Durante o jantar Ayisha tentou parecer o mais normal possível, participou da conversa à mesa, sorriu e brincou. Logo após a refeição a campainha tocou e a jovem correu para atender, mas ao abrir a porta não encontrou ninguém. Olhou para os lados e para rua imaginando que fora mais uma brincadeira idiota de um dos moleques do bairro. Pensou em xingar, mas lembrou-se de seus pais, contudo antes de entrar seus olhos passaram pelo assoalho e ela viu uma rosa, uma rosa de cor amarela. Amarrada à ela estava uma fita fina, parecia ser de cabelo e a cor era azul. A jovem abaixou devagar e pegou o presente que havia sido deixado em sua porta. O odor era gostoso, rememorava algo ou alguém. Ela fechou os olhos e inalou fundo aquele aroma que foi até a sua memória e trouxe à tona do mar de imagens que lá continham...

- Hagi – ela falou ao deslizar seu dedo pela fita azul, já vira um pedaço de pano daquele mesmo tipo nos cabelos do músico.

- Ayisha! - A voz de sua mãe a chamou dentro da casa.

A jovem, de pele morena cor de canela, guardou a rosa dentro do vestido. Precisava visitar alguém aquela noite.

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Ayisha dissera para mãe que precisava ir à casa de Aníssa e se despediu com pressa das irmãs quando passou pelas duas na rua. Geralmente no verão os jovens reuniam-se na rua à noite para jogar vôlei, fazer uma rodinha e cantarolar o último sucesso acompanhados pelo violão ou simplesmente namorar. As crianças e suas umms e jadds também ficavam na rua, as primeiras correndo de um lado para o outro e as segundas conversando sobre assuntos que iam desde o preço dos alimentos até o móvel novo que a vizinha comprara.

A jovem de AllStar vermelho, calça jeans surrada e uma blusa de manga curta rosa que estampava a cara de Bono Vox ao centro, saiu pela noite sentindo o vento quente do verão acariciar seu rosto. Seus cabelos esvoaçavam no ar misturando-se a escuridão da noite. Os passos eram ligeiros, quase corridos, queria chegar logo ao parque, ele tinha de estar ali.

Depois de algumas quadras e de algumas viradas para direita e para esquerda ela avistou o local que tanto almejara. Antes mesmo de chegar perto já tinha visto Hagi através das grades de ferro que separavam o parque da rua. Correu ao atravessar, mas parou na entrada. Hagi estava sentado em um banco próximo a um poste, bem embaixo da lâmpada, ela podia ver os mosquitos voando em volta da luz. O estojo do violoncelo ao lado dele e as safiras fitando-a. Ayisha não teve dúvida que de que aquilo significava uma despedida. Reunira toda coragem que um Tahas possuía e deu o primeiro passo para o encontro que mudaria sua vida.

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Hagi a viu se aproximar aos poucos. Ele ouviu a respiração dificultosa dela, o coração batendo com medo do que estava por vir, as minúsculas gotas de suor que apareceram em sua testa. Ele sentiu o receio no corpo dela quando ela sentou ao seu lado.

- Você vai hoje à noite? - Ela perguntou logo de cara, assim que sentou, sem dar tempo para outro assunto. Seus olhos buscaram o chão enquanto esperava a resposta estalando as articulações dos dedos.

- Sim. - Ele respondeu observando-a, vendo o quanto ela estava nervosa.

Ayisha engoliu com dificuldade as lágrimas que se formaram dentro dela e recostou no encosto do banco, tentando manter-se sã.

- Então é tchau. - Ela declarou da forma firme, mostrando toda força que herdara dos pais. Os dedos continuaram sofrendo com a sua frustração.

Hagi olhou das mãos para o rosto dela e encontrou um semblante transformado pela dor. Os olhos já não eram mais cor de avelã, eles estavam escuros como o interior da jovem, da cor do angústia que ela carregava.

- Você sabe o que a rosa amarela significa? - Hagi perguntou.

- Felicidade e amizade – a última palavra da declaração saiu rasgando sua garganta.

- Obrigada por escutar minha música – um agradecimento. Foi com essa frase que ele se despediu dela. Em seguida levantou e pegou o estojo e pendurou-o em seu ombro esquerdo.

Eles ficaram parados, cada um em seu silêncio. Hagi de pé, de costas para ela e Ayisha sentada, sem coragem de falar. Contudo, o sentimento inocente e recém flagelado liberou uma carga elétrica que impulsionou o corpo da jovem. O braço direito dela levantou devagar, com medo, e a ponta dos seus dedos, o fim do caminho pelo qual a energia tinha percorrido, tocaram a palma da mão direita dele que estava voltada para ela conforme a posição do braço estendido dele.

Um contato frágil, que poderia ser quebrado com a mais suave brisa da noite ou movimento de Hagi. Mas, ele não quis deixá-la de uma forma tão cruel e aceitou o toque delicado.

- É por causa dela? - Ayisha perguntou do fundo da sua dor, quando conseguiu respirar melhor.

"John and Mary come here now!", eles ouviram uma mãe gritar e retardar por alguns instantes o inevitável.

Hagi fechou a mão, apertando com carinho os dedos dela e falou:

- Eu nunca a esquecerei, seja feliz – a soltou ao dar o primeiro passo em direção a Saya.

Ayisha deixou o braço cair, como as lágrimas que gotejaram de seus olhos para o chão. Ela ficou ali, chorando baixinho, sozinha, sem querer chamar a atenção de ninguém. Quando soube que não o veria mais, levantou a cabeça e aproveitando o vento quente que viera consolar seu coração disse:

- Para sempre sua. - Falou segurando a mão que outrora sentira o toque dele – Para sempre sua... - Olhou para o céu e uma estrela brilhou forte, era sua jaad piscando para ela, disso tinha certeza.

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Uma semana após a partida de Hagi, a família Tahas embarcou para o Líbano, onde eles passariam duas semanas. Ayisha viajou ao lado de Jamila. A cabeça encostada no ombro da irmã que acariciava seus cabelos, nos últimos dias as irmãs foram seus dois travesseiros para poder despejar sua tristeza. Ficava deitada no colo delas pensando nele, olhando para o nada, acreditando sempre que um dia o encontraria.

Depois dos primeiros instantes de decolagem o céu azul era sua única visão, as nuvens brancas e finas espalhadas pelo ar, angelicalmente desenhadas na imensidão. Seus olhos cor de avelã brilharam quando a imagem Hagi apareceu no céu. As lágrimas não caíram, pois dentro dela uma certeza luzira. Ela não teria dezesseis a vida toda e o Japão não seria pare sempre longe. Além do mais, duas semanas no Líbano poderiam render boas aventuras...

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N/A: E aí? Gostaram? Reviews ok?;*