CAPÍTULO XXVIII
(Cap. 74) Epílogo 1
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METAMORFO
O tiro que atingiu a articulação de uma de suas asas tornava cada vez mais difícil prosseguir, mas ainda assim ele continuava avançando sobre o oceano escuro na direção do horizonte.
O vento contra tornava tudo ainda mais difícil, mas contrariando os avisos da sua mente racional ele seguia em frente.
Até que a dor e o cansaço tornaram impossível continuar e ele despencou dos céus.
O grande corvo negro caiu pesadamente nas águas frias do Pacífico e foi engolido pelo mar. Da primeira vez, ainda foi possível voltar à superfície em busca de ar. Ele se debateu na tentativa inútil de alçar vôo, mas as penas encharcadas não permitiram que saísse da armadilha líquida.
Ele afundou engolindo água, os pulmões invadidos pela água salgada.
Na luta desesperada pela sobrevivência, a racionalidade deu lugar ao instinto e o monstro começou a mudar. Primeiro, os pulmões regrediram para sua forma embrionária, adaptando-se para absorver o oxigênio dissolvido na água. Depois, o corpo assumiu uma forma mais hidrodinâmica, facilitando o movimento sob as águas.
A forma de pássaro vai desaparecendo e uma forma desaparecida há milênios volta a cruzar as águas frias.
Uma forma ancestral, não mais peixe e ainda não réptil, com uma boca desproporcionalmente grande, guarnecida por duas fileiras de longos dentes afiados. Uma forma confortável e conhecida, embora esquecida.
A forma de pensar e as motivações humanas vão desaparecendo, mas não a inteligência e a memória. Ainda lembrava do que tinha sido e do que tinha vivido, mas nada daquilo parecia ter mais importância. Era como se a imersão no oceano o fizesse recuperar a sanidade perdida, como se o mar lavasse de sua mente toda a loucura que absorvera dos homens. Não buscaria voltar à forma humana, pelo menos por um bom tempo.
Mas um projeto não abandonaria. Ainda ansiava por temperaturas amenas e pela luz do sol. O caminho até o Mar de Sargaços era longo, mas ele chegaria lá.
Muito abaixo da superfície agitada pelo vento forte, havia um quase silêncio. Aos poucos, o que parecia silêncio começava a ganhar significado. O monstro voltava a entender os esquecidos sons do oceano. E os sons, quase uma música, pareciam formar palavras.
Ele pensa escutar uma saudação numa extinta língua pré-helênica.
- Bem vindo de volta, Nérites, filho de Nereu.
- Sim, estou finalmente em casa.
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TESSY
Tessy ficou um tempo olhando para o mar, na direção que o corvo tomara.
- Aproveite bem o tempo que lhe resta, Nérites. O cerco está se fechando. O mundo está cada vez mais perigoso para os antigos. E antes do final deste século, no seu sexto milênio de vida, teremos finalmente o nosso momento. O nosso encontro final.
Depois, pensou em Samuel Winchester e no papel que ele teria no novo futuro que acabara de ser escrito. O garoto traria o Apocalipse. Pensou em como teria sido melhor para bilhões de humanos se Nérites tivesse agido logo no primeiro dia.
'Bem, tudo tem que acabar um dia', pensou. Porque teria que ser diferente com os homens e sua civilização?
Mas, isso a deixava triste. Já estava acostumada com os homens e com as mudanças que sua criatividade impunha ao mundo.
Sentiria falta dos humanos.
Mais até que dos dinossauros.
Notas finais do capítulo
1. A pesquisa de Bobby Singer considerou a possibilidade do metamorfo ser descendente da divindade marinha Nereu , mas ele acabou descartando a hipótese. Ver (Cap. 5), CAPÍTULO III.
2. O metamorfo revelou ter lembranças de já ter vagado pelo fundo do oceano, no (Cap. 14), CAPÍTULO VII.
3. Essa fic foi escrita antes da conclusão da 5ª temporada, que mostra o Apocalipse sendo abortado.
(Cap. 75) Epílogo 2
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ROSS
A primeira lua cheia foi cercada de expectativa e apreensão.
A possibilidade de Jason transformar-se em uma fera irracional, trazendo pânico e morte nas vizinhanças de San Jose apavorava a todos. E ao próprio Jason mais que todos.
Um pequeno anexo fora construído às pressas num ponto isolado da propriedade dos Lang. John Winchester supervisionou pessoalmente a construção, que incorporou dicas de Bobby Singer com base nas capacidades e limitações conhecidas de lobisomens e skinwalkers.
As paredes grossas reforçadas davam ao anexo a aparência do que realmente era: um bunker.
John tinha uma gigantesca dívida de gratidão com Jason Lang Ross. Aprofundara a investigação sobre os acontecimentos na SPN e agora tinha certeza que devia exclusivamente a Jason o fato de Sam ainda estar vivo.
