13.903 palavras, pessoas! Foi menor que o cap anterior, mas foi grande também! Eu ia escrever mais uma cena nele de uma confusão cômica, mas deixei pro próximo mesmo. Esse aqui não tem muita ação, é mais um desenvolvimento lento e profundo do que os personagens pensam, do que eles analisam até o momento e dos questionamentos que fazer para si mesmos. Eu não revisei o texto, provavelmente vou fazer isso depois de estudar pra prova final de Anatomia Prática que tenho amanhã e que ainda não estudei nada O *arranca os cabelos em desespero* Então, qualquer coisa idiota no meio do texto ou errinhos, irei corrigi-los até o final de semana! Se for preciso até editar alguma coisa, mas nada que muda demais a ideia do cap.

Eu sei que devia fazer tudo isso antes de postar, mas já não aguento mais esperar pra atualizar! Não queria ter demorado tanto, mas várias longfics + manifestações (participei das maiores daqui de BH e algumas outras pequenas. Peguem os números da Globo e multipliquem por dois pra saberem a realidade do que teve aqui :D) + final de semestre + final de semestre (pra dar ênfase HUSAHUSAHUSHUAS) realmente me atrasou com essa fic.

Prometo que agora nas férias vou tentar adiantar bastante o próximo cap pra não demorar tanto!

Muito obrigada a todas as reviews, fiquei feliz demais com elas! Então, um obrigada especial para x- Aline L. -x , paraAnjinha Tsuki, para Priscila (Fico feliz que esteja gostando! Espero que ela continue de seu gosto ein :D Beeijos), paraNami (hahahaha pois é, amor é complicado demais. Mas tudo vai se resolver!... eu acho XD Espero que goste desse cap! beeijos), para Agome chan, para Fenix negra (o Inu realmente por enquanto não ta merecendo é nada. No caso ela não é chifruda porque infelizmente eles não tem nada ): Mas as coisas são complicadas, se desenvolvem bem com passinhos pequenos. Espero que goste do rumo que vou dar a história! Beeijos), para Babb-chan, para nane-chan (fico muito feliz em saber que gosta! Desculpe a demora, não quis mesmo demorar. Mas espero que goste desse cap! :D beeijos) e para Prii.

ESPERO QUE GOSTEM *-*


This love

Por: Juju ou Juh ou Juliana ou Kagome Juh. Como preferirem :D


'Ao longo da vida, as vezes você se esquece

que tantos problemas uma mente enfraquece.

Mas quando eu notei como estávamos tratando aquilo errado,

eu não medi forças para permitir que ele pudesse deixar tudo consertado. '

Kagome Higurashi

Capítulo VI.

'AFFAIR DE GOME MATSUYAMA COM OUTRA MULHER!

Na noite de ontem, em um evento organizado na mansão da família Taisho, o affair antes misterioso de Gome Matsuyama foi visto chegando ao local com outra acompanhante (foto à direita).

Inuyasha Taisho, um dos herdeiros das empresas da família e também affair da cantora, chegou ao evento organizado por seus pais acompanhado por Ayame Natsuke, herdeira das terras das tribos dos yokais lobo do Norte. Apesar da presença de Matsuyama no mesmo evento, o jovem Inuyasha apareceu de braços dados com a ruiva de forma despreocupada (foto abaixo).

Teriam Gome e Inuyasha brigado?'

"E então, vocês brigaram?" Kagome ouviu a voz de Rin do outro lado do telefone e virou os olhos enquanto observava aquela notícia na primeira página de uns dos jornais populares de Tóquio.

"Nós nem tínhamos um affair pra início de conversa..." Ela sussurrou, recebendo um suspiro como resposta. "Eu sei o que você está pensando, Rin, mas é a realidade! Nós não somos um casal, nunca fomos um casal... Além do mais, teoricamente ele realmente está com a Ayame, já que ontem no evento em que você não estava" A morena repreendeu a amiga, quase conseguindo ver a pequena mordendo o lábio inferior, "ela o consolou em um momento difícil... Aparentemente causado por mim, só pra acrescentar."

"Bom, primeiro, eu não fui porque o Sesshy tinha muito trabalho para fazer e-"

"Mentiiiraaa." Kagome interrompeu cantando, causando outro suspiro do outro lado da linha.

"Ok, nós preferimos aproveitar a noite por aqui mesmo, admito." Rin confessou resignada, já até imaginando a morena com um sorrisinho quase sacana no rosto. "Mas, em segundo, você sabe que o principal problema entre vocês dois é justamente essa dificuldade de se comunicarem? Vocês têm as suas versões de cada acontecimento e os sentimentos envolvidos nessas situações e simplesmente não trocam essas informações!" Ela completou indignada, jogando a mão que não segurava o telefone para o alto.

"Eu sei, eu acabei notando esse detalhe ontem..." Kagome comentou fracamente, se lembrando da forma como Ayame tinha analisado as próprias atitudes por uma ótica completamente diferente da dela mesma, além da pequena informação que a própria ruiva havia liberado: a morena havia tirado conclusões precipitadas. Mesmo que ela tivesse todo o direito para pensar em algo do tipo, considerando o histórico daqueles dois, ela ainda assim deveria ter pelo menos escutado o que o hanyou tinha a dizer. E depois de tudo aquilo, a morena entendeu nem que fosse um pouco o lado de Inuyasha, por mais que ainda tivesse inseguranças quanto ao tão clamado amor que Ayame dizia Inuyasha sentir. "Mas, mudando de assusto de forma drástica," Ela quase pulou de alegria ao se lembrar do que diria a seguir, "sabe quem fugiu do internato e veio para meu apartamento às seis horas da matina?" Ela sorriu abertamente, observando o irmão mais novo jogado no sofá da sala com Amy em seu colo, ambos assistindo a um filme infantil como se fosse a coisa mais divertida do mundo.

"Nããão creio!" Rin quase gritou de alegria no telefone. "Souta apareceu aí? Sério? Que saudades do moleque!" Ela completou, fazendo a morena rir.

"Fiquei nostálgica agora." Kagome comentou fazendo a amiga rir. Ouvir Rin chamar Souta de moleque fazia com que ela se lembrasse de uma época em que sim, ela sofria por causa de Inuyasha, mas tudo parecia mais fácil. Ela observou seu irmão mais novo de 17 anos levantar uma das sobrancelhas de forma interrogativa e quase o puxou para um abraço de urso ali mesmo. Souta era uma mini versão do pai dos dois e, sendo o caçula com uma boa diferença de idade, era um tipo de Teddy Bear para a morena. Ela meneou a cabeça negativamente, fazendo com que ele voltasse a prestar atenção ao filme. "Aparentemente meus pais avisaram para ele que estavam voltando para casa ontem e, então, ele achou incrivelmente oportuno vir me visitar." Kagome comentou, fazendo Rin rir do outro lado da linha.

"Ele sempre foi o punk da família, né? Esse moleque é incrível mesmo... Acredita que ele fugiu umas dezenas de vezes enquanto você esteve fora?" Rin perguntou divertida, com um sorriso carinhoso no rosto. "Aparentemente seguir o seu exemplo poderia deixar ele fora de castigos ou algo do tipo."

Por mais que a amiga não quisesse dizer aquilo com uma carga negativa, o sorriso no rosto de Kagome se esvaneceu instantaneamente. As palavras de Ayame reverberaram em sua mente novamente, fazendo com que ela suspirasse profundamente e interrompesse a risadinha satisfeita de Rin com as memórias. De alguma forma, ela concordava com o que a ruiva tinha dito. Pois, sim, ao invés de tentar resolver as coisas com Inuyasha, ela tinha se jogado de cabeça na primeira oportunidade de experimentar algo diferente com alguém diferente... Na frente do hanyou."Eu sempre fui de ir embora, de fugir, não é Rin?" A morena perguntou com tristeza, saindo da sala de TV e caminhando para o quarto.

"Ai K-chan..."

"Antes de toda essa bagunça eu até agüentava as conversas sobre outras garotas e tudo mais... Mas no fundo eu sempre arranjava um jeito de não participar tanto daquilo já que o pouco que eu fazia parte já me destruía por dentro." Ela comentou, praticamente ignorando o sussurro da amiga. "Na noite em que eu e Inuyasha estivemos juntos, naquele dia da boate em que eu fiquei bêbada, não sei se você se lembra, eu me senti tão amada que eu tinha certeza que ele correspondia os meus sentimentos... Então, no dia seguinte, ao invés de rebater as desculpas e o arrependimento dele quanto a supostamente ter se aproveitado de mim, eu... Eu fugi." As lembranças vieram cascateando, como se não tivesse um pouco mais do que quatro anos que elas tivessem acontecido. "Hoje eu vejo que eu não fiz NADA para mudar o que ele pensava, eu não me impus, eu não gritei aos quatro ventos o que eu sentia e o que eu realmente achava da nossa noite juntos. Eu simplesmente fugi." Ela tinha se isolado de todos por duas semanas, ela tinha descoberto estar grávida, ela tinha tentado tão pouco contar para ele sobre aquilo e, no fim, ela acabara realizando sua maior fuga da vida. Suspirou profundamente, olhando para fora da janela de seu quarto, vendo Tóquio se estender até onde ela não mais enxergava.

"Mas nem tudo isso é culpa sua, Kagome." A voz mais sóbria de Rin fez com que Kagome fechasse os olhos, tentando prestar atenção no que a amiga dizia com o coração aberto. "Ele também tinha que ter tentado conversar com você, mesmo quando você claramente não queria. Ele também tinha que ter te procurado, te forçado a ouvi-lo, praticamente te forçado a se abrir! Ele não podia simplesmente ter se sentido mal e ficado por isso mesmo... Vocês dois pecaram nisso, K-chan e... Agora que eu sei disso, eu me sinto realmente envergonhada..." Aquilo causou uma curiosidade quase mórbida na morena. Pelo tom de voz da pequena, ela poderia prever que sua consciência ficaria ainda mais pesada ao saber o que aquilo significava.

"Envergonhada? Por quê?"

Ela quase conseguia ver Rin morder o lábio inferior, hesitante. "Depois que você sumiu, meio que todos viraram as costas pro Inuyasha. Sesshy continuou o que ele sempre foi, mas a Sango ameaçou Miroku nas entrelinhas a escolher um lado... Bem, seus pais não tinham mágoa e tudo, mas mesmo assim era difícil para eles agirem normalmente né... Só mesmo Izayoi continuou a mesma."

Kagome encarava horrorizada a própria reflexão no espelho do banheiro, tentando digerir aquilo. De alguma forma, ela não tinha pensado que sua atitude daquele dia teria tido tamanha repercussão entre os que tinham ficado. Ela gemeu e colocou uma das mãos na testa, sentindo uma intensa onda de arrependimento atingi-la. Na época, fugir parecia a única saída para que ela mesma não continuasse a ter o próprio coração despedaçado diariamente; mas, ouvindo aquele lado da história por Rin, ela notava como no momento em que ela não acreditara que sua fuga traria tantos efeitos aos que conviviam com ela, ela tinha cometido um de seus atos mais egoístas. Como a fuga não teria afetado os outros? Era ridículo continuar pensando assim e ela não compreendia como podia ter demorado tanto para perceber tal fato. "Meu Deus..."

