CAPÍTULO XXVI


(Cap. 67) Ross?

Não demorou para que a imprensa e paramédicos dividissem com a polícia os amplos jardins da sede da SPN Advertising.

Max Lord continuava dando sinais de desorientação e confusão mental. Os paramédicos suspeitavam que a batida que levara na cabeça tivesse sido mais séria do que parecia. Recomendaram que fizesse uma tomografia e que ficasse pelo menos uma noite em observação num hospital.

Antes de seguir numa ambulância para uma clínica especializada, Max deu um breve depoimento para a polícia. Falou do clima estranho entre seu publicitário sênior Kim Walker e o jovem empresário Jason Lang numa reunião de apresentação naquela tarde. Contou também sobre o estagiário aparentemente drogado que encontrara na sala do publicitário logo a seguir. E que sofrera então uma espécie de apagão mental e não se lembrava de nada até acordar nos jardins da empresa.

Os policiais comunicaram-se com a Central de Polícia para narrar os incidentes na SPN e informar das suspeitas levantadas contra o publicitário Kim Walker.

Foram informados pela Central que já havia uma operação em andamento, com base na denúncia da influente Sra. Kristin Lang de que o publicitário Kim Walker estaria envolvido na morte de Tristan Jared Ross.

Uma hora depois, de posse de um mandato judicial, a polícia entrou no apartamento de Kim Walker e encontrou o corpo do barman Kyle Stewart, desaparecido há três dias, dentro de uma geladeira.

Foi imediatamente expedido um mandato de prisão contra Kim Walker, que naquele momento já era considerado um foragido.

Quando entraram na sala do publicitário no prédio da SPN, os policiais já estavam cientes do cadáver encontrado no apartamento do suspeito. Na sala encontraram o estagiário desacordado. Supostamente drogado, como denunciara Max Lord. E, também, objetos que mostravam, sem sombra de dúvida, que Kim Walker era um serial killer e que o estagiário escapara por muito pouco de tornar-se sua próxima vítima.

Análises posteriores confirmariam a presença de sonífero na água e no suco de laranja que estavam no frigobar.

O nome do estagiário não foi divulgado.

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Só esses fatos já justificariam a atenção da imprensa, mas havia muito mais. Os seguranças particulares da Sra. Lang e os primeiros policiais que chegaram ao local falavam de um grande lobo ou de um lobisomem e de um grande pássaro negro, que alguns identificaram como um corvo gigante. E estranhos fenômenos atmosféricos. Raios. Ventos. E até um tornado.

Os jornais sérios omitiram os boatos sobre lobisomens e fenômenos sobrenaturais, que fizeram por semanas a alegria dos tablóides sensacionalistas. Mas, a presença de uma grande fera no local não podia ser negada. A evidência eram os ferimentos no pescoço e no tórax do jovem segurança Jared Pawlowski.

Os ferimentos não coincidiam, no entanto, com os que seriam esperados de um lobo ou de um grande felino. Esse mistério era parte dos acontecimentos extraordinários que aconteceram naquele lugar.

Jared Pawlowski fora dado como morto pela polícia e pelo primeiro paramédico que o examinou. Mas, quando o corpo estava sendo removido para o necrotério, o assistente percebeu sinais vitais muito débeis, o que foi confirmado por um segundo paramédico.

Jared P. foi transferido para um hospital público numa UTI móvel em estado desesperador. Mas, contra todas as expectativas, ele sobreviveu às primeiras 24 horas.

Uma semana depois, os médicos já se permitiam ter esperanças de que o segurança se salvaria.

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A atenção da polícia e da mídia voltou-se também, como seria de se esperar, para a presença da Sra. Lang e de seus seguranças armados no local.

A Sra. Lang precisaria de todos os seus advogados para explicar os tiros e as circunstâncias em que ocorreram os graves ferimentos sofridos pelo jovem segurança.

Havia também o boy encontrado com traumatismo craniano. Muitas perguntas ainda estavam sem respostas.

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Mas, desde o primeiro momento, a atenção da imprensa concentrou-se no belo, fotogênico e carismático herdeiro Jason Lang.

Quem visse o rapaz com a camisa retalhada como que por garras afiadas e coberta de sangue, esperaria ele que estivesse seriamente ferido. Aliás, havia sangue em abundância também nas suas calças e sapatos.

