Momentos de dúvida
Ela já não sentia tanto frio no Território, em parte porque suas roupas era realmente quentes e em parte porque Jacob raramente saía de perto dela. Ele fazia questão absoluta de acompanha-la onde quer que fosse, mesmo que não fizesse restrições aos passeios dela. Ela gostava daquilo, gostava de ter a companhia dele e a amizade, mesmo que tudo isso ficasse do lado de fora do quarto quando a noite caia. Eram momentos onde não havia espaço para mais nada, se não os corpos entrelaçados e o desejo incontrolável.
Não era atoa que ela vivia dormindo pelos cantos durante o dia, ele raramente dava tempo para descanso nas noites frias e aquilo consumia uma quantidade incrível de energia dela. Uma hora ele iria acabar matando sua esposa de exaustão, sem falar no aumento do apetite. Tudo parecia incrivelmente saboroso para o paladar dela.
Renesmee estava particularmente entediada naquele dia. Jacob e alguns de seus homens haviam saído logo cedo para verificar obras de reconstrução em algumas cidades vizinha e acabariam discutindo politica o dia todo. Ela havia prometido que estaria de volta a noite e isso dava à ela muito tempo sozinha. Foi até o escritório dele para procurar algo que lhe ocupasse o tempo ocioso.
Fato, ela finalmente havia encontrado algo para fazer. Aquele lugar estava uma zona de guerra. Milhares de papeis espalhados, livros fora do lugar e nenhum espaço vazio que pudesse ser usado. Nessie nem pensou duas vezes antes de começar sua organização no escritório. Tentou agrupar os documentos em pilhas por assunto, os livros em ordem alfabética e as canetas dentro de gavetas menores.
Ela estava indo bem com seu trabalho de faxina no escritório até abrir uma gaveta da mesa de trabalho dele. Demorou um pouco a abrir, já que ela estava emperrada e quando finalmente conseguiu algo lá dentro lhe chamou a atenção. Um papel de carta com o brasão real de Bertah estava colocado cuidadosamente em cima de outros objetos. Renesmee reconheceu de imediato a caligrafia irregular de sua mãe. Sabia que era errado, mas não resistiu à tentação de ler o que estava ali.
Renesmee tomou a carta em suas mãos com cuidado e abriu. Não era uma correspondência antiga como ela gostaria, era muito recente para falar a verdade. Uma onda de pânico se apossou dela imediatamente a medida que lia o que estava ali.
" Jacob,
Eu entendo perfeitamente o que sente em relação à Edward e mais ainda o seu desejo de vingança, mas as coisas tomaram tal proporção que eu simplesmente não posso mais ignorar. Se uma guerra ocorrer entre Bertah e os Quileute não será apenas um incidente político e eu e meus filhos estaríamos em perigo real assim que a capital fosse tomada. Em nome de tudo o que sente ou sentiu por mim, considere a alternativa que lhe proponho.
Sei que já ouviu falar em minha única filha, a princesa Renesmee. A ela foi concedido o título de Senhora dos Territórios Quileute no momento de seu nascimento. Se você propor a ela casamento, Edward será obrigado pelos conselheiros a aceitar a proposta, uma vez que esta seria a única maneira de evitar o confronto. Para efeitos de lei e governo, seu povo estaria livre, já que você se tornará o Senhor do Território.
Pode achar estranha esta minha sugestão, por isso lhe direi meus motivos. Renesmee é muito jovem e sedenta de conhecimento e liberdade, exatamente como eu fui um dia. Não tardará muito para que Edward decida casa-la com algum nobre ou aliado político e a simples possibilidade dela sofrer o que eu sofri me apavora terrivelmente. Se não quiser escutar à velha Bella Swan, escute esta mãe desesperada que lhe implora neste momento. Salve minha filha, tire-a desta gaiola e mostre o mundo que existe longe deste palácio. Eu não confiaria a mais ninguém esta tarefa. Não consigo pensar em alguém mais digno e merecedor que você.
Mais do que ninguém eu entendo que amor nem sempre tem afinidade com casamento. Eu não amava Edward no começo, mas hoje já não posso afirmar com tanta convicção. Renesmee é linda, jovem e saudável, encantadora o bastante para deixar qualquer um louco por ela. Talvez isso não mude em nada a sua vida, mas gosto de imaginar que ela o faria feliz e que você, com sua lealdade, sua segurança e gentileza, a faria se apaixonar. São meras esperanças, mas eu gostaria muito que se tornassem reais em nome de toda gratidão que sinto por você.