Jason ajudara - e muito - a manter Sam na ignorância da real ameaça por que passara. Mas, nem mesmo assim, John podia fechar os olhos e permitir que um monstro vivesse e no futuro matasse inocentes. Se Jason não conseguisse se controlar na forma de lobo, John teria que dar uma solução permanente.
Jason foi trancado no pequeno quarto acolchoado onde uma pequena clarabóia feita em vidro à prova de balas deixava entrar o luar da primeira noite da lua cheia. Câmeras monitoravam suas reações.
Dois homens de confiança, vindos da fazenda da família em Topeka, com roupas especiais de proteção e equipados com armas de dardos tranqüilizantes, tasers e spray de pimenta, guardavam o bunker.
Caso necessário, Jason seria sedado, de preferência, ainda na cela.
Mas, a noite transcorreu sem sobressaltos.
Assim como as seguintes.
A lua cheia não promovia a transformação involuntária em lobo.
Mas, como Jason era tecnicamente um skinwalker e não um lobisomem, a possibilidade de transformação ainda não estava descartada.
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John despediu-se dos Lang. Voltaria no mês seguinte quando já teriam os resultados dos primeiros testes e, se necessário, fariam outros. Até lá alguém deveria acompanhar Jason todo o tempo e sedá-lo ao menor sinal de descontrole.
Mas, os testes realmente decisivos seriam conduzidos, nas três semanas seguintes, na propriedade isolada de Black Crow, no Oregon, pelo relutante xamã navajo.
Nascha, Kai e vó Lang acompanharam o treinamento psicológico e os rituais de purificação que prepararam Jason para que este invocasse a proteção do seu lobo totem. Ao assumir a forma de lobo, seu espírito humano devia estar em harmonia com o espírito do Lobo e, assim, receber seus dons. O Lobo totem precisava reconhecê-lo e aceitá-lo em sua alcatéia.
Black Crow, com pintura ritual, segura firmemente os dois lados da cabeça de Jason, impedindo que desvie o olhar. Envolvidos pela fumaça da queima de ervas aromáticas rituais, ambos recitam juntos o feitiço de invocação.
Nascha, Kai e vó Lang, por sua vez, entoavam um mantra de apaziguamento da fera interior que vive em todos os homens.
Oito caixas de som dispostas em círculo ao redor do grupo, ligadas a um gravador de fita, reproduziam a batida rítmica dos tambores rituais da tribo.
Jason assume mais uma vez a forma de lobo. Um grande e belo lobo de pelo brilhante e sedoso, da cor exata de seus cabelos. Os olhos vivos e amigáveis, do mesmo tom de verde que tinha na forma humana, mostram que a mente de Jason mantinha o controle.
Kai tem tanta certeza disso que corre para abraçar seu irmão de leite, rodeando com os braços o pescoço do lobo. Jason retribui o carinho com sua língua molhada de cachorro grande.
Mesmo um lobo selvagem não é um assassino de tempo integral. A tradição navajo diz que um skinwalker mantém a racionalidade, ou parte dela, na forma animal. A transformação só retira as inibições e o controle do superego, deixando o amaldiçoado ao sabor das próprias emoções. Quando matam, seguem um instinto assassino que já apresentavam quando ainda eram homens e que geralmente fora a causa de sua maldição.
A volta à forma humana era bem mais difícil. O animal precisava visualizar mentalmente a si mesmo na forma humana e desejar a transformação. O animal precisava sentir-se seguro e em paz para fazê-lo. Mas, existia uma forma bem mais fácil, embora não fosse a mais rápida: adormecer. Ou ficar inconsciente. Jason acordou humano e relatou excitado como é ver o mundo com os sentidos de um lobo.
Jason praticou até ganhar o controle da transformação. Em pouco tempo, conseguia comandar a transformação para lobo sem a ajuda das práticas rituais. Mas, para reverter à forma humana, precisava adormecer.
Esse teria que ser para sempre um segredo dos Lang. Ou Jason seria caçado. Se não por John Winchester, por outros caçadores de monstros.
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Novamente na propriedade dos Lang, na lua cheia seguinte, John se tranqüiliza ao ver que nenhum dos testes que conduzira para provocar ou confirmar a transformação dera resultado.
Inclusive aqueles de base científica, como análises de sangue e testes comparativos de DNA de sua condição antiga e atual.
Quando parte em definitivo, John Winchester está certo que Jason Ross está completamente livre da maldição.
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Mas, Jason não se considerava amaldiçoado.
Curtia vagar de madrugada na forma de lobo explorando o mundo com seus sentidos ampliados. Um mundo construído não só de imagens e sons, mas principalmente de cheiros.
E havia inúmeras outras possibilidades de forma que com o tempo ele exploraria.
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Para quem conseguiu em apenas 48 horas trocar a urna com os restos mortais de Tristan, três semanas para falsificar os resultados dos testes nem chegou a ser um desafio.