"... É, eu sei. Nós meio que culpamos ele por tudo... Acho que quase jogamos a culpa da crise econômica mundial da época nele também..." A baixinha tentou melhorar o humor com a pequena piadinha, mas não conseguiu. "Pelo menos acabei de te provar que o momento ruim em que ele estava passando na festa não é totalmente culpa sua."

Kagome olhou para o teto, buscando dentro de si as respostas para seu questionamento interno sobre todas as decisões que ela já tinha tomado na vida. "Isso me consola bastante." Comentou sarcástica, ouvindo uma risadinha sem graça do outro lado da linha.

"Olha K-chan, eu sei que a situação toda ta uma bagunça entre vocês dois, desde o momento em que tiveram a noite mágica... Mas vai dar tudo certo." Pela primeira vez naquela pequena conversa que as duas estavam trocando naquela manhã, Kagome sentiu desamparo ao ouvir aquelas palavras. Alguém só dizia para outro que tudo ficaria bem quando eles não enxergavam qualquer luz na situação, mas desejavam que essa tal luz ainda surgisse. Pelo menos era assim que o lado pessimista da morena preferia ouvir aquelas palavras motivadoras."Vocês dois se conhecem há tanto tempo, cresceram juntos... E agora têm uma filha! Você acha mesmo que não vão resolver essa bagunça entre vocês? Ta quase que escrito na tábua do destino que vocês vão se acertar. Acredita em mim."

Kagome riu fracamente com a escolha de palavras da amiga. "Assistiu algum filme religioso ultimamente?"

"Até que sim, só não lembro o nome."

"Você não existe, sabia?" Kagome perguntou rindo, sentindo-se confusa com o que sentir. As vezes ela se perguntava se Tóquio só representava isso para ela: uma montanha russa de emoções. Loops e loops de emoções. "No meio de um momento deprimente, você vem e faz um comentário aleatório e quase que muda o rumo da conversa completamente!"

"Eu sei, o Sesshy vive reclamando dessa minha característica criativa." Rin comentou inocentemente, causando um sorriso carinhoso em Kagome. As duas suspiraram ao mesmo tempo. "Você sabe que nunca nos perdeu, não é? Que mesmo quando você afastou Sango e eu, nós ainda assim te considerávamos uma amiga, uma irmã... A terceira ponta das três mosqueteiras."

Ela respirou fundo ao ouvir aquelas palavras, fechando os olhos com força. Era como se a pequena conseguisse ler suas inseguranças mais profundas, era incrível. "Fico feliz em ouvir isso," A voz embargada da morena fez com que Rin também sentisse os olhos arderem, "eu realmente precisava entender que... Que eu não estou sozinha, entende? Obrigada."

A outra deu uma risadinha fraca, revirando os olhos repletos de lágrimas com o pensamento bobo de Kagome. "Sozinha? Por favor, K-chan! Eu sei que seus pais foram embora, mas você tem seu irmão, sua filha, nós e toda a sua produção! Além da corja dos Taisho também..." O tom brincalhão do último comentário fez a morena rir, balançando a cabeça negativamente com a escolha de palavras da amiga.

"Hoje você está aparecendo com um vocabulário interessante, Rin." Ela comentou, limpando as pequenas lágrimas que estavam contidas nas piscinas azuis-acinzentadas.

"É claro, eu sou uma pessoa muito culta, muito obrigada!"

E então, as duas riram. Riram, riram e riram. Kagome realmente sentia que estava retomando tudo o que um dia fora dela: as amizades, a riqueza...

Ela suspirou assim que as risadas diminuíram, mantendo um silêncio confortável entre elas no telefone. Era difícil acreditar que elas tinham ficado tanto tempo sem conversar, sem saber ou acompanhar os acontecimentos da vida uma da outra e, mesmo assim, estavam ali papeando como se o tempo não tivesse passado e a distância não tivesse interrompido a amizade das duas.

Como se os erros de Kagome não tivessem interrompido aquela amizade.

"Vou desligar Rinzita, tenho que ver quais são os planos do Souta e adequar eles aos meus."

"Ok, manda um beijo pros dois por mim!" Rin respondeu alegremente, já pensando no que ela mesma teria que fazer naquele dia.

"Pode deixar. Beijos!" Kagome concordou, já desligando em seguida. A morena suspirou, sorrindo carinhosamente para o aparelho em mãos. Era tão bom poder conversar com uma de suas amigas depois de tanto tempo. Ter o apoio e o ouvido amigo e ainda sentir o carinho em cada palavra ou conselho, era simplesmente nostálgico.

Era bom conversar com Rin e Sango, mas no fundo ela sentia saudade de conversar com Inuyasha.

Todos aqueles anos em que ela tinha sido a melhor amiga do hanyou não tinham sido um completo sofrimento, ela finalmente admitia. Tê-lo perto de si desde a infância até o início de sua fase adulta tinha sido tão bom, mesmo naqueles últimos anos de amizade em que ela tinha se envolvido no drama que tinha se tornado sua vida, tê-lo por perto a fazia mais feliz do que qualquer outra coisa. Todos os dias de filmes, de brincadeiras, de conversas sinceras e de companhia argumentava contra cada ponto negativo que ela se lembrava, convencendo-a finalmente a batalhar verdadeiramente pelo único homem que ela já tinha amado na vida. Ela sentia falta da outra pessoa importante na vida dela, aquele ser que tinha uma grande parte de seu coração assim como Amy o tinha.

Antes de ela finalmente conseguir dormir na noite anterior, a morena tinha pensado muito sobre tudo o que tinha ouvido de Ayame na festa além de todo o trajeto entre ela e o hanyou durante todos aqueles anos. Kagome tentou pensar pelo lado de Inuyasha, tentou imaginar o que ele poderia ter passado nos últimos quatro anos caso ele realmente a visse mais do que uma simples amiga; ela tentou entender a possibilidade de que, no fim das contas, ele não tinha culpa de não ter notado antes aquela possibilidade ou mesmo levado a sério sua tentativa bêbada de se declarar para ele, uma vez que a imagem daquela amizade que eles cultivavam desde a infância era mais forte do que uma possível atração. Ela se lembrou das próprias palavras para Bankotsu na festa, quando tentava convencê-lo da lealdade entre as duas linhagens e a seriedade que os Taisho e os Higurashi tratavam aquele aspecto entre as duas famílias e, então, tentou entender como Inuyasha, acostumado com uma garotinha por toda a vida como sua melhor amiguinha, poderia ter imaginado que os olhares entristecidos a cada conto sobre suas conquistas amorosas poderiam indicar que a dita garotinha o amava mais do que um simples amigo.

Kagome ficara horas pensando e refletindo e, sem poder dizer com certeza por não ter ouvido da própria boca do hanyou, ela chegou à conclusão que, no final das contas, ela tinha pedido demais, esperado demais, exigido demais de Inuyasha. Como ele poderia ter imaginado que ela sofria tanto com aquele amor que ela acreditava não ser correspondido? Como ele poderia ter imaginado que a falta de namorados por parte da morena era, exclusivamente, o jeito dela de esperar por ele? Como ele poderia ter imaginado que aquele primeiro beijo entre os dois carregava muito mais significado para ela do que uma simples tentativa de aprendizado? Como ele poderia ter imaginado qualquer coisa fora do rotineiro entre eles, se ela nunca tinha se pronunciado sobre nada daquilo?

A verdade era que ele não poderia ter imaginado. Ele não poderia ter imaginado nada daquilo, ele não poderia ter imaginado que a aura entristecida que Kagome carregara por muito tempo naqueles últimos anos antes da fuga eram por culpa dele e de seus casos românticos. Ele nunca poderia ter imaginado que o amor que ela sentia por ele não era o mesmo amor que ambos sentiam um pelo outro quando eram crianças; não, ele não poderia ter adivinhado, já que ela nunca tinha dito nada.

Pelo menos não até que ela ficasse bêbada e praticamente implorasse pela sua primeira vez.

Ela pensou em todas as vezes que obrigou Inuyasha a ver suas costas se distanciando dele. Ela tentou se colocar no lugar do hanyou e, de repente, ela tinha começado a chorar no meio de todas as cobertas da cama de seu quarto, com o corpinho de Amy recluso em seus braços.

Ela já não agia como a melhor amiga dele por muito tempo, e chegar até aquela conclusão tinha abalado Kagome mais do que ela julgava que fosse possível.

Ela tinha se deixado chorar silenciosamente, não querendo acordar a garotinha ao seu lado, e antes de finalmente deixar a inconsciência tomar sua mente, ela reforçou sua decisão. Ela iria se reinventar, ela iria lutar pelo o que ela queria da mesma forma que ela tinha lutado para manter Amy viva naqueles quatro anos.

Inuyasha merecia que ela tentasse, ainda mais depois de tudo o que ela tinha imposto sobre os dois por causa de seu próprio egoísmo.

Ela piscou, tendo novamente a imagem do telefone em mãos posta em sua mente e a tirando do meio das lembranças da noite anterior. Novamente se situando no espaço e no tempo correto, ela se lembrou que além de ter que tomar uma atitude quanto ao homem de sua vida, ela tinha que passar o maior tempo possível com Souta e com Amy também. Ela não sabia o quanto o garoto ficaria em Tóquio, mas depois de tanto anos sem vê-lo, ela queria muito passar um pouco de tempo com o menino. Ela sentia, depois de conversar com Rin novamente, que a própria fuga tinha criado em Souta o mesmo comportamento e, sabendo como fugir dos próprios problemas não resolvia nada, ela não podia deixar que ele continuasse daquela forma.

Então, respirando fundo, ela marchou de volta para a sala de TV, determinada a realizar todos os planos que ela tinha pensado para aquele dia sem que isso atrapalhasse o próprio tempo com Souta e do menino com Amy.

oOo

Os raios de sol penetraram pelas frestas da cortina, atingindo-o na cama e fazendo com que os orbes âmbares se abrissem preguiçosamente. Os cabelos prateados estavam uma verdadeira bagunça ao redor de sua cabeça, que parecia latejar com o simples movimento de ser virada para o lado. Inuyasha gemeu de dor quando sentiu a cabeça pulsar e começou a massagear as órbitas de seus olhos novamente fechados. O que ele tinha feito na noite anterior para que ele estivesse naquele estado deplorável? Por pequenos instantes ele não conseguiu se lembrar de uma coisa sequer, até que seus olhos âmbares tentaram se abrir novamente e passaram, hesitantemente, pelo cômodo em que ele se encontrava. Por que ele estava em seu antigo quarto na mansão dos pais? Com um timing perfeito, a porta do quarto começou a se abrir e Ayame entrou no cômodo ainda vestindo as roupas da noite anterior- e então todos os acontecimentos vieram em um turbilhão até a mente de Inuyasha.