Eternamente grata,
sua amiga Bella"
Renesmee sentiu o mundo a sua volta girar numa velocidade vertiginosa. Seu rosto perdeu a cor de imediato e o chão parecia ter desaparecido por completo. Ela se jogou na cadeira que Jacob costumava usar, enquanto sua mente trabalhava a mil. O que era aquilo? Que pouca vergonha era aquela carta maldita!
Ela, sua própria mãe! Bella havia barganhado a mão da única filha para conseguir um maldito acordo político! Renesmee poderia esperar isso de seu pai, mas o rei havia sofrido verdadeiramente quando aceitou o tratado. Bella não só havia jogado sujo, como também havia manipulado tudo aquilo o que Jacob sentia por ela em seu favor. Ela era maquiavélica, cruel, inescrupulosa!
E Jacob! Como alguém como ele pode aceitar aquilo com tanta facilidade?! Só havia duas explicações para aquilo. Ou ele pensava naquele casamento como uma vingança muito mais sádica do que uma simples guerra, ou estava encenando toda aquela fantasia de casamento feliz unicamente para provar à Bella que ele ainda a amava. Ele estava fazendo tudo em amor à ELA! Black não estava apaixonado por sua jovem esposa coisa nenhuma, simplesmente porque ele não conseguia esquecer a rainha de Bertah!
E ele era um excelente ator, porque Nessie havia acreditado em cada gesto, cada promessa, cada palavra de carinho. Mais do que isso, ela estava mesmo apaixonada por ele, exatamente como Bella havia previsto. Cada vez que ele se deitou com ela, cada vez que gemeu seu nome em meio ao êxtase, era em Bella que ele pensava! Era o nome de BELLA que ele queria poder dizer!
Não havia a menor possibilidade dela permanecer ali, debaixo do mesmo teto que Jacob! Não podia pedir ajuda à Emily, porque com certeza Sam acabaria sabendo e diria tudo ao amigo. Nenhuma quileute trairia Black e ela não conhecia nada além do território se não Bertah. Somente Edward, seu pai, lhe acolheria naquele momento. Precisava voltar para casa, mesmo que tivesse que encarar sua mãe, aquele era o único lugar onde teria refugio.
Jacob chegou naquela noite e pela primeira vez Renesmee encarou o momento em que dividiam a cama como um fardo. Por mais que ele a beijasse, acariciasse e fosse infinitamente dedicado a satisfação dela, podia dizer que tudo foi em vão. Sem o menor entusiasmo ela foi obrigada a fingir que estava bem e que ele havia conseguido o que queria. O tempo parecia se arrastar dentro do quarto e ele ainda não havia caído no sono.
Jacob a encarava longamente e ela tentava desviar o olhar para não se denunciar. Era doloroso olhar para ele, saber que estava apaixonada e que ele ainda amava a outra. Preferia que ele estivesse dormindo, distante e indiferente, mas ele era observador e esperto como um gato. Ou ela simplesmente não sabia como disfarçar sua raiva.
O que está acontecendo, Ness? - ele acariciou o rosto dela, tentando induzi-la a olhar pra ele.
Nada, não está acontecendo nada. - ela mentiu, tentando desviar os olhos – Só estou com sono.
Não acredito em você. - ele falou sorrindo – Você mente muito mal, menina.
Me deixe dormir. - ela resmungou. Ele segurou o rosto dela com mais força do que o habitual para que ela não fugisse.
Era como se você não estivesse nesta cama. Seu corpo estava, mas sua mente não. - ele disse com tom sério, mas havia um toque de preocupação em seus olhos – Normalmente você não age assim. Você sabe que se tiver algo que a incomode pode me dizer.
Estou perfeitamente bem. Se me permitir, eu gostaria de dormir agora. - ela falou rispidamente e deu as costas para ele.
Como quiser, mas se acha que vai me fazer dar as costas também está enganada. - ele enlaçou a cintura dela e a puxou contra seu corpo com força, fazendo-a protestar – Reclame o quanto quiser, gosto de ter você bem presa entre os meus braços. Boa noite, pequena. - e então beijou o pescoço dela.
Boa noite. - ela respondeu mal humorada. Droga! Como sairia com ele segurando ela daquele jeito?! Por que ele tinha que ser tão pesado?!