Mas, não.

O rapaz não apresentava qualquer ferimento.

Nem mesmo um arranhão.


(Cap. 71) John x Ross

Sam acordou somente na manhã seguinte, quase 18 horas depois de seu corpo cair desacordado na sala de Kim Walker.

Abriu os olhos e bocejou. Sentia-se moído. O corpo doía nos mais diferentes lugares. Que diabo estava acontecendo? Além das dores, sentia sensação de cansaço, a garganta seca, o estômago vazio e um pouco de enjôo.

Será que tinha tomado um porre?

Não lembrava.

Qual era a última coisa que lembrava?

Lembrava de estar voltando para o quarto depois das aulas da manhã para deixar o material da faculdade, trocar de camisa e seguir para o estágio.

Depois, simplesmente não lembrava de nada. Apagara.

8:30 no display do rádio-relógio. Tinha dormido por mais de 20 horas? Devia estar mais cansado do que imaginara. E, mesmo tendo dormido tanto, continuava a sensação de cansaço. Droga, estava atrasado para a primeira aula. Tinha ainda que tomar banho e comer alguma coisa. Qualquer coisa. Estava faminto. Jordan já devia ter ido para a faculdade. FDP. Nem para acordá-lo.

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John acompanhou com o olhar Sam deixar o alojamento e correr para o prédio da Faculdade de Direito. Velara o sono de Sam por toda a noite, mas não se sentia cansado. Estava feliz por ter feito as pazes com o filho, mesmo que unilateralmente. Mesmo ele não soubesse disso.

John desaprendera a mostrar seus sentimentos. Ninguém era mais diferente de John do que o próprio John quando mais jovem.

John preparava-se para a dura tarefa de confortar Kristin. Não acreditava que Jason tivesse sobrevivido a ferimentos tão profundos. A lembrança do estado do rapaz e do sofrimento que deve ter passado faz com que John mude radicalmente de humor. Sam estava vivo graças à ação de Jason e John não conseguia evitar o sentimento de culpa por não ter chegado a tempo de salvá-lo.

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John caminhava cabisbaixo pelo campus, pensando no triste destino de Jason, quando dá de cara com o próprio, com a aparência mais saudável do mundo.

- Oi, John.

- JASON?

- Você mais do que ninguém deve estar surpreso de me ver inteiro.

- Jason, eu podia JURAR que você não sobreviveria. Eu estava indo ver a sua avó. Imaginava que teria que confortá-la pela sua MORTE. Jason, o que ACONTECEU com você?

- Calma, John. Garanto a você que não me transformei em uma coisa maligna. Você não vai precisar enterrar uma estaca no meu coração, ou algo que o valha. Ainda sou a mesma pessoa.

- Será mesmo, Jason?

- Vai me dar o benefício da dúvida ou vai atirar primeiro e perguntar depois?

- Desculpe, Jason. Eu devia estar feliz. Eu estou feliz de ver que você está bem. Mas, a que preço?

- Não sei ainda. ... Mas é verdade que me sinto o mesmo. Eu estava indo ver como o Sam está.

- Ele está bem. Graças a você. Não tenho como agradecer por tudo que você fez por ele.

- Pode começar a agradecer não me matando.

-Importa-se de tomar um gole?

- O que é?

- Água benta.

- E eu achando que você não ia me matar.

Jason bebe todo o conteúdo do frasco e depois leva a mão à garganta e finge que está morrendo.

John recebe Jason num abraço.

- Estou feliz que não será preciso. Bem-vindo ao mundo dos vivos.

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Seguiram conversando enquanto caminhavam na direção que Sam seguira.

- Fez as pazes com o Sam?

- Fiz. Mas acho melhor que ele não saiba que estive aqui.

- Ele não viu você?

- Não. Sai do quarto quando percebi que estava para acordar.

- E o Jordan?

- Quem?

- O companheiro de quarto do Sam.

- Não vi. Não apareceu no alojamento esta noite.

- Não chega a ser estranho. Deve ter dormido com a namorada.

- Sam passou correndo há pouco naquela direção.

- Ele estava indo para o prédio da faculdade. Já que ele foi para lá, o melhor que faço é ir também.

- Precisamos saber o que ele se lembra dos acontecimentos de ontem. Falei com o Diretor Financeiro do risco da SPN ter que pagar uma gorda indenização e acho que ele vai fazer de tudo para manter o nome do Sam de fora da mídia.

