Parte Dois

Capítulo 6: Cama de gato

Ainda caía uma garoa fina contra as vidraças da janela, que só deixavam passar a claridade daquele dia nublado. O ar tinha cheiro de chuva e mesmo o quarto fechado estava mais fresco que o calor intenso do dia anterior, ou talvez fosse a febre do desejo finalmente dando-lhes uma trégua.

Minerva despertou, mas ainda permaneceu com os olhos fechados por alguns momentos. Tinha o corpo deliciosamente cansado e levemente dolorido em áreas muito significativas, mas estranhamente leve. A mente também permaneceu entorpecida por um longo momento, até lembrar-se o motivo de tudo isso.

Finalmente abriu os olhos e o viu, sentado com o lençol cobrindo-lhe até a cintura, muito absorto olhando pra frente, o queixo apoiado nas mãos cujas pontas dos dedos estavam unidas. O cabelo e a barba pareciam ter saído de um vendaval, havia uma marca de mordida bem visível entre o ombro e o pescoço, arranhões no peito, e parecia preocupado.

Por um momento ela não soube como agir. Sempre tiveram uma boa amizade, mas tratavam-se polidamente, o respeito quase excessivo que agora não tinha mais lugar. Então o que tinham agora? Eram íntimos, sim, de algum modo, mas haviam pulado todo o processo antes disso. Estava certa de jamais terem sequer se olhado direta e interessadamente até um dia antes, e agora partilhavam a cama.

– Olá – a bruxa o cumprimentou, apoiando-se nos cotovelos para olhá-lo.

– Bom dia – ele disse, abriu um sorriso tímido e correu suavemente as pontas dos dedos pelo pescoço, colo, seios e até mesmo as coxas dela, seguindo-os com um olhar quase triste. – Ontem... Não precisava ter sido dessa forma.

Ela também observou o próprio corpo, vendo que ele apontava para uma série de pequenas marcas de chupões e mordidas que se lembrava muito bem de como tinham ido parar lá. Só não entendeu completamente a apreensão nos olhos dele, e quase riu do contraste disso com sua impetuosidade da noite anterior. Ele não tinha nenhuma culpa pelo que acontecera aos dois, tampouco por ela ter uma pele tão branca e sensível.

– Tudo bem, Albus. Eu entendo.

– Eu não sou assim, Minerva. Normalmente eu sou gentil e carinhoso – o outro argumentou. – E veja só o que eu fiz com você.

Ele pareceu tão genuinamente atormentado e arrependido que McGonagall não conseguiu não rir. E riu tanto até cair deitada na cama novamente e Albus ter de abrir um sorriso aliviado.

– Olhe para si mesmo antes de se julgar – ela ordenou, apontando para a mordida que ele tinha no pescoço, a qual o bruxo sequer parecia ter notado até aquele momento. – Parece mais que nós estivemos brigando do que...

– Instinto animal, minha cara – ele completou, erguendo uma sobrancelha em chiste, e então ambos gargalhavam novamente.

– Agora sim parecemos nós mesmos.

Mesmo depois que a graça havia passado ele continuava a sorrir, mas de um jeito muito meigo, então escorregou até estar deitado novamente, a poucos centímetros dela. Minerva estremeceu, olhando-o fixamente nos olhos, muito embora tivesse antes dado uma conferida se sua parte do lençol estava cobrindo completamente seus pudores. Mas ele tão somente tomou a mão dela na sua.

– Então isso quer dizer que você me perdoa?

– Claro – ela assegurou, e foi sua vez de ficar preocupada vendo beijar-lhe os nós dos dedos. – É bom saber que não estragamos tudo. Odiaria perder meu melhor amigo por causa de um deslize.

Uma sombra de dúvida passou pelo olhar dele, mas tratou de espantar isso com um novo sorriso, enquanto subia a mão para acariciar o cabelo dela. Parecia tão feliz que isso só fez deixá-la ainda mais inquieta.

Cinco deslizes. Sem contar com os agradáveis interlúdios entre eles.

– Ok, já entendi, e não vou esquecer tão cedo – ela concordou, rindo nervosamente, e Albus se aproximou ainda mais olhando fixamente pra sua boca. Mas ela o deteve, ambas as mãos em seu peito. – Só que isso, nós dois, não daria certo.

A expressão dele imediatamente endureceu, confusa e incrédula, e com isso fez a determinação de Minerva vacilar.

– Por que não?

– Porque não somos muito bons com relacionamentos.