De repente ele preferia não se lembrar de nada.

"Bom dia, dorminhoco." O sorriso da ruiva era quase palpável pelo seu tom de voz, mas o hanyou não sentia qualquer inclinação de bom humor para retribuir tal gentileza matutina. "Como está?" Ela perguntou, se sentando na beirada da cama king size e passando os dedos finos entre as mechas prateadas embaraçadas. Inuyasha gemeu baixinho, inconformado com a bagunça que sua vida tinha se tornado. A canção que Kagome tinha cantado na noite anterior ecoava em sua mente, e tudo o que ele menos queria naquele momento era o carinho de Ayame quando ele se sentia tão despedaço, quando ele desejava tanto voltar no tempo e corrigir todos os próprios erros e ter Kagome ao seu lado.

Ele não sabia explicar, mas depois de todos aqueles acontecimentos e desentendimentos dos últimos dias ele simplesmente não conseguia fingir que tudo estava ok com a presença tão insistente da ruiva.

Tudo o que ele queria era Kagome.

"O que você está fazendo aqui, Ayame?" O tom de voz abafado pela forma como ele sofria com a ressaca não mascarou a impaciência do hanyou com a situação. Ayame olhou para ele, ali deitado, e soube de imediato que se ela não fizesse alguma coisa todos os seus esforços até aquele momento teriam sido em vão.

Ela não podia permitir que ele a afastasse.

"Ontem você estava tão mal que seus pais insistiram que dormíssemos na mansão." Ela respondeu com carinho, tentando ignorar a forma como ele não estava receptivo a suas carícias. "Nós dormimos em quartos separados, a pedido de sua mãe, mas eu não consegui nem mesmo dormir enquanto pensava em você." Ela continuou, abaixando-se lentamente e selando os próprios lábios aos do hanyou, tentando puxar as cordas da compaixão existentes no caráter dele - a mesma compaixão que o tinha colocado naquela bagunça com Kagome. Mesmo que Inuyasha não quisesse mais nada com ela, ela tentaria com todas as próprias armas para fazê-lo querê-la, mesmo que fosse manipulando aquele lado que não sabia realmente tirar uma pessoa de sua vida. "Eu senti a falta de seu corpo junto ao meu, Inu." Ela sussurrou com sensualidade, carregando a voz com um tom rouco, e mordeu o lábio inferior do homem de leve, puxando-o entre os próprios lábios.

Por mais que ele não quisesse mais confusão em sua vida, por mais que as palavras da música de Kagome não parassem de reverberar em sua mente, seu próprio corpo pareceu traí-lo ao denunciar com um arrepio que a ruiva ainda o atraía. Por mais que ele não quisesse mais sofrer, que ele não quisesse nunca mais ver as costas de Kagome se afastando dele, abandonando-o; ele não reagiu de acordo com o que seu coração exigia. As mãos femininas que o acariciavam no peitoral e que iam descendo lentamente, praticamente torturando seu corpo recém acordado e ainda grogue com a ressaca, faziam com que toda a razão sumisse de seus pensamentos e que os hormônios tomassem conta, passando por cima de cada batimento frustrado de seu coração hanyou que não concordava com aquela situação quase masoquista. E, no final das contas, a pequena lembrança de ver a morena beijando Bankotsu não serviu para inibir as reações de luxúria, mas sim para fazer com que os últimos resquícios de resistência a tal idéia sumissem completamente. Seu corpo, finalmente, traíra seu coração.

Depois de todas as emoções dos últimos dias, Inuyasha começava a acreditar que talvez Kagome não quisesse mais nada com ele, mesmo que ele fosse pai da pequena Amy. Ele começava a acreditar que a morena, apesar de aparentemente também sofrer com toda a situação em que estavam metidos, levando em consideração a forma como ela tinha cantado a letra da música na noite anterior, estava começando a seguir em frente. Ele começava a acreditar que a estava perdendo, sentindo-se impotente para mudar aquela realidade quando tudo parecia conspirar contra ele e contra a necessidade de se decidir algo correto em seu caminho.

Com todos os desentendimentos, com todas as fugas, com toda a mágoa e com toda a própria fraqueza, ele sabia que a estava perdendo.

Até porque, a última imagem que ele teve da morena na noite anterior tinha sido dela indo embora, de seu vestido esvoaçando em suas costas e da forma como ela parecia deslizar para longe de si.

Como sempre.

Então, de forma derrotada, ele se deixou levar pelos pequenos sons que saíam da garganta de Ayame, que faziam com que seu sangue acelerasse, e pelo cheiro de sua excitação, que fazia com que ele também sofresse do mesmo mal.

"Inuyasha!" O chamado ultrajado de sua mãe cortou a névoa de desejo como o despejar de um verdadeiro balde de água fria em seu corpo aquecido. Ayame pulou para longe de seu corpo instantaneamente, tentando acertar os fios de cabelo desalinhados e a própria respiração entrecortada; enquanto ele, ainda deitado na cama com o zíper da calça meio aberto, tentou ajeitar a própria roupa o mais decentemente possível. "Eu não acredito que vocês fariam isso aqui, na mansão, e ainda mais de porta ABERTA!" Izayoi gritou enraivecida, com seu enorme cabelo escuro balançando para os lados tamanha a ira com que ela tinha gritado. As orelhinhas de Inuyasha se apertaram contra a cabeça do hanyou, não deixando de notar o tom de decepção no voz de sua mãe.

O que era pior é que ele já estava muito decepcionado consigo mesmo naquele momento.

Como ele era fraco!

Izayoi não queria acreditar no que ela presenciara. Ela entendia que a situação do filho tinha ficado ainda mais delicada depois da última noite, ela entendia que Ayame estava usando todas as suas armas para ficar com Inuyasha, ela entendia sim muitas coisas; mas, notava com amargura, ela não era obrigada a gostar de tudo aquilo. Izayoi não era obrigada a ver o próprio filho cavando ainda mais o buraco que ele já estava metido sem fazer nada, sem lhe oferecer palavras de sabedoria ou mesmo de colocar um pouco mais de senso em sua cabeça.

Já estava na hora de ela ter uma conversa muita séria com Inuyasha.

"Meu bem...? O que aconteceu?" A voz grossa de Inu Taisho fez com que o sentimento de vergonha e de ódio a si mesmo somente intensificasse em Inuyasha. Como ele poderia ser tão fraco, como?! "O que é essa gritaria nessa hora da manhã?" O hanyou nem precisava olhar para a mãe para saber que ela nem mesmo estava olhando para o marido na hora de responder aquelas perguntas.

"Cheire o ar, meu bem, você vai entender. E você, Inuyasha Taisho, te espero lá em baixo!" Foram as palavras cortantes e decepcionadas de Izayoi antes que ele pudesse ouvi-la sair do quarto com pisadas fortes. As lembranças embaçadas da noite anterior em que a mãe o tinha impedido de realizar qualquer ação precipitada vieram até sua mente, fazendo com que seu humor piorasse ainda mais. Ele mesmo não entendia como ele conseguia errar tanto! Os vinte e cinco anos que carregava nas costas não tinham servido para nada? Ele não tinha amadurecido, criando uma perspectiva dos próprios atos? O que ele estava fazendo, aceitando a derrota daquela forma tão patética?

Por que ele estava aceitando o fato de que ele estava perdendo a pessoa mais importante da vida dele?

Por que, quando ela estava sumida, tudo o que ele queria era encontrá-la; e, agora, que ela estava tão perto, tudo o que ele pensava era em como não magoar outras pessoas, mesmo que ele a magoasse?

Passaram-se alguns instantes de silêncio, enquanto o hanyou sabia que o próprio pai estava tentando se controlar. O temperamento dos Taisho era largamente conhecido por aqueles que os conheciam pessoalmente. "Eu espero que você só volte nessa casa, Inuyasha, quando você endireitar sua vida." A frieza daquelas palavras fez com que o hanyou se encolhesse como se elas o ferissem fisicamente. O olhar que o grande yokai cachorro direcionou para Ayame deixou claro que, para ele, aquilo só ocorreria quando o caçula já não estivesse mais com ela.

Apesar de toda a própria força de vontade para reverter a situação a seu favor, a ruiva se sentiu ínfima e constrangida com a clara mensagem enviada pelos olhos âmbares tão semelhantes aos de Inuyasha.

Logo, eles estavam novamente sozinhos no enorme e antigo quarto do hanyou. O ar entre eles estava repleto de tensão e o que quase tinha acontecido entre eles pairava no ar, fazendo com que Inuyasha se sentisse doente com tudo aquilo. Ele não conseguia acreditar no que ele estava fazendo, ou, em melhores palavras, no que ele estava deixando de fazer.

Talvez o fato de não ter conhecido Amy oficialmente ou por não ter criado verdadeiramente o laço comum entre pai e filha, ele tendesse a se esquecer completamente do peso que agora a garotinha tinha em suas decisões. Como ele poderia querer olhar para aquela Kagome em miniatura se ele continuasse a errar e errar? Ele já sabia que não devia continuar com Ayame, seu próprio coração já parecia gritar a cada batida que ele deveria ficar longe da ruiva mesmo que ele tivesse perdido a morena; então por que, ele se perguntava, ele não estava escutando seus gritos desesperados?

"Ayame." Ele a chamou, hesitante, e olhou para a mulher com olhos apologéticos. O âmbar de seus orbes parecia apagado, mas a mensagem era tão clara quanto aquela enviada pelo pai do hanyou momentos antes.

"Eu vou embora." Ela concordou, sentindo-se exasperada com tudo aquilo. Por que seus esforços pareciam não surgir tanto efeito? A ruiva sentia como se a situação toda simplesmente não evoluísse. Desde o momento em que ela tinha voltado para a vida do hanyou ela tinha tentado conquistá-lo. Porém, até aquele momento, ela não tinha conseguido praticamente nada. Eles tinham passado uma noite juntos e, depois de todo o drama que Kagome causara, ele até mesmo tinha lhe confidenciado muita coisa; mas, no saldo final, era como se nada que ela tivesse feito até aquele momento tivesse realmente o aproximado mais dela ao ponto de se tornarem um casal. O fato de que Kagome estava no meio de tudo, causando toda aquela confusão e sofrimento e atraindo a simpatia dos pais de Inuyasha, que já não gostavam de Ayame antes de tudo aquilo, fazia com que a ruiva ficasse ainda mais frustrada. "Eu vou embora." Ela repetiu, não vendo saída para sua situação naquele momento. Ela não conseguia pensar em nenhuma atitude que ela poderia tomar para evitar que Inuyasha escapasse por entre seus dedos. Ela não conseguia apagar o sentimento de irritação que surgia cada vez mais forte.