- O Diretor Financeiro? Foi uma boa sacada. Não se preocupe, vou tentar descobrir o que Sam lembra e do que ele ficar sabendo hoje.

- Vou fazer uma visita à sua avó. Espero você lá e conversamos.

- Ok. Até lá.

- Até.

Menos mal, pensou John. Pelo menos Jason não está possuído por um demônio. Mas Kristin me deve uma boa explicação.

Jason se volta e acompanha John com o olhar. Quando este se afasta, dá um sorriso indecifrável.

– Não, John. Decididamente não vou deixar que me mate.

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Ao se despir em seu quarto na noite anterior, Ross encontrara em seu bolso o molho de chaves de Kim Walker e, entre elas, uma chave numerada de um guarda-volumes no aeroporto. Passou por lá antes de seguir para a faculdade e encontrar John. Encontrara, além de duas malas cheias de roupa, uma passagem só de ida para a Costa Rica e documentos, inclusive passaporte, em nome de Samuel Winchester. Estavam neste momento bem guardadas no porta-malas do carro de Ross. Era melhor que ninguém mais ficasse sabendo.

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Ross havia perdido as duas primeiras aulas do dia e, quando entrou na aula de Direito Tributário I, esta já tinha começado há cinco minutos. Deu uma geral com os olhos. Sam estava na sala. E também Jordan. Sam parecia bem e, pelo jeito, não lembrava nem sabia de nada.

Nenhum olhar estranho em sua direção também. Universitários dificilmente assistem ao noticiário da meia-noite ou lêem jornal assim que acordam. Geralmente acordam atrasados para a primeira aula e mal têm tempo de tomar café. Mas, acabariam sabendo. Precisava desarmar os boatos.

Nascha e vó Lang já tinham lido todos os jornais antes mesmo dele acordar. Os jornais o identificavam com "o jovem empresário Jason Lang" ou como "Sr. Lang" e, na faculdade, todos o conheciam como Ross, mesmo que seu nome aparecesse completo na lista de chamada.

Um único jornal fizera menção a um "estagiário de nome ainda não divulgado".

Até o momento, tudo bem.

Estava se sentindo como novo. A tensão da reunião na SPN e a batalha com o skinwalker pareciam um pesadelo que tivera em outra vida, há um século atrás.

Nada como voltar à normalidade, à sua rotina do dia-a-dia.


(Cap. 72) SPN Advertising

Os primeiros funcionários a chegarem na SPN Advertising já perceberam que algo diferente tinha acontecido.

Os primeiros e mais ostensivos sinais eram os dois carros de polícia estacionados e a área demarcada e cercada com faixas amarelas de NÃO ULTRAPASSE no jardim. Homens, que, se não eram policiais, tinham alguma coisa a ver com a polícia, transitavam no jardim e na sala do Sr. Walker.

O segundo sinal era a presença maciça da diretoria e de funcionários graduados desde cedo na empresa. Desde quando essa turma acorda antes das 9:00?

A fonte mais confiável de boatos era o vigilante do turno da noite, mas só quem chegou muito cedo escutou as notícias de primeira mão. Os jornais do dia também traziam notícias frescas. Mas, cada jornal destacava uma parte diferente da história e os mais populares falavam de coisas que não dava para serem levadas a sério. Fala sério, um LOBISOMEM?

Boatos e diz-que-me-disses corriam soltos em todos os escalões.

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O telejornal da meia-noite já havia noticiado que o premiado publicitário Kim Walker estava sendo procurado como provável assassino de Kyle Stewart, encontrado morto dentro da geladeira do apartamento do publicitário pela polícia local, quando cumpria um mandato de busca e apreensão.

O noticiário falara em suspeita de crime passional e que haveria um relacionamento de alguns meses entre o barman e o publicitário.

No entanto, poucos funcionários tinham o costume de dormir tão tarde e, destes, menos ainda assistiam o noticiário. Para a grande maioria, a notícia só cairia como uma bomba no dia seguinte.

Agora todo mundo no escritório tinha uma história do quanto o comportamento de Kim Walker era de fato estranho e de como sempre suspeitaram que o publicitário fosse capaz de fazer tudo aquilo de que estava sendo acusado.