Pouco antes do sol nascer ele rolou para o outro lado da cama, permitindo que ela saísse do leito. Ela jogou algumas roupas dentro da sacola de viagem que ele costumava usar, pegou seu casaco de pele de lobo e correu para a cozinha ainda vazia. Jogou dentro da bolsa alguns mantimentos para os dois primeiros dias, era mais ou menos o tempo que ela levaria até alcançar a fronteira.
Precisava de algum animal para transportá-la e que passasse relativamente despercebido na paisagem. Jacob tinha vários cavalos na estrebaria, sem dúvida algum deles serviria pra o propósito. Na ultima baia ela encontrou algo apropriado o bastante. Um cavalo pequeno, rustico, de pelo incrivelmente branco. Ela sabia que sua figura passaria praticamente despercebida em meio a neve. Agora ela precisava deixar a cidade, antes que o sol nascesse.
Jogou suas coisa sobre o cavalo e mentou em seguida, disparando em direção aos portões da cidade a toda velocidade. Naturalmente haviam guarda vigiando em caso de ataque inimigo. Ela encobriu o rosto e ergueu em suas mãos um envelope timbrado, com o brasão que Jacob usava nas correspondências oficiais. Os sentinelas entenderam que se tratava de um mensageiro e deram a passagem. Renesmee atiçou o animal e tomou a estrada para Bertah numa velocidade assombrosa.
Jacob acordou por volta das nove da manhã, o sol já estava alto e era como se o sono não tivesse adiantado de nada. Havia dormido muito mal, preocupado com a frieza dela na noite anterior. Que fosse orgulho ferido, ele não conseguia entender o porque da atitude indiferente dela. Olhou para o lado e ela não estava lá. Estranho, Nessie nunca se levantava antes dele.
Ele saiu da cama e foi até a cozinha procurar por ela. Rodou por todo o palácio e não encontrou nem a sombra da esposa. Nenhum criado a havia visto naquele dia e então ele começou a ficar preocupado.
Revirou o quarto e notou a falta de algumas roupas e de sua bolsa de viagem. Ela também havia levado o casaco de pele e isso indicava claramente que ela pretendia enfrentar o inverno. Saiu correndo para checar a estrebaria, se tivesse alguma sorte ela não teria pensado em pegar algum animal e estaria à pé. Se fosse assim poderia alcançá-la facilmente.
Maldita fosse ela! Havia levado justamente o cavalo que pretendia dar a ela como presente de um mês de casamento! Maldita hora em que decidiu que ela deveria ter um animal resistente e veloz também! Não restavam dúvidas, ela havia fugido e agora ele precisava reunir um grupo de buscas o mais rápido possível.
Depois de falar com os sentinelas e perguntar se haviam visto alguém com aquelas descrições passar pelos portões ele foi até Sam e Quill para juntar alguns homens para a busca. Com aquele cavalo e no horário que ela havia saído, teria pelo menos um dia de vantagem sobre eles, teria que torcer para que ela não soubesse o caminho, ou ela chegaria na fronteira de Bertah ao meio dia do dia seguinte e então seria intocável até que ele conseguisse enviar alguém para mediar a devolução dela.
Seus melhores e mais confiáveis homens se lançaram na busca pelas florestas e estradas próximas sem obter sucesso algum. Nem mesmo havia um rastro que pudesse ser seguido e aquilo mostrava o quanto ele havia subestimado ela dês do princípio. Renesmee era muito mais astuta e escorregadia do que ele havia imaginado e havia, literalmente, escapado de baixo do nariz dele.
As buscas continuaram até que estivesse escuro o bastante para que os homens não conseguissem enxergar o rumo que estavam seguindo. A noite trouxe a ele uma inquietação inimaginável. Por que ela estava fugindo? O que havia acontecido para que ela decidisse voltar para a casa do pai na calada da noite? Afinal ela não gostava dele? Não estava feliz? Ou tudo aquilo não passava de fingimento da parte dela? Ela estava realmente esperando que ele abrisse a guarda para que ela escapasse por entre seus dedos? Não conseguiu pregar o olho naquela noite, também não conseguiu parar de pensar nela.
Teria que esperar até que ela chegasse a casa dos pais, que estivesse devidamente segura dentro dos muros do palácio real de Bertah. Deste modo ela não teria para onde fugir. É claro que Edward iria se colocar no caminho, mas ele não tinha mais direitos sobre ela e se tentasse mante-la lá, era guerra.