Não era justo que, mesmo sem lutar por ele, Kagome o tivesse.

"Obrigado, Ayame." Ele agradeceu, massageando as próprias têmporas, evidenciando em sua voz rouca e cansada todo o sofrimento físico e mental que aquela situação entre ele, os pais e Kagome o estava causando. "Eu te ligo assim que der, ok?" Ela notou como ele não definiu um momento específico em que ligaria.

"Ok." Foi a única coisa que ela conseguiu dizer antes de sair do cômodo. Ela queria ter se jogado no hanyou e o beijado, forçado-o a enxergá-la ali quando a morena não estava; mas, no final das contas, ela sabia que estava na hora da retirada. Até porque, se levasse em consideração as fotos tiradas pelos fotógrafos da noite anterior, ela sabia que logo, logo ela teria uma visita de uma pessoa que ela não queria ver nem mesmo pintada de ouro.

Ela precisava se preparar para mais aquela bomba.

Assim que a ruiva saiu do quarto, um longo suspiro escapou dos lábios de Inuyasha. O que ele estava fazendo da própria vida? Por que ele não tomava vergonha na cara e simplesmente dispensava Ayame e corria atrás da mulher que ele amava? Alguém poderia até mesmo duvidar de tal amor, já que para não magoar uma pessoa de tão pouca importância comparada com Amy e Kagome, ele acabava por magoar quem realmente importava. Ele passou a mão pelo rosto em cansaço, tentando entender a própria burrice. Sim, a morena tinha omitido o fato de que ele era pai; sim, a morena sempre fugia antes que ele pudesse dizer qualquer coisa sobre o assunto; sim, a morena tinha beijado outro homem na sua frente. Mas, tudo aquilo justificava a inércia em que ele estava metido? Tudo aquilo justificava ele se deitar com Ayame?

No fundo, o hanyou sabia que não, não justificava.

Ele se levantou com dificuldade, sentindo o corpo reclamar em cada músculo e articulação com pequenas dores e estalos. Inuyasha sabia que a mãe o esperava no andar debaixo, com urgência, mas ele também sabia que se descesse do jeito que estava tudo ficaria ainda pior. Seu cabelo estava um verdadeiro ninho de rato, sua cara estava amassada e o cheiro de álcool emanava de cada poro de seu corpo. A roupa, na noite anterior tão alinhada, estava amarrotada e bagunçada, com a gravata frouxa e desproporcional, a camisa com os primeiros botões apertos e a calça ainda com o zíper parcialmente aberto.

Ele estava uma bagunça, tanto fisicamente quanto emocionalmente.

O hanyou caminhou até o banheiro adjacente, ligando o chuveiro e entrando debaixo da ducha fria de roupa e tudo. As gotas de água gelada batiam em seu couro cabeludo e em seu rosto como verdadeiras pequenas agulhas, queimando cada ponto como se ao invés de incrivelmente gelada a água estivesse fervendo. Aquilo foi o suficiente para terminar de acordá-lo, deixando-o alerta o suficiente para que a névoa que cobria sua mente e o deixava grogue com sono sumisse instantaneamente. Seus pensamentos se embaralharam em um turbilhão de questionamentos, fazendo com que ele fechasse os olhos brevemente para não sentir-se zonzo com tantas dúvidas. As mãos, trêmulas, buscaram abrir a água quente para equilibrar a temperatura da ducha, fazendo com que sua pele, que começava a ficar dormente, agradecesse o gradual aumento de calor que chegava até ela.

Lentamente, tentando ignorar a dor de cabeça que o assolava e as dores insistentes em todo o seu corpo que o incomodavam, ele começou a retirar as próprias roupas, ouvindo o barulho que faziam ao caírem no chão do banheiro. Quando, finalmente, estava nu, ele permaneceu bons instantes debaixo da ducha do chuveiro, somente apreciando a sensação de massagem que o forte jato proporcionava. Inuyasha tentava em vão organizar os próprios pensamentos e controlar a própria vergonha e decepção que sentia de si mesmo.

Desde quando ele era aquele ser deplorável, que mergulhava na própria miséria e auto-depreciação como se ele, como agente da própria vida, não pudesse mudar sua realidade? Desde quando ele era aquele ser fraco e infeliz incapaz de pensar racionalmente no outro lado da moeda e tentar analisar o que seria realmente melhor a se fazer? Por que ele era tão bom no próprio trabalho, que incluía a capacidade de analisar todas as possibilidades apresentadas e buscar pela proposta mais irrecusável possível, e tão ruim no mesmo tipo de atividade em sua vida pessoal?

Sinceramente, Inuyasha não sabia dizer se tudo tinha começado quando Kagome fugira há quatro anos, ou quando, durante aqueles quatro anos, ele se percebera solitário e esquecido, no meio de pessoas que o olhavam com raiva e as vezes dó, se envolvendo com mulheres sem qualquer perspectiva de que fosse algo duradouro e tentando desesperadamente esquecer Kagome ao mesmo tempo que lutava para encontrá-la.

Outro longo suspiro escapou de seus lábios, enquanto os olhos âmbares se abriam com lentidão e observavam vagos os azulejos da parede do Box do banheiro.

Ele a estava perdendo. Ele se sentia impotente e agia de forma impotente. Ele não faria nada, nada, para mudar aquela situação?

E Amy? Quando ele começaria a criar o laço fraterno que devia para a garotinha, se ele nunca endireitasse o que fazia de errado? Quando ele começaria o papel de pai, algo que ele deveria ter feito desde o instante em que Kagome descobriu estar grávida? O hanyou sabia que, naquele momento, ele devia começar a pensar mais na menina, na filha dele. Ele devia se afastar de Ayame, ignorar suas investidas, ser franco e firme, e correr para as mulheres de sua vida, implorando perdão e se arrastando até que elas o dessem, até que elas o aceitassem. Ele sabia que não devia parar de lutar pela morena, não agora que ela finalmente estava de volta para sua vida.

Vinte minutos depois, pensando muito em tudo o que tinha acontecido e em tudo o que ele tinha que fazer, o hanyou finalmente terminou seu banho, pegando a toalha felpuda que estava pendurada ao lado do Box e a enrolando em seu quadril. As gotas de água desciam lentamente pelo seu corpo definido, refletindo nos músculos delineados a pouca luz que penetrava no banheiro pela janelinha ao alto. Os fios prateados cascateavam, encharcados, pelas costas largas masculinas, e os olhos âmbares observavam tudo com um turbilhão de emoções refletido em suas piscinas douradas. Seria uma visão divina, se não fosse óbvio o quão transtornado o homem estava.

Voltando ao próprio quarto, Inuyasha se secou e logo pegou algumas roupas que tinha deixado na casa dos pais para momentos como aquele. Cada peça foi sendo colocada com lentidão, pois os músculos que saltavam com o pequeno esforço que ele fazia ainda latejavam levemente com cada movimento. Ele sabia que não tinha feito nenhuma atividade excruciante na noite anterior, mas de alguma forma ele entendia que o estresse de tudo o que vinha acontecendo tinha finalmente afetado-o fisicamente. Os dedos grossos do hanyou puxaram a boxer Calvin Klein preta até a pelve masculina, arrumando-a de forma confortável em seu corpo, e puxaram logo depois a calça jeans Diesel desbotada e ligeiramente larga até a mesma altura, deixando o elástico com a inicial CK a mostra. Inuyasha olhou brevemente para a camisa roxa que tinha pegado para vestir e logo a puxou pela cabeça, até que ela estivesse corretamente posta em seu tronco. A cada momento que passava em que ele se preparava para descer e finalmente ouvir o que a mãe tinha a dizer, um frio na barriga desconfortável começava a se intensificar. Depois do esforço que ela tinha feito na noite anterior para que ele não fizesse nenhuma burrada, ela ainda o tinha pegado em uma situação constrangedora que de nada o ajudaria para ter Kagome. Ele já até imaginava a face contorcida em decepção de Izayoi, encarando-o como o ser deplorável que ele era e lhe dando um sermão justo, mas desanimador.

Enquanto ele calçava o sapatênis preto, um novo longo suspiro escapou por entre seus lábios. A lembrança de como o próprio pai o tinha encarado naquela manhã fazia com que sensações que ele não sentia desde a adolescência voltassem a atingi-lo, como o embrulhar de suas vísceras em vergonha e até mesmo medo do que viria a seguir. A mensagem clara de Inu Taisho sobre a expulsão de Inuyasha daquela casa por tempo indeterminado ainda assombrava parte dos pensamentos do hanyou, que não se lembrava de uma única vez que o pai tivesse feito tal coisa em toda a sua vida.

Ele sabia que se Sesshoumaru, Miroku, Sango e Rin soubessem do que tinha acontecido nas últimas doze horas, eles também estariam o encarando da mesma forma que os pais, ou até mesmo de forma pior. O que, no fim das contas, não seria novidade alguma: eles já não o encaravam com bons olhos há quatro anos.

Se levantando, ele logo saiu do santuário que aquele quarto já representara para ele por muitos anos e caminhou lentamente pelo corredor que o levaria até a escada. Respirando fundo, ele desceu os degraus, um de cada vez, e seguiu o cheiro dos pais até a sala de jantar, observando brevemente como a mesa de café da manhã ainda estava posta e intocada e passando perto da porta do salão de festas ainda ocupado pelas mesas e cadeiras da noite anterior. Inu Taisho estava virado de costas para ele e para Izayoi, observando o enorme e belo jardim dos fundos pela janela de vidro do cômodo; já a mãe estava sentada em sua cadeira característica, ao lado de uma das pontas, sem fazer qualquer menção que ela o encararia mesmo ao ouvi-lo se aproximar.

Sem saber o que fazer, ele se sentou na cadeira de frente para ela, tentando fazer o mínimo de barulho possível.

O silêncio que se seguiu a sua chegada era tenso e incômodo, fazendo com que as sensações que ele sentia de desconforto, de arrependimento e de vergonha tomassem a forma de pequenas gotas de suor frio que desciam por sua testa e por seu pescoço. A falta de qualquer som só se agravava, até o momento em que única mulher ali presente resolveu se manifestar. "Estou decepcionada com você, Inuyasha. Muito decepcionada." As palavras que ela proferiu soaram cortantes, fazendo com que ele se encolhesse, tentando ficar ainda menor e insignificante perante o olhar que a própria mãe lançava para o chão em uma demonstração clara de incapacidade de encará-lo. "Eu sei que a situação entre vocês é mais complicada do que parece, para nós que olhamos de fora, mas ainda assim eu não esperava que meu filho tivesse se tornado um homem tão fraco." Ela piscou como se quisesse evitar que os próprios olhos se enchessem de lágrimas, mas ainda assim ele sentiu o cheiro salgado das gotículas que surgiram. Inuyasha se sentia um lixo naquele momento. "As lembranças que eu tenho de você, de quando era criança, não batem com o que eu vejo hoje." Ela continuou, passando com delicadeza o dedo indicador sob seus olhos. "Todas as minhas memórias são de um hanyou lindinho e pequeno brincando e se divertindo horrores com uma Kagome também pequena. São de uma criança que quando necessário, agia de um jeito determinado e super protetor para proteger o que ele acreditava ser a verdade absoluta e para proteger também aqueles que ele considerava importante, para que essas pessoas não se machucassem." Imagens de uma face pequena retorcida em determinação cega e infantil veio até os olhos de Izayoi, fazendo com que mais lágrimas surgissem. O amor que ela sentia pelo único filho biológico não era descritível diante de sua magnitude, mas sempre que ela se lembrava de como era ter aquele pequenino ser correndo ao seu redor como se ela fosse a única estrela do céu ou como se ela fosse seu sol, sempre fazia com que seu coração de mãe conseguisse enxergar o próprio amor como se ele fosse material. "Você era uma criança tão esperta, tão determinada... Tão forte!" Ela exclamou com a voz embargada, contra-atacando aquelas imagens tão fofas de um hanyou tão pequenino com o que ela vira na noite anterior e naquela manhã. "Mesmo na sua adolescência e no início da sua idade adulta, você ainda manteve esses traços à sua própria forma. Por mais que todos enxergassem o que, inconscientemente, você fazia com sua melhor amiga, todos podiam ver que no quadro geral você continuava o mesmo Inuyasha de sempre. Protetor quando a situação assim o demandava, forte quando necessário. Você era o meu Inuyasha, o mesmo que quando criança puxava a saia do meu vestido em uma festa demandando que nós pegássemos doces para Kagome, que adorava comer os bombons bem mais do que as comidas de sal." Um soluço escapou da boca da mulher, fazendo com que os ombros já tensos de Inu Taisho ficassem ainda mais fortemente duros e com que Inuyasha olhasse para o chão ainda mais envergonhado. Ele não sabia o que fazer. Ele não sabia se abraçava a mãe, implorava por perdão por todas aquelas lágrimas que caíam de seus olhos por sua causa; ou se continuava ali sentado, ouvindo tudo o que ela tinha a dizer sem tentar consolá-la, aceitando sua decepção da forma mais aberta o possível. Izayoi colocou as costas de uma de suas mãos sobre a boca, tentando respirar fundo e continuar a dizer tudo o que precisava. "Nós nunca aceitamos a Ayame, Inuyasha, porque todos sabiam o quanto Kagome te amava. Mesmo naquela época, todos já viam como ela o amava com todas as forças." As orelhinhas antes pressionadas contra a própria cabeça saltaram em pé, ouvindo pela primeira vez alguém dizer aquilo de forma tão direta e aberta. Por mais que tudo indicasse que sim, a confissão bêbada de Kagome naquela noite de quatro anos atrás era uma verdade e que sim, a morena o amava já havia algum tempo, ouvir aquela informação dita daquela forma fazia com que o coração hanyou batesse aceleradamente, como se de repente o ar estivesse rarefeito e fosse simplesmente difícil de respirar. "Nós nunca aceitaremos Ayame, nem qualquer outra mulher." Izayoi continuou, finalmente encarando os orbes dourados que a olhavam de forma arregalada e, por mais incrível que pareça, como se estivessem diante de um mundo antes desconhecido. "Nós só iremos aceitar Kagome, Inuyasha. Somente ela." Mordendo o lábio inferior, para tentar evitar que todas as emoções que ela sentia se transformassem em grandes soluços, ela viu com o coração partido os olhos âmbares de Inuyasha a encararem de forma tão envergonhada e ao mesmo tempo repleta de expectativa, de um jeito perdido, confuso; e a forma como seu sempre pequenino hanyou se levantou da cadeira e deu a volta na ponta da mesa para se jogar em seus braços maternos.

Ela queria ficar brava com ele por muito mais tempo, queria mostrar para ele que sua decepção não seria facilmente apagada com pedidos de desculpa ou algo do tipo; mas seu amor de mãe era tão mais forte do que aquilo. Izayoi sabia que seu discurso o tinha atingido até mais do que qualquer outra coisa que ela fizesse, e aquilo já era suficiente.

Agora era esperar que o espírito forte do hanyou acordasse novamente e retomasse as rédeas da situação, e rezar para que isso não acontecesse tarde demais.

oOo

Kagome sorriu levemente ao observar Souta brincando com Amy na pequena praça perto de sua casa. O garoto não tinha apresentado a ela nenhum plano específico para os dias que permaneceria em Tóquio, mas tinha demonstrado uma vontade imensa de brincar com a sobrinha. Para ele, que era o caçula, ter a chance de brincar com alguém que representava uma Kagome em miniatura parecia até mesmo mais incrível do que brincar com o que a garotinha realmente era, sua sobrinha. A morena via naquilo a saudade que o irmão sentia de quando eram crianças, uma saudade que lhe apertava o coração por entender que sua ausência o tinha machucado tão profundamente, ao ponto de fazê-lo desejar que fossem pequenos novamente. Por mais que eles sempre brigassem, já que a diferença entre suas idades era relativamente grande e as épocas da infância de cada um não eram sincronizadas, a primogênita dos Higurashi sabia que Souta sentia falta da pessoa que por muitos anos tinha sido seu exemplo, tinha sido a pessoa a quem ele procurava quando queria brincar ou quando Inuyasha pegava em seu pé. Ela sabia que, por mais que o garoto adorasse o hanyou como se ele fosse seu herói, ele guardava um pouco de mágoa por saber que por causa de Inuyasha os irmãos Higurashi tinham ficado tanto tempo sem se ver, sem conversar ou mesmo sem estarem em qualquer tipo de contato.

O que ele não entendia era que, no final das contas, a única pessoa culpada de como as coisas tinham se desenrolado era ela mesma. Se ela não tivesse fugido, nada de ruim teria acontecido nem com ela e nem com Amy nos EUA, ninguém teria sofrido por ter ficado para trás e um pai teria tido a chance de ver os primeiros anos de sua filha. Kagome sabia e agora admitia que, no final das contas, ela não precisava ter fugido, não precisava ter criado toda essa situação, todas essas mágoas. Ela poderia ter tentado resolver tudo, poderia ter tentado confrontá-lo e aceitado, na época, que talvez os dois não fossem feitos um para o outro.

Ela poderia ter feito tudo diferente.

"Kags!" A morena piscou, como se saísse do transe de pensamentos em que se encontrava, e procurou por Souta de onde aquele chamado tinha vindo. "Aqui em cima!"

Ela quase caiu de costas ao vê-lo em cima de uma das árvores daquele lugar, com Amy em seu colo.

"Souta! Amy!" Ela os repreendeu, exasperada, e se levantou em um supetão. "Desçam já daí! É perigoso!" Seu coração acelerado não a deixava pensar que, na verdade, aquilo era perigoso somente para o irmão caçula. Amy não teria problema algum em simplesmente pular daquela altura e sair totalmente intacta do pulo.

"Pff, nunca achei que um dia você ia parecer tanto com a mamãe!" Souta riu, virando os olhos com a forma com que a morena o encarava com as mãos na cintura e um dos pés batendo no chão repetidas vezes. "Não sei como você a agüenta, anãzinha." Ele comentou carinhosamente com Amy, que olhava para a mãe com olhinhos azuis-acinzentados repletos de travessura.

"Souta! Desce, agora!" Kagome insistiu, ignorando completamente os olhares das outras pessoas presentes naquele local.

"Ok, ok, geez..." Ele concordou rindo para si mesmo, sentindo um carinho colossal pela irmã mais velha naquele momento. A saudade que tinha sentido dela incluía até mesmo aqueles instantes em que ela o tratava como uma criança. "Vamos anãzinha, sua mãe chama por nós." Ele cutucou a garotinha, que riu divertida e ambos começaram a descer da enorme árvore.

Kagome deixou um longo suspiro escapar por seus lábios, colocando uma das mãos em cima de seu coração que batia acelerado. Ela estava mergulhada em pensamentos, analisando mais uma situação que lhe era apresentava por meio de seu irmão mais novo e suas novas tendências de comportamento, quando de repente emergia desse profundo mergulho com ele e sua pequena filha em cima de um galho de uma enorme árvore a quatro metros de altura. Ela tinha levado um tremendo susto com a repentina mudança!

"Nunca mais façam isso, vocês dois." Ela os repreendeu assim que ambos estavam no chão, olhando para ela como se não tivessem feito nada. As vezes Kagome até se perguntava como Amy conseguia ser tão espertinha com tão pouco idade.

Até que as memórias de um hanyou de cabelos prateados, quando criança, vinham até sua mente.

Inuyasha sempre tinha sido esperto daquele mesmo jeito.

"Pelo menos quando você não estiver olhando, né." Souta comentou como quem não quer nada, sorrindo de lado para a irmã mais velha. Kagome revirou os olhos, mas acabou rindo também. Ah aquele moleque...

"Já estão com fome?" Resolveu mudar de assunto ao olhar para o relógio em seu pulso e notar como já estava ficando tarde. "Já está na hora de almoçarmos já, pelo menos." Ela comentou, vendo como os dois acenaram com a cabeça em concordância – Amy de uma forma um pouco mais entusiasmada. "Ok, sei de um restaurante que a Sango me indicou, acho que vocês vão gostar." Ela comentou, já se virando para voltar para o próprio prédio e pegar o carro para levá-los até lá.

Enquanto ela caminhava despreocupadamente na frente, Kagome podia ouvir a conversa boba mas bonitinha que Souta e Amy mantinham atrás de si. O irmão caçula estava brincando de '20 perguntas' com a pequenina, tentando buscar informações – como, por exemplo, cor, comida, roupa e filme preferido - da garotinha ao máximo que ele conseguia.

O que ela não daria para ver Inuyasha fazendo a mesma coisa.

Ele dirigia sem realmente prestar muita atenção para onde ia. Ele sabia que tinha que procurar um lugar para almoçar, já que depois de se jogar nos braços da mãe e sentir aquela mesma segurança e amor materno que sempre sentia ao abraçá-la, seu pai tinha deixado claro que sua presença naquela mansão já tinha atingido seu limite. Ou seja, ele não tinha beliscado nada do café da manhã servido naquela enorme mesa. Porém, por mais que seu corpo pedisse comida, sua mente pedia por uma atitude, por uma ação. Seu coração gritava com ele para que Inuyasha finalmente tomasse uma decisão: ele queria ou não ter Kagome e Amy para si? Ele queria ou não ter a família que sempre quisera ter?