Ele sabia do que e quem ela estava falando, e se arrependeu amargamente pelo dia em que segredou-lhe todo o seu passado, assim como lamentava cada segundo de sofrimento pelo qual ela tinha vivido por conta do amor. Sentia que ela estava certa se quisesse rejeitá-lo por isso ou por qualquer de seus outros muitos problemas, mas também que não havia nada mais injusto no mundo.

– Eu talvez não, mas você ainda não tentou um número suficiente de vezes pra poder dizer isso – Dumbledore ainda insistiu, tentando retomar a naturalidade contente com que estava até um instante antes. – E já está na hora de começarmos a acertar, não acha?

– Você é meu chefe e meu melhor amigo.

– Posso arrumar outro emprego.

– Não vamos nos precipitar com isso. Quer dizer, estamos sozinhos há um bom tempo e é normal que haja certo encantamento pela redescoberta do...

– Sexo incrível?

– É. Isso – ela admitiu, sem conseguir deixar de corar sob as lembranças que inundaram sua mente. – Mas não significa que vai haver mais que isso entre nós.

– Nunca?! – ele exclamou, exasperado, voltando a se sentar.

Tanto quanto a decepção dele a entristecia, ela reconhecia que o que houvera entre eles era muito melhor ela havia sido capaz de imaginar, ou mesmo se lembrar de já haver sentido antes. E tratou de se convencer que era apenas o cio falando por si, mas mesmo assim não tinha como negar que era bom demais pra não querer mais.

– Também não foi o que eu disse.

– Então o que raios vocês disse?

– Que eu estou meio confusa dos meus sentimentos nesse momento.

– Mas ontem você... – ele se deteve, a mandíbula muito apertada, os olhos brilhando agora de um jeito completamente diferente do que ela estava acostumada a ver, então virou-se por outro lado, sentado na beirada da cama.

McGonagall também se sentou, um leve pânico tomando conta de si perante a idéia de tê-lo magoado. Ele não merecia isso, um homem tão bom, tão gentil, de ombros tão largos e cabelo tão macio... Minerva suspirou, buscando um pouco de autocontrole. Era justamente isso que tinha começado todo o problema, e ela não ia conseguir pensar direito até passar.

– Tente entender minha situação. As pessoas dizem muitas coisas quando estão... necessitadas.

– É compreensível – ele respondeu, levantando-se após um longo momento de silêncio. Então suas roupas entraram voando pela porta obviamente obedecendo a um feitiço convocatório. – Você não quer um relacionamento, só precisava de um homem.

– Seja razoável – ela pediu, vendo atônita ele se vestir muito rapidamente.

– Não, você está certa. Estava necessitada e eu também. Bobagem a minha nutrir qualquer sentimento romântico quanto a isso – ele respondeu monocórdio, olhando unicamente para os botões da túnica que tratava de colocar no lugar.

– Albus.

Ela sentiu os olhos arderem, e uma centena de coisas que ela sabia que não deveria dizer para não agravar a situação subiram-lhe na ponta da língua. Definitivamente não queria que ele fosse embora, mas o pedir pra ficar seria alimentar o problema.

– Bem, só quero que saiba que eu falei sério – ele afirmou decidido, ainda sem olhá-na nos olhos, juntou o resto de suas roupas e saiu.


Deia Silva: O amor deles é maravilhoso mesmo, mas ainda vai demorar mais um pouquinho pra se acertarem de vez.

Paullinnha: Obrigada ^^. Não me esqueço de Incólume não, inclusive essa fic demora mais porque é mais longa e muito mais planejada. Estou trabalhando no próximo capítulo já há um bom tempo, e ele será importante e com mais ação.

Uhura: Talvez eu devesse mesmo ter escrito há mais tempo, mas há que se pensar nas outras fics... e juntar coragem também. De qualquer modo, vc poderia aproveitar e estudar como a animagia interfere nos homens, acho até que vc tem um bom espécime pra trabalhar, "oinc". lol

AndyMalfoy: É, estou começando a pegar o jeito de escrever lemons :P. Bom, até que não demorei tanto assim pra postar, né?

Sra McGonagall D: Valeu pelo entusiasmo! Dá até um calor, né? Pois é, a segunda parte já começou e logo logo tem capítulo novo.

Mia Lima: Obrigada, estou me esforçando bastante aqui. Espero que goste igualmente da segunda parte e da próxima, porque boas surpresas nos aguardam em breve.