Nessie levou menos de dois dias até chegar a fronteira do território com Bertah. O cavalo era incrivelmente ágil e resistente ao frio e ao cansaço. De lá até a capital seriam mais cinco dias, talvez quatro se tivesse sorte. Logo no primeiro povoado onde parou para comprar mantimentos ela avistou um grupo de soldados com os estandartes de Bertah, era um grupo pequeno de mais para se tratar de um reforço à fronteira e então ela avistou seu tio, o general Hale, bem a frente do pequeno contingente. Estava com muita sorte.
Ela correu até o caminho que o general percorria, deixando o cavalo na estalagem onde havia parado.
Parem! - ela gritou enquanto corria – Parem! General Hale! Tio Jasper! - ao ouvir seu nome ser pronunciado, o general olhou para trás e a despeito das roupas pesadas que ela estava usando, ele a reconheceu de imediato.
Cavaleiros, alto! - ele ordenou e todos pararam imediatamente e o general desmontou de seu cavalo e correu em direção à ela. - Renesmee, é você mesma?!
Sou eu tio! - ela respondeu entre lagrimas, correndo para abraça-lo – Não acredito que o encontrei aqui! Eu senti tanta saudade!
Querida, o que faz aqui? Black está com você? - Jasper perguntou visivelmente preocupado com uma possível visita de Black a Bertah. Renesmee negou com a cabeça.
Não. - ela respondeu com a voz fraca – Me leve pra casa, por favor! - o tom de súplica na voz dela o fez estremecer. O que estava acontecendo?
É claro que vou leva-la. Pelo menos acho que é o melhor pra você no momento. Está terrivelmente pálida. - Jasper falou imediatamente – Onde estão suas coisas?
Na estalagem. Há uma bolsa de viagem pequena e um cavalo branco apiado na estrebaria. - ela disse.
Minha ida até o Território vai ter que esperar. Vamos pegar suas coisas e seguiremos pra capital assim que o sol nascer. - Jasper ofereceu o braço à ela para que fossem até a estalagem.
Por mais que estivesse intrigado com as condições do encontro com a sobrinha, Jasper não questionou os motivos que a levaram até a fronteira, numa fuga obvia. No entanto, o general era experiente o bastante para saber que Jacob Black não aceitaria aquilo e uma retaliação era quase inevitável. De qualquer maneira, era melhor levar a princesa de volta ao palácio de Bertah e rezar para que Edward conseguisse lidar com a situação de maneira diplomática.
Na manhã seguinte o pequeno grupo seguiu para a capital de Bertah e ela não sabia o por que, mas sentia que havia uma parte dela sendo deixada para trás. Uma parte feita de neve, peles e da cor incompreensível da pele dele. Algo que lembrava a força e solidez de uma montanha solitária, algo que parecia não sair do coração dela.
Quatro dias sem ela por perto e tudo dentro daquele palácio parecia sem sentido, cor ou brilhos. Absolutamente monótono e estéril, era como todo Território parecia. Faltava pouco, muito pouco pra dizer a verdade, e ele iria atrás da princesa sem pensar duas vezes e não queria platéia para sua possível discussão. Iria sozinho para chegar mais rápido. Ouviu boatos de que uma garota estava sendo escoltada pelo general Hale até Bertah e a descrição condizia com a de Renesmee. Ao menos ele tinha a garantia de que ela estava bem e com pessoas de confiança, dela pelo menos.
Sam tentou dissuadi-lo de sua decisão pouco segura. Seria mais aconselhável que um diplomata fosse no lugar de Jacob e conduzisse a negociação, mas ele não agüentaria esperar, muito menos acreditava na mais remota possibilidade de Edward devolve-la sem uma boa briga. Além do mais, queria respostas e as teria, depois disso jogaria Renesmee na cama porque já não suportava mais passar as noites sozinho naquele maldito quarto.
Ao amanhecer do sétimo dia já era possível ver os contornos da capital de Bertah no horizonte colorido com infinitos tons flamejantes. Ela havia sentido falta daquilo, de todas aquelas cores que cobriam o céu. O ar era quente e carregado de aromas exóticos que pareciam temperar tudo a sua volta. Ao mesmo tempo que aquilo lhe trazia boas lembranças parecia extremamente pesado e asfixiante, como se estivesse inalando fumaça de incenso diretamente. O general conduziu a marcha num ritmo calmo, mas ela desejava estar logo dentro do palácio. Precisava se sentir segura e em casa novamente.
Uma vez dentro da cidade ela pode ouvir o burburinho que sua chegada causava. As pessoas a espiavam com olhos suspeitos, sem entender o que ela fazia ali, usando quase nenhuma jóia, com roupas que lhe cobriam todo corpo como se ela fosse uma velha. Cochichavam barbaridades enquanto ela seguia em direção ao palácio, alguns diziam que ela devia ter sofrido agressões e seu corpo estava coberto para esconder as marcas, outros diziam que ela estava sendo mantida prisioneira ao invés de estar casada com o "bárbaro Quileute". "Que os céus punam ele que tocou a deusa jovem!" Alguns gritaram e ela teve que se conter para não descer do cavalo que desmentir cada barbaridade que falavam.
Jasper olhava para ela com nítida preocupação, sem saber dizer se ela realmente havia passado por alguma daquelas situações ou o real motivo que a levou a fuga impensada. Não cabia a ele questionar e duvidava se caberia a alguém. Algo lhe soprava a mente uma possível resposta, mas era tão incerta que nem valia a pena pronunciar. Sentia que era algo relacionado à rainha, mas até que tivesse provas o simples pensamento já era uma traição.
Os portões do palácio foram abertos dando passagem ao grupo e tão logo eles desmontaram dos cavalos o rei em pessoa veio até eles. Edward estava nada menos do que pasmo ao ver a figura pálida da filha, com o corpo coberto por roupas que ele nem mesmo sabia identificar. Ela parecia mais velha do que realmente era sem os trajes coloridos que ela usava enquanto vivia em Bertah e às jóias que a faziam brilhar como um raio de sol. O que havia acontecido com sua menininha? Por que seus olhos eram tristes e cercados por sombras? Por que ela parecia tão absurdamente pálida e frágil como uma pétala?
Ele correu até ela e a abraçou forte, como se estivesse se agarrando a sua salvação. Renesmee retribuiu o abraço, deixando suas lágrimas caírem livremente, manchando a túnica do pai. Edward afagou os cabelos dela com carinho.
Minha menininha, o que fizeram com você? - ele perguntou com grande pesar - O que aconteceu?
Minha casa... - ela disse – Eu precisava voltar pra casa. - ela mal conseguia falar entre um soluço e outro.
Ele a machucou? - o rei perguntou entre dentes, não disfarçando sua raiva – Me dê um motivo e farei o que devia ter feito à quinze anos atrás. Vou colocar a cabeça daquele miserável fincada numa estaca! - o sangue dela gelou ao ouvir a ameaça.
Não fará nada disso! - ela disse imediatamente – Jacob...Ele não fez nada. Nada que mereça a morte.
Renesmee, me diga o que devo pensar quando minha única filha chega as portas do palácio, vestida como uma anciã, sem jóias, sem comitiva apropriada como conseqüência de uma fuga? - Edward a encarou desesperado – Uma pessoa não foge de quem a trata bem! Eu nunca a vi neste estado e isso só pode ser culpa de Black!
Não há que se falar em culpa ou retaliação por causa disso! - ela se esquivou imediatamente – Não vai começar uma guerra por minha causa, não vou permitir.
Eu decidirei se este é ou não um caso para guerra. E se isso acontecer, não será por sua causa, querida. Este é um evento que vem sendo adiado a anos. - Edward retrucou indulgentemente – Diga-me o que aconteceu.
Senti saudades de casa. - ela mentiu – Eu não agüentava mais a distância e a falta que senti de todos.
Você mente tão mal quanto sua mãe. - Edward disse – Se não quer dizer agora, respeitarei isso, mas uma hora a verdade vai aparecer. Vamos entrar de uma vez, vou providenciar para que seja a minha garotinha novamente. Vai ser bem cuidada como sempre foi.
Obrigada, pai. - eles entraram no palácio de mãos dadas. Talvez a idéia não fosse das melhores, mas ela se sentia feliz por rever o pai e sua casa. Com tudo seu coração doía melancolicamente e ela se lembrou da neve que caía no jardim de inverno enquanto ela rodopiava como uma criança. Lembrou-se dos braços dele aquecendo seu corpo frágil, enquanto a boca macia e quente de Jacob acolhia e ensinava a dela.
Jacob decidiu deixar o Território ao nascer do sol do sétimo dia. Já não suportava mais a distancia e a falta que ela fazia naquele lugar. Sam foi nomeado para substituí-lo no governo enquanto Black estivesse fora, com a ajuda de Quill. Contrariando protocolos e hábitos, Jacob iria sozinho para fazer uma viagem rápida e ninguém em sã consciência tentaria ir contra um homem daquele tamanho.
Uma vez que seu cavalo estava selado, Jacob montou e disparou em uma corrida furiosa rumo à Bertah. O frio era ignorado, o cansaço não era sentido, ele nem mesmo percebia a paisagem mudar ao redor dele à medida que se aproximava do esconderijo de seu inimigo e de sua própria esposa. O clima se tornava mais quente à sua volta, o céu mais limpo e exuberante, o ar pesado e quente, carregado de aromas exóticos. Era como sentir o cheiro dela, era o mesmo perfume que parecia impregnar cada milimetro da pele alva que ele tanto desejava tocar novamente.
Renesmee evitava a presença da mãe todo tempo e proibiu a rainha de entrar nos aposentos, aliás evitava a presença de todos do palácio se trancando em seu quarto. Sentia-se doente, talvez fosse a mudança súbita de alimentação e a mistura de cheiros que a cercava, ou quem sabe todo estresse estivesse mexendo de mais com seu organismo. Sentia falta do aroma dos pinheiros cobertos de neve e o incenso a deixava nauseada.
Enquanto isso Bella se desesperava sem saber o que estava se passando com a filha. Edward estava preocupado com a menina e frequentemente hostil às perguntas de sua esposa. A rainha já não sabia o que pensar. Tinha certeza de que Jacob seria incapaz de prejudicar a princesa, além disso Renesmee era habitualmente muito devotada às suas obrigações e por mais que não quisesse o casamento ela jamais colocaria a família em risco com uma fuga tão impensada. Precisava falar com sua filha, precisava urgentemente saber o que havia acontecido.
Contrariando o desejo da princesa, Bella foi ao quarto da filha e driblou os guardas responsáveis pela segurança. Renesmee estava deitada em sua cama, com os cabelos soltos e espalhados pelo travesseiro. A menina já não usava as roupas de Bertah, ao menos não as que mostravam suas pernas e barriga, preferia as túnicas longas e poucas jóias. Já não se parecia com a menina inquieta e arteira que ela protegeu em seus braços, tinha traços de serenidade que só o tempo trás e gestos moderados. Era uma mulher feita graças à Jacob.
Ao perceber a presença de Bella no quarto, Renesmee saltou da cama e se colocou em posição defensiva enquanto seus olhos encaravam a rainha com fúria. Bella se preparou para uma amenização no comportamento dela, mas isso não aconteceu.
O que está fazendo aqui? - Renesmee perguntou entre dentes, parecendo uma leoa – Dei ordens para que não a deixassem entrar!
Ainda sou a rainha de Bertah, mesmo que você seja em termos práticos uma rainha visitante. - Bella falou calmamente – Eu estava preocupada com você e ninguém sabe me dizer o que aconteceu para que tenha voltado. Com certeza não se pode proibir uma mãe de saber o que está acontecendo com sua filha.
Você melhor do que ninguém devia saber o que está acontecendo. - Renesmee retrucou agressiva. Ela mediu sua mãe, agora reconhecida como rival, de cima a baixo, notando cada peça de roupa, cada jóia, cada cor. Ela era vulgar em sua exibição de beleza, tinha vergonha de estar diante dela enquanto a pele da rainha aparecia tanto quanto o brilho do ouro. Sentiu a mesma estranhes que Jacob no primeiro encontro, chocada com a falta de pudor e com seu próprio ódio destinado à ela.
A única coisa que sei é que você fugiu do Território e isso ameaça nos jogar em uma guerra. - Bella falou ainda calma – Me diga, querida, o que aconteceu?
Peço que saia daqui. - Renesmee disse com a voz mais segura do que se julgava capaz - Posso ser, em termos práticos uma rainha convidada, posso ser sua filha, mas não darei explicações ou respeito a uma mulher tão meticulosamente calculista quanto você.
Do que você está falando? - Bella a encarou surpresa e mortalmente ferida pelas palavras da filha.