O assunto mais quente era a história da contratação do estagiário. Como era mesmo o nome do garoto? Sam. Samuel-alguma-coisa. Muitos só estavam esperando que o garoto chegasse na empresa para bombardeá-lo com perguntas. Garoto? Garotão. E que garotão! Todo ele GRANDE. O mais novo caso do Kim, com toda certeza.

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John Hall fora buscar em casa o diretor de RH e manifestou sua preocupação com a inconveniente Srta. Pamela e seus comentários maliciosos cheios de duplo sentido. Aquela mulherzinha irritante nunca seria a sua secretária. Secretárias, como o nome mesmo diz, são para GUARDAREM segredos. Não para os espalharem pela empresa inteira. Pediu ao diretor de RH que a chamasse assim que ela chegasse e buscasse enquadrá-la. Era isso ou rua.

A reunião de diretoria foi tensa e demorada. Maxwell Lord chegou uma hora depois do início da reunião, direto do hospital onde estivera sob observação. Discutiram os danos à imagem da empresa, que tinha como principal publicitário um homem acusado de assassinato e suspeito de ser um assassino serial.

Depois discutiram como tratar os seríssimos acontecimentos das últimas 18 horas: a situação do boy Juan Velásquez, que aparentemente tido sido atacado dentro da empresa e que estava hospitalizado com traumatismo craniano; e a situação - ainda mais séria - do estagiário Samuel Winchester, que fora comprovadamente drogado e despido por Kim Walker dentro da empresa, sabe-se lá com que propósitos.

Por último, discutiram a série de acontecimentos estranhos e inexplicáveis que aconteceram nos jardins da empresa e que resultaram em um homem horrivelmente ferido. Era provável até que já estivesse morto naquele momento. Pelo que sabiam, era segurança particular da milionária Kristin Lang, dona da K-Milk, e fora retalhado por uma fera que testemunhas afirmavam ter saído de dentro da empresa.

Os acontecimentos descritos nos jornais eram por demais inacreditáveis e foram rechaçados como absurdos pelos diretores da SPN. Se alguém tinha que dar explicações era a Sra. Lang e seu neto.

Decidiram que apresentariam à imprensa uma nota assinada por toda a diretoria dando total apoio à investigação que estava sendo conduzida pelas autoridades e deixando claro que ignoravam completamente os atos criminosos de que era acusado o publicitário Kim Walker. Ninguém da empresa compactuariam com crimes praticados por quem quer que fosse, especialmente em se tratando de assassinatos.

Um dos diretores, e talvez mais dois ou três funcionários, deveriam ir ao hospital prestar solidariedade ao funcionário Juan Velásquez e à sua família, de preferência com cobertura de toda a imprensa. Na ocasião, informariam que a empresa se responsabilizaria pelas despesas médicas e cobrariam das autoridades empenho na investigação sobre as circunstâncias em que ocorreu o ataque.

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John Hall retirara na véspera a ficha de cadastro do estagiário Samuel Winchester do arquivo da sala do RH e o diretor de RH, convocado antes do horário de início do expediente, removera todas as menções a Sam Winchester dos computadores da empresa, imprimindo todos os dados em uma única cópia em papel que estava agora de posse da diretoria.

Os demais diretores acharam arriscada a iniciativa do diretor financeiro de eliminar evidências da passagem do estagiário Sam Winchester pela empresa. A presença dele já estava oficializada no inquérito policial. Muitos empregados o viram naquele dia na empresa e o próprio Sam Winchester poderia, a qualquer momento, apresentar-se à polícia como a vítima que era. Se o rapaz tivesse tido algum envolvimento anterior com Kim Walker isso poderia vir à tona durante as investigações policiais e ficaria evidenciado que a SPN tentara esconder provas e acobertar Kim Walker.

E havia a possibilidade muito real de Pamela Grant falar sobre o que sabia e sobre o que imaginava para a polícia, ou pior, para a imprensa, e aumentar o escândalo.

O medo de terem que pagar uma indenização milionária acabou prevalecendo. John Hall foi incumbido de fazer um acordo com Samuel Winchester que preservasse a SPN.

O acordo envolveria também o suposto namorado do estagiário, o Sr. Jason Lang Ross.


NO PRÓXIMO CAPÍTULO: O QUE REALMENTE ACONTECEU COM ROSS?


03.06.2013