O pulo do gato
Capítulo 4: Rendição
A bruxa apurou os ouvidos, um misto de emoções paralelas tomando conta de si. Era terrível que ele já estivesse de volta, justamente quando ela mais o queria ali. Deu por si trêmula e angustiada, medindo pela voz sua proximidade, vendo as sombras de seus pés se projetarem contra a luz através da fresta no chão por baixo da porta. Podia imaginá-lo perfeitamente do outro lado, a mão grande batendo com os nós dos dedos na altura da sua cabeça enquanto continuava chamando-a gentilmente. Podia imaginar até mais que isso, e era exatamente o que a preocupava.
– Minerva – Dumbledore repetiu ainda mais uma vez, e parecia ter tomado gosto em falar o nome dela agora que ela mal podia se controlar ao escutá-lo –, eu sei que você está aí.
– Vá embora! – McGonagall gritou e resposta, forçando todos os sentimentos que borbulhavam dentro de si a soarem como irritação.
Ele compreendeu que, se sua teoria estivesse mesmo correta, obedecê-la era a melhor coisa que poderia fazer por ambos nesse momento. Tampouco conseguia convencer suas pernas a seguir o caminho de volta ou ao menos sua boca a se calar.
– E sei o que está acontecendo com você. – Houve uma exclamação inarticulada de espanto do outro lado da porta, mas como ela não disse nada por um longo momento, ele se viu obrigado e explicar melhor a situação para se certificar que era tudo mesmo verdade, por mais inadequado que fosse. – Eu pesquisei sobre o assunto. Imagino que você tenha se confundido com as datas e se transformado em gato em algum momento do seu período fértil.
Dumbledore não entrou mais em detalhes, pois ambos sabiam do que estavam falando e não queriam dizer a palavra em voz alta. Afinal, ela não era nenhum animal pra ter seus desejos nomeados assim.
– Foi um deslize. Eu jamais imaginaria que... Ah, Albus, isso é tão constrangedor!
– Tudo bem, não fique assim. Não é culpa sua. Isso... – novamente sem querer nomear as coisas, ele pigarreou inconclusivamente, gesto que bastou para ser compreendido – já aconteceu antes?
– Uma vez. Mas na época eu tinha um namorado, então... – ela explicou, deixando também sua parte perfeitamente subentendida.
– Entendo – do outro lado ele anuiu, o que restava de sua mente analítica dissecando as informações. Só um nome passou-lhe pela cabeça, aliás, o único namorado conhecido dela – Urquart?
– Sim.
– Explica a insistência dele em desposá-la mesmo após tanto tempo – ele brincou, mas nenhum dos dois riu. Novamente ele esperou bastante no silêncio, lutando para não formular a pergunta que martelava em sua cabeça. Mas não conseguiu – E você não tem ninguém agora?
– Não – ela assumiu, deixando transparecer tanto pesar na voz que teve de se apressar em continuar o mais séria que pôde para manter a compostura habitual. – Mas não se preocupe comigo, eu vou ficar bem.
– Quanto tempo isso vai durar?
– Algo entre quatro e sete dias – ela respondeu, se inquietando quando ouviu do outro lado com um som estrangulado, como se ele estivesse se engasgando. – Albus, você ainda está aí?
" Merlin me dê forças!" ele pediu em silêncio, inspirando e expirando fundo repetidas vezes em busca de calma. Então apoiou a testa na porta, sentindo a cabeça muito quente, doendo de vontade de pensar nas coisas que ele estava tentando reprimir.
– Minerva, é melhor você trancar essa porta – ele advertiu gravemente.
A frase dele não a pegou de surpresa, pois McGonagall já imaginava que a essa altura de sua convivência ambos estivessem partilhando dos efeitos dos feromônios igualmente. Ou então Dumbledore jamais teria deixado escapar uma coisa assim.
– Já está trancada, eu achei que seria melhor assim. Pensei até em deixar o castelo, mas sinceramente eu acredito que posso lidar com isso. Tirando a parte embaraçosa, é só um incômodo na maior parte do tempo. É claro que ajudaria bastante se você simplesmente fosse embora.
– Eu... não posso – o outro respondeu baixinho, sofrido.
– Está tudo bem com você?
– Não. Eu... – agora ele estava literalmente sussurrando, sem conseguir se impedir de imaginar a si mesmo sanando qualquer tipo de incômodo que ela estivesse sentindo.
– O que diabos está acontecendo aí?
– Eu sou, você sabe, da sua espécie. E o seu cheiro... Mais do que isso, você toda é tão... tão... – ele procurou outra palavra, mas não havia nenhuma que se encaixasse com a mesma exatidão – gostosa.
Era o tipo de coisa que a bruxa jamais imaginaria saindo da boca dele, tampouco prever o tipo de arrepio que uma coisa que ela julgaria vulgar dita por qualquer outra pessoa poderia provocar nela. Ainda assim juntou forças para repreendê-lo, embora já estivesse um tantinho ofegante.
– Albus!
– Eu juro que estou tentando me controlar, mas é tão forte, tão intenso... E eu me sinto como se... Se eu pudesse... – ele pediu, suplicante, o corpo todo já colado na porta como se tentasse transpô-la como um fantasma. – Por favor, não se ofenda, mas eu acho que talvez nós poderíamos...
– Não, não poderíamos. E eu não me ofendo porque você não está sendo racional, assim como eu. Tudo o que eu te peço é pra ir embora.
– Está bem, minha querida. Tenha uma boa noite.
Novamente a mão dela voou para a maçaneta, imediatamente arrependida e lutando contra o impulso de chamá-lo de volta. Mas conseguiu se deter por tempo o bastante para provar que isso não era necessário, porque não escutara nenhum som de passos, o vulto de seus pés ainda estava sob a porta, ela também podia sentir muito bem sua magia e seu cheiro lhe afetando instintos.
– Albus, ainda está aí?
– Perdoe-me. Eu juro que tentei, mas simplesmente não consigo ir.
– Vai ser uma semana bem longa, não é? – foi a vez dela brincar, e novamente isso não surtiu efeito algum em seus ânimos.
– Posso te fazer uma pergunta?
– Desde que não torne tudo ainda mais difícil pra mim – Minerva pediu, mesmo sabendo que qualquer coisa dita naquela voz rouca bastava para agravar mais a situação.
Ele se virou, buscando em vão uma maneira boa de falar o que queria o mais sutilmente possível, então se apoiou de costas na porta, escorregando até estar sentado no chão frio. Ela, por sua vez, ainda tinha a mão na maçaneta e o corpo tão próximo que podia ver a própria respiração embaçando o lustroso verniz sobre a madeira de carvalho.
– Bem, não se ofenda, mas você se sente assim em relação a...?
– Qualquer um? Se eu ainda estivesse em minha forma animaga, talvez.
– Mas você não está.
– É, não estou. Ainda tenho minha cabeça humana, mesmo que ela não esteja no seu juízo perfeito.
– Isso quer dizer que você gosta ao menos um pouquinho de mim? Minerva?
A pergunta a pegou completamente desprevenida. Claro que gostava dele, era seu melhor amigo e mentor há anos, e não estaria se consumindo de desejo por ele se não gostasse "ao menos um pouquinho". Mas desde garota aprendeu que devaneios românticos envolvendo Albus Dumbledore, por mais doces que fossem, nunca passariam de devaneios. Depois que descobriu mais sobre ele e se tornaram tanto mais íntimos, notou mais uma enorme lista de motivos pra isso, incluindo seu passado sombrio, a diferença de idade, a exposição da imprensa, o ressentimento de seus inimigos e mais um monte de coisas como essas, das quais ela não conseguia se lembrar naquele momento.
– Por que você quer saber?
– Porque eu conseguiria suportar melhor essa semana se soubesse que o nosso problema não é estritamente hormonal.
– "Nosso problema"? – a bruxa o citou, subitamente tornando a ficar ofegante.
– Essa, essa... atração. Não leve a mal, minha querida, mas você sempre me... – exasperado, ele cobriu o rosto com as mãos, controlando-se por pouco a não dizer algo definitivo e comprometedor. – Não me obrigue a continuar, está bem? Eu não estou pensando direito nesse momento.
– Felizmente eu também não – ela afirmou baixinho, destrancando a porta.
n/a: Atenção: cuidado com o próximo capítulo! Já vou avisando será mais quente. Aliás, tbm aviso previamente que o estado singular em que ambos se encontram vai intensificar bastante as coisas, então não estranhem, ok?
Mia Lima: Sim, agora vai! Ambos vão tirar um atraso, kkkkkk. E podexá que não demora não, já to trabalhando no cap novo.
Paullinnha: Muitíssimo obrigada. Sim, vamos ter uma continuação muito favorável e bem de acordo com o que tá todo mundo querendo aqui.
AndyMalfoy: Vai ter um ultra super lemon plus no próximo capítulo, que tbm encerra a primeira parte da fic.
Sra McGonagall D: E esse par de mãos vai pegá-la de jeito muito em breve 3;)
Uhura: Todos torcem, todos vibram, hahahaha. Sim, acho que já disse sim. Pois é, eu sempre faço romantiquinho e água-com-açúcar, é bom dar uma agitada nas coisas pra variar B|
Mamma Corleone: Que tal "quando tão louca, me beija na boca, me ama no chão" (considere um spoiler). Vc falou no Wando e foi a primeira que passou pela minha cabeça! Pois é, eu manjo dos paranauê dos ADMM.
Joice: Leu todas? Uau, obrigada, ser lida pra mim é um grande prazer. E no que depender de mim teremos mais Albus e Minerva sempre, eles são meu maior vício nessa vida.
Mounna: Perdão, guria, jurava que tinha falado contigo à respeito. Na verdade esse é um projeto muito antigo, faz mais de um ano que a Uhura me propôs esse desafio (e eu fugi). Mas aí veio o aniversário dela e ela me pediu de presente, então não teve jeito. Mas tudo bem, tá mó legal aqui. Vamos combinar que eles tem uma química maravilhosa, né? Bj, sai daí não que já já rola um love pra nos alegrar.