Da sua falta de lealdade para com meu pai, da sua traição pra com o reino. Eu li sua maldita carta. - Renesmee disse enquanto seus olhos congelavam – Estava lá, sobre as correspondências oficiais, guardada com cuidado e cheias de marca de manuseio continuo. Você ainda o ama!
Qual é o propósito disso? - Bella perguntou enquanto uma lágrima lhe escorria pelo canto dos olhos – Você conhece minha história, filha! Por que fala como seu eu fosse uma criminosa?
PORQUE ELE É MEU MARIDO! - Renesmee vociferou – Não bastasse isso, a senhora planejou tudo, determinou como seria a minha vida, de acordo com aquilo que você desejava e não pode ter, sem nunca ter me questionado! Uma novidade pra você, oh grande rainha, DEU CERTO! EU AMO JACOB BLACK! E adivinhe, ele ama a minha mãe, a mulher que tramou tudo.
Então por que fugiu? - Bella já não continha o choro ou a dor que sentia pela acusação. Como tudo podia ter dado tão errado? Como ela podia não entender que tudo o que havia feito foi para que a filha tivesse mais felicidade do que jamais imaginou ter? - Se o ama como diz, por que não está lutando por ele?
Uma coisa que se aprende quando se nasce nobre é ter orgulho próprio. - Renesmee disparou acidamente – Foram quinze anos de sentimentos pela senhora e eu só posso imaginar o quanto Leah deve ter sofrido por saber que jamais se igualaria a imagem da fabulosa rainha de Bertah! É humilhação de mais ir para cama com ele, sabendo que é em você que ele pensa! Agora saia daqui! - Nessie levou a mão a testa num ato involuntário, estava tonta e seu estomago deu uma reviravolta.
Você está bem? - Bella questionou enquanto tentava recuperar a dignidade – Está pálida.
Vou ficar bem. Me deixe em paz! - depois disso Bella não conseguiu mais permanecer naquele quarto. Deixou os aposentos da filha sentindo seu coração ser esmagado dentro do peito. Sua menina amava Jacob a final, exatamente como ela previu que aconteceria. Não era como se estivesse perdendo ele de novo, porque na verdade nunca o teve plenamente. Amou aquele homem por longos anos, mais por orgulho do que qualquer outra coisa, só porque ele era a pessoa que Edward odiava.
Havia perdido muito tempo odiando Edward por seus atos passados, resistindo à imagem dele como pai devotado aos filhos e como homem dedicado a redimir seus erros. Ele se esforçava diariamente para agradá-la, mesmo que nem sempre tivesse sensibilidade para isso. Talvez não o amasse realmente, mas já não sabia viver sem ele ou imaginar como seria sua vida com outro. Ela era, ou havia se tornado em algum momento, a rainha dele, a mãe de seus filhos, a única que ele ouvia, sua única companhia dentro daquelas paredes de mármore. Amava seu próprio carcereiro, amava seu rei.
Os dias se passaram numa tensão constante. Enquanto Edward era questionado pelo conselho o tempo todo sobre como resolveria o impasse e lutava contra a resistência de todos a uma guerra, Jacob vencia as ultimas milhas que o separavam de Bertah e de sua esposa. Ele alcançou as muralhas ao nascer do sol do décimo quinto dia dês de que ela o havia deixado. A medida que o sol nascia no horizonte ele sentiu aquela dor melancólica por se lembrar dela e daquele dia em que havia lhe mostrado a neve pela primeira vez. Ela gostava daquilo, amava o sol e sentia falta daquela visão fabulosa das cores vibrantes pintando o céu azul. Atiçou o cavalo ainda mais depois disso.
Jasper avistou o cavalo se aproximar dos muros do palácio com uma velocidade alarmante e era impossível não reconhecer a figura do cavaleiro, imponente e assustador. Black estava em Bertah a final e agora era o momento decisivo entre os dois povos. Um arrepio lhe percorreu a espinha a medida que Jacob se aproximava. Finalmente o cavalo parou diante do portão central do castelo e Black encarou o lugar com os olhos queimando em fúria e ódio. Hale respirou fundo.
Abram os portões! - Jasper ordenou e imediatamente caminhou com passos decididos até o pátio onde Jacob acabava de desmontar de seu animal.
Onde ela está, Hale?! - Jacob disparou ameaçadoramente – Onde está minha esposa?
Em segurança, posso lhe garantir. - Jasper respondeu – Onde está sua comitiva? Não há mais ninguém com você?
