, num gesto de apoio e solidariedade. Não havia mais nada que pudesse fazer por Jason. Corre na direção do prédio da SPN. Passa apressado por Nascha que se aproxima de Jason, celular na mão.
Um policial aproxima-se de John, barrando seu caminho. John se identifica como John Jones, detetive contratado pela Sra. Lang. Enquanto responde às perguntas do policial, os dois caminham em direção ao portão de entrada da SPN, onde já se encontravam outros dois policiais e o senhor de terno que avistara ao chegar.
Os policiais já tinham tentado sem sucesso abrir o portão de entrada, trancado pelo anjo. O homem de terno já se identificara para os policiais como diretor presidente da agência de publicidade. Um policial tomava seu depoimento e outro chamava uma ambulância para atendê-lo.
John Winchester se surpreende quando Max tira do bolso o celular e lhe entrega o aparelho. Max pede que John ligue para o diretor financeiro John Hall, já que estava com a vista turva. Ele próprio falaria ao celular. Sem entrar em detalhes, Max pediu que Hall viesse urgente para a empresa.
Quando o vigilante do turno da noite finalmente aparece trazendo as chaves do portão principal, John entra junto com o vigilante e os dois policiais. No saguão, encontram o boy desacordado. Parecia ter sido lançado contra a parede e estava inconsciente. Sam não estava à vista.
O terceiro policial, o que tomara o depoimento de Maxwell Lord, chega trazendo a informação que deviam fazer uma busca na sala do publicitário Kim Walker, no andar térreo.
Encontraram fácil a sala, mas, novamente, estava trancada. O vigilante não tinha a chave. Os policiais ainda fizeram algumas tentativas de derrubar a porta, mas em vão. Precisariam esperar a chegada do diretor financeiro, o Sr. Hall.
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Neste ínterim, paramédicos colocaram o boy numa maca e o prepararam para ser transportado para o hospital.
John acompanhou os policiais enquanto estes faziam uma busca por todo o prédio. Ninguém. Se Sam estava realmente no prédio, só mesmo se estivesse na sala trancada do Sr. Kim Walker.
O Sr. Hall levou quase uma hora para chegar e foram mais 15 minutos até finalmente abrirem a porta. John chegou a pensar em esperar dando assistência a Kristin, mas a imprensa já circulava com câmeras pelos jardins. Pelo menos, no prédio, estavam impedidos de entrar por ordem do diretor financeiro.
A espera só fazia aumentar a angústia de John. Pior que pensar que Sam poderia estar morto, só mesmo pensar que morrera brigado com ele. Odiando-o. Não, tinha certeza que não existia ódio. Sam não compreendia suas motivações e seus medos. Não aceitava suas prioridades. Mas eram pai e filho e se amavam.
Finalmente entraram na sala. Encontraram Sam desacordado, mas vivo. VIVO. John teve de se controlar para não gritar de alegria. Tudo que queria era tirar Sam daquele local. Teria, no entanto, que esperar a conclusão da perícia. Não podia identificar-se como pai do garoto.
A busca na sala revelou o destino que esperava Sam. John analisara os registros da morte de Tristan. O padrão era o mesmo: serras, bisturis e plásticos. O copo caído denunciava a forma como fora drogado. As roupas de Sam estavam cuidadosamente guardadas. Tudo foi fartamente fotografado pela equipe policial.
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John Winchester aproxima-se de John Hall e diz, num tom meio de brincadeira, a frase que é o pior pesadelo de um diretor financeiro.
- O senhor é o diretor financeiro, não é? Quanto acha que a família do rapaz vai pedir de indenização?
- Indenização?
- Claro, o rapaz entra na empresa para um estágio e um funcionário graduado o droga, deixa-o numa situação que sugere abuso sexual e existe a quase certeza que ele acabaria morto e esquartejado. Já imaginou o constrangimento do rapaz ao ter seu nome divulgado, ainda mais se as fotos forem publicadas. A família vai cair matando.
- Meu Deus. O que eu faço?
- Se eu fosse o senhor, faria de tudo para que o nome do rapaz não vazasse para a imprensa. E o tiraria daqui o mais rápido possível, vestido de preferência. Nem o levaria para um hospital. O melhor seria que o rapaz acordasse em seu próprio quarto.
- O senhor está certo. Muito obrigado. Vou falar com os policiais. E descobrir o endereço do rapaz.
Quinze minutos depois, John, com Sam adormecido no colo, deixa o prédio da SPN pela porta dos fundos. John Hall leva pai e filho para o alojamento da Universidade de Stanford.
No caminho, John comenta, como quem não quer nada, que no dia seguinte a firma estaria fervilhando de boatos. E que, aí, as conseqüências seriam imprevisíveis.
John especula, tendo total atenção do Sr. Hall, que, como aquele era o segundo dia do estagiário na empresa, poucos funcionários conheciam o rapaz e só de vista. O próprio John Hall confirmara que nunca o vira. John aconselha então o diretor a fazer desaparecer a ficha do estagiário que estava no RH e todos os dados que permitissem à imprensa rastrear o rapaz.
E que se fosse ele, não deixaria para o dia seguinte.
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Sam ainda está adormecido quando John o acomoda na própria cama, de camiseta e cuecas, o cobre com um lençol e o beija na testa.
- Graças a Deus, você está bem, Sammy. Tive tanto medo. Pensei muito enquanto não sabia ao certo se você estava vivo ou morto. Podemos ter nossas divergências, mas eu abençôo suas escolhas. Amo muito você, filho.
26.05.2013