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Kai estava preocupada. Sabia que Jason era descuidado e autoconfiante. E que isso era o caminho para o desastre.
Kai resolveu então agir enquanto era tempo.
Com a ajuda do pai, arrumou um filhote de lobo de pelo claro e passou a circular com ele por toda San Jose. Ganhou até a matéria de capa de uma revista de ricos & famosos em que o cenário era a maravilhosa Casa Grande da propriedade dos Lang. Numa das fotos, Jason e Kai brincavam com o pequeno lobo.
Era parte do plano de dar a Jason, no futuro, uma identidade secreta.
O lobo Jason seria, quando lhe conviesse ou caso fosse descoberto, a versão adulta daquele lobinho de estimação da irmãzinha Kai.
(Cap. 76) Epílogo 3
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KAI
Kai nunca sentiu falta de um pai. Mas, foi descobrindo no dia a dia que era muito bom ter um. BC estava surpreendendo e se surpreendendo como pai.
Kai descobrira o potencial da empresa do pai. Mais especificamente do site da empresa na web, para divulgar a cultura de sua tribo. Recebera carta-branca e estava trabalhando com uma empresa desenvolvedora para criar um portal que, mais do que mostrar os costumes ancestrais, trouxesse a tribo para o século XXI. Uma nova cultura, não tão pura, mas com certeza mais viva.
Ela também estava impressionada com a quantidade de conhecimento místico que BC armazenara. Um tesouro que parecia inesgotável. Com esse conhecimento, e tendo o pai como mentor, ela se transformaria numa verdadeira xamã navajo e, talvez, um dia, conseguisse desfazer a maldição do skinwalker e fazer de Jason novamente um homem.
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NASCHA
Nascha ficara dividida entre permanecer ao lado de Jason, ainda inseguro de sua nova condição de skinwalker, ou acompanhar a filha na sua descoberta do pai.
Mas, Jason lhe assegurou que estava bem e que correria para ela pedindo colo ao menor problema. E Nascha ainda não confiava o suficiente em BC.
Rezava para que BC não tivesse escutado sua declaração de amor e se tranqüilizou quando ele não fez nenhum comentário a respeito. Mas, reparou satisfeita que, desde que chegara, ele a cercava de atenção e galanteios.
BC estava acertando na sua estratégia de não tentar consertar algo que um dia tinha se quebrado.
Nada de discutir o passado. Estava investindo em recomeçar do zero, como se fosse essa a primeira vez. O que contava era o sentiam ou poderiam vir a sentir um pelo outro daqui para frente.
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KRISTIN LANG
As primeiras semanas foram muito difíceis para Kristin Lang. Depoimentos e mais depoimentos. Conversas e mais conversas com advogados.
Mas, a tática apontada por John Winchester começava a dar resultado. Os depoimentos das testemunhas apontavam para eventos sobrenaturais e a polícia não sabia como lidar com esse tipo de informação.
Kim Walker continuava foragido e as investigações mostravam que, por mais impossível que parecesse, havia uma ligação entre ele e os crimes atribuídos ao advogado Andrew Nolan.
A comprovação de que Andrew Nolan já estava morto quando os crimes aconteceram só fortalecia a convicção da polícia da participação de Kim Walker nos crimes. A questão era como Kim Walker poderia tê-los realizado estando na Califórnia. Ainda não tinham encontrado nenhuma evidência de deslocamentos nas datas e para os locais dos crimes. Estavam num beco sem saída.
Jared Pawlowski permanecia em coma. Seu depoimento era fundamental para que o processo avançasse. Mas, o tempo passava sem que sua situação clínica se alterasse, esfriando o interesse da mídia. Os gastos e atenção que a família Lang estava dedicando ao segurança ferido, fato bastante destacado pela mídia, criavam um clima favorável, diluindo as suspeitas.
Apesar de todos os problemas, Kristin Lang estava se sentindo revigorada. E muito mais leve agora que John Winchester era página virada na sua vida. Até os seus problemas de saúde pareciam ter desaparecido.
Reencontrar John Winchester lembrou-lhe que nem sempre fora uma velha severa e rabugenta. Viu a si mesma com os olhos da jovem Kristin e não gostou nem um pouco do que viu.
Nada é tão difícil quanto mudar velhos hábitos, mas ela nunca fugira de um desafio. Tivera a coragem de enfrentar um monstro. Encontraria a coragem para matar o monstro que crescera no interior de sua alma.
Era impressão sua ou havia algo mais na atenção e nos sorrisos do advogado sênior do jurídico da K-Milk?
Ele era pelo menos quinze anos mais novo, mas isso não seria uma novidade na vida dela. Quem sabe se transferisse a próxima reunião do escritório de advocacia para um restaurante aconchegante as coisas não ficassem mais claras?
Estava mais do que na hora de voltar a pensar um pouco mais nela própria em primeiro lugar.
11.06.2013