Não há um exército, se é isso que lhe preocupa. Mas posso afirmar que isso é só uma questão de tempo se não me devolverem minha esposa. - Jacob falou entre dentes.
Paz entre nós, Black. - Jasper pediu calmamente – Não quero uma guerra e duvido que alguém além de você e meu rei a desejem. Ela está bem e está descansando, mas deixou bem claro que não deseja vê-lo.
Não deseja ver-me? - Jacob retrucou incrédulo – E por que razão isso ocorre? No mínimo Edward a envenenou contra mim. Eu a quero de volta e quero já, não pretendo permanecer mais que um dia neste lugar então é bom que ela esteja preparada para partir ao amanhecer do dia de amanhã. - antes que Jasper pudesse dizer qualquer coisa, uma terceira voz se pronunciou.
Minha filha não ira a lugar algum com você, Black. - Edward saiu de dentro do palácio bradando em alto e bom som.
Isso é um assunto que foge à sua alçada, oh rei dos reis! Ela não é mais sua filha, ou princesa de Bertah. Ela é minha esposa, Soberana do Território Quileute e é mim que ela deve respeito e obediência!
Você com certeza pode sonhar com isso, Black. Ela veio até mim, pedindo ajuda e fugindo de você. NÃO VOU DEVOLVER A MINHA FILHA! - Edward berrou sonoramente.
ENTÃO É GUERRA! - Jacob retrucou no mesmo tom furioso – E pode escrever minhas palavras, grande soberano. Eu vou invadir Bertah com meu exército, vou derrubar suas muralhas, destruir suas cidades, aprisionar seus filhos e sua esposa e vou ter minha mulher de volta e possuí-la na sua frente, depois mandarei matá-lo!
Não se eu matá-lo primeiro! - Edward retrucou enquanto Jasper se colocava entre eles, tentando acalmar as coisas.
Pode tentar encostar um dedo em mim, sem Sam Uley não tiver notícias minhas em dez dias a guerra será declarada. O decreto já está previamente assinado e os generais de sobreaviso.
Acalmem-se pelo amor dos deuses! - Jasper suplicou – Ouçam o que ela tem a dizer! Conversem ao amanhecer, quando ambos estiverem calmos! - com todo barulho da discussão, Renesmee acabou reconhecendo a voz e Jacob e correu em direção ao pátio.
Não haverá conversa pela manhã, general. Somente a minha partida para casa, junto com a minha esposa. - Edward trincou os dentes diante a ousadia das palavras de Black, mas não pode dizer nada, Renesmee havia saído do interior do palácio com o rosto pálido de espanto e medo.
O que está fazendo aqui? - ela falou com voz tremula. Jacob avançou em direção à ela.
É o que eu gostaria de saber a seu respeito. O que você veio fazer aqui, Ness? - ele falou enquanto se aproximava dela a passos largos, sendo interceptado por Edward no meio do caminho.
Volte para dentro, Renesmee. E você não ouse chegar perto dela! - Edward disparou contra Jacob.
Saia da minha frente, Edward! - Jacob vociferou novamente – Eu vou levá-la pra casa comigo, quer queiram, quer não.
Não faça isso, Jake! - a voz dela saiu em tom de súplica, fazendo Edward se sobressaltar com a intimidade das palavras – Não há motivo!
Não há?! Minha esposa desaparece, me abandona sem motivo algum no meio da noite, ignorando até mesmo uma crise política que isso poderia causar, acho que eu no mínimo mereço uma explicação para isso! - finalmente ele a alcançou. Segurou-a pelo pulso e a puxou de encontro ao seu corpo, prendendo-a com firmeza. - Volta pra mim, Ness...Preciso de você, pequena. - Renesmee não viu nada, não disse nada, apenas desfaleceu nos braços quentes de Jacob...
Nota da autora: DEMOREI, MAS POSTEI! Desculpas pela demora no capitulo, mas Tia Bee estava fora do país nas ultimas duas semanas, então não tinha como atualizar. Capitulo complicado, muita informação de uma vez e o próximo não vai ser melhor. Pois é, DR é coisa que não vai faltar. Estamos em reta final, então serão mais dois capítulos no máximo e sem previsão de NC ou Lemon, mas sabem como é, eu sempre posso mudar de idéia XP.
Espero que gostem e comentem. Senti saudades de escrever e ler o que vocês me mandam.
Bjux da Bee