Os olhos âmbares olhavam para o trânsito que ele enfrentava de forma automática, sem precisar realmente prestar atenção ao que ele fazia. Sua mente voava longe, analisando tudo de errado que ele tinha feito nos últimos dias, analisando o beijo de Kagome e de Bankotsu na noite anterior, analisando a própria postura quanto ao conhecimento de que Amy era sua filha. Sim, ele sentia que estava perdendo Kagome; sim, ele ainda não sentia aquele laço forte de pai e filha com a garotinha, pois ainda não a conhecia direito; mas, ele deixaria as coisas como estavam? Sua mãe mesmo tinha falado com todas as letras que Kagome sempre o amara com todas as forças, que ainda o amava. Izayoi tinha deixado claro que ainda não era tarde demais, que ainda não era impossível alcançar aqueles sentimentos da morena e correspondê-los do jeito que ela merecia. Então o que ele faria?

Como se a resposta não fosse tão difícil assim, ele se viu de frente para o prédio da mulher que parecia preencher qualquer pensamento que surgisse em sua mente. Era como se seu próprio corpo dissesse a ele que não precisava pensar demais no assunto, só agir.

Logo ele a viu, caminhando pela calçada com Amy e... Souta? Sim, Souta, logo atrás. Já fazia anos que ele não via o garoto, era até mesmo difícil reconhecê-lo depois de tanto tempo. Seus orbes dourados se voltaram para ela, notando como a morena andava com um sorrisinho fraco no rosto, como se estivesse pensando em algo que a deixava com um gosto agridoce na boca. Por mais simples que ela estivesse vestida, Inuyasha achava que estava tão bonita quanto na noite anterior, talvez até mais. A calça jeans escura que adornava suas longas pernas, a blusa mais larga de mangas três quartos cinza dava um ar mais sofisticado para o liso e fino cachecol azul escuro que estava pendurado em seu pescoço, e as sapatilhas negras que calçavam seus pés femininos e delicados só completavam o ar angelical que a rodeava. Os cabelos negros estavam soltos, balançando com a brisa que os lambia, fazendo com que ele ficasse ainda mais preso no transe que a presença dela causava. Inuyasha tentou ignorar com todas as forças as imagens da noite anterior, de Kagome dançando e beijando Bankotsu, da morena indo embora, indo para longe dele novamente; ele tentou ao máximo manter as palavras de Izayoi em sua mente, as responsabilidades que ele tinha que assumir com Amy e o próprio amor que ele sentia pela Higurashi, que devia ser maior do que qualquer outro obstáculo que surgisse em sua frente.

Respirando fundo, ele abriu a porta do carro e saiu do veículo, tentando ao máximo manter a própria respiração sob controle já que seus batimentos cardíacos não podiam ser desacelerados por vontade própria. Assim que ele fechou a porta, trancando-a com o dispositivo preso à chave, e que começou a andar para o outro lado da rua, o hanyou sentiu os pelos de seus braços se arrepiarem com o que poderia ou não acontecer naquele momento. Ela poderia aceitar conversar ou poderia simplesmente ignorá-lo, sendo que Inuyasha não a culparia se ela decidisse pelo último.

Foi nítido o momento em que ela o notou. Sua postura corporal antes relaxada se endureceu instantaneamente, seus olhos azuis-acinzentados, antes pensativos, adquiriram o tamanho de dois pires com sua surpresa e sua boca rósea se abriu brevemente com o cair de seu queixo. Kagome parou de caminhar no instante em que ela o avistou vindo até ela com passos determinados, olhos âmbares transtornados e um corpo de Deus grego ainda mais anunciado pelas roupas básicas que ele vestia.

Os dois pares de olhos se conectaram como se fossem os pólos opostos de dois ímãs. Eles ficaram tão absortos nos poucos instantes em que permaneceram conectados daquela forma que Inuyasha quase não conseguiu desviar do murro que vinha em sua direção.

"Souta!" Kagome gritou exasperada, vendo seu irmãozinho caçula surgir do nada na sua frente e tentando socar o hanyou na cara. Ela olhou rapidamente para trás, vendo Amy olhar para aquela mudança repentina de comportamento de seu tio com medo. A morena logo voltou a olhar para frente, correndo até ele para impedi-lo de tentar novamente bater em Inuyasha. "Souta, para com isso, agora!" Ela pediu, puxando o garoto para trás, que ainda fez força para se soltar das mãos da morena para continuar tentando.

"O que você ta fazendo aqui? Hm?!" Ele gritou para Inuyasha, que se encolheu brevemente com aquele ataque verbal. O hanyou levantou as duas mãos em forma de rendição, tentando se manter firme no que ele tinha que fazer. Ele não mais ia deixar o destino cuidar de sua vida, ele não mais ia deixar que os próprios erros o deixassem impotente e, principalmente, ele não mais ia deixar que as fugas de Kagome fossem a última palavra entre eles.

"Eu vim falar com sua irmã, Souta. Eu sei que você provavelmente prefere nunca mais me ver ou mesmo que eu a veja, mas eu tenho muitas coisas a conversar com Kagome. Você não vai me impedir de fazer isso." Ele disse com calma, tentando responder o garoto da melhor forma possível e ainda deixar claro que ele tinha tomado aquela decisão, que finalmente ele tinha resolvido agir como o homem de vinte e cinto anos que ele era.

Kagome sentiu o coração querer pular por sua boca ao ouvir aquelas palavras pronunciadas por Inuyasha. O que ele queria conversar? Por que ele estava ali, de verdade? Ela respirou fundo e engoliu a seco, tentando manter-se o mais calma o possível. "Souta-"

"Não, você não tem esse direito mais, Inuyasha!" O garoto gritou com raiva, olhando para o hanyou de uma forma que ele nunca tinha olhado antes: com profunda mágoa. "Onde você estava nos últimos quatro anos, quando a Kagome estava sumida?" E então, pela primeira vez nas poucas horas em que ela estava na presença de seu irmãozinho, Kagome finalmente entendeu que não somente seu sumiço o tinha causado mágoa contra o hanyou; o próprio sumiço de Inuyasha, aparentemente causado pela sua crença de que todos tinham lhe virado as costas, tinha machucado o garoto de dezessete anos também. Até porque, no final das contas, os irmãos Higurashi e Inuyasha eram grandes amigos desde... Sempre. Talvez a morena e o hanyou fossem mais unidos, pela semelhança de idade, mas ainda assim os três eram muito próximos.

Inuyasha pareceu entender a mesma coisa. "Eu não queria ter deixado de conversar com você, Souta. Não há justificativas pra isso, afinal." Ele suspirou, como que derrotado por aquele pensamento. "Me desculpe."

Kagome viu nos olhos dourados uma sinceridade desconcertante. Antes que ela pudesse prever as ações de Souta, o garoto se desvencilhou de suas mãos e pulou contra Inuyasha, abraçando-o. Tanto ela quando o hanyou ficaram atônitos a princípio, mas ela logo viu Inuyasha dar os pequenos tapas característicos de abraços masculinos como forma de retribuí-lo. A morena colocou uma das mãos na têmpora, tentando digerir tudo o que tinha acontecido em um espaço de tempo de dois minutos.

"Senti sua falta, cara." Souta comentou e se afastou do hanyou com um pequeno sorriso. A mudança drástica de postura demonstrava ainda mais que ele ainda era o mesmo garotinho que eles conheciam, incapaz de realmente guardar mágoa de qualquer um por muito mais tempo do que o normal. "Bom, é isso, vou deixar vocês dois conversarem. Kags, vou esperar com a Amy no carro no estacionamento, quando quiser almoçar é só vir nos buscar." A alegria com que Souta disse todo aquele pequeno aviso fez com que ambas as sobrancelhas femininas se arqueassem em surpresa e descrença. Além de todos os problemas comportamentais criados nele, agora ele também era bipolar?

"Ok..." Antes que ela pudesse terminar de concordar, ele já tinha pegado Amy no colo e corrido para dentro da portaria, dando tempo somente para que a garotinha desse um tchau tímido para Inuyasha, que também observava tudo sem saber o que fazer.

O silêncio que se instalou entre eles era desconfortável e intenso. Eles se encararam por alguns instantes, sem dizerem nada, até que- "Kagome-" "Inuyasha-" -falaram ao mesmo tempo.

"Você primeiro."

Novamente, ao mesmo tempo.

"Ok, eu falo."

Então começaram a rir. Nem acreditavam que, de repente, a forte tensão que existia entre eles foi reduzida tão drasticamente com uma situação tão boba. Talvez os muitos anos de amizade entre eles ainda tivessem um efeito positivo em toda aquela bagunça, talvez eles não tivessem se perdido como achavam. Inuyasha observava com uma quentura no peito a forma como os olhos azuis-acinzentados brilharam em divertimento naquele momento, como o sorriso que surgiu em seus lábios era tão radiante e como o belo corpo feminino voltou a relaxar mesmo que um bocado apenas. Já Kagome sentiu o ar sumir de seus pulmões com a forma carinhosa com que ele a encarava, com seus olhos âmbares intensos e com aquele sorrisinho cheio de leveza em um dos cantos de seus lábios.

Respirando fundo, Inuyasha olhou para o lado brevemente antes de olhar para ela novamente. Era hora. "Eu vim conversar Kagome, para esclarecermos toda essa bagunça."

O coração feminino falhou uma batida ao ouvi-lo dizer tal coisa. Medo e ansiedade começaram a surgir dentro de seu corpo, criando um frio na barriga incômodo, assustador. O que ele queria tanto conversar? Como ele pensava que eles iriam resolver aquela situação toda? A morena teve medo, medo, medo, medo do que tudo aquilo poderia virar. A vontade de fugir veio com todas as forças até ela, atingindo-a em cheio.

Porém, antes que seu corpo pudesse dar o primeiro passo para longe do hanyou, sua mente a forçou a parar naquele mesmo instante e pensar sobre o que ela faria. Ela já não tinha decidido que não iria fugir mais? Ela já não tinha decidido lutar por Inuyasha? Ela respirou fundo, acalmando-se da melhor forma que ela conseguia. Kagome tinha decidido agir como a adulta que ela era e, pela primeira vez eu muito tempo, ela enfrentaria aquela situação de peito aberto e cabeça erguida. Ela já tinha provado para si mesma que fugir não resolvia nada, e ela seria uma idiota ainda maior se não resistisse àquele sentimento covarde.

"Ok." Concordou, vendo como os ombros masculinos pareceram relaxar imediatamente e chamou, "Vamos subir?" já começando a subir as escadinhas da portaria e entrando no prédio.

Ela sentiu mais do que ouviu a presença do hanyou seguindo-a para dentro do saguão de entrada. O coração de ambos batiam freneticamente, como se quisessem sair por suas costelas e baterem o mais longe possível dali, e suas respirações estavam um pouco mais forçadas do que o normal; mas, ainda assim, eles não podiam negar que no meio do medo e da ansiedade que ambos sentiam com o que aconteceria a seguir, existia também, enterrado bem fundo no meio de tantas sensações, o sentimento crescente de esperança. Esclarecer a bagunça que viviam poderia significar muita coisa, e pensar na melhor das opções não era um pecado, não é?

A subida do elevador foi tensa e eletrizante, como se fosse possível ver as faíscas de eletricidade ao redor dos dois; e, assim que entraram no apartamento de Kagome, o clima mais íntimo daquele lugar que eles conheciam tão bem e que continha tantas lembranças fez com que de repente tudo ficasse ainda mais intenso.

O momento em que os dois se encararam novamente, tendo tentado evitar contato visual até que chegassem até ali, foi o instante em que ambos sentiram a necessidade de colocarem toda a verdade sobre a mesa e esperar pelo acerto de contas final entre eles. Eles precisavam daquilo, mais até do que eles pensavam.

"Eu dormi com a Ayame." Foram as primeiras palavras que saíram da boca de Inuyasha, por mais que fossem pouco pensadas e fossem responsáveis pela dor tão evidente e quase palpável que passou pelos orbes azuis-acinzentados a sua frente. O hanyou sabia que aquele não era o melhor início possível para aquela conversa, mas, ao mesmo tempo, ele não podia negar que tudo o que eles precisavam naquele momento era deixar tudo claro e aberto um para o outro, sem qualquer chance de haver algum desentendimento ou erro de comunicação. Até aquele instante, aquele tinha sido o maior dos erros entre eles. "Eu dormi com ela depois que você apareceu no meu apartamento, achou que eu já tinha alguma coisa com a ruiva e saiu correndo, sem deixar que eu falasse qualquer coisa." Inuyasha continuou, vendo no silêncio magoado da morena a melhor oportunidade para explicar melhor o que ele tinha começado a dizer.

"Depois?" Kagome perguntou com um fiapo de voz, tentando se recuperar daquela informação. Ela pensava que a dor que sentia ao ouvi-lo contar de suas experiências amorosas com outras mulheres teria parado de ocorrer, depois de tanto tempo; mas, no final das contas, ela ainda estava ali, firme e forte, como se nunca tivesse parado em momento algum. "Quando eu cheguei naquele dia, ela estava toda íntima no seu apartamento, com suas roupas!" Seu tom de voz subiu levemente com aquela última parte, de forma defensiva. Por mais que Ayame tivesse dito que Kagome tinha se enganado, ela ainda tentava entender o que aquela cena poderia ter representado que não fosse o que ela tinha pensado que era.

"Eu estava pensativo sobre o que tínhamos discutido na noite em que fomos ao Beige. Depois de tudo o que eu tinha descoberto naquele dia, depois de toda a nossa discussão, você simplesmente me deixou para trás na chuva, me dizendo que nada tinha mudado e que basicamente por isso nós não tínhamos uma chance de sermos uma família feliz... Você ao menos prestou atenção na quantidade de coisas que eu falei que diziam muito sobre o que eu realmente sentia por você?" Ele perguntou frustrado, mas antes que ela pudesse responder ou contra argumentar, ele continuou. "Eu estava pra baixo, estava pensando em tudo, analisando tudo, decidindo que sim, apesar de tudo, apesar de não saber como eu conseguiria, eu queria essa família para mim- não, apaga isso, eu ainda quero essa família para mim." Ele se virou de costas para a morena, começando a andar pela sala do apartamento, como se a inquietude que ele sentia o impedisse de ficar parado enquanto se abria novamente. "Então, Ayame apareceu com uma cesta de almoço e uma garrafa de vinho. Sim, eu achei estranho justo ela querer ser meu ombro amigo com todo o nosso histórico, mas se alguém lhe oferece a amizade quando você mais precisa de um amigo..." Ele parou brevemente, pensando em como ele já não tinha mais amigos depois da fuga de Kagome há quatro anos. Se Ayame tinha lhe oferecido a própria amizade, algo que ele já não tinha há tanto tempo, era realmente exasperador que ele a tivesse aceitado? "Você aceita. Você conta toda a história do que te atormenta, desde o início, e você responde agressivamente caso a pessoa sequer pergunte se você vai assumir ou não a sua criança." Ele continuou, olhando para fora da janela por um breve instante antes de voltar os olhos dourados para a figura paralisada no centro do cômodo. "Quando ela me perguntou se eu ia querer a Amy, eu simplesmente levantei de supetão afirmando com todas as letras que É CLARO que eu ainda quero a minha filha. E, em todo o meu ímpeto, eu derrubei o resto da garrafa de vinho no vestido de Ayame."

Kagome sentia o corpo todo petrificado na posição em que ela estava. Não, não, não não não não... Não era só aquilo. Não podia ser só aquilo que tinha acontecido.

"Eu emprestei um conjunto de roupas minhas para que ela se trocasse e lavasse o próprio vestido, para que ele não manchasse." A voz do hanyou ficava cada vez mais calma, quieta, a medida que ele continuava sua narração. "Ela foi se trocar, você apareceu, me beijou, ela chegou na sala, você a viu, você me disse que não tinha sido um erro ter me excluído – olha só o termo que você usou, Kagome!, me excluído da sua vida!, porque no final das contas nada tinha mudado." Ele olhou para os olhos azuis-acinzentados, procurando neles a compreensão de que ela tinha sim entendido tudo errado naquele dia. "Você saiu correndo, mesmo me ouvindo gritando por seu nome até a rua, e entrou no carro sem nem olhar para trás. Você foi embora, novamente. Como um furacão você chegou, destruiu tudo, e depois foi embora sem qualquer remorso." Ele comentou, passando a mão pelos cabelos prateados com nervosismo. A próxima parte era muito difícil de dizer em voz alta, pois ele ainda se envergonhava profundamente do que tinha feito. "Eu voltei pro meu apartamento, liguei o botão 'foda-se' e transei com Ayame. Até de noite."

O silêncio que se seguiu após aquela confissão era repleto de dor e de nervosismo. Era quase possível ouvir o exato instante em que o coração da morena se quebrou em mil pedacinhos, como se ele fosse feito do vidro mais delicado do mundo. Ela não sabia o que sentir realmente. Kagome não sabia se ela se sentia mais arrependida do que magoada, já que aparentemente se ela tivesse enfrentado a situação, mais uma vez, ela teria evitado que muitas coisas tivessem acontecido.

Os olhos azuis-acinzentados se fecharam brevemente, tentando não estimular a pequena ardência que ela começou a sentir neles, e voltaram a se abrir e a encarar os orbes dourados que a observavam tão intensamente. "E o que você quer que eu faça com essa informação?" Perguntou ao mesmo tempo em que tentava lidar com aquela situação em seu íntimo. O que era mais forte: seu orgulho ou mesmo medo, ou o amor que sempre sentira pelo Hanyou?

"Eu sei que o que eu acabei de contar, todo o desentendimento, não é justificativa pro que eu fiz." Ele admitiu fracamente, passando as duas mãos nos fios prateados. "Mas... Eu resolvi contar mesmo assim. Chega de desentendimentos entre nós, Kagome. Chega. Eu não agüento mais. Eu não agüento mais toda essa situação." A voz dele tremeu, fazendo com que os olhos azuis da garota se arregalassem em choque. "Eu me tornei um fraco, um homem de vinte e cinco anos com a cabeça de um garotinho idiota e fraco. Sabe por quê? Porque eu te perdi. Eu te perdi há quatro anos, eu perdi todos os meus amigos quando te perdi, eu me perdi. Aquela garotinha que tinha crescido junto comigo como minha melhor amiguinha tinha me dado a melhor noite da minha vida, me ignorado por duas semanas, e depois tinha ido embora chorando sem realmente me contar qual o real motivo de seu sofrimento. Era por minha causa? Eu realmente tinha me aproveitado de você? Ou eu estava te magoando pensando daquela..." A voz do hanyou falhou, levando a um silêncio tenso e pesado entre eles. As lembranças das coisas que ela contara na noite em que ambos foram ao Beige vieram com força total. Ele tinha pedido perdão pela primeira vez dela. Ela tinha ido contar que os dois seriam pais de uma criança que um dia se mostraria a menininha mais linda e espertinha de todo o mundo, mas mesmo assim ele a pediu perdão antes mesmo que ela conseguisse soltar a notícia bombante. "Eu sei que até o momento não fiz nada que me fizesse um cara digno de ser efetivamente o pai de Amy. Eu nem mesmo me aproximei dela desde que soube que ela era minha filha. Eu só fiz burrada, só me deixei levar. Ontem eu..." Ele parou novamente, engolindo o bolo que tinha na garganta com dificuldade, como se ela estivesse seca demais para permitir tal ato. "Eu quase enlouqueci quando vi você dançando com o Bankotsu." As palavras saíram forçadas, como se fossem difíceis de ser libertas de seu peito atordoado. O que, no final das contas, era mesmo. Depois de tanto tempo fechado em si mesmo, sem a melhor amiga de infância e sem ninguém, sofrendo com sua ausência e com uma bagunça maior o que ele julgava ser capaz de ocorrer; Inuyasha tinha se tornado uma pessoa mais conservadora quanto aos próprios sentimentos. Desde que Kagome voltara, aquele conservadorismo tinha sido abalado várias vezes, é verdade, mas ainda assim ele existia. Quando eram mais novos ele expressava livremente o ciúme ou a raiva de Kouga, por exemplo, que sempre insistira em se aproximar da morena. Na noite anterior, se não fosse a mãe para atrair novamente sua concentração, ele provavelmente teria também se descontrolado ao ver Kagome e Bankotsu aos beijos. Mas, de forma geral, ele não gostava de se abrir, de se sentir vulnerável. Tirar palavras como aquelas em um estado de total sobriedade para a pessoa que causava tais sentimentos, era ainda mais difícil do que qualquer outra situação. Na noite do Beige e na noite anterior, ele estava transtornado por diferentes motivos e estimulado por diferentes sentimentos. Depois de quatro anos mais fechado em si mesmo, aqueles tinham sido os momentos de descontrole emocional mais fortes que ele já havia vivenciado. "Eu me deixei abater ontem, bebi algumas garrafas de vinho, me descontrolei." Os olhos âmbares se fecharam e para aumentar ainda mais o espanto de Kagome, as bochechas masculinas começaram a ficar róseas. "Ayame veio até o escritório e disse mil coisas que até mesmo tinham lógica" A morena se contorceu levemente ao ouvir aquilo. "mas eu não consegui parar de pensar em você. Eu sei que meu pensamento ainda não vai tanto a Amy, mas... Ele não sai de você. Hoje de manhã, antes que eu pudesse tomar a decisão de vir até aqui, de conversar com você e tentar resolver uma situação que simplesmente não dá mais pra continuar, eu quase me deixei levar novamente por Ayame." Ele admitiu, apertando os olhos ainda fechados e abaixando um pouco a cabeça, tentando deixar que a enorme cortina de fios prateados tampassem um pouco seu rosto do ângulo de visão da morena. "Enfim, é isso. Eu finalmente me decidi, Kagome. Apesar de tudo que eu fiz, apesar de tudo o que aconteceu, eu quero essa família pra mim. Eu quero ver Amy crescer, eu quero estar do seu lado vinte e quatro horas por dia, eu quero ter vocês duas comigo pro resto de nossas vidas."

O silêncio que se instalou ali depois de todas aquelas palavras parecia vulnerável e fraco. Ver Inuyasha confessar tais coisas, mesmo sabendo que ele não era exatamente o cara mais sentimental que existia no mundo, era simplesmente capaz de abalar todas as bases de Kagome e jogar contra a berlinda as dúvidas que ela tinha se ele poderia ou não amá-la.

Ele não tinha acabado de dizer que queria tanto ela quanto Amy em sua vida? Não somente isso, mas para o resto de sua vida, vinte e quatro horas por dia. Ele já não tinha demonstrado esse interesse na noite que tinham ido ao Beige? Ele já não tinha admito naquela noite que ele queria ter acompanhado sua gravidez, seus desejos loucos, o nascimento da filha dos dois e seu crescimento?

Mas... Ayame. Será que, toda vez que a ruiva chegasse perto do hanyou e lhe jogasse a lábia, Inuyasha cairia em seu papo? Será que Kagome teria que viver insegura, com medo de perdê-lo para a outra mulher, pro resto da vida?

A morena não sabia o que fazer. A imagem que ela tinha, logo ali de frente, quebrava seu coração ainda mais intensamente do que algumas das confissões que ele tinha feito. A imagem de um Inuyasha que sempre fora tão forte ali, envergonhado e diminuído, não fazia sentido para suas memórias da mesma forma que vê-lo tão quebrado na noite anterior não fez. As imagens do pequeno hanyou que ela guardava com tanto carinho em fotos e em pensamento não condiziam com o que ela via naquele instante.

Ela tinha feito aquilo a ele? Ela tinha transformado Inuyasha daquela forma?

Kagome respirou fundo, sentindo o coração martelar tão forte e tão incansável no próprio peito, e deu um passo vacilante na direção do homem ali em pé.

O que ela faria? Ela fugiria do que ele estava deixando tão claro querer, por medo de perdê-lo para Ayame na menor das chances; ou ela o aceitaria, tentando superar qualquer desconfiança e insegurança juntos?

Ele não tinha dito que a amava. Ele não tinha dito aquelas três palavrinhas mágicas.

Mas, será que precisava? Conhecendo-o como ela o conhecia, será que ele precisava dizê-las?

Kagome respirou fundo novamente e, em um momento de ímpeto sobre algo que ela já tinha decidido naquele mesmo dia e de saudade, ela andou até o hanyou e o envolveu com os próprios braços, abraçando-o e sentindo seu corpo tenso que, após alguns segundos, se relaxou totalmente. "Eu beijei Bankotsu sim, Inuyasha, mas não senti por ele nem mesmo um décimo do que senti naquele breve beijo que trocamos na porta do seu apartamento." Ela sussurrou, sabendo que as orelhinhas do hanyou captariam suas palavras mesmo tão baixas. A morena se soltou brevemente, tempo suficiente para virar o hanyou para si e poder encará-lo. Os olhos âmbares sempre tão intensos e poderosos, a encaravam com uma mistura de descrença, de surpresa, de alívio e de... Amor. Lá estava, nas piscinas douradas, aquele sentimento que o hanyou parecia incapaz de dizer em voz alta diretamente para ela. "Eu sinto muito por tudo que aconteceu depois que eu fui embora. Sinto muito, mesmo." Ela sussurrou, pegando umas das mechas prateadas com os dedos delicados e depositando-a para trás do ombro masculino. "Eu senti sua falta nesses quatro anos, Inuyasha. Eu senti sua falta nesses dias também." Kagome sentiu a voz falhar brevemente, mas seguiu forte, ela ainda tinha mais uma coisa a dizer. "Eu ainda não te perdoei por essas coisas que você fez com a Ayame, mesmo sabendo que não tínhamos nada para eu poder exigir de você. Mas eu vou tentar. Eu vou tentar aceitar que talvez as coisas tenham mudado sim, que talvez eu estivesse errada esse tempo todo." Ela admitiu, rindo levemente e sentindo os olhos marejarem instantaneamente.

E, então, ele a abraçou como se não houvesse amanhã, como se o universo tivesse um tempo limitado para existir e ele precisasse da presença da morena para fazer com que seus últimos segundos ou minutos ou horas ou mesmo dias valessem a pena. Inuyasha afundou o próprio rosto no pescoço feminino, sentindo seu cheiro mais do que o inalando, roçando os lábios na pele tão lisa e macia, sentindo os braços femininos envolta de seu pescoço e envolvendo a cintura feminina com os próprios braços. Ele não podia deixar de sentir todas as sensações de alívio, de saudades, de euforia, de esperança, de amor que o toque das curvas de Kagome contra seu corpo lhe trazia. Como ele pudera ter demorado tanto para fazer o que tinha feito, naquele momento? Como ele pudera demorar tanto para por um ponto final em toda a sua fraqueza e sua incapacidade de ser um homem com a idade que ele tinha, quando a recompensa era ter a mulher de seus sonhos em seus braços?

"Obrigado, Kagome. Obrigado." Ele sussurrou contra a pele da morena, sentindo-a estremecer e suspirar brevemente.

"Kags!" E então, o momento intenso que eles tinham compartilhado foi interrompido pelo chamado de Souta, que entrou no apartamento de supetão com Amy no colo e parou ao ver os dois abraçados. "Ops!"

Kagome começou a rir, limpando as lágrimas que tinham insistido em cair, e se separou de Inuyasha que também ria um pouco, com um enorme sorriso no rosto. "Diga, Souta." Ela não deixou de notar como o hanyou não retirou o braço que contornava sua cintura, puxando-a pra mais perto dele mesmo que ela quisesse continuar conversando com o irmão mais novo.

Talvez eles pudessem superar tudo aquilo juntos. Talvez ele também a amasse, mesmo. Talvez o amor deles fosse forte o suficiente para que eles realmente ficassem juntos.

"Amy já estava ficando impaciente de fome." Souta comentou com quem não quer nada, ignorando o gritinho 'Hey!' indignado da menina com aquela pequena distorção dos fatos. "Queremos comida, Kagomeee!" Ele reclamou infantilmente, recebendo uma risada em resposta.

"Vamos todos juntos, então. Também não almocei." Inuyasha se pronunciou, apertando levemente com a mão a cintura da morena ao seu lado, que sorriu carinhosa para ele. Ela não se lembrava de ter uma sensação melhor do que aquela, de estar nos braços de Inuyasha de uma forma tão carinhosa e leve, mesmo com todos os obstáculos que eles enfrentariam pela frente e toda a insegurança que ela ainda sentia.

Ela não se lembrava de sentir uma sensação melhor do que aquela, pois ela sabia que eles enfrentariam tudo juntos.

"Então vamos, também estou faminta!" Ela concordou animadamente, pegando a mão do hanyou e seguindo o irmão mais novo e a filha, que conversavam animadamente. Inuyasha apertou a mão feminina, fazendo com que Kagome olhasse para ele em questionamento.

"Eu levo todo mundo." Ele comentou, sorrindo o maior e mais belo sorriso que ela já tinha visto nele e, o melhor, direcionado para ela. "Nossa família vai caber direitinho no meu carro." E com aquelas palavras, Kagome não sabia se continuava andando ou se pulava nos braços grossos masculinos, chorando rios de lágrimas de emoção.

Ela acabou sim pulando nos braços do hanyou, abraçando-o mais uma vez, mas evitou com sucesso as lágrimas de felicidade que inundavam suas piscinas azul-acinzentadas.

Os dois então saíram do apartamento com pequenos e leves risos, sentindo uma esperança que já não sentiam há muito tempo.

A esperança de que finalmente poderiam ser felizes.

oOo

Ela andava de um lado para o outro no quarto de hotel, sentindo-se mais nervosa do que nunca. Ao mesmo tempo em que sua foto ao lado de Inuyasha naquele jornalzinho popular de Tóquio era uma dádiva para seus planos, já que Kagome com certeza já teria visto tal notícia e poderia muito bem ter finalmente desistido do hanyou; a foto era, também, um verdadeiro desastre para Ayame. Ela sabia que depois daquilo receberia a visita dele o mais rápido o possível, exigindo respostas e explicações de algo que ela não queria e nem devia explicar para ele. Até porque, no final das contas, ele não dizia para quem quisesse ouvir que o comprometimento existente entre eles era forçado?

Logo suas passadas ansiosas pelo cômodo foram interrompidas pelas batidas bruscas na porta do quarto e ela logo soube que a espera tinha acabado. Respirando bem fundo, ela se preparou para o que viria a seguir como se estivesse se preparando mentalmente para uma guerra.

Andando com passos vacilantes até a porta e ignorando como as batidas não pararam hora alguma e, além disso, eram seguidas por gritos indignados de seu nome, ela a abriu bruscamente.

Seus olhos verdes não se arregalaram com a presença a sua frente, mas sim com a forma com que o outro yokai entrou no quarto sem qualquer cerimônia, fechou a porta e ainda a empurrou contra a parede ao lado daquela entrada.

Ayame não se surpreendia em vê-lo ali, mas ela não podia negar a surpresa que sentia ao ver a forma raivosa e até mesmo ciumenta com que ele a encarava.

Ela não podia acreditar que ela tinha causado aquele efeito nele, não depois de tanto tempo sem receber qualquer indício de que ele poderia, sim, querer estar envolvido no que o Conselho das Terras dos Yokais Lobos tinha decidido.

Ela não podia acreditar que aquele homem que a segurava era o mesmo de antes. Não podia realmente ser...

"... Kouga?"


Olha só quem apareceu! Sim, Kagome e Inuyasha estão se dando uma chance. A coisa vai andar devagar por agora, nenhum beijo ou coisa assim, porque os dois ainda estão entrando nessa outra chance e ainda existem problemas que ambos devem resolver.

Espero que tenham gostado do desenvolvimento da coisa. Sei que é chato ler aquele monte de texto sem nada estar acontecendo, mas achei necessário. Depois de tudo o que aconteceu, não dava pra fazer os dois terem um momento eureka do nada né XD

No próximo capítulo...

'De repente havia gente demais

participando de nossa confusão.

Porém, foi naquele momento de ainda mais inseguranças

que ele pareceu tomar sua mais forte decisão.'

Kagome Higurashi

Querem saber que confusão é essa? Querem saber o que diabos vai acontecer a seguir? Pensem só nessa situação: Kagome + Inuyasha + Bankotsu + Ayame + Kouga + Souta + Amy + JAKOTSU (Sim, sim, ele! Ou ela! Nunca se sabe HUSAHUSAUHSHUA) em um só lugar...

Imaginaram? Querem mais? Mandem reviews